Um cisne negro

A Coleção Privada de Acácio Nobre
Autor: Patrícia Portela
Editora: Caminho
N.º de páginas: 223
ISBN: 978-972-21-279-12
Ano de publicação: 2016

Quem é Acácio Nobre? Um fantasma? Uma singularidade quântica? Um homem invisível, sem rasto palpável, mas que mexeu nos cordelinhos do mundo? A leitura do novo livro de Patrícia Portela não oferece respostas definitivas; só mais perguntas, dúvidas, questionamentos. O mais seguro é dizer que se trata de um «cisne negro», segundo a teoria que defende serem brancos todos os cisnes «até ao momento em que um (basta um!) primeiro cisne negro apareça». Pelo simples facto de se materializar na escrita hiper-criativa de Patrícia Portela, Acácio Nobre passa a existir. Se foi real, se foi de carne e osso, eis uma questão menor, para não dizer inoportuna.
O fio desta história começa a desenrolar-se, muito pessoanamente, com a descoberta de uma arca na cave dos avós da autora, em 1999. Lá dentro, centenas de textos e projectos de um homem esquecido pela História, em larga medida por vontade própria. Nascido provavelmente em 1869, ele atravessará todos os sobressaltos do século XX, até se apagar, quase centenário, vítima de um tiro perdido que o atinge em cheio nos testículos, em pleno Maio de 68 parisiense, caminhando pelo Quartier Latin como se estivesse no Chiado, à procura de ver «passar uma revolução antes de morrer». Embora dela só conheçamos uma ínfima parte, por entre extensos hiatos, a sua vida abunda em momentos altos: trocou correspondência com Melville, cruzou-se com Einstein e Picasso, foi compincha de Pessoa e amigo íntimo de Mário de Sá-Carneiro, passou pelas trincheiras da I Guerra Mundial e pelos ficheiros da PIDE (que o vigiava de perto), criou puzzles geométricos durante décadas, e tentou de mil maneiras introduzir os Kindergarten de Fröbel em Portugal, por acreditar que a educação artística precoce seria a única forma de fazer o país entrar na modernidade.
O espólio que Patrícia Portela descobriu na arca de Acácio (nome que, em latim, significa «aquele que não tem maldade») é quase tão caótica como a sua existência. Esforçadamente, a autora classifica os materiais, organiza-os, contextualiza-os, capricha nos fac-similes. O que emerge, pouco a pouco, é a imagem de um visionário que esteve sempre deslocado do tempo em que vivia, mas ainda assim consegue antecipar as grandes mudanças e rupturas levadas a cabo pelas vanguardas artísticas, algo que certamente ficaria inscrito na sua muito inventiva «árvore genealógica da arte», se alguma vez ela tivesse deixado o campo das meras intenções.
A esmagadora maioria das obras de Acácio Nobre não são obras propriamente ditas, mas projectos, sonhos deixados em esboço. É o caso de uma máquina do tempo, denominada ‘Lepidóptero’, que funcionaria por «exclusão das horas através do sono, da meditação, da levitação, do voo picado e da metamorfose». Ou da proposta de «reurbanização do Chiado através da alteração radical da sua banda sonora», uma ideia que viria a ser materializada por Patrícia Portela, sob a forma de instalação/performance, em 2009. De certa forma, Acácio Nobre só sai da sombra pela mão de Portela. É ela que o arranca a um anonimato procurado de forma quase obsessiva. Uma vontade de não ser fixado na ordem do mundo. Apesar de ter vivido quase um século, não sobraram dele quaisquer fotografias (suspeita-se apenas que possa constar de um retrato de grupo, encontrado no espólio de José Pacheko). Nas muitas deambulações por paragens longínquas, que o levaram a Rudolstadt e a Baku, transportava consigo um pesado fonógrafo, «para gravar o ruído da sua ausência em diferentes lugares». Tudo indícios de uma atitude de desdém perante a posteridade, sublinhada de resto num dos «objectivos prioritários» do Clube dos Amigos de Acácio Nobre: «Assegurar que as suas obras se mantêm dispersas e passíveis de serem reencontradas e perdidas vezes sem conta».
É precisamente isso que acontece durante a leitura deste livro-enigma, quebra-cabeças capaz de pedir meças aos engenhosos puzzles geométricos de Acácio Nobre. Reencontramos e perdemos vezes sem conta o fio à meada. Tão depressa lamentamos não encontrar mais exemplos da «arte minúscula» (que só se consegue observar ao microscópio), como nos entusiasmamos com o relato pejado de palavrões da amante, Alva, exemplo caricato de nobreza traída pela síndrome de Tourette. Ou nos deliciamos com os labirintos retóricos das gigantescas notas de rodapé.
Fragmentária e quase impalpável, coisa em potência mais do que coisa real, a obra de Acácio Nobre não se esgota neste livro desafiante. Ela continuará a assombrar o trabalho futuro de Patrícia Portela, de quem esperamos que continue a mergulhar na arca acaciana, à procura de notas rabiscadas em guardanapos de papel e, quem sabe, desse dicionário perdido que permitiria descodificar um promissor manifesto encriptado. Mas o que gostaríamos mesmo, embora talvez seja pedir muito, é que Portela exumasse o livro de ficção científica publicado por A. N. em 1902 (Memórias de um Androide Que Sonha com Mosquitos Elétricos); ou então o Diário Retrospectivo, texto «em rewind, do fim para o princípio, com Nobre a admitir que só «escrevendo para trás posso fazer frente à minha época».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Ouvir as aves

O Banquete
Autora: Patrícia Portela
Editora: Caminho
N.º de páginas: 316
ISBN: 978-972-21-2578-9
Ano de publicação: 2012

Clássico da literatura persa, A Conferência dos Pássaros, de Farid ud-Din Attar, é um poema místico com mais de 4500 versos em que aves de todo o mundo se reúnem para decidir quem será o seu rei, numa alegoria da busca de Deus que replica os fundamentos da doutrina sufi. Em O Banquete, romance heterodoxo onde cabe tudo e mais alguma coisa, das histórias fundadoras da civilização ocidental às teorias científicas mais avançadas (genética, clonagem, etc.), Patrícia Portela também encena uma «Conferência dos Pássaros», na qual às aves se juntam «abelhas, aranhas e ventos» para discutir, com carácter de urgência, «a condição do Homem». Ou seja, para reavaliar a sua «imortalidade» e ponderar se não é melhor colocar-lhe «um fim», antes que a espécie dominante acabe com o planeta, dizimado por alterações climáticas e outras interferências nos equilíbrios ecológicos.
Em parte, esta instabilidade ficaria a dever-se ao estatuto de «quimera» com pólos opostos, em que a «metade natureza» (animal) conflitua com a «metade humana» (de aspiração «divina»). Em sucessivas prédicas, as aves – a cegonha mais velha do planeta, um pavão, uma coruja, uma pomba branca, uma galinha – vão multiplicando as perspectivas, os queixumes e os desejos de vingança, mas a lucidez vem das aranhas e das abelhas, conscientes de que tentar mudar o bicho-Homem é um esforço inglório, porque ele não muda. Mais vale ajudá-lo a «reencontrar a sua memória original» através da escrita: «Se os humanos são tão agarrados a histórias, se vivem de acordo com as histórias que escrevem, não precisamos de os mudar, precisamos apenas de os convencer a escrever uma nova história! Uma história que os faça acreditar que podem começar de novo! Que estão a começar de novo! Tal e qual como são, mas como se já não fossem duas metades, mas um só!»
De certo modo, é essa história que Patrícia Portela narra – de forma não-linear e transitando gradualmente de um estilo realista para um onirismo caótico – em O Banquete. A protagonista do romance é uma investigadora de topo em Biologia Molecular, uma «popstar da ciência» que dá a cara pelo desenvolvimento do primeiro cromossoma artificial. Criado para ser introduzido em pacientes com traumas psicológicos, o cromossoma 47 é uma «espécie de vacina contra as más memórias», uma «cápsula temporal», uma «arca de Noé» química, «cofre biológico» que preserva uma parte do que somos para a eternidade. Ingeri-lo equivale a espalhar a «doença da imortalidade», mas também a abrir uma caixa de Pandora. E é precisamente isso que a cientista faz, quando um dia se descobre incapaz de sair de casa, prisioneira das suas fobias, paralisada, como que a «jejuar do mundo».
Se dormir é acordar os fantasmas, «os outros que somos, os outros que fomos, os outros que poderíamos ter sido, e os que ainda podemos ou queremos ser», ela não enjeita esse caminho, desdobrando-se em sonhos que invadem a própria realidade. É já num domínio puramente onírico que ela consegue por fim sair de casa, de roupão japonês e ténis brancos, metendo-se num comboio internacional que a traz de volta a Lisboa, como «um samurai sem espada». À sua espera, uma «descoberta intrigante» a pedir que a decifrem: nos subterrâneos da cidade foi achada uma vítima do terramoto de 1755, em perfeito estado de conservação, muito semelhante a uma rapariga romana encontrada em 1485 na Via Appia. E muito parecida com ela mesma, por razões que mais à frente se tornarão claras.
O Banquete é um livro difícil, exigente, por vezes obscuro, alternando entre acumulações de factos concretos – notícias, fórmulas químicas, estruturas moleculares («O ADN e a palavra, frente e verso do mesmo corpo») – e elaborados capítulos em verso livre, com referências a mitos bíblicos e à experiência do mundo enquanto matéria comestível. À medida que a narrativa avança, assistimos a um esgarçamento dos vários discursos sobrepostos. Aos poucos, tudo se mistura, tudo se confunde, tudo se transforma, como na célebre frase de Lavoisier escolhida para epígrafe. Talvez a clonagem seja mesmo a «estratégia biológica para tornar a ficção verdadeira». Mas evitem-se as ilusões: «Julgamo-nos todos Faustos quando, no fundo, somos todos Mefistófeles.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

‘Para Cima e não para Norte’ (o booktrailer)

Eis um vislumbre do primeiro romance de Patrícia Portela, até agora mais conhecida pelos seus trabalhos dramatúrgicos. Pela amostra, estamos algures entre Gonçalo M. Tavares e Edwin Abbott Abbott (o autor de Flatland, livro transdimensional que inspirou a Patrícia Portela uma trilogia de espectáculos, o primeiro dos quais justamente intitulado Para Cima e não para Norte). O livro, editado pela Caminho, tem saída prevista para Outubro. E promete. Promete muito.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges