O que lêem os críticos quando não são obrigados a ler (7)

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Osvaldo Manuel Silvestre (Professor de Teoria da Literatura na Faculdade de Letras de Coimbra e colaborador do blogue Os Livros Ardem Mal):

«”As férias ideais deveriam ser, no que toca à leitura, um tempo descomprometido em que se lesse pelo prazer de ler”. Este é, pelo menos, o grande mito romântico da leitura estival, geralmente traduzido em coisas leves (policiais, romances de aventuras, etc.) ou pesadas (os calhamaços). Como acredito na esterilidade da oposição entre leitura descomprometida e leitura “com programa”, a questão não me preocupa. Lembro-me sempre, a este propósito, de uma pergunta que um dia uma repórter (Maria João Avillez?) fez a Fernando Mamede: “Gosta de correr?” Mamede ficou interdito, pois a questão nunca lhe tinha ocorrido: corria porque não conseguia viver sem o fazer, e era tudo. Como também não consigo viver sem ler ou escrever, a questão é-me secundária: que leia um livro porque simplesmente um impulso sem amanhã me levou a fazê-lo, ou que o faça porque o livro se inscreve nos meus interesses (profissionais, até), obsessões ou compromissos, é-me irrelevante. A única coisa que para um leitor não é irrelevante, creio, é a falta de tempo. Ora, como em princípio nas férias há mais tempo – embora sempre menos do que nesse paraíso dourado da leitura que são as “férias grandes da adolescência” –, o leitor sente-se em casa nesse interregno laboral que lhe permite dedicar-se ao seu vício. Passo então a enumerar alguns dos livros que li nestas férias (opto por não referir os mais propriamente académicos).

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Comecei-as a ler O Homem sem Qualidades, de Robert Musil, na magnífica tradução de João Barrento. Tinha-o lido há muito e aproveitei o pretexto da nova edição para voltar à obra, que me confirmou na ideia de que a noção de literatura de que ela se alimenta é hoje uma coisa infelizmente do passado (noutra versão um tanto diferente, poderia dizer que é minha convicção que não há hoje um Musil, e seguramente que não há um Musil na Europa). Um passado glorioso, o de Joyce, Proust, Pessoa, Beckett, etc., sem par hoje. Ao ler o livro, apercebi-me de que, como outras grandes obras (o Livro do Desassossego, por exemplo), é um livro que em rigor só se relê. Ou seja, é impossível lê-lo sem que sejamos de imediato arrastados para o espaço labiríntico da releitura. A sua própria organização, em capítulos que são blocos autonomizáveis no seu devir ensaístico, pede paragem, retrocesso, regressão, demora, reflexão e releitura sem fim. Fico a desejar que o volume III demore a sair, para poder reler durante muito tempo estes dois, ou partes deles.

Li também os volumes da série ‘O Bairro’ de Gonçalo M. Tavares que ainda não conhecia, e confirmei duas coisas: o seu parentesco com a linha genealógica moderna que tem em Musil uma figura patriarcal; e que, de entre os ficcionistas novos, Gonçalo é o único que vale a pena ler, talvez com Alexandre Andrade.

Li e reli, ou ao contrário, os últimos, e excelentes, livros de poemas de Bénédicte Houart, Vida: Variações, e de Daniel Jonas, Sonótono, que, juntamente com Luís Quintais, são os poetas portugueses abaixo dos 40 cuja leitura mais me mobiliza.

Comecei ainda a leitura de um livro que espero não tenha fim: Borges, de Adolfo Bioy Casares, editado em 2006. São 1664 páginas nas quais Bioy Casares registou, ao longo de 40 anos, todos os seus encontros com Borges. Como o próprio sugere, há algo do labor de Boswell, na Vida do Dr. Johnson, neste empreendimento tão impúdico como revelador de uma amizade rara. Para quem ama a obra de Borges, e a de Bioy, este livro – de magnífica factura, manejável e leve, apesar de grossíssimo – é mais do que obrigatório: porque é um breviário, um livro para todas as estações, um compêndio de tudo o que a literatura, e em especial a literatura de dois escritores tão sábios, pode dar. Chamo a atenção, no plano pessoal, para as revelações sobre a vida amorosa, e mesmo sexual de Borges, que aprendemos ser algo de distinto daquela versão “branca” que foi circulando; ou para as páginas inigualáveis sobre a morte de Borges. Não resisto a citar uma nota brevíssima desses últimos momentos: “Hasta el final [Jean-Pierre] Bernès le leyó Ulrica. Borges comentó: ‘Soy un escritor’.” (pág. 1596).

Por fim, e na sequência de uma viagem rápida ao Rio de Janeiro, comecei a ler o n.º 20, naturalmente comemorativo, da revista de poesia Inimigo Rumor, hoje editada pela 7 Letras do Rio e pela Cosac & Naify de S. Paulo. É um número admirável, sem par nas revistas de poesia em português. Do pouco que já li quero destacar as traduções de poetas franceses recentes por Carlito Azevedo. Poemas magníficos, a mostrar que há no Brasil uma atenção despreconceituosa às coisas francesas que por cá não se encontra, pois toda a gente sabe, de ciência certa, que “a poesia francesa acabou”… E ainda um magnífico ensaio de Flora Süssekind, uma das grandes ensaístas do Brasil, intitulado “Hagiografias”, sobre a obra, as lendas, a “hagiografia” que rodeia três grandes figuras da poesia brasileira dos 70: Ana Cristina Cesar, Cacaso e Paulo Leminski. Há muito mais nas quase 330 páginas da revista, que inclui até um dossiê sobre fotografia, mas, como no caso do livro de Borges, faço questão de ir lendo devagar, de preferência até que saia o próximo número.»

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges