A ameaça do fonógrafo

O Fim dos Livros
Autor: Octave Uzanne
Ilustrações: Albert Robida
Tradução: Jacinta Gomes
Editora: Palimpsesto
N.º de páginas: 75
ISBN: 978-989-95833-5-1
Ano de publicação: 2010

Após uma conferência científica na londrina Royal Society, meia dúzia de eruditos prolongam a noite com uma tertúlia especulativa, em que tentam antecipar o futuro.
Um utopista imagina o triunfo da química, capaz de reduzir a alimentação a um pequeno volume («pós, xaropes, pílulas»), o que permitiria riscar a fome «do registo das nossas misérias». Um «esteta de amanhã» prevê o esgotamento da pintura, afundada na banalidade e na saturação das imagens, e advoga um regresso da arte à sua essência, apenas ao alcance de uma «aristocracia fechada» de criadores («talvez dez ou doze apóstolos por cada geração»).
Mas só quando perguntam ao narrador do texto, um bibliófilo assumido, «o que acontecerá às letras, aos literatos e aos livros daqui a uns cem anos» é que a sala estremece de espanto e alguma indignação. Isto porque o orador prevê que os livros impressos desaparecerão de vez e a «invenção de Gutenberg» cairá «em desuso como intérprete das nossas produções intelectuais». Nada que alguns gurus não afirmem hoje, fascinados com Kindles e iPads.
Acontece que este O Fim dos Livros foi escrito em 1895. Sim, 1895, final do séc. XIX. Ou seja, o futuro que aqui se imagina, com um triste apocalipse da tipografia, é o nosso presente. E as previsões de Uzanne, como as de muitas outras cassandras, falham redondamente. Não só os livros impressos resistiram à tecnologia da época (o fonógrafo de Edison) como a todas as tecnologias que vieram depois, incluindo os ameaçadores e-books de que tanto se fala agora.
No início do séc. XXII ainda havemos de ler, em papel, a história completa de todas estas mortes anunciadas, e sempre desmentidas.

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O destino dos livros

«O que penso eu sobre o destino dos livros, meus caros amigos? A questão é interessante e apaixona-me tanto mais quanto nunca a tinha posto a mim mesmo até este momento preciso da nossa reunião.
Se por livros pretendem referir-se aos nossos inumeráveis cadernos de papel impresso, dobrado, cosido, brochado sob uma capa anunciando o título da obra, confessar-vos-ei francamente que não acredito – e que os progressos da electricidade e da mecânica moderna me proíbem de acreditar – que a invenção de Gutenberg possa não cair, mais ou menos proximamente, em desuso como intérprete das nossas produções intelectuais.
A tipografia, a que Rivarol chamou tão judiciosamente artilharia do pensamento, e da qual Lutero dizia que era o último e supremo dom pelo qual Deus difunde as coisas do Evangelho; a tipografia, que mudou o destino da Europa e que, sobretudo desde há dois séculos, governa a opinião, através do livro, da brochura e do jornal; a tipografia, que, a partir de 1436, reinou tão despoticamente sobre os nossos espíritos, parece-me ameaçada de morte, na minha opinião, pelos diversos gravadores de som que foram recentemente descobertos e que pouco a pouco se irão aperfeiçoar largamente.»

[in O Fim dos Livros, de Octave Uzanne, tradução de Jacinta Gomes, Palimpsesto, 2010]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges