A estirpe maldita

anao

O Anão
Autor: Pär Lagerkvist
Título original: Dvärgen
Tradução: João Pedro de Andrade
Editora: Antígona
N.º de páginas: 178
ISBN: 978-972-608-237-8
Ano de publicação: 2013

Escrito em 1944, no final da II Guerra Mundial, O Anão é um livro de um pessimismo lúcido, exemplar na construção narrativa e brilhante no estilo. Pär Lagerkvist situou a narrativa num tempo histórico incerto, algures durante a Renascença italiana (provavelmente no final do século XV), mas as situações e figuras que evoca têm uma dimensão universal. No fundo, o que o leitor encontrará, ao longo destas páginas sôfregas, é um retrato da maldade humana em todo o seu esplendor, personificada pelo anão Piccolino que, do alto das suas 26 polegadas de altura, lança sobre a realidade que o rodeia o mais aviltante dos olhares.
Nas entradas do seu diário, Piccolino constrói e defende uma visão do mundo claramente distorcida. Tudo o que se passa na corte, tudo o que se diz ou faz, chega-nos através do filtro tortuoso da sua mente. Escarnecido e humilhado, ele devolve o escárnio e as humilhações com juros. A pequenez, em vez de o inferiorizar, gera um complexo de superioridade, embora ele acredite que os anões descendem de uma «raça mais antiga do que a que hoje povoa o mundo», o que os torna já velhos quando nascem. «Os anões não têm pátria, nem pai nem mãe; somos engendrados por estrangeiros vulgares; a fim de que a nossa raça se perpetue, consentimos em nascer secretamente entre os miseráveis. E quando esses pais adoptivos se apercebem de ter lançado ao mundo um ser da nossa estirpe, vendem-nos a poderosos senhores, a quem a deformidade diverte, para lhes servirmos de bobos.» É uma estirpe maldita, condenada à servidão e ao gozo dos outros. E por isso Piccolino a despreza.
Na verdade, Piccolino não despreza apenas os outros anões, ao ponto de os afastar um a um, até ao último (que estrangula); ele despreza a humanidade em geral. As pessoas com quem se cruza, na corte, inspiram-lhe um desdém que não consegue esconder. Só pelo príncipe revela respeito e admiração, mas mesmo esse por vezes o desorienta, com o seu carácter impenetrável. Ele gosta de ser o prolongamento do monarca, a sua «sombra», um símbolo do seu poder. Quando passeia sozinho pela cidade, os habitantes fazem-lhe o que não podem fazer ao soberano: insultam-no, cospem-lhe, atiram-lhe ratos mortos. Ele não recebe a hipocrisia da bajulação, antes a verdade do ódio puro dos súbditos. A ele não lhe mentem. Saber «sempre mais de todas as coisas do que o seu senhor» é o triunfo que lhe cabe.
Piccolino não tem propriamente um cargo. Enche taças de vinho, ouve confidências, entrega cartas secretas da princesa ao seu amante, escuta atrás das portas, conspira nos corredores. Mas essa posição privilegiada dá-lhe acesso aos meandros onde tudo se decide e ele não se coíbe de mexer alguns cordelinhos. Bernardo, um sábio que faz lembrar Leonardo da Vinci (pinta uma Última Ceia e um retrato da princesa com um sorriso misterioso, à la Mona Lisa; além de abrir cadáveres e desenhar máquinas de guerra), junta ao conhecimento e curiosidade infinitos uma dose de humanismo. É o suficiente para que desconfie dele. Como desconfia das pessoas boas, ou ingénuas, ou capazes de amor. Porque ele só conhece sentimentos negros: «O ódio foi o meu alimento desde os primeiros instantes da minha vida, absorvi a sua amarga seiva». Sem remorsos, sem medo, ele faz do ódio a sua linguagem, não se furtando à respectiva radiação maligna: «Mas também me odeio a mim mesmo. Devoro a minha carne embebida em fel. Bebo o meu sangue envenenado.»
O diário exulta com as carnificinas da guerra e mostra os horrores da peste, enquanto o mundo de Piccolino se dissolve. No fim, o anão continua a acreditar na ligação ao seu senhor («Está acorrentado a mim, como eu o estou a ele!»), mesmo depois de o príncipe o ter mandado prender na masmorra do palácio. «Os homens gostam de se ver reflectidos em espelhos turvos», resume. E nenhum espelho é mais turvo do que esta viagem sombria ao coração do Mal.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges