Bem parado

Nem só o crédito é malparado. O novo blogue do Pedro Mexia também é. Mas malparado num sentido só dele: o de estar em todo o lado, não estando em lado nenhum. Os posts perfeitos, esses continuam a aparecer a ritmo certo:

VIDAS
«Perdi duas vidas», confessa o rapaz, tranquilo, referindo-se talvez à PlayStation.

Faz hoje dez anos que nasceu, para mim, a blogosfera

Nasceu com a Coluna Infame. Dois meses e meio depois, criei o meu próprio blogue, para dialogar com a Coluna, para refutar a Coluna, para polemizar com a Coluna. Que saudades. Muito ao seu jeito, o Pedro Mexia, blogger entre os bloggers, aproveitou a efeméride para fechar mais um blogue. Esperemos já pelo próximo.

Pedro Mexia na ‘Avenida de Poemas’

Logo à noite, a partir das 21h30 (no palco do Teatro Tivoli), o crítico literário, cronista, poeta e blogger Pedro Mexia falará com a Raquel Marinho e comigo sobre os poemas que mais o marcaram ao longo da vida. Além da leitura desses poemas (de autores como Alexandre O’Neill, Mário Cesariny, Ruy Belo ou Manuel António Pina), haverá canções de Leonard Cohen, The Smiths e Bob Dylan.

Cinco poemas de Pedro Mexia

NÚMERO 5

Dei um passo atrás
e vi pela primeira vez
o número da minha porta.
No passeio, olhando
o metal gasto do algarismo
que há vinte e seis anos
sei que existe,
pensei em recuar um pouco mais
para ver todas as coisas que habito
e não compreendo.
Mas três passos depois
do passeio
o trânsito automóvel
impedia a perspectiva
e a sabedoria.

***

A MINHA ALTURA

Era a minha altura. Um livro
em cima da cabeça marcava
o lugar que um lápis semestralmente
riscava na parede da cozinha.
A única sabedoria dos ossos, crescerem
como a teia sólida de um propósito
e a anatomia mais transparente.
Centímetro a centímetro
espigava o corpo imaginário, essa contabilidade
que era assim, íntima, pictórica,
como uma cena burguesa.

Traço a traço a parede da cozinha
tornou-se rupestre,
a infância uma ternura assustadora.
Esta era a minha altura.
Agora sou tão mais alto e mais pequeno.

***

PARÁFRASE

Este poema começa por te comparar
com as constelações,
com os seus nomes mágicos
e desenhos precisos,
e depois
um jogo de palavras indica
que sem ti a astronomia
é uma ciência infeliz.
Em seguida, duas metáforas
introduzem o tema da luz
e dos contrastes
petrarquistas que existem
na mulher amada,
no refúgio triste da imaginação.

A segunda estrofe sugere
que a diversidade de seres vivos
prova a existência
de Deus
e a tua, ao mesmo tempo
que toma um por um
os atributos
que participam da tua natureza
e do espaço criador
do teu silêncio.

Uma hipérbole, finalmente,
diz que me fazes muita falta.

***

FERRO-VELHO

Terraços inúteis, varandas
das traseiras, arrecadações,
escadas de caracol, marquises
desbotadas, antigas estufas,
barracas, vasos partidos,
paredes abertas, telhas,
ferro-velho, andares vazios,
degraus sem uso, o fosso
do elevador, fechaduras
de portões, gatos, cadeiras,
um sol sem préstimo,
ervas daninhas, um triciclo,
humidade, silêncio, azulejos,
sábado à tarde e o meu corpo.

***

AUTO-RETRATO COM VERSOS DE CAMÕES

Foi-me tão cedo a luz do dia escura
enquanto me enganava a esperança
que naquilo em que pus tamanho amor
errei todo o discurso de meus anos.

[in Menos por Menos – Poemas Escolhidos, Dom Quixote, 2011]

Mercado de Inverno

É uma das maiores transferências jornalísticas dos últimos tempos: depois de vários anos a escrever crónicas e crítica literária no Público, Pedro Mexia vai escrever crónicas e crítica literária no Expresso. A partir de 26 de Fevereiro.

