O grande navio da melancolia

Fórmulas de uma Luz Inexplicável
Autor: Nuno Júdice
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 109
ISBN: 978-972-20-5025-84
Ano de publicação: 2012

No seu novo livro de poemas, Fórmulas de uma Luz Inexplicável, Nuno Júdice volta a deambular, com a habitual proficiência, por algumas das suas obsessões temáticas: a lírica amorosa; o «pensamento queimado pela memória»; as argumentações lúdicas; a autoconsciência poética; os exercícios eruditos; a aproximação irónica à realidade. A facilidade enunciativa e os amplos recursos estilísticos permitem ao poeta escrever sobre praticamente tudo, em vários registos, o que nem sempre favorece a consistência e equilíbrio do livro como um todo. Resultado: neste volume deparamos mais uma vez com poemas dispensáveis (repetitivos ou redundantes), embora em menor número do que na obra anterior (Guia de Conceitos Básicos, 2009).
Esta é uma escrita atenta às limitações e ambiguidades da linguagem: «Procuramos o sentido. Andamos às voltas. Por / vezes, aparece um significado, mas tudo é vago, / como se as palavras já não dissessem o que / dizem». Ao mesmo tempo, reafirma-se o poder transfigurador da imaginação, que permite a metamorfose súbita de uma rua num «imenso campo», com searas a ocupar o asfalto e a trazer para o meio da cidade os camponeses do Angelus de Millet. «O que vemos oculta o visível; e o que não / vemos revela o que podemos adivinhar», resume Júdice.
Os melhores poemas são os que recuperam uma «infância antiga», a partir de evocações nostálgicas, despertadas pela visão de um «coreto vazio» numa praça de província ou pela imagem da mesa à volta da qual se reunia a família. Há ainda casas carregadas de tempo, figuras extintas que só existem numa «caixa de fotografias», lugares que mudam ou desaparecem, histórias de desencontro, acasos que criam bifurcações e desvios cruciais nas nossas vidas. Júdice também brinca em quadras rimadas (Almoço Cosmopolita) e compara a angústia de Schopenhauer com a de Sartre ou o Fernando Pessoa de Mensagem com o Oscar Wilde do De Profundis. Mas o que passa no horizonte é sempre o «grande navio da melancolia», naufragando com os «porões esvaziados do seu lastro de frases».

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no n.º 114 da revista Ler]

O lugar do leitor

«E voltamos à pergunta inicial: para que serve a crítica? E começamos a encontrar algumas respostas. Não é, como é evidente, para se substituir ao autor. Uma crítica não pode dizer aquilo que o autor não disse, ou não quis dizer, ou seja, não se deve substituir à obra. O lugar do crítico é o lugar do leitor: e, aí, tentar encontrar as questões que o texto coloca a quem o lê, procurando dar-lhes uma resposta, já que a simples leitura não tem esse fim. Se, ao ler a crítica, o leitor tiver encontrado ao menos uma resposta às interrogações que cada obra coloca, o objectivo da crítica pode dar-se por satisfeito. Se, pelo contrário, o leitor terminar essa leitura sem qualquer esclarecimento, e ainda mais confuso, devido à linguagem ou ao estilo do crítico, é porque a crítica falhou.»

[in ABC da Crítica, de Nuno Júdice, Dom Quixote, 2010]

Três poemas de Nuno Júdice

CEIFA

Nos grandes arrozais do sul, as nuvens
de mosquitos escondem o céu. As mulheres
cuja sombra se afunda nos charcos,
quando a tarde cai, enlouquecem
devagar e cantam. Mas os mosquitos voam
à sua volta, e elas batem as mãos como
se fossem leques para se libertarem
dos mosquitos e das sombras, e
escorregam no lodo, enquanto os homens
lhes gritam, da margem, que o arroz
continua por colher. Então, a procissão
das mulheres sai de dentro do pântano, e
os homens caem à sua frente, como
se elas trouxessem nos olhos
a foice que decepa os campos e as vidas,
num fim de tarde em que os mosquitos,
com a sua nuvem de sombra, taparam o céu.

***

NOITE DE TEMPORAL

Pouco importa. As chuvas devastam
o litoral, e os pescadores procuram os barcos
que as enchentes levaram. Um deles gritou
que o levassem para o cimo do monte; e quando ali
chegou ergueu um peixe sobre os ombros, como
se o ar e a água se confundissem
no cimo. Eu estava sentado no banco da única taberna,
e ouvia as mulheres que rezavam; ou talvez não fosse
nenhuma reza: seria, apenas, um ranger
de dentes sobre a ausência dos deuses. Por outro
lado, quando elas me vinham perguntar o que queria,
pedia-lhes um fundo de aguardente no copo da noite. E elas
despejavam-me a garrafa para que a bebesse, até
à última gota. Por fim, saí sem nada que me abrigasse; e
o relâmpago iluminou a baía, os corpos deitados
sob as colunas da praça, e os cães que ladravam
sem que ninguém soubesse porquê.

***

O EFEITO DO CINEMA NA CABEÇA DE QUEM NÃO VAI AO CINEMA

A jean seberg vendia o herald tribune nos filmes
de godard, e eu procurava troco na carteira
para lhe comprar o jornal. Ela dizia-me que
não era preciso dar troco, e eu dava-lhe uma nota
para ela me dar o jornal, e era como se já
o tivesse lido nos seus olhos. A jean seberg
tinha cortado o cabelo para aparecer nos filmes
de godard como um efebo, e quando eu lhe comprava
o jornal era como se ela me dissesse que estava
a comprar uma ambiguidade de sexos, que
não vinha na primeira página do jornal, mas
que eu podia ler nos seus lábios quando ela
me pedia que não lhe desse troco, e eu me limitava
a dar-lhe uma nota para não ter de andar mais tempo
à procura de moedas, o que me impedia de
olhar para os seus olhos onde podia ler a
previsão meteorológica para o próximo milénio,
como se jean seberg fosse o céu sem estações
e no seu rosto se fixasse a eternidade de uma
beleza sem princípio nem fim. Mas isso era
quando a jean seberg aparecia nos filmes do godard,
e quando deixou de aparecer o tempo voltou
ao seu ritmo normal, o herald tribune deixou
de me interessar, e já não precisava de procurar
trocos para comprar jornais que nunca iria ler,
porque o que eu queria ler estava nos olhos
de jean seberg, e eles tinham-se apagado.

[in Guia de Conceitos Básicos, Dom Quixote, 2010]

Nuno Júdice em Coimbra

A quinta sessão da temporada 2008/2009 de Os Livros Ardem Mal, «mensário da actualidade editorial», começa daqui a nada (18h00), como sempre no foyer do Teatro Académico Gil Vicente. O convidado é Nuno Júdice, recém-nomeado director da revista Colóquio/Letras. Na mesa estarão António Apolinário Lourenço, Luís Quintais e Osvaldo Manuel Silvestre (moderador).

Nuno Júdice é o novo director da Colóquio Letras

Depois do polémico afastamento de Joana Varela, a administração da Fundação Gulbenkian acaba de nomear o poeta Nuno Júdice como novo director da Colóquio Letras. No seu caderno de encargos, aparentemente, está a publicação a tempo e horas dos números da revista, que chegaram a sair com três anos de atraso. Eduardo Lourenço presidirá ao novo conselho editorial.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges