Dois poemas de Nuno Dempster

Talvez houvesse rosas de Isabel
que Inês mudasse em outro paraíso,
andar por entre flores e pousar
a vista em coisas mínimas, pensar
que Pedro viria à noite, ou apenas
sentir o ventre ainda sossegado,
que assim melhor se vive, sem a culpa
magoar, como a cruz feria o deus
e a excomunhão dos bispos recordava.
Nada disto, porém, é verdadeiro.
Cenários apagados, tudo longe,
em ruínas o paço: uma janela.
A História só escreve equações,
da vida interior nada se lê.
Perdeu-se Inês nos campos do Mondego,
e agora recriamo-la, poesia
que se gera em sentido inverso à vida:
Inês, num paraíso que não há,
caminha virtual entre poemas.

***

Senta-te no silêncio das arcadas
místicas da abadia. Frente a Cristo,
vai pensando nos ossos de Pedro e Inês
e na imagem do filho abandonado
pelo pai, quando Deus se tornou o
grito «Eli, Eli, lama sabachthani?»
Medita então na morte dos amantes,
como deles se foi a luz e a força
centrípeta que os chamava, o íman real
da gravidade humana, e pensa o grito
que alguém deixou no livro dos profetas.
Sai então do mosteiro, observa a praça
e as casas em redor, cruas de sol.
Onde estão Pedro e Inês? Ninguém os vê.
Um a seguir ao outro, a morte teve
a carne luminosa dos seus corpos,
e hoje os ossos antigos nada dizem:
o presente é o largo do mosteiro
e a lojista ao fundo que dispõe
a tralha de ‘recuerdos’ sempre iguais,
e nada irá surgir ali que espante.

[in Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo, Edições Sempre-em-pé, 2011]

Crónica da Guiné

K3
Autor: Nuno Dempster
Editora: &Etc
N.º de páginas: 63
ISBN: 978-989-8150-28-8
Ano de publicação: 2011

Deixemo-nos de rodeios: K3, de Nuno Dempster, é um dos melhores livros de poesia publicados em Portugal nos últimos anos e a mais espantosa aproximação ao horror da Guerra Colonial desde Catalabanza, Quilolo e Volta, de Fernando Assis Pacheco (1976). Poema longo e de fôlego épico, K3 narra a experiência militar do autor na Guiné e procura arrancar às trevas do esquecimento os «anti-heróis» que combateram a seu lado, esses representantes involuntários das «gerações vencidas a quem coube / fechar impérios», homens usados como carne para canhão por um regime caduco. «E chega-me esta gente como um peso, / não me sai da lembrança, / não me sai do poema, / acompanhou-me oculta até hoje», assume Dempster, para quem o resgate da memória serve aqui de expiação, exorcismo e catarse.
No princípio é a Gare Marítima de Alcântara, o lugar simbólico das despedidas, com lenços brancos e choro aflito de mães e namoradas, intuindo que muitos daqueles jovens não regressariam vivos. O «alto navio negro», a abarrotar de soldadesca assustada, surge como «nefasta» réplica das caravelas dos Descobrimentos e quem lá vai dentro sente-se devedor de «juros / acumulados há seiscentos anos». A «gesta lusitana» repete-se, mas «escrita desta vez / ao contrário». É por isso no avesso da grandiloquência que o poema prossegue mar adentro, sentindo «o estremecer das máquinas / na medula dos ossos» e a respiração de três mil rapazes prestes a deixar a juventude para trás, sonhando à noite com mulheres que se assemelham a fogos de Santelmo, emanações do desejo que os distraem do pavor da morte.
Segue-se a descoberta da realidade africana, a «selva dos miasmas», as paisagens envoltas em sol vermelho, o calor que «formava uma abóbada / com o céu sempre baixo», o contacto com os negros e os seus «corpos de hulha / pronta a incendiar-se». Dempster leva para o mato livros de Pavese e discos de Stan Getz, a pensar ouvi-los num gira-discos a pilhas, mas quando a lancha cinzenta, «cor de guerra», o transporta para o palco dos combates, é já «sem hipótese alguma de lirismo». Assim que as balas começam a zunir «como abelhas mortais» e os aviões T-6 descarregam napalm sobre o inimigo, inscreve-se no cérebro em pânico «a gritaria, / o medo e o estigma». Surge então, como um círculo do inferno, o labirinto do K3, essa rede de subterrâneos «que nenhuma epopeia há-de lembrar», porque «não há poemas que celebrem / soldados sob fogo nos túneis escavados, / casernas enterradas, criptas cheias / de vencidos sem culpa e sem vontade».
Os dias no K3, riscados a esferográfica, são um «tumor», uma «síndrome em mim» que «me levou a luz / e trouxe a indiferença». O resto da guerra, em Colibuia, em Quebo, é o culminar de uma alucinação em que nunca deixaram de assomar, ao longe, os cavaleiros do Apocalipse. E será que se volta deste passado? «Voltar ou não voltar, // morrer ou não morrer, tanto fazia», conclui Dempster, depois de confessar, melancólico: «sobrevivi / nas coisas mínimas / que a falta de futuro me deixava».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 101 da revista Ler]

Começo de um poema longo de Nuno Dempster

Que sabia eu do cais de Alcântara
que não tivesse lido
em romances de guerra?

O certo é que vivia mergulhado
numa nuvem de sol,

poalha de luz em volta do meu corpo,
que obliterava o cérebro,
fototropismo
que me tinha levado a versos
alheios ao que fosse caminho,

hoje nem sei como eram,
foram-se na voragem
de cidades perdidas
que me trouxe a este início.

Que importa?

Os versos serão sempre
mais do que os mortos
e têm vida curta,
nem sequer me recordo se em algum
nomeei a Estação Marítima de Alcântara.

É desse cais que evoco a multidão
com lenços brancos
e o súbito rasgar de um choro
que fez levantar mães e raparigas
de sob a mole,

e a arrastou e moveu em uma onda,
derrubando cancelas
e estremecendo o barco,

enquanto dois carros de combate
vieram colocar-se
em frente do costado do navio,

e panfletos voavam,
e paisanos corriam atrás deles,

berravam e batiam
entre o tumultuar da gente,

e sombras escapavam,

já os folhetos estavam recolhidos,
e a multidão, contida por uzis em riste
e carabinas com mira telecópica
no terrados dos prédios,
e nós quase chorávamos,
na aflição e no pasmo que afastavam

uma revolta a bordo como aquela
de que há notícia
Fernão de Magalhães ter dominado.

Não me ocorre que alguém tenha filmado
uma partida assim,
as amarras de um barco que se rompem
e os soldados a ver, atónitos,
a alteração dos seus na despedida,

e, mesmo que o tivessem feito,
como quereria eu saber do filme
se estava nele
e se, confuso,
sentia o sangue de a vida não ter prazo
e, em queda, a eternidade de ser jovem
com a morte adiante,
que um grito colectivo rasurara,

e pela qual madames patriotas
tinham oferecido
nas escadas de embarque

um maço de cigarros,
aerogramas,
medalhas de alumínio
com a Virgem de Fátima
e, no reverso, a cruz de Cristo.
(O alumínio é metal incompatível
com o luxo divino,
haveria eu mais tarde de pensar,
mas a deuses não é dado escolher,
pois foram escolhidos.)

Sentia o sangue
com que velhos facínoras
conseguem amansar
a força juvenil,
carregá-la de armas
e trazer carpideiras da polícia
para embalar as mães,
já confinadas ao destino,
quando os filhos regressam em caixões secretos,
cujo rosto de pedra-sabão
não lhes consentem ver.

[in K3, &Etc, 2011]

Uma vontade de beleza

Londres
Autor: Nuno Dempster
Editora: &Etc
N.º de páginas: 47
ISBN: 978-989-8150-20-2
Ano de publicação: 2010

Escritor tardio, Nuno Dempster (n. 1944) saiu da obscuridade há cerca de dois anos, com um impressionante livro de estreia que reunia, em quase 300 páginas, uma década inteira de produção poética (Dispersão, Edições Sempre-em-Pé). Para além do gesto de rebeldia contra a lógica editorial reinante e as instâncias de legitimação literária, Dempster revelava uma escrita depurada, reflexiva, de assinalável solidez e consistência, atributos que reencontramos em Londres, um poema longo publicado pela & Etc.
Do aeroporto ao centro da capital inglesa, o sujeito poético entrega-se a um «processo de fascínio» durante o qual «não pensa / senão em deslumbramento». A grande cidade suscita-lhe «pensamentos febris» e a consciência de uma verdadeira comunhão cosmopolita: «na distância que vai de Covent Garden a Piccadilly Circus / cabe o mundo todo, / e a sede que tenho dele». Uma sede que é «vontade de beleza» mas também uma sede literal, afogada com canecas de cerveja nos pubs, ao fim da tarde. Ele circula por Oxford Street, visita museus (National Gallery, British Museum), passa pela Roundhouse, encanta-se com a bruma e os «cabelos loiros» das «raparigas celtas», canta «o fluir exaltante da multidão diversa», os «corpos cheios de brilho», mas também a tristeza do hotel (esse «titanic que se afunda») e «o lado violento do desespero», porque à exultação segue-se a melancolia e de novo a exultação.
Se o poeta confirma a centralidade global («as estradas que sustentam / o planeta na sua teia passam todas por aqui»), também é capaz de reflectir sobre o carácter transitório das coisas. Olhando para o passado, evoca a antiga «certeza cega de que tudo duraria» (uma ilusão) e lamenta a actual «era sombria», não deixando de acreditar que há limites para a «subversão do humano» e que ainda vamos a tempo de «reaprender a simplicidade de Tebas». O optimismo nasce do entusiasmo com o poder da literatura («tudo é possível no que escrevo»), ensaiado num imaginário encontro de Homero com Shakespeare.
Dempster leva um certo tempo a encontrar o tom justo (as primeiras páginas são algo trôpegas), mas, assim que encontra o ritmo certo, o poema flui, reflectindo tanto a vibração da vida londrina como o seu reverso: «A descoberta da humanidade / é um acto cansativo e doloroso, // e a lucidez não serve de nada, / excepto para morrermos / todos os dias pelos outros».

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no número 90 da revista Ler]

Fragmento de um poema longo de Nuno Dempster

(…)
Sem dúvida, o hotel é
um paquete que se afunda.

Nada tem do que vi ou amo.

No canal dezasseis,
o Benfica ganhou por dois zero.

Portugueses exultam lá longe,
exultam com pouco,

e Londres inteira parece ter-se evolado.

A alegria da manhã vibrará,
estou certo,

a luz avivará as cores do Norte

e os raios de sol serão
cordas de guitarra eléctrica,

e hei-de ir de Yellow Submarine
pela Oxford Street e gritar:

«Escutem, Londres não é nada disso.
Bem poderiam ficar nas vossas cidades.
O que buscam é igual em toda a parte.»

E logo ecoarem insultos em esperanto,
agredirem-me com o desprezo de quem não vive
e, sabida a aventura no Yellow Submarine,
zangarem-se os amigos que adoram ir aos saldos,
aos saldos de fim de ano na Oxford Street,
e então, diplomata, eu convidá-los
para uma minuciosa visita ao Harrod’s
e aí fazermos as pazes
com meio pint de Guiness,
tirado lentamente como é da praxe.

Mas já Nelson está a olhar para sul,
a mirar-se na própria morte.

À uma e trinta da tarde,
lá onde o mundo dos gregos acabava,
nem Hércules lhe valeu.

À uma e trinta da tarde,

faltam três horas para a batalh

à uma e trinta da tarde,
o almirante vai morrer de novo
e ver-se a si mesmo
tombar na popa do Victory,
e os turistas nem darão conta,
nem os meus amigos,
nem as pombas se assustarão,
nem os leões de bronze hão-de levantar-se,

e eu estou em Trafalgar Square
e não quero saber as razões últimas de tal guerra,
senão do rasto que o Corso deixou
nos túmulos violados do meu país,
e nas igrejas brancas,
e nas mulheres minhas maiores,
factos que lembro por dever de raiva,

essa raiva de ter nascido
para tão grande imperfeição
e não ter mais nada,
salvo este grito que me abafa.

Oh, deixai que os navios combatam.

De quanto sangue,
de quantas vidas,
de quantos sonhos degolados é feito
o caminho que em Londres encontrei
e sabia existir,
mas não em toda a sua escura,
exaltante extensão.

Logo, ao cair da tarde,
irei de novo mergulhar em Piccadilly Circus.
Provavelmente,
beberei ainda mais cerveja do que ontem.

A descoberta da humanidade
é um acto cansativo e doloroso,

e a lucidez não serve de nada,
excepto para morrermos
todos os dias pelos outros.
(…)

[in Londres, &Etc, 2010]

Três poemas de Nuno Dempster

PARTÉNON ILUMINADO

I take you a photo, disse-me ela
uma noite de Agosto
no terraço do
Athens Center,
quando me viu guardar o templo
cheio de luz
numa
Canon barata.
Era uma prostituta de hotel
e já livrava os homens do seu peso
na era da casta Atena,
entre os blocos de Fídias
ou à noite, em enxergas miseráveis.


EM ARQUÀ

Na casa de Petrarca, Safo escrevia
e depois atirou-se
do cimo de uma penha,
e Vénus e Cupido
jogavam o seu jogo com Vulcano.
Tudo isto sobre o lume a que Francesco
de velho se aquecia,
os dedos estendidos para as brasas,
Laura ida havia muito, nunca tida.


PARTIDA DE XADREZ COM IVAN JUNQUEIRA

Disseste a um jornal é absurdo morrer,
irmo-nos sem um deus, mas não sei outro modo
de viver e morrer; e também lhes dizias
um poente não é poente sem poesia.
Todavia, assentemos, é o sol que se esconde,
ou melhor, o rodar contínuo do planeta,
e por rodar assim é que nós respiramos,
a luz nos ilumina e partimos sozinhos.
Mas isso é já sabido antes do
eppur si muove,
e neste tabuleiro onde jogo contigo
os meus peões e bispos os deuses inventados
há muito o xeque-mate nos destinavam, cínicos.
E quando começamos o jogo, pensativos,
quando me falaste é absurdo morrer só,
jamais nos ocorreu, para assim não morrermos,
nos bastava a alegria de um dia termos sido
altivos e distantes das mesas de xadrez.

[in Dispersão – Poesia Reunida, Edições Sempre-Em-Pé, 2008]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges