Quando um editor atravessa o espelho

Editor Contra – Fernando Ribeiro de Mello e a Afrodite
Autor: Pedro Piedade Marques
Editora: Montag
N.º de páginas: 360
ISBN: 978-989-2033-07-5
Ano de publicação: 2015

No centro de uma banheira circular, cheia de água e espuma, está sentado um homem de porte aristocrático, pêra bem aparada, cigarro na mão, bigodes torcidos. Do lado de fora, figurantes vestidos de diabo e supostas raparigas (que na verdade eram travestis) pavoneando-se com palavras escritas a marcador na pele e nas fitas com que prendem os cabelos. Estamos em Dezembro de 1971 e a apresentação daqueles quatro livros acabados de lançar pela editora Afrodite – História Trágico-Marítima, O Grande Livro de S. Cipriano, a versão para adultos de As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, e Anti-Duhring, de Engels (este último imediatamente proibido) – tornar-se-ia lendária. Rodeado de jornalistas, Fernando Ribeiro de Mello, a quem logo chamaram «Dali de Lisboa», responde apenas ao que lhe interessa, ciente de que o happening tem força por si mesmo. Na tarde seguinte, a «sessão líquida» aparece na primeira página do Diário de Lisboa, com uma fotografia que ocupa um terço da mancha gráfica, mesmo junto ao rectângulo onde se lê: «visado pela censura».

Se há alguém que conhece bem a censura, os seus mecanismos e perversidades, é Fernando Ribeiro de Mello. Logo no primeiro ano de actividade da Afrodite, entre 1965 e 1966, vê seis livros serem proibidos, perseguidos, levados a tribunal. O regime não estava preparado para o desassombro de um editor que começou por publicar um clássico do erotismo oriental (o Kama Sutra), para logo depois se abalançar a uma notável Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia, bem como a obras malditas: de Sade (A Filosofia na Alcova) a Sacher Masoch (A Vénus de Kazabaïka). Era, no fundo, a confirmação da aura de enfant terrible que lhe fora colada logo em 1963, quando chegou do Porto, com apenas 22 anos, e se deu a conhecer, com estrondo, no meio literário lisboeta.
Aspirante a declamador de poesia, Ribeiro de Mello organizou nessa altura um recital na Sociedade Nacional de Belas Artes com um pressuposto, digamos, peculiar. Numa espécie de prova cega, a que chamou «O Teste», ele e a actriz Isabel de Castro iam lendo poemas aos pares, sem revelar a autoria dos mesmos. No fim de cada leitura, voluntários com cronómetros mediam a duração dos aplausos que a plateia dispensava a cada texto. O objectivo era evidente: mostrar que, ao dissociar-se os versos de quem os fez (e do peso correspondente ao prestígio do autor), se obteria um julgamento estético mais livre. Para surpresa de muitos, os poetas modernistas e surrealistas, considerados mais difíceis para o público em geral, obtiveram uma aclamação bastante superior à que foi reservada aos neo-realistas. Seguiram-se semanas de protestos, indignação e polémicas nos jornais, incluindo um violento duelo verbal entre o novato Ribeiro de Mello e Francisco Sousa Tavares, que levou a peito o facto de Sophia de Mello Breyner Andresen, sua mulher, ter recebido menos aplausos do que Natércia Freire.
Estes dois momentos do percurso de Fernando Ribeiro de Mello são amplamente descritos e analisados em Editor Contra, o livro com que Pedro Piedade Marques decidiu resgatar do esquecimento um dos agentes culturais mais singulares da segunda metade do século XX português. Singular e atípico, em muitos sentidos. Se a Afrodite, na última década do Estado Novo, foi um exemplo de desafio subversivo à lógica do regime, depois do 25 de Abril continuou a funcionar em contra-corrente. O editor que teve a coragem de publicar o que antes não era permitido, por ser considerado atentatório da moral e dos bons costumes, viu-se num dilema quando a liberdade fez desaparecer todas as limitações. Moveu-se então no sentido contrário, dando à estampa, em pleno PREC e nos anos seguintes, obras de teor anti-comunista, panfletos de direita e até uma edição de Mein Kampf. Era o princípio do fim para um homem que se opôs sempre aos poderes instituídos, que nunca deixou de ser intransigentemente «do contra». Ora a intransigência, como é sabido, tem os seus custos. A partir dos anos 80, a Afrodite entra em decadência, naufraga em dívidas, enquanto o editor acaba falido, incompatibilizado com quase toda a gente e, depois da sua morte precoce (aos 50 anos), esquecido.

Pedro Piedade Marques nasceu em 1971, «o ano da banheira». Lembra-se de ter comprado o seu primeiro livro da Afrodite na Páscoa de 1986. Muito mais tarde, tornou-se ele próprio editor (Livros de Areia) e um estudioso da história da edição nos seus mais variados aspectos, do design gráfico ao percurso dos grandes homens que foram surgindo na indústria do livro. No seu blogue, Montag, que tem como descritivo “resgate do fogo para retronautas”, recupera não só edições antigas, e suas circunstâncias, mas muitas figuras de mestres do ofício que foram ficando à margem, devorados pelo olvido. Fernando Ribeiro de Mello era uma dessas figuras. «A ideia que eu tinha dele era a do editor suicida, o tipo que depois de 74 desbaratou a aura que trazia dos tempos da censura. Mas não foi bem assim. Mesmo as edições mais loucas dele, como o livro do Hitler, em 1976, ou os ensaios anti-soviéticos, têm uma lógica, são uma provocação ao novo sistema político. ‘Deixem-me lá ver se são assim tão liberais como apregoam.’ O problema dele foi o timing.» Era ainda demasiado cedo, a sensibilidade ideológica não permitia grandes heterodoxias, e a maioria dos dez mil exemplares de Mein Kampf, publicado na convicção de que é preciso conhecer para condenar, ficou a apodrecer no armazém. «Foi um de muitos desastres. Mas quando descobri que houve condições objectivas que determinaram o seu fracasso, percebi que fazia sentido olhar melhor para o seu percurso.»

Durante três anos, a investigação ampliou-se. Além de depoimentos escritos de Vítor Silva Tavares, o mentor da &Etc, e do tradutor Aníbal Fernandes, Pedro Piedade Marques reconstituiu minuciosamente a ascensão e queda de Ribeiro de Mello (recorrendo à metáfora da travessia do espelho, vendo no objecto do seu estudo não tanto o equivalente da Alice de Lewis Carroll, mas antes o Valete de Copas). A riqueza do texto está no modo empolgado como são contadas as muitas histórias do editor e de quem com ele conviveu, apoiadas numa profusão de documentos, fotografias e fac-símiles, entre os quais algumas raridades, como três cartas de Luiz Pacheco ou o texto integral de As Avelãs de Cesariny (um ataque de pendor homofóbico, que «hoje seria completamente inaceitável»). Acrescentou ainda a transcrição de conversas com dois dos ilustradores da Afrodite, Eduardo Batarda e Nuno Amorim, além de uma cronologia dos 85 títulos publicados por Ribeiro de Mello entre 1965 e 1989.

Pedro Piedade Marques continua a considerar um escândalo que em 2015 uma história como esta, não só de um editor excêntrico mas de toda uma época cultural do país, estivesse por contar. «Sorte a minha, claro.» Uma sorte que se estende à oportunidade que teve de conhecer Vítor Silva Tavares, recentemente desaparecido, um dos poucos amigos indefectíveis de Ribeiro de Mello. «O Vítor abriu-me todas as portas. Passou-me o testemunho daquele tempo. Por isso, o livro também é dele.»
Findo um trabalho que ganhou foros de obsessão, não pensa avançar já com outras «operações de resgate», mas gostava ainda de abordar o trabalho de Bruno da Ponte à frente da Minotauro (editora que a PIDE destruiu literalmente) ou, já agora, os «extraordinários» quatro anos que Vítor Silva Tavares passou na Ulisseia, durante a década de 60.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Com a cabeça debaixo do braço

A Última Sessão – A edição dos textos malditos de Luiz Pacheco
Autor: Pedro Piedade Marques
Editora: Montag
N.º de páginas: 40
ISBN: 978-989-2030-19-7
Ano de publicação: 2012

Além de designer gráfico, tradutor e responsável por um excelente projecto editorial (Livros de Areia, cujo único defeito está na parcimónia do catálogo), Pedro Piedade Marques é também autor de um blogue de referência sobre a arte de criar capas para livros. Em Montag, vem recolhendo textos de análise – muito bem escritos, organizados e ilustrados – que revelam o seu conhecimento do métier, uma vasta erudição técnica e um fervor de enciclopedista.
Agora, aproveitou a marca do blogue para lançar um livrinho que assinala os 35 anos da publicação «oficial», em 1977, dos Textos Malditos de Luiz Pacheco, pelas edições Afrodite (ao fim de muitos avanços e recuos, num processo moroso de recuperação das prosas proibidas pela censura, ou perdidas na «gaveta», que fora iniciado logo após o 25 de Abril de 1974). Graficamente exemplar, A Última Sessão revela-nos em detalhe vários aspectos da génese deste livro problemático, em particular a forma como nele convergiram as energias e o talento de três homens: o próprio Pacheco, de «vida caótica» e apostado em pôr a render, muito ao seu jeito, uma «requentada» mas brilhante «antologia abjeccionista»; o editor Fernando Ribeiro de Mello, um dandy sofisticado que se via como o Jean-Jacques Pauvert português; e o ilustrador Henrique Manuel, que explorou a figura de um «Pacheco-marioneta do teatro de si mesmo», mostrando-o na capa com a cabeça debaixo do braço.
Para Pedro Marques, há nos Textos Malditos uma dimensão «crepuscular», no sentido em que marca o «início do correr de cortinas» na carreira destes três criadores. É uma tese discutível, até nas suas metáforas teatrais, mas impecavelmente argumentada.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges