Babel é apresentada amanhã

CONVITE BABEL

O novo grupo editorial de Paulo Teixeira Pinto, que não gosta de lhe chamar «grupo», será apresentado oficialmente amanhã, 6 de Fevereiro (por ser o dia de nascimento do Padre António Vieira), a partir das 18h00, no Auditório da Biblioteca Nacional. Da Babel passam a fazer parte nove chancelas, com identidades editoriais bem definidas: Guimarães, Verbo, Ulisseia, Ática, Arcádia, Athena, Centauro, K4 e Pi.
Na edição de amanhã do suplemento Actual, do Expresso, Teixeira Pinto explica em detalhe este projecto, referindo-se ainda aos seus objectivos enquanto presidente em exercício da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, num trabalho assinado por mim.

Paulo Teixeira Pinto lido por Mário Crespo, Nicolau Santos e Pedro Abrunhosa

Eu não gosto da poesia de Paulo Teixeira Pinto. Disse-o aqui e mantenho. Mas, não fosse andar afundado em trabalho e em corveias auto-impostas (a leitura suicida dos finalistas do Man Booker), tentaria por todos os meios assistir ao lançamento do novo livro do antigo banqueiro e actual proprietário da editora Guimarães. Sobre LXXXI, Poema Teorema (Caderno) falarão Vasco Graça Moura e António Emiliano, no Laboratorio Chimico da Escola Polytechnica [sic], Museu da Ciência, em Lisboa, na quinta-feira, dia 9, às 18h30. Alguns poemas serão lidos por Mário Crespo, Nicolau Santos e Pedro Abrunhosa. Repito: Mário Crespo, Nicolau Santos e Pedro Abrunhosa. Se alguém conseguir ir, conte-me por favor como foi.

Depois da Guimarães, a Ática

Paulo Teixeira Pinto vai somando editoras clássicas.

Serviço público

Quem revela um talento, depois não o pode deixar cair.
Por isso aqui deixo, pensando nos leitores sem acesso à edição de ontem da revista NS, mais três pérolas de Paulo Teixeira Pinto, a grande revelação literária de 2008.
Comecemos pelos aforismos:

Atenção: o tempo pode fazer mudar as convicções mas não o carácter.

Nós não somos números. Mas os números estão em nós.

E fechemos com o poema:

meteoro

brutal

precipitado
do sobretecto
celestial

descontrolado

aí vem
o meteoro

nada o detém

brutal

logo
nuvem
colossal

de fogo

impiedoso

ominoso

cego
sem ego

arquitecto
iridescende
[sic]

incandescende [sic]

fosfórico

catastrófico

poro
por
poro

puro

final

Do Millennium bcp para a Guimarães

Paulo Teixeira Pinto

No princípio de 2008 ficou a saber-se que Paulo Teixeira Pinto, ex-CEO do Millennium bcp, saíra da administração do banco uns meses antes, enviado por uma junta médica para a mais dourada das reformas: dez milhões de euros (sim, 10.000.000) do acerto de contas “referente ao exercício de 2007″, mais 500 mil euros de pensão anual vitalícia. Isto no fim de uma ligação profissional à empresa de apenas 12 anos (só um sexto dos quais no cargo de presidente executivo) e depois de deixar o bcp no estado em que deixou.
Escândalos e faltas de pudor à parte, muita gente deve ter pensado em que é que Teixeira Pinto, liberto da pressão da actividade bancária (tão instável por estes dias), iria aplicar o seu tempo e o seu dinheiro. Aos 46 anos, tem de sobra estes dois factores que tanto condicionam — pela falta de um, de outro ou de ambos — a vida dos portugueses normais, afogados em dívidas e numa crise que não abranda. Deixadas para trás as reuniões de accionistas, bem como os cilícios da Opus Dei, a que se dedicará agora Teixeira Pinto? A resposta não deixa de ser desconcertante: à literatura.
Segundo notícia avançada ontem pelo Diário de Notícias, Teixeira Pinto comprou a Guimarães Editores, passando a deter cem por cento do capital. A ideia não é fazer negócio mas criar “uma casa da cultura”, diz o novo proprietário. Até porque “se eu quisesse fazer uma aplicação financeira ou com perspectivas de rentabilização económica escolheria outra área”. Pode por isso ficar descansado Miguel Pais do Amaral: não se prevê a compra de mais editoras ou a criação de um grupo rival da LeYa.
Para já, sabe-se que surgirá em breve um novo logótipo e imagem gráfica, que a linha editorial será mantida no essencial (embora o catálogo passe a incluir obras no campo da “estética”: pintura, fotografia, design e arquitectura), que está prevista a publicação da obra completa de Agustina Bessa-Luís, que a livraria da Rua da Misericórdia vai ser transformada num “espaço mais apetecível” (incluindo cafetaria com acesso wireless à internet) e que a metamorfose da Guimarães estará terminada a tempo da Feira do Livro, dentro de dois meses.
Esta pulsão bibliófila só surpreenderá quem anda muito distraído na leitura da imprensa. Porque o empenho literário de Teixeira Pinto salta à vista, todos os sábados, na dupla página que a revista NS (distribuída com o DN e o JN) lhe concede. Um verdadeiro mimo que começa logo na ironia do nome — Cálculo sem folha — dado àquele generoso espaço de opinião.
E de que fala o ex-banqueiro no seu cantinho? O último número da NS (22 de Março) permite-nos ficar com uma ideia. A rubrica divide-se em três textos, dois aforismos, uma citação (Madre Teresa de Calcutá) e um poema (cá está a ambição literária). Um dos textos aborda uma tela de Berthe Merisot que pode ser vista no Museu de Orsay, outro os dez anos da Ajuda de Berço e o principal, com direito a cercadura, pertence à série “da cor das palavras”. O vocábulo em causa, desta vez, era pobreza, essa “palavra de cor âmbar”. Deixo-vos um excerto:

«Quem mais sofreu na carne a ajuda e sentiu na alma o sofrimento dos pobres extraiu uma conclusão definitiva. A qual sempre me impressionou. E essa confessa-se da maneira mais simples que é possível. Assim: o que seria dos pobres se não fossem os pobres!
De tão comum que é, até parece (quase) normal que sejam precisamente aqueles que menos possuem que, por norma, sejam também os mesmos que sempre se provam dispostos a dar. Dir-se-á que tal se há-de justificar pela presunção segundo a qual quem tem pouco, pouco valor lhe há-de dar também. Não me parece. Creio mesmo que é por terem mesmo muito pouco que os pobres reconhecem um valor extraordinário a essa pequena parte que é a sua. E que é exactamente por lhe conferirem a tal importância que os pobres se dispõem a ajudar aqueles que ainda têm menos. Talvez isto seja pouco lógico à luz dos critérios de racionalidade económica — mas faz todo o sentido segundo os ditames da generosidade.»

Convém não esquecer: esta defesa da generosidade dos pobres — feita numa prosa confusa, mal articulada e reveladora de um péssimo domínio da língua portuguesa (o que é isso de sofrer na carne uma ajuda?) — vem assinada pelo ex-CEO que não teve pejo em receber os tais dez milhões de euros, mais a pensão vitalícia. Depois disto, estou mortinho para saber qual é, para Teixeira Pinto, a cor da palavra hipocrisia.
Já os aforismos revelam o mais inesperado dos filósofos.
Ora aqui está um:

Nós e os Nos
O que faz de cada um de nós um indivíduo é exactamente ser in-dividuo, ou seja, não divisível, uno e único

O outro não lhe fica atrás:

do estado do tempo
Atenção: em cada vida, há sempre múltiplas vidas, mas cada homem é ainda e sempre o mesmo desde o primeiro sorvo de ar até ao último sopro sob os ossos

Esqueçam Pascal. Esqueçam Spinoza. Isto é que é profundidade de pensamento. Repararam na subtileza daquele “último sopro sob os ossos”? Não foi sobre os ossos, não foi à volta dos ossos, não foi entre os ossos, foi mesmo por baixo dos ossos. Até me arrepiei.
Mas o poema consegue ir ainda mais longe:

lado reverso

pensar
e não sentir

sentir
e não saber

saber
e não perceber

perceber
e não dizer

dizer
e não poder

poder
e não conseguir

conseguir
e não perecer

perecer
e viver

Esqueçam Pessoa. Esqueçam Sophia. Eis o Bardo que nos fazia falta, o nosso Wallace Stevens. O único poeta que escreve poemas, todas as semanas, na imprensa portuguesa.
Se isto não é um sinal do fim dos tempos, anda lá perto.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges