Prémio Leya 2012 para Nuno Camarneiro

O sucessor de João Ricardo Pedro é Nuno Camarneiro, a quem o júri presidido por Manuel Alegre decidiu atribuir o prémio de cem mil euros. O romance distinguido, Debaixo de Algum Céu, «exploração da ideia de purgatório», será publicado em Março. A primeira ficção do vencedor, No Meu Peito Não cabem Pássaros, foi publicado em 2011 e sobre ele escrevi uma recensão cujo título, curiosamente, é quase igual ao deste segundo livro.

Sob um céu a arder

No Meu Peito Não Cabem Pássaros
Autor: Nuno Camarneiro
Editora: D. Quixote
N.º de páginas: 190
ISBN: 978- 972-20-4625-1
Ano de publicação: 2011

Em 1910, dois cometas lançaram o pânico à escala global. Antes ainda do previsto Halley (Abril/Maio), as pessoas espantaram-se com a cauda brilhante do inesperado Grande Cometa Diurno de Janeiro. Para os mais crédulos, a visão do céu a arder representava o cumprimento de profecias sobre o fim do mundo. Houve quem se matasse, quem enlouquecesse, quem exorcizasse o medo com prantos e rezas. No Meu Peito Não Cabem Pássaros, o arriscado primeiro romance de Nuno Camarneiro (n. 1977), um engenheiro físico de formação que já trabalhou no CERN, é a história de três homens imunes ao dito pânico que assolou o mundo.
Embora o autor seja omisso, não é difícil identificar os protagonistas das três narrativas paralelas. O Jorge que vive a infância rodeado de livros e das lendas dos antepassados (heróis de batalhas míticas), inventando zoologias fantásticas numa Buenos Aires encriptada em anagramas, é Jorge Luis Borges. O Fernando introvertido, com «uma cabeça de inventar filosofias», rapazinho que regressa de navio a um país «diminutivo e manso», só pode ser Pessoa. E Karl, o desamparado imigrante que lava janelas num arranha-céus de Nova Iorque, a oitenta metros de altura, faz lembrar o protagonista do primeiro romance (incompleto) de Kafka: Amerika.
Cada um à sua maneira, estes são homens aprisionados no labirinto da solidão. Jorge «cresce de dentro para fora», usando a imaginação como escudo contra a violência do mundo. Ele tanto projecta as suas memórias nos objectos quotidianos como inventa coisas que não aconteceram mas conseguem forçar a realidade («Um homem a escrever pode virar o mundo para onde quer»). Já Fernando nasceu para ser um homem «cheio de palavras novas a quererem ser ditas». Mesmo quando se fecha no quarto, o seu espírito «sai à rua como se fosse à pesca, deita as redes finas pelas ruas da cidade e apanha o que por lá passa». O mundo é para ser visto e entendido, não inventado – explica-lhe um professor. Em permanente «desacerto com a vida», ele aplica-se a refutar esta máxima. Quanto a Karl, cobaia que fica com um braço a tremer por excesso de electricidade, é despedido, afunda-se na bebida e na miséria, dorme em bancos de jardim, vende bíblias, até se redimir pelo amor num bordel onde o deixam ser barman.
Durante as primeiras cem páginas, o narrador cruza muito bem estes percursos só aparentemente díspares (há ecos, simetrias). Camarneiro começou pela micronarrativa e isso nota-se, sobretudo na forma como burila quase até à perfeição muitos dos seus curtíssimos capítulos. Não faltam excelentes passagens – a descrição da «lógica concêntrica» dos pátios escolares, por exemplo – e belas frases: «O verdadeiro bilhete de um suicida é a sua vida como ele a viveu». Infelizmente, na segunda metade do livro, Camarneiro parece hipnotizado pela própria linguagem, deixando-se levar por um lirismo que se torna omnipresente e cansativo, de tanto se encostar à grandiloquência. Resultado: o romance desfoca-se, dissipa-se, fica aquém do que chega a prometer. Ainda assim, uma boa estreia.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Nova Iorque

«É muito grande, Nova Iorque. Por todo o lado há edifícios altos como casas sobre casas. É uma cidade excessiva e áspera, onde se encontram mais ângulos rectos do que em qualquer outro lugar. É também cheia de brilho e de ruído, de máquinas e corpos e milhões de verbos conjugados no presente. Uma cidade de aldeias empilhadas trazidas de longe, da Europa, de África, da Ásia, homens pobres e desesperados que dão a vida por pouco, que gastam os corpos pelas esquinas afiadas da cidade e à noite se deitam nas suas entranhas.
Quem acorda na cidade desculpa-se por ter dormido. Lá fora há já multidões que correm atrás de uma coisa qualquer que lhes diga que existem. O direito ao nome ganha-se a cada dia e não é certo, nada é certo nesta cidade. O tempo, o pouco tempo de alguns, é o avanço de quem chegou primeiro e não chega para terminar um cigarro.
Quem não sabe para onde ir vai indo sem saber para onde. A cidade empurra, a multidão empurra, a fome empurra, o desejo empurra. Quando alguém pergunta “quem és?” está na realidade a perguntar “o que fazes?”, a resposta deve ser rápida e sem hesitações, um verbo e um substantivo. Daí se escolhem afinidades ou a indiferença, nesta cidade um homem é uma máquina de fazer coisas, um verbo, uma função que prescinde de tudo o resto.»

[in No meu peito não cabem pássaros, romance de estreia de Nuno Camarneiro, D. Quixote, 2011]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges