When Paul writes to John (and viceversa)

Eis um excerto da correspondência entre Paul Auster e J.M. Coetzee, reunida no livro Here and Now: Letters (2008-2011). Os dois escritores falam essencialmente sobre a importância do desporto nas suas vidas (o críquete para Coetzee; o futebol americano para Auster), mas a parte que me pareceu mais interessante é a que menciona o xadrez. Coetzee fala de um jogo que eclipsou a sua chegada aos EUA. Auster responde com o seguinte parêntesis:

«(I haven’t played chess in years, by the way, but there was a time in my early twenties when I became immersed in it, too. It is without question the most obsessive, most mentally damaging game invented by man. After a while, I found myself dreaming about chess moves in my sleep—and decided that I had to stop playing or else go mad.)»

Não diria «mentally damaging», mas lá obsessivo é. E eu, que redescobri recentemente os prazeres e angústias do xadrez online, sei-o bem.

Paul Auster por Terry Gilliam

O realizador Terry Gilliam, que andou anos e anos e anos a tentar fazer, sem sucesso, uma adaptação cinematográfica do Dom Quixote, de Cervantes, está neste momento a trabalhar num argumento inspirado no romance Mr. Vertigo, de Paul Auster.

Paul Auster à conversa com John Ashbery

Aconteceu domingo, no Brooklyn Book Festival. Reportagem aqui.

Titus

«Sozinho na escuridão, revolvo o mundo na minha cabeça enquanto me debato com mais uma insónia, com mais uma noite em branco na imensidão da natureza selvagem da América. Lá em cima, a minha filha e a minha neta estão a dormir nos seus quartos, sozinhas também elas, Miriam, a minha única filha, que tem quarenta e sete anos e que tem dormido sozinha nestes últimos cinco anos, a Katya, filha única de Miriam, que tem vinte e três anos e que costumava dormir com um jovem chamado Titus Small, mas Titus está morto agora, e Katya dorme sozinha com o seu coração destroçado.
Luz radiosa, depois escuridão. O sol que se derrama de todos os cantos do céu, seguido pela escuridão da noite, as estrelas silenciosas, o vento que se agita nos ramos. Tal é a rotina. Estou a viver nesta casa há mais de um ano, desde que me deram alta do hospital. Miriam insistiu comigo para que viesse para aqui, e, de início, éramos só nós os dois, para além de uma enfermeira que cuidava de mim durante o dia, enquanto Miriam estava a trabalhar. Até que, passados três meses, o mundo desabou sobre Katya, e ela abandonou a escola de cinema em Nova Iorque e veio viver para a casa da mãe no Vermont.
Os pais dele chamaram-lhe Titus porque esse era o nome do filho de Rembrandt, o menino que aparece nos quadros do pintor, a criança de cabelos dourados com um chapéu vermelho, o aluno que sonha acordado enquanto se esforça por estudar as suas lições, o menino que se transformou num adolescente destroçado pela doença e que morreu com vinte e poucos anos, tal e qual como o Titus de Katya. É um nome fatídico, um nome que deveria ser banido da circulação para todo o sempre. Penso muitas vezes na morte de Titus, na história horrenda dessa morte, nas imagens dessa morte, na minha neta, uma jovem devastada, reduzida a pouco mais que nada, por essa morte, mas, para já, não quero ir por esse caminho, não posso ir por esse caminho, tenho de mantê-lo tão longe de mim quanto possível. A noite ainda é uma criança e, enquanto para aqui estou deitado na cama, perscrutando a escuridão, uma escuridão tão negra que nem consigo ver o tecto, ponho-me a recordar a história que comecei a noite passada. É o que eu faço quando o sono se recusa a vir. Deixo-me ficar deitado na cama e conto-me histórias. Podem não ser nada de especial, mas, enquanto estou dentro delas, impedem-me de pensar nas coisas que preferiria esquecer.»

[in Homem na Escuridão, de Paul Auster, trad. José Vieira de Lima, ASA, 2008]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges