Desafios de um editor freelancer

Edições Nelson de Matos. Assim mesmo, a assinatura confundindo-se com a designação comercial da empresa. Depois de 23 anos na Dom Quixote e de uma breve passagem pela Ambar, de onde saiu em Abril do ano passado, está de volta o editor que sempre gostou de trabalhar os textos de perto com os seus escritores, dos quais muitas vezes se tornou amigo e confidente.
A personalização da editora não é fenómeno único, mesmo no nosso país (basta pensar nas Edições Romano Torres, na Parceria António Maria Pereira, na Lello & Irmãos, na Assírio & Alvim ou nas Edições João Sá da Costa, por exemplo), mas traz consigo a consciência de uma marca autoral. “Esta é uma editora com rosto e assinatura. Representa os meus critérios, os meus gostos, a minha estética. Não vou encher um catálogo por encher. Quero dar-lhe um sentido e uma ética”, diz Nelson de Matos, na sala espaçosa de um apartamento virado para a Alameda Afonso Henriques, em Lisboa.
É ali, entre pilhas de manuscritos e textos enviados por correio electrónico (tantos que o computador até “está a perder capacidade”), é ali que vem gerindo a nova etapa profissional. “Estou reformado, recebo uma pensão que me dá para viver, acumulei umas economias. Isso permite-me ser editor freelancer. Ou seja, dispor do tempo como quero, sem necessidade de publicar livros a correr, com o fito de que sejam rentáveis, só porque é preciso pagar salários.”

Nelson de Matos, por Leonardo Negrão

Fazendo jus ao nome da editora, o único funcionário de Nelson de Matos é Nelson de Matos. Cabe-lhe fazer quase tudo, da escolha dos corpos de letra aos tipos de papel, passando pela negociação dos preços com as gráficas. E para aquilo que não faz — paginação, revisão, armazenagem ou distribuição — recorre ao outsourcing.
As vantagens parecem-lhe evidentes: “Posso fazer o trabalho com toda a lentidão, com todo o cuidado. E só tenho de dar ordens a mim mesmo.” Além disso, a leveza da estrutura permite-lhe apostar em projectos minoritários (com tiragens de mil ou 1500 exemplares) que são economicamente incomportáveis para as editoras maiores. Esta é, aliás, uma das razões por que Nelson de Matos não teme os grandes grupos editoriais que se estão a formar em Portugal. “Nós, os pequenos, podemos competir de vez em quando nas áreas deles, mas eles dificilmente virão competir nas nossas.”
Quer isto dizer que o ex-editor da Dom Quixote não descarta a hipótese de incluir alguns best-sellers no seu catálogo? Sim, o que de resto já se está a comprovar com o lançamento do primeiro livro: Lavagante, uma ficção inédita de José Cardoso Pires. As encomendas dos livreiros foram tantas que ultrapassaram a tiragem inicial (3000 exemplares), obrigando a imprimir a segunda edição ainda antes de a obra ser posta à venda.
Com Cardoso Pires, a amizade durou quase 30 anos. “Éramos muito íntimos. Ele batia-me à porta aos domingos de manhã, entrava em casa e sentava-se, sem cerimónias. A relação acabou por envolver as famílias. Quando ele morreu, quis sublinhar que não era apenas amigo do Zé mas também delas: da Edite [sua mulher], da Ana e da Rita [filhas]. A Ana tem dito que se o pai soubesse que eu ia fazer uma editora e não tivesse um inédito, escrevia um para me dar. Havendo um inédito, ela entregou-mo.”
Nelson de Matos considera que Lavagante é um texto acabado (há três versões manuscritas e três dactilografadas, “a última bastante limpa, apesar de algumas emendas que incluímos”). Cardoso Pires não o publicou antes de 1974 “porque seria logo apreendido” e não o fez depois do 25 de Abril “porque se envolveu noutros projectos, deixando para trás este texto escrito sob o peso da censura e que para ele talvez fosse um pouco datado”.
Feliz por lembrar o autor de Alexandra Alpha dez anos após a sua morte, algo que a editora da sua obra (Dom Quixote) não está a fazer, Nelson de Matos resume: “Está lá tudo, escrito com aquela simplicidade que dava uma enorme trabalheira.”

[Texto publicado no suplemento DN Gente do Diário de Notícias; fotografia de Leonardo Negrão]

O regresso de Nelson de Matos

Num momento em que as principais editoras portuguesas se vão agrupando, num processo de concentração empresarial ainda em curso, o gesto de Nelson de Matos pode parecer romântico: criar de raiz uma nova chancela, por sua conta e risco, tão pessoal que até lhe dá o seu nome (na linha do que fez Christian Bourgois, recentemente falecido).
Em artigo de Ana Marques Gastão, publicado hoje no Diário de Notícias, o antigo editor da Dom Quixote e da Ambar explica-se:

«Quis que o trabalho editorial tivesse um nome, uma assinatura. Não é nada de invulgar, lá fora usa-se. Em Portugal também, em tempos, se usou. Estou a dar a cara por este projecto.
(…) A concentração de editoras que tem vindo a verificar-se abre um espaço para pequenos trabalhos individualizados em que a edição é feita de uma forma mais personalizada.
(…) Estou a avançar para este projecto sozinho. Vamos ver como responde o mercado. Publico os livros e aguardo que os leitores os acompanhem.»

As Edições Nelson de Matos lançarão a sua primeira obra no final de Fevereiro (O Lavagante, ficção inédita de José Cardoso Pires) e abrangem cinco colecções: Mil Horas de Leitura (conto, novela, romance e “talvez poesia”), História Hoje (História recente, biografias, reportagens), Pensar Navegar (ensaio de ciências humanas), Outras Direcções (tempos livres) e Textos Literários (apoio ao ensino, dirigida por António Melo).

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges