De Z(ahir) a A(leph)

Depois de O Zahir, Paulo Coelho prepara-se para lançar O Aleph.
Jorge Luis Borges, coitado, lá vai dando voltas e mais voltas na tumba.

O Coehlo está solo (porque só existe em Espanha)

Nunca me passou pela cabeça ler O Vencedor Está Só, de Paulo Coelho (li a imensa biografia do Fernando Morais e chega). Mas era capaz de dar uma hipótese a El Vencedor Está Solo, de Paulo Coehlo.

O lado negro do senhor cem milhões

O Mago
Autor: Fernando Morais
Editora: Planeta
N.º de páginas: 630
ISBN: 978-989-657-010-1
Ano de publicação: 2009

Em traços gerais, pode dizer-se que há dois tipos de biografias sobre pessoas vivas: as autorizadas e as não autorizadas. As primeiras estão sujeitas ao crivo da «vítima», pelo que tendem a ser neutras (nos melhores casos) ou ostensivamente hagiográficas (nos piores). As segundas não obedecem a nenhum acordo entre o biógrafo e o biografado, o que compromete quase sempre a sua credibilidade e até a sua legitimidade. Não faltam nas livrarias exemplos de vinganças pessoais, apoiadas em «revelações» especulativas e assinadas por antigos mordomos, amantes traídas ou amigos desavindos, ávidos de um ajuste de contas que humilhe o «ex-» na praça pública. Em O Mago, Fernando Morais inaugura uma terceira categoria: a biografia autorizada que revela tudo o que se espera de uma não autorizada. Ou ainda mais.
Bombardeado por dezenas de propostas de biógrafos do mundo inteiro, Paulo Coelho escolheu Morais por reconhecer isenção e rigor ao repórter de São Paulo, um marxista que não deixou de apontar o dedo às atrocidades cometidas pelo Partido Comunista Brasileiro, no livro que escreveu sobre Olga Benário (a companheira mártir de Luís Carlos Prestes, secretário-geral do PCB). Coelho não ignorava, por isso, os riscos que corria ao dar acesso total aos seus diários, até aí fechados à chave num baú. Logo que abriu a enorme arca, com 170 cadernos e quase uma centena de cassetes lá dentro (cobrindo exaustivamente quatro décadas), Morais soube de imediato que lhe tinha caído no colo a sorte grande, sob a forma de uma caixa de Pandora. Depois, foi só tirar lá de dentro – e organizar cronologicamente, um a um – os muitos segredos inconfessáveis do biografado.
Antes de chegar ao estrelato actual (muitíssimo bem descrito no primeiro capítulo, que regista com minúcia o dia-a-dia da popstar, durante o périplo de lançamento de O Zahir, em 2005), antes de cumprir o seu sonho obsessivo («ser um escritor lido em todo o mundo»), a existência de Paulo Coelho foi uma sucessão de tragédias, desilusões e falhanços. Ao menino que nasceu clinicamente morto, aconteceu de tudo: experiências com drogas, indefinições sexuais, internamento num manicómio (onde foi tratado com electrochoques), uma fase hippie, uma fase satânica, profissões precárias, estudos de vampirismo, pactos com o diabo, passagens pelos cárceres da ditadura, depressões profundas, inseguranças épicas, derrotas humilhantes, epifanias em Dachau e uma lista infindável de sacanices perpetradas a torto e a direito. Sem entrar em detalhes, Paulo Coelho foi, durante anos a fio, um aldrabão, um mentiroso, um cobarde, um plagiador, um ganancioso sem escrúpulos, um mitómano e um absoluto irresponsável. Em suma, um escroque. Ou, na visão dos seus fãs, um ser que estava condenado às chamas do inferno, mas que um dia viu a luz e se salvou.
Com as suas contradições e zonas de sombra, a vida atribulada de Paulo Coelho tem potencial para dar um bom romance – decerto muito melhor do que os livros medíocres e edulcorados que fizeram dele um best-seller. Sem nunca abandonar o reduto da objectividade jornalística, O Mago é uma muito conseguida aproximação a esse romance ainda por escrever, sobre um homem que aparentemente venceu os seus fantasmas e recalcou as suas ignomínias, de olhos postos numa glória material (os 100 milhões de livros vendidos, a fama, a fortuna) e espiritual (os lugares-comuns místicos, a pose beatífica) que o redima dos abismos onde esteve quase a perder-se.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Os autocríticos

Soube-se há dias que Paulo Coelho, além de ter um blogue onde pirateia os seus livros (numa estratégia de marketing viral), escreve anonimamente sobre eles na net. Nada de novo. Em tempos, também Anthony Burgess assinou sob pseudónimo uma crítica literária a obra sua. A diferença é só esta: Paulo Coelho diz bem, Burgess disse mal.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges