Matemática e melancolia

A Solidão dos Números Primos
Autor: Paolo Giordano
Título original: La solitudine dei numeri primi
Tradução: José J. C. Serra
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 267
ISBN: 978-972-25-1834-5
Ano de publicação: 2009

Este notável primeiro romance, escrito por Paolo Giordano (n. 1982) enquanto fazia uma tese de doutoramento em Física de Partículas, foi um dos maiores fenómenos editoriais do ano passado. O sucesso absoluto em Itália, onde coleccionou louvores da crítica e prémios (entre os quais o Strega), além de se manter semanas a fio no primeiro lugar dos tops, prolonga-se agora um pouco por todo o mundo. Em Portugal, foi mesmo um dos poucos livros capazes de lutar, nas tabelas de vendas, com os romances de vampiros adolescentes criados por Stephenie Meyer.
Curiosamente, um dos núcleos narrativos principais de A Solidão dos Números Primos consiste numa panorâmica sobre a adolescência, focada na burguesia de Turim mas com características comuns a todas as adolescências: um tempo de experimentações e traumas, de descobertas e rituais cruéis, euforias e desilusões. Para os dois protagonistas da história, Mattia e Alice, os anos do liceu são isso tudo, mas também uma «ferida aberta», atravessada «como que em apneia, ele rejeitando o mundo e ela sentindo-se rejeitada pelo mundo», apercebendo-se ambos «de que, no fundo, a diferença não era muita».
A origem desta dificuldade de lidar com os outros radica em dois episódios paralelos, ocorridos na infância e narrados por Giordano logo a abrir o romance. Numa manhã brumosa na montanha, Alice perde-se dos companheiros de ski, cai numa ravina e parte uma perna, convencendo-se de que vai morrer. Não morre, mas fica coxa, com uma enorme cicatriz, a auto-estima em fanicos e uma raiva contra o pai, o impulsionador das aulas na neve, que se expressa de muitas formas (uma delas: a anorexia). Mattia, transtornado pela culpa de ter perdido a irmã (uma menina com deficiência mental, por ele abandonada momentaneamente num banco de jardim e nunca mais vista), fecha-se na sua inteligência e abdica de viver uma vida normal, encontrando alívio para a dor na contemplação dos fenómenos físicos (o modo como as gotas escorrem num vidro de automóvel, por exemplo) e na auto-mutilação.
Estas duas solidões encontram-se, entendem-se mas não se resolvem, porque Mattia e Alice, mesmo quando encontram um rumo (ele como especialista em topologia algébrica; ela como fotógrafa), nunca deixam de ser a versão humana daquilo a que os matemáticos chamam primos gémeos: «pares de números primos que estão próximos um do outro, aliás, quase próximos, pois entre eles existe sempre um número par que os impede de se tocarem realmente».
Giordano gere a tristeza desta impossibilidade com pinças e controla muito bem a respiração da narrativa. Para mim, o melhor deste livro melancólico e geométrico está nos detalhes, talvez porque o autor sabe, como uma das suas personagens secundárias, que «a violência está toda encerrada na precisão de um pormenor».

Avaliação: 8/10

[Versão ligeiramente mais longa de um texto publicado no n.º 78 da revista Ler]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges