Fair play

É sabido: nem sempre os escritores reagem bem às críticas que lhes são feitas (ou a qualquer aspecto dos livros que escrevem), mesmo quando essas críticas são construtivas. Por isso, não posso deixar de referir a notável capacidade de encaixe e simpatia de que Pedro Paixão deu mostras no comentário a este post sobre incongruências que detectei no romance Rosa Vermelha em Quarto Escuro:

«Caro José,
obrigado pela tua leitura atenta, certamente mais atenta do que a minha que deixou passar esses erros e inconsistências.
o caso do Beckett é incrível, pois é um dos autores que mais leio, e há mais tempo, tendo traduzido todos os seus poemas em francês.
mas também sabes que os apelidos ingleses podem ser escritos de várias maneiras. No caso do apelido Eliot já o vi escrito de três ou quatro maneiras.
quanto à equipe de basket tem a sua graça pois também os vi jogar mais de uma vez. um espectáculo incrível.
quanto às obras de Proust os volumes variam conforme a edição. Na Pleyade é só um ou dois. mais uma vez aqui não sei se estou a escrever bem o título da colecção e não vou verificar quantos são embora os tenha ali no outro quarto. é estranho. não dou, mas talvez devesse dar, importância a isso. e gosto de gralhas. sem gralhas o texto não canta.
e nunca esqueço a Madame Bovary que muda de cor de olhos várias vezes e não deixa de ser belíssima.
eu faço sempre muitos erros ortográficos e outros talvez porque a língua que primeiro aprendi e na qual escrevi não ser o português.
de qualquer modo muito obrigado. se houver uma segunda edição será corrigida.
com um abraço,
pedro»

Adenda: um dia depois, Paixão comentou igualmente a recensão, bastante dura, que fiz ao seu romance. Nestes termos:

«Caro José,
compreendo muito bem a tua critica e poder-me-á ajudar no próximo volume já que este é o primeiro de uma série de três.
quanto ao espírito do livro acho que o captaste muito bem com o titulo da tua critica. O abismo vazio é onde de facto estamos, ainda não reparaste? E o tédio por debaixo de tudo (Heidegger). E o indizível (Wittgenstein).
E de facto a acção é completamente acessória, como em Beckett, Joyce e Proust. O que ela gosta é de pensar e foder. Como eu.
abraço
pedro

ps – já descobri porque não consigo escrever o nome do S.B. correctamente. Porque estudei quatro anos num colégio que se chamava Thomas Becket – só com um T. deve ser de um traumatismo na memória.»

O abismo vazio

capa 'Rosa Vermelha'

Rosa Vermelha em Quarto Escuro
Autor: Pedro Paixão
Editora: Bertrand
N.º de páginas: 257
ISBN: 978-972-25-1715-7
Ano de publicação: 2008

Recém-chegado à Bertrand (após passagens pela Cotovia, Oficina do Livro, PrimeBooks e Quetzal), Pedro Paixão lançou o seu mais recente romance quase em simultâneo com a reedição do livro de estreia (A Noiva Judia, 1992). Esta coincidência, ao unir os dois extremos de uma obra com mais de 20 títulos, permite confirmar o que obras como Boa Noite (1993), Muito, meu amor (1996) ou PortoKyoto (2001) já prenunciavam: Paixão é excelente quando se dedica aos contos curtos mas torna-se um escritor sofrível sempre que envereda por narrativas mais longas.
Volta a ser o caso de Rosa Vermelha em Quarto Escuro, romance palavroso no qual o leitor vai da exasperação ao aborrecimento e vice-versa. A história, se é que a podemos designar assim, está cheia de “fantasmas” que se alucinam uns aos outros e de solidões intransponíveis. Tudo girando à volta de uma nova-iorquina trancada na sua angústia, a quem acontecem coisas: a paixão mal resolvida por uma iraniana de “olhos cor de chuva”, tentativa de suicídio, um caso com o homem que a salvou in extremis, a morte do pai ou os sobressaltos que a empurram de Nova Iorque para Sintra, de Sintra para os Açores e dos Açores novamente para Nova Iorque, onde por fim uma gravidez redentora parece abrir portas ao improvável recomeço.
O resto é tão vago que escapa a qualquer resumo. A protagonista pensa muito e os seus pensamentos são o corpo do romance. O que acontece chega-nos através de um discurso analítico, capaz de dissecar, até ao osso, tudo e mais alguma coisa: uma paisagem ou as leis do amor, “o problema da escala” ou a metafísica do “destino”. E assim, nesta imponderabilidade, se vai dissolvendo um débil fio narrativo que só de vez em quando faz, quase por favor, uma ou outra concessão à verosimilhança.
Pelo meio, há leitmotivs — o primado da beleza, ecos do “romance infinito” de Proust — e alguns encontros com personagens que parecem saídas de um sonho: o traficante de ópio com uma quinta edénica; o professor de português que é poeta alcoólico depois das sete da tarde (e lhe revela Ruy Belo, Cinatti, Herberto Helder); ou o escultor judeu que escapou, cheio de culpa, ao horror do Holocausto. No entanto, até estes pontos de fuga acabam por ser devorados pela vertigem verbal da americana sem nome, que tudo absorve e sufoca num ímpeto solipsista.
A escrita de Paixão não mudou: frases curtas, fluidas, sempre à beira do aforismo ou do paradoxo. Mas se este estilo aéreo resulta muito bem em textos de cinco parágrafos, está longe de aguentar a travessia de duas centenas e meia de páginas. Seria necessário outro fôlego, outro rasgo, outra coesão. Em vez disso, na ânsia de fixar epifanias e retratos dos abismos existenciais, o texto dissipa-se numa verborreia filosofante, que tanto se coloca em bicos dos pés (alusões a Joyce e a Balthus) como se aproxima de uma espiritualidade new age, com anjos decididos a salvar a “alma” de burgueses entediados. O tédio, que “está por debaixo de tudo, antes de tudo, à espera de tudo”, é justamente o mínimo denominador comum deste livro atravessado por ideias, pessoas e palavras que “aparecem para logo desaparecerem” da nossa memória, devoradas pelo mais absoluto vazio.

Avaliação: 4/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Teaser

A modelo e actriz Inês Castel-Branco lê uma passagem do romance Rosa Vermelha em Quarto Escuro, de Pedro Paixão (Bertrand). O lançamento do livro acontecerá no dia 2 de Abril, às 18h30, na livraria Bertrand do Chiado.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges