Arte do romance

O Romancista Ingénuo e o Sentimental
Autor: Orhan Pamuk
Título original: The Naive and the Sentimental Novelist
Tradução: Álvaro Manuel Machado
Editora: Presença
N.º de páginas: 134
ISBN: 978-972-23-4801-0
Ano de publicação: 2012

Durante as últimas décadas, entre os oradores das Charles Eliot Norton Lectures, na Universidade de Harvard, estiveram figuras como Igor Stravinsky (1939), e. e. cummings (1952), Jorge Luis Borges (1967), Octavio Paz (1971), John Cage (1988), Umberto Eco (1992) ou George Steiner (2001). Na sua maioria, as conferências são coligidas em livro pela Harvard University Press e traduzidas para todo o mundo. Em Portugal, o volume de cummings foi editado pela Assírio & Alvim; o de Borges pela Teorema; o de Eco pela Difel; o de Steiner pela Gradiva; e o de Italo Calvino, as célebres Seis Propostas para o Próximo Milénio (que acabaram por ser apenas cinco, devido à morte do escritor em 1985), pela Teorema. A esta pequena biblioteca junta-se agora o livro que reúne as seis palestras proferidas, na mesma cátedra, por Orhan Pamuk em 2009, três anos após a consagração que nenhum dos escritores acima citados alcançou: o Prémio Nobel de Literatura.
Colocando-se numa posição de relativa modéstia, sem grandes arroubos teóricos ou pretensões ensaísticas, Pamuk começa por tentar discernir «o que se passa na nossa cabeça quando lemos um romance»; isto é, quais as características da estrutura romanesca que a diferenciam de qualquer outro tipo de experiência literária ou artística. Além das memórias de leitor compulsivo (entre os 18 e os 30 anos dedicou-se obsessivamente, por vezes «em êxtase», à leitura de romances), Pamuk convoca as reflexões nascidas do seu ofício de escritor. Ao longo das seis conferências, surge recorrentemente o propósito de definir uma «arte do romance». Quando inicia um novo livro, que pretende ao certo Pamuk? Nas suas palavras, o objectivo é «recriar a vida com exatidão», mostrar como os protagonistas da história «sentem, veem e atuam no seu próprio mundo» e «de que maneira o universo no interior da narrativa surge através do seu olhar». Para isso, o romancista deve ser capaz de projectar-se nas personagens, partilhando através delas as suas experiências sensoriais, deve erguer uma «visão panorâmica» da realidade que ameace substituir a própria realidade, e mostrar que é possível «acreditar simultaneamente em situações contraditórias». Em tom mais aforístico, defende ainda que se pode «falar de coisas importantes como se fossem insignificantes e de coisas insignificantes como se fossem importantes».
Uma das fontes a que Pamuk vai beber é um ensaio clássico de Friedrich Schiller: Sobre a poesia ingénua e a sentimental (1795-1796). Em traços largos, Schiller opunha os autores «ingénuos», para quem o poema não é «pensado e deliberadamente trabalhado pelo poeta», antes surgindo como uma emanação da Natureza ou de um «qualquer outro misterioso poder», aos autores «sentimentais» e reflexivos, que revelam uma espécie de «hiperconsciência» dos métodos e técnicas que utilizam, logo «do artifício envolvido no seu esforço». Trata-se, no fundo, da oposição entre o criador espontâneo e aquele que tudo intelectualiza, entre o génio instintivo de Goethe e a racionalidade muito trabalhada do próprio Schiller. Os dois pólos criam uma tensão que Pamuk considera produtiva e que rapidamente resolve, ao sugerir que a «contínua oscilação» entre um e outro extremo deve ser o estado natural do romancista.
O autor de O Meu Nome é Vermelho aborda ainda a questão do espaço físico da narrativa, e do respectivo tempo (objectivo ou subjectivo), a divisão entre «escritores verbais» (como Dostoievski) e «escritores visuais» (como Tolstoi), a importância dos romances como arquivos ou museus (uma forma de «resistência ao esquecimento») e essa espécie de «verdade secreta» a que chama «centro do romance», uma entidade difusa situada «algures por detrás de tudo, num plano de fundo, invisível, difícil de configurar» e que nunca chega a ser definida com a necessária clareza, apesar das dezenas de páginas que lhe são dedicadas.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«Os romances são vidas segundas, vidas paralelas às nossas. Como os sonhos de que fala o poeta francês Gérard de Nerval, os romances revelam o colorido e as complexidades das nossas vidas e estão cheios de gente, rostos e objetos que pensamos reconhecer. Tal como nos sonhos, quando estamos a ler romances somos, por vezes, tão fortemente atingidos pela natureza extraordinária das coisas com que deparamos que chegamos a esquecer onde estamos e vemo-nos no meio de acontecimentos e pessoas imaginários que se nos apresentam pela frente. Nessas alturas, sentimos que o mundo ficcional com que deparamos e a que nos entregamos com entusiasmo é mais real do que o próprio mundo da realidade quotidiana. Que essa vida paralela, essa vida segunda possa parecer-nos mais real do que a realidade significa frequentemente que substituímos a realidade pelos romances, ou pelo menos que confundimos a realidade do romance com a da vida real. Mas nunca nos queixamos, nunca nos arrependemos dessa ilusão, dessa ingenuidade. Pelo contrário, como quando temos certos sonhos, queremos que o romance que estamos a ler continue e esperamos que essa vida paralela provoque em nós um sentido sólido, consistente de realidade e de autenticidade. Apesar de tudo o que conscientemente sabemos sobre ficção, ficamos contrariados e dececionados se um romance não consegue criar a ilusão de uma verdadeira vida, de uma vida que estamos realmente a viver.»

[in O Romancista Ingénuo e o Sentimental, de Orhan Pamuk, Presença, 2012]

Da ficção à realidade

O Museu da Inocência, descrito por Orhan Pamuk no seu último romance (editado em Portugal pela Presença), vai ter em breve uma versão física e visitável, num prédio de quatro andares no bairro de Çukurcuma, no centro de Istambul.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges