Hino à vida

Gratidão
Autor: Oliver Sacks
Editora: Relógio d’Água
Título original: Gratitude
Tradução: Miguel Serras Pereira
N.º de páginas: 48
ISBN: 978-989-641-591-4
Ano de publicação: 2016

Este volume, composto por quatro brevíssimos ensaios, é uma espécie de complemento à autobiografia Em Movimento – o livro final do neurologista Oliver Sacks, que ainda teve tempo de o acabar e ver publicado, em Abril de 2015, quatro meses antes de ser vencido pelas múltiplas metástases, no fígado, de um melanoma ocular que o deixara cego de um olho. Na autobiografia, já publicada pela Relógio d’Água, Sacks narra com o habitual entusiasmo – e prosa magnífica, clara, encantatória – o arco completo da sua existência: não apenas o notável percurso intelectual e científico, mas também toda a sorte de idiossincrasias (a faceta de motard, o gosto pelo culturismo e pela halterofilia, as rotinas de nadador metódico), bem como aspectos íntimos, da conhecida dependência das anfetaminas à homossexualidade, que até esse momento não assumira publicamente.
Os textos de Gratidão, todos eles publicados no The New York Times (e partilhados na internet, onde se tornaram virais), são uma espécie de coda em que Sacks, mais do que consciente da morte próxima, se despede com uma dignidade e uma delicadeza extraordinárias. Grato por tudo o que pôde ver, sentir, experimentar, ele faz deste adeus um hino à vida, uma celebração do privilégio de conhecer o mundo, aproveitando a existência até ao tutano.
Em Sabat, o derradeiro dos seus escritos, evoca a infância judaica e acolhe em si «a paz de um mundo que se detém, de um tempo fora do tempo». A paixão pelos elementos químicos atravessa Mercúrio e A Minha Tabela Periódica, duas prosas que lembram o melhor de Sacks: a forma como torna empática, e às vezes até comovente, de tão pessoal, a abordagem ao conhecimento científico. Já A Minha Vida, o texto que anunciou ao mundo a irreversibilidade da doença, termina com uma luminosa aceitação do fim: «Acima de tudo, fui um ser senciente, um animal pensante, neste belo planeta, e isso foi, por si só, um enorme privilégio e aventura.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Filhos de um deus maior

Vejo Uma Voz – Uma Viagem ao Mundo dos Surdos
Autor: Oliver Sacks
Título original: Seeing Voices
Tradução: Regina Faria
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 197
ISBN: 978-989-641-194-7
Ano de publicação: 2011

Neurologista de formação, Oliver Sacks tornou-se conhecido fora da comunidade médica com os livros em que expõe – num estilo cativante e fugindo sempre que possível aos formalismos dos artigos científicos – casos clínicos de pessoas que conseguem adaptar-se às limitações impostas por certas doenças. O primeiro livro, de 1970, abordava os vários subtipos de uma maleita comum: a enxaqueca. O segundo, de 1973, trouxe-lhe a fama: Despertares, sobre as vítimas de uma epidemia de encefalite letárgica que ele resgatou de uma espécie de eterno marasmo com a ajuda de um novo medicamento (história que seria adaptada ao cinema por Penny Marshall, em 1990, num filme com Robert De Niro e Robin Williams). Nos livros seguintes, debruçou-se sobre outros problemas neurológicos – da Síndrome de Tourette à doença de Parkinson, passando pelo autismo, daltonismo, afasias, amnésias, cegueira, etc. –, quase sempre com a mesma estrutura: um conjunto de ensaios relativamente curtos, em que Sacks narra, sem poupar nos detalhes, a história de pacientes concretos, mostrando de que forma cada um desses casos corrobora determinadas teorias vigentes sobre o funcionamento do cérebro e dos mecanismos da percepção, da memória e da identidade humana.
O livro que a Relógio d’Água acaba de editar foi originalmente publicado em 1989 e leva-nos, como o subtítulo sugere, numa «viagem ao mundo dos surdos». Não deixando de abordar aspectos neurológicos do problema e a evolução do lugar ocupado pelas pessoas com défices auditivos na sociedade, Oliver Sacks interessa-se sobretudo pelas várias formas de linguagem associadas à experiência da surdez, nomeadamente os vários tipos de língua gestual, que não apenas se tornam «a voz dos surdos» como têm uma complexidade (ao explorar, por exemplo, a dimensão espacial) e uma autonomia evolutiva em relação às línguas faladas que fazem delas o instrumento de uma cultura específica, em nada inferior à cultura oficial dos falantes. Sacks dá muitos exemplos dos desafios que os surdos têm de enfrentar, separando claramente as águas entre os que são pós-linguísticos (como David Wright, que perdeu a audição depois de adquirir a linguagem, o que lhe permitiu continuar a ouvir «vozes-fantasmas») e os pré-linguísticos, que nunca chegam a ouvir os pais e se arriscam a ficar definitivamente tolhidos nas suas capacidades cognitivas.
Em Vejo uma Voz encontramos um caudal de conhecimento e análise séria sobre a questão da surdez, mas transmitida ao leitor quase ao jeito de um bombardeamento intelectual, com a prosa de Sacks a revelar-se muito mais neutra, compacta e exaustiva (atente-se na profusão de notas de rodapé, por vezes ocupando a página quase toda) do que em outras obras. Quem vier à procura das histórias curiosas e literariamente conseguidas de O Homem que Confundiu a Mulher com um Chapéu (Relógio d’Água, 1990) ou do estilo ágil com que escreveu as suas memórias de infância (O Tio Tungsténio), talvez fique desiludido. Exceptuando o relato da visita a Martha’s Vineyard – a ilha onde a Língua Gestual era «falada» tanto pelos muitos surdos hereditários como pela restante população – e o diário da revolta na Universidade Gallaudet, uma escola para surdos em que os alunos exigiram ter um reitor surdo, o livro é pouco entusiasmante. Contudo, enquanto obra que apresenta, situa e defende uma «cultura» ainda pouco ou mal conhecida pelo público generalista, Vejo uma Voz cumpre perfeitamente a sua missão.

Avaliação: 5,5/10

[Texto publicado no n.º 101 da revista Ler]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges