Lisbon Story
O escritor suíço Pascal Mercier (pseudónimo literário do filósofo Peter Bieri) está parado diante do n.º 75 da Rua Luz Soriano, ao Bairro Alto. Este “edifício de três andares, azul não só devido aos azulejos que lhe cobriam a fachada, mas sobretudo devido ao facto de todas as janelas serem abobadadas por altos arcos redondos pintados com um ultramarino brilhante” é, no romance Comboio Nocturno para Lisboa, recentemente lançado pela Dom Quixote, a “casa azul” do médico Amadeu de Prado, que ali dá consultas, muitas vezes gratuitas, e se confronta com o maior dos seus dilemas éticos: salvar ou deixar morrer um torcionário da PIDE.
Amadeu só se materializa na escrita de Mercier. O prédio, esse, não podia ser mais real – embora o que ali existe, no lugar do consultório, seja um conhecido hotel gay. “Quando vim aqui preparar o livro, em 2003, já se chamava Anjo Azul, mas não tinha o toldo nem estas bandeirinhas.” Frequentador da capital portuguesa desde os anos 90, como turista, o escritor regressou quatro vezes a Lisboa para cumprir um escrupuloso plano de investigação documental. “Nunca escrevo sobre nada que não tenha visto, tocado ou sentido”, garante. “E foi por isso que em duas dessas viagens apanhei o mesmo comboio nocturno de Gregorius, para ter a certeza de que estava a transmitir ao leitor as impressões correctas.”
Descendo a rua, Mercier não se coíbe de elogiar a luz da manhã, tão meridional, e explica que em cada uma das vindas assentou arraiais durante cerca de uma semana. Sempre sozinho, porque a tarefa exige concentração absoluta. Instrumentos de trabalho: o caderno de notas e a máquina fotográfica. “Usei uma teleobjectiva para fotografar tudo em pormenor: pessoas, prédios, o céu, os eléctricos, o Tejo.” No processo de escrita, a imaginação necessita de algo a que se possa agarrar. Quando teve que descrever o rosto de Amadeu, por exemplo, Mercier colocou à sua frente um retrato do jovem Anton Tchékhov; para a figura do farmacêutico Jorge O’Kelly, inspirou-se no escultor Alberto Giacometti; enquanto o molde de João Eça, resistente antifascista, foi “um homem que certo dia vi entrar na pastelaria Suíça, do Rossio”.
Ao fundo da Luz Soriano viramos à esquerda, seguimos pela Calçada do Combro, Rua do Loreto e Largo Camões, até ao Chiado. Na Rua Garrett, paragem obrigatória. “O interior do exterior do interior”, um dos muitos textos reflexivos de Amadeu espalhados pelo romance (e que formam, no seu todo, um livro dentro do livro), nasceu precisamente aqui. “Eu estava diante desta montra [loja Paris em Lisboa] e apercebi-me que de repente ela servia de espelho, o que deu origem a uma série de projecções mentais nos seus reflexos” – mote para o citado fragmento do médico-poeta. Mesmo em frente, na Livraria Sá da Costa, Mercier lembra-se de ter comprado um livro com 500 nomes portugueses (”muito útil para baptizar as minhas personagens conforme as suas classes sociais”), mas foi um pouco mais abaixo, na centenária Bertrand, que o escritor procurou dicionários de Português para a sua colecção – optando pelo mais recente de todos, já conforme ao novo acordo ortográfico.
Das duas personagens centrais do romance, Raimund Gregorius e Amadeu de Prado, foi Gregorius a primeira a surgir. “Andava há mais de dez anos com ele na cabeça e sabia que era inevitável escrever qualquer coisa sobre este homem lento, especialista em línguas mortas, apreciador de rotinas, um pouco aborrecido, que um dia decide romper com tudo e partir para Lisboa.” Prado teve uma génese ainda mais curiosa: “Há uns anos, escrevi uma obra filosófica sobre o livre-arbítrio. Como não encontrava na literatura uma epígrafe que me agradasse, decidi escrevê-la eu mesmo. Notei então que o ritmo daquelas frases era muito semelhante ao das frases de Pessoa. Nunca escrevera antes nada assim, não sabia de onde é que aquilo vinha. Pedi então a um professor português que me traduzisse a epígrafe para a vossa língua e inventasse o nome de um autor imaginário. Assim surgiu um tal Pedro Vasco de Almeida Prado, que toda a gente pensou que era um filósofo desconhecido.” Estava aceso o rastilho: “Depois, eu quis continuar com aquele tipo de frase porque a sua melodia linguística incitava-me a escrever sobre experiências e temas essenciais da condição humana: a morte, a solidão, a amizade, etc.” Os textos iam surgindo mas “o rapaz de Berna” não os sentia verdadeiramente como seus. “Estavam acima do que julgava serem as minhas capacidades.” Então inventou, por sua vez, um autor. Uma espécie de heterónimo de Pessoa, neto ficcional do não menos ficcional Pedro Vasco. “Esse autor era o Amadeu de Prado.”
Continuando a descer pela Rua Garrett, chegamos num instantinho à Baixa, comparada pelo narrador de Comboio Nocturno para Lisboa a um tabuleiro de xadrez. No livro, a farmácia de O’Kelly fica na Rua dos Sapateiros. É antiga, fuma-se lá dentro e durante a noite uma das suas lâmpadas nunca se apaga. O exacto oposto da farmácia real, nova e asséptica. “Pois é, a do romance inventei-a”, admite Mercier, que só começou a exercer os poderes da imaginação literária relativamente tarde, aos 45 anos. “Eu era professor de filosofia e tive uma licença sabática para escrever um livro académico. Fui com a minha mulher para uma casa perto de Lucca, em Itália, mas um dia fechei todos os livros de trabalho no armário, peguei numa folha em branco e comecei a escrever o meu primeiro romance [Perlmanns Schweigen]. Foi uma fuga, uma libertação do escritor que há muito esperava uma oportunidade.” Seguiu-se Der Klavierstimmer, escrito em França (Provença). Quanto a Comboio Nocturno, também nasceu em frente ao Mediterrâneo, mas em Lloret del Mar, a cidade preferida dos finalistas portugueses. “Instalei-me lá no Inverno, quando a cidade está deserta, e dediquei-me à escrita num regime intensivo: dez horas diárias. Foi para mim uma época muito feliz. Escrever um romance aproxima-nos da essência do que somos.”
O tema das viagens de comboio, essa forma de lentidão iminentemente literária, surge na esquina da Rua Augusta com a Rua da Conceição. Diz Mercier: “Sentados numa carruagem, temos pensamentos que não teríamos fora da carruagem. É como se o movimento exterior se transformasse num movimento interior, das ideias, das imagens, das memórias. Por outro lado, há ali a sensação de estarmos no mundo dos estrangeiros, que viajam muito e não pertencem a nenhum lugar. Uma metáfora para a instabilidade e a fragilidade da vida humana.”
É na Rua Augusta que Prado morre, fulminado pelo derrame de um aneurisma cerebral. Para lá do Arco, vê-se a estátua equestre de D. José e o brilho do Tejo. O périplo pelos lugares do romance poderia continuar até Cacilhas, onde fica o lar da terceira idade que acolhe João Eça, mas o escritor tem um avião para apanhar daqui a nada e por isso ficamos pela “rua mais bela do mundo”, às voltas com um mistério difícil de resolver: como é que um romance de temática metafísica conseguiu transformar-se num dos maiores best-sellers europeus dos últimos anos (vendas superiores a dois milhões de exemplares e 140 semanas de permanência nos tops alemães)? “Ainda não compreendo o fenómeno, foi uma grande surpresa”, confessa Mercier. O êxito, porém, não o deslumbra. “A única coisa que me interessa é a experiência da escrita. Nada mais.” Encontros de escritores, frivolidades mundanas, programas de TV, detesta isso tudo. “Terei muitos defeitos de carácter mas há um a que escapei: o ser vaidoso. A vaidade é uma forma de estupidez sancionada. Não a consigo entender. Tudo o que fazemos é pequeno na escala cósmica e atribuir-lhe muita importância é ridículo.”
Nem de propósito, no momento em que o fotógrafo [do Expresso] capta as últimas imagens do escritor, surge das arcadas uma mulher, Comboio Nocturno para Lisboa debaixo do braço. “Desculpe, o senhor é o autor deste livro, não é?” E o autógrafo já não escapa. Mercier sorri, ao ver a leitora a afastar-se, tão incrédula quanto ele. “Coisa incrível, não acham? Quem é que explica acasos destes?” Ninguém. Mas Amadeu de Prado, que na Lisboa ficcional do escritor suíço morreu ali a dois passos, era bem capaz de tentar.
[Versão longa de um texto publicado no suplemento Actual do Expresso]
O ouro das palavras

Comboio Nocturno para Lisboa
Autor: Pascal Mercier
Título original: Nachtzug nach Lissabon
Tradução: João Bouza da Costa
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 423
ISBN: 978-972-20-2983-4
Ano de publicação: 2008
Uma epifania em dois actos. Eis o que Raimund Gregorius, 57 anos, sólido nas suas rotinas de professor de línguas clássicas (latim, grego, hebraico) num liceu de Berna, divorciado solitário, não esperaria que lhe acontecesse. Mas acontece. E nesse dia a sua vida muda radicalmente. Primeiro acto: uma mulher na ponte de Kirchenfeld, debaixo de chuva, ameaçando o salto para o rio. É portuguesa, misteriosa, uma espécie de anjo anunciador que lhe escreve um número de telefone na testa. Segundo acto: já depois do desaparecimento da mulher angélica, a descoberta, numa livraria espanhola, de Um Ourives das Palavras – voluminho de fragmentos filosóficos editado, em 1975, por um tal Amadeu Inácio de Almeida Prado.
A unir os dois acontecimentos, uma palavra: “português”. O idioma desconhecido – mas vivo – que ressuscita o homem das línguas mortas. Em casa, põe-se a aprender os rudimentos, recorre a dicionários e tenta traduzir os textos de Prado, à cata do ouro das palavras de que o livreiro lhe concedeu um vislumbre. Gregorius deixa-se contaminar gradualmente pela ressonância pessoana de frases que parecem ter sido escritas a pensar nele: “Se é verdade que apenas podemos viver uma pequena parte daquilo que em nós existe, então o que acontece ao resto?” O interesse literário transforma-se em obsessão. Num impulso, decide partir para Lisboa no comboio da noite, à procura daquele pensador singular que reflecte sobre a solidão, a morte e o poder da linguagem.
Na capital portuguesa, cedo descobre que Prado, um médico que lutou contra Salazar, morreu um ano antes da revolução. Mas não desiste. Um a um, contacta familiares, amigos e conhecidos, tentando compreender o autor dos textos que parecem espelhar as suas mais escondidas aspirações e angústias. O retrato que emerge é o de um homem complexo e contraditório, um “sacerdote ateu” que sublimou na escrita os seus dilemas morais, frustrações amorosas e traumas familiares.
Ao recolher informações e memórias alheias, cruzando-as, Gregorius acaba por intuir a verdade de Prado, talvez melhor do que as pessoas que lhe eram mais próximas: Adriana, a irmã que em tempos Amadeu salvou com uma traqueotomia, agradecida e adoradora ao ponto de transformar o seu consultório num mausoléu de objectos intocados, onde o tempo se imobilizou; Jorge O’Kelly, pianista frustrado, farmacêutico e melhor amigo (até que uma mulher se atravessa entre os dois); ou João Eça, o resistente antifascista a quem arrancaram unhas e cujas mãos tremem tanto que não pode beber mais do que meia chávena de chá. Com um impressionante rigor analítico, o professor suíço, bom xadrezista, junta as peças no tabuleiro: cartas nunca enviadas, sinais, segredos, vozes mortas saindo de um antigo gravador de bobinas. No fim, a ameaça de um tumor na cabeça (uma de muitas simetrias com o objecto das suas investigações, vítima de um aneurisma cerebral) força o regresso a Berna.
Terceiro romance de Pascal Mercier, Comboio Nocturno para Lisboa é um livro sobre o modo como a linguagem pode iluminar ou obscurecer a compreensão do mundo à nossa volta, além de uma odisseia existencial fascinante mas algo pesada, em parte devido ao estilo palavroso. Após inúmeras deambulações por Lisboa, com breves passagens por Coimbra, cabo Finisterra e Salamanca, Gregorius consegue aproximar-se da essência de Prado, mas é sobretudo a si mesmo que se desvenda, como se o médico-poeta português fosse, desde a primeira hora, o pretexto para uma viagem de descoberta interior.
Numa narrativa densa e bem construída, com personagens de grande profundidade psicológica, não deixa de ser curioso que o elo mais fraco esteja nas prosas de Amadeu, o livro-dentro-do-livro que justifica a fuga de Gregorius. Muitos dos fragmentos são banais, pretensiosos ou redundantes. E mesmo os melhores, os que mais se aproximam do tom de Bernardo Soares, ficam a anos-luz do heterónimo que trabalhava na Rua dos Douradores. É ainda notório o desconhecimento, por parte de Mercier, do que foi a verdadeira oposição a Salazar, aqui apresentada como uma espécie de Resistência francesa transposta para o eixo Bairro Alto-Baixa, despolitizada e só com o Tarrafal ao fundo.
Avaliação: 7,5/10
[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]


Receba por e-mail