Três poemas cinéfilos de Pedro Mexia

VIDA DE CRISTO

No improvisado salão paroquial
velhas cadeiras desalinhadas anunciavam
um filme sobre «a vida de Cristo».
Éramos crianças, veraneantes,
figueirenses, crianças comungantes
mais ainda sem tormenta e com os adultos
curiosos ou tomados de fastio
fomos, oito da noite, para a vida de Cristo.
Mas alguém trocou os filmes
ou espalhou carnavalesco engano,
e logo na primeira bobine entendemos
que não era a Palestina
que o facho de luz poeirento projectava
no écran tão amador
que só podíamos chamar pantalha.
E aos poucos entrámos na narrativa.
Vera Cruz, western heráldico, napoleónico,
quase operático. Morria gente
(que ressuscitava fora de campo)
e houve quem achasse que não sendo sobre
Cristo era uma fábula imprópria
antes de dormirmos.
Mas o acampamento estival das crianças
tomava partido, vitoriava,
abraçava com braços pequenos
o efeito de alienação, as sombras humanas.
Julgo que brilhavam no fim
os nossos olhos infiéis,
belicosos, inimigos de Maximiliano.
Esvaída para sempre a surpresa, a pureza,
o motim de fascínios, a noite clara.
Nunca mais foi a mesma, a vida de Cristo.

***

CINEMA FECHADO

Cinema fechado, melancólico
o arrumador, portões
a cadeado, ruído abafado de matinés,
fria a rua, de lado a lado, a cena
em cinemascope restaurado
mas a memória no negrume horizontal,
premeditado, das barras.

***

REBEL WITHOUT A CAUSE

Duas infâncias passaram
por mim: uma, no planetário,
com o espanto dos astros.

Outra, com Sal Mineo,
que no seu mundo ansioso
vislumbrou a eternidade.

[in Poemas com Cinema, antologia organizada por Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós e Rosa Maria Martelo, Assírio & Alvim, 2010]

Pedro Mexia no ‘Café com Letras’

Crítico literário, cronista, poeta e ex-dirigente da Cinemateca, Pedro Mexia vai estar à conversa com o jornalista Carlos Vaz Marques na Biblioteca Municipal de Carnaxide, esta noite (a partir das 21h30), em mais uma sessão do ‘Café com Letras’.

Decadência

Há dois autores da geração de 70 que não perdem uma oportunidade para exercitar, quase sempre com inteligência e fina ironia, a nobre arte da autodepreciação. Um é Ricardo Araújo Pereira, embora quase sempre o exercício soe a falsa modéstia. O outro, aparentemente mais sincero, é Pedro Mexia. A recente edição de Poemas Portugueses – Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI (Porto Editora), ofereceu-lhe a deixa perfeita para escrever isto:

«Os media estão cheios de “especialistas” que anunciam o apocalipse. Sou demasiado céptico para ser catastrofista, mas há coisas que fazem pensar. Por exemplo este grosso volume chamado Poemas Portugueses (org. Jorge Reis-Sá e Rui Lage, Porto Editora, 2009). É uma obra de referência que reúne 267 poetas portugueses, da Idade Média à actualidade. No índice, vemos que a poesia portuguesa aqui antologiada começa com os trovadores e termina em Pedro Mexia. Leram bem: dos trovadores a Pedro Mexia. Eis um caso irrefutável de decadência nacional.»

‘Nada de Melancolia’ vai ter segunda edição

Editado em Novembro, o livro de crónicas do Pedro Mexia está quase a esgotar. Um sucesso mais do que merecido.

A propósito do post anterior

Não é a primeira vez que o Pedro Mexia se embrulha em «tautologias identitárias». Num post do desaparecido blogue Dicionário do Diabo, posto a salvo no volume Fora do Mundo (Cotovia, 2004), a questão já emergia em toda a sua complexidade:

TODOS OS NOMES

Furto-me a uma determinada comparência, alegando que outras pessoas representam bem melhor o tema em causa. Então dizem-me: “mas o Pedro Mexia é o Pedro Mexia”. Talvez inspirado pela leitura recente de uma antologia de E. M. de Melo e Castro, abro quatro hipóteses no que a esta frase diz respeito:
1) o Pedro Mexia é o Pedro Mexia
2) o Pedro Mexia é o “Pedro Mexia”
3) o “Pedro Mexia” é o Pedro Mexia
4) o “Pedro Mexia” é o “Pedro Mexia”
Vamos à análise:
1) o Pedro Mexia é o Pedro Mexia – uma tautologia identitária. Sou, sou eu, embora com uns auto-desentendimentos à Sá de Miranda. Neste sentido, a frase significa que eu, sendo eu, tenho que me portar como eu; acontece que Pedro Mexia só existe dada a existência de “Pedro Mexia”, o que me leva a descartar esta possibilidade.
2) o Pedro Mexia é o “Pedro Mexia” – o efeito da assinatura. Não é preciso ler Derrida para reconhecer razão a esta frase. Eu, Pedro Mexia, existo porque há um “Pedro Mexia” que poeta, critica e bloga. Sem o “Pedro Mexia” eu, Pedro Mexia, não teria qualquer relevância, ao ponto de não ser convidado para a tal comparência. Assim, o “Pedro Mexia” pode manietar à vontade o Pedro Mexia, uma vez que não existiria sem ele. Este sentido da frase confere, e assusta-me.
3) o “Pedro Mexia” é o Pedro Mexia – a tese da transparência. Como dissertarei em seguida, o “Pedro Mexia” não é o Pedro Mexia, porque o primeiro tem cuidado com a sintaxe e as aliterações, e o segundo é capaz de comer tremoços e ver televisão. Podem detestar o “Pedro Mexia”, mas esse ao menos tenta fazer as coisas bem feitinhas, ao passo que o Pedro Mexia é apenas um triste palerma. Hipótese errada, portanto.
4) o “Pedro Mexia” é o “Pedro Mexia” – a tautologia da assinatura. É uma coisa borgesiana: estou preso dentro do meu nome (do meu nome literário e profissional), não tenho existência civil, sou um títere do intelecto e da linguagem. Uma tese horripilante.
Limitei-me pois a responder: “Não sou nada”.

Being Pedro Mexia

Há alguém que se apresenta como Pedro Mexia no Twitter, mas o verdadeiro Pedro Mexia já me disse que aquele é um falso Pedro Mexia. Parece evidente que não basta ouvir The Smiths (e o verdadeiro Pedro Mexia nunca se esqueceria do The) para se ser Pedro Mexia.

Pedro Mexia vai ser, interinamente, director da Cinemateca

Crítico literário, poeta, cronista e blogger, Pedro Mexia ocupa há menos de um ano o cargo de subdirector da Cinemateca Portuguesa. Agora, com o afastamento forçado, por razões de saúde, do mítico João Bénard da Costa (o cinéfilo por antonomásia), Mexia assumirá interinamente o cargo máximo na instituição. Quer isto dizer que a Cinemateca, até nova nomeação do Ministro da Cultura, continuará a ser dirigida por um escritor.
Entretanto, Mexia colocou um ponto final em mais uma das suas etapas na blogosfera. Exit Estado Civil, fim do «psicodrama». Só não é uma catástrofe para os seus leitores porque sabemos que em breve, eu diria umas duas semanas, o Pedro já estará a encenar os seus fantasmas noutro estaminé.

Outro escritor na Cinemateca

Pedro Mexia

A nomeação do Pedro Mexia para subdirector da Cinemateca Portuguesa parece-me uma excelente notícia. E digo-o — não escondendo ser seu amigo — apenas porque estou certo de que fará um excelente trabalho no velho casarão da Rua Barata Salgueiro.
O Pedro é provavelmente o melhor crítico literário português sub-40, um notável poeta, cronista e blogger, um intelectual sólido com uma cultura abrangente e, sobretudo, alguém que não se limita a reflectir o air du temps, antes o analisa, critica, pensa. Além disso, é um cinéfilo na verdadeira acepção do termo: alguém que ama o cinema. Nunca esquecerei as muitas tardes que passei com ele, numa tertúlia de amigos, a discutir Scorsese, Ozu, Bergman ou Rohmer. É verdade que do seu currículo consta a tradução de um livro de Bresson (Notas sobre o Cinematógrafo) e vários anos de crítica cinematográfica no Diário de Notícias, mas a mim bastava-me a sua cinefilia para compreender e saudar o convite que lhe fez Bénard da Costa. Mais: se a ideia era escolher alguém que não fosse do meio, alguém exterior à teia de interesses e capelinhas que envolvem o cinema português, olho à volta e não vejo outra figura que melhor possa cumprir esse papel.
Uma palavra ainda para o novo ministro da Cultura. Ao nomear Pedro Mexia, um opinion maker que nunca escondeu o seu alinhamento ideológico com a direita conservadora, José António Pinto Ribeiro mostra a sua abertura, a sua independência política e a sua inteligência estratégica. Porque se quiser realmente, como afirmou logo de início, “fazer muito com pouco” (os míseros 0,4% do Orçamento do Estado), tem que chamar ao serviço público as pessoas mais capazes e não os eventuais boys que se ponham a jeito para os lugares.
Estão ambos de parabéns, o Pedro e o Ministro.
Agora mãos à obra.

Lançamento de ‘Se me Comovesse o Amor’

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Ricardo Araújo Pereira, Francisco José Viegas, Pedro Mexia e Jorge Reis-Sá

Foi uma coisa nunca vista. Na Casa Fernando Pessoa, quinta-feira ao fim da tarde, juntaram-se mais de 100 pessoas, talvez 150 (nunca tive jeito para calcular multidões a olhómetro, fossem pequenas ou grandes, como fazem os polícias nas manifs), mais de uma centena de cidadãos portugueses que atravessaram a Lisboa entupida do fim da tarde até Campo de Ourique, para aí um quinto do total de leitores de poesia recenseados (a fazer fé nas tiragens), enfim, gente que nunca mais acabava, ocupando todas as cadeiras, encostando-se às paredes, sentada nos degraus das escadas, em bicos dos pés para tentar ver alguma coisa, gente habituée destas coisas e gente que não costuma ir a estas coisas, de repente ali todos juntos para assistir ao lançamento do livro Se me Comovesse o Amor, de Francisco José Viegas (o director da CFP), apresentado por Pedro Mexia antes de Ricardo Araújo Pereira se estrear na qualidade de diseur.
E é aqui, claro, que está a explicação do fenómeno. Ricardo Araújo Pereira tem hoje um estatuto semelhante ao de uma estrela pop ou de um futebolista de topo. Onde vai, leva uma multidão atrás, mais os flashes dos fotógrafos e as câmaras televisivas (neste caso já devidamente actualizadas: SIC em vez de RTP). A enchente deveu-se a ele, acho que ninguém terá ilusões quanto a isso, mas o Ricardo, magnânimo e meio embaraçado, teve a elegância de não roubar o protagonismo ao anfitrião.
Depois de umas breves palavras de Jorge Reis-Sá, editor das Quasi, falou Mexia. Com desenvoltura e graça, apesar de ter deixado cair algumas piadas que anotara no moleskine (por estar presente Mota Amaral, “uma ex-segunda figura do Estado”). Sem entrar em grandes detalhes analíticos, Mexia explicou que o novo livro vem na sequência das obras mais intimistas que se seguiram a Metade da Vida, antologia que era também um balanço de vida. Aos poemas, dividiu-os em três tipos: 1) poemas “contemplativos”, reflexos de viagem por geografias do “fim do mundo” (até ao Sul mais longínquo, para lá da Patagónia, “onde nem Chatwin chegou”), cheios de enumerações e de uma enorme desconfiança em relação à capacidade da “literatura” descrever o real; 2) poemas de um “romantismo magoado” (na linha do que se pode ler no anterior A Noite, O Que É?, também de 2007), evocações melancólicas de um sujeito que procura, apesar de tudo, a “felicidade” e a “substância do amor” nos gestos mais vulgares e quotidianos, embora não ignore o efeito dissipador do tempo sobre as coisas; 3) por fim, O beijo de um académico em Paris, longo poema sarcástico, crítica às gerações anteriores (nomeadamente a de Maio de 68) e à forma como quiseram transpor para a arte os ímpetos revolucionários, um longo poema muito diferente dos outros todos e que acaba por ser um “corpo estranho” dentro do livro. Mexia disse ainda que não encontra grandes diferenças entre a escrita poética de FJV e a prosa dos seus últimos romances (Lourenço Marques e Longe de Manaus). “A linguagem é a mesma.”
Logo a seguir, Ricardo leu os poemas e deixou-me aliviado. Caramba, o homem afinal não é perfeito. Há pelo menos uma coisa em que ele não é bom. Mesmo nada bom. Bastante fraquinho, até. A bem dizer, uma nódoa: sentido do ritmo oscilante, voz monocórdica, problemas de dicção e uma expressividade digna de amanuense forçado a ler alto a portaria 1372/2007 do Diário da República. O humorista não queria que se rissem da (ou durante a) sua leitura e pelo menos isso conseguiu.
Depois de RAP, Francisco José Viegas a ler os seus poemas soou a Mário Viegas. O poeta agradeceu à Casa Fernando Pessoa a cedência do espaço (ai o sentido da ironia) e comoveu-se ao partilhar os próprios versos (sem ironia nenhuma). Fecho em beleza, muitos aplausos, apoteose, entusiasmo e atropelo para conseguir um autógrafo.
Conclusão: embora não dê uma para a caixa a ler poemas, exige-se a presença de Ricardo Araújo Pereira em todos os lançamentos de livros de poesia na zona da Grande Lisboa até Setembro (data do regresso à televisão). Afinal, foi para que isto se pudesse fazer que os Gato Fedorento entraram em licença sabática, não foi?

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges