Uma nação suicida

despais

Despaís
Autor: Pedro Sena-Lino
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 330
ISBN: 978-972-0-04486-0
Ano de publicação: 2013

Das muitas formas de abordar ficcionalmente a crise aguda que Portugal vem atravessando nos últimos anos, Pedro Sena-Lino escolheu a mais extrema: imaginar o que acontecerá ao nosso país se as políticas de austeridade forem levadas longe demais. No começo do romance, em Setembro de 2023, os resultados do quinto programa de ajustamento estão à vista: taxas dos juros da dívida soberana nos 35%; congeladas todas as pensões de reforma; quase metade da população no desemprego; propinas obrigatórias no ensino básico. A «espiral de pobreza e perda de direitos», iniciada «no preciso dia de 2011 em que Portugal pedira ajuda à troika», atinge agora proporções insustentáveis. O país – exausto, exangue – está à beira do colapso. E, em pouco mais de um mês, colapsará mesmo.
Despaís é o relato desse apocalipse. Ou seja, de um suicídio. O suicídio de Portugal. Tudo começa com a iniciativa de um grupúsculo de extrema-direita que propõe um referendo: «Concorda com a dissolução total do Estado Português?» Inicialmente desvalorizada como uma brincadeira de mau gosto, a iniciativa depressa ganha embalo, força, apoios (até de partidos de esquerda) e centenas de milhares de assinaturas. A ideia subjacente não podia ser mais simples: se o país acabar, acaba a dívida. E poder-se-á então «começar do zero», criar uma «nova ordem», inventar outra forma de democracia. O que está em causa, no fundo, é o destino a dar aos estados-nação, «mortos pela sociedade de consumo excessiva, pelo financeirismo que destruiu as raízes do estado social». O povo, farto de governantes sem passado nem futuro, presos no «presente da dívida», ao serviço de interesses financeiros «sem rosto», capazes até de vender o Mosteiro dos Jerónimos por mil milhões de euros, propõe-se corrigir «um erro histórico de proporções monumentais», mesmo que isso implique um hara-kiri exemplar.
Os factos sucedem-se numa vertigem: crises políticas, caos social, invasão popular da Assembleia, a Constituição anulada (tornando possível o referendo inconstitucional), e votação esmagadora a decretar o fim do mais antigo país da Europa. Previsivelmente, as promessas de «ressurreição» esfumam-se num instante. Não há Fénix; só cinzas. Tudo se desfaz. A Madeira e os Açores tornam-se independentes, a região norte é ocupada por tropas espanholas, o resto do território acaba vendido ao desbarato a grandes empresas estrangeiras. Nas praias, trezentos mil «desportugueses» fazem-se ao mar, em «Crísias», embarcações feitas de restos de madeira e plástico, «símbolos dolorosos de um passado gloriosamente burguês, ouropel europeu», imensas barcaças «de construção babélica» à deriva no oceano. E volta o povo português à sua condição de «nómada marítimo».
As dezenas de narradores deste romance criam uma estrutura polifónica que permite transições eficazes entre os muitos planos da narrativa: da vida concreta das pessoas que perderam tudo (até o nome) aos ínvios labirintos do poder, onde um primeiro-ministro fraco se sujeita à agenda do diabólico ministro das Finanças (espécie de cruzamento entre Salazar e o Marquês de Pombal), passando pelo heróico Bartolomeu Henriques, jornalista que lidera a revolta e o êxodo dos «embarcados». Sena-Lino é melhor a descrever os grandes movimentos de massas (memorável, a cena da pilhagem do Museu de Arte Antiga) do que os conflitos interiores das personagens. Para além da normal suspensão da incredulidade, Despaís exige do leitor que ignore essa coisa chamada verosimilhança. E o leitor aceita, porque este não é um livro realista mas onírico. Uma fantasia lúgubre. A descrição do pesadelo em que se pode transformar o sonho mau que temos vivido.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O livro de vidro

333
Autor: Pedro Sena-Lino
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 184
ISBN: 978-972-0-04274-3
Ano de publicação: 2009

Pedro Sena-Lino (n. 1977) é sobretudo conhecido como poeta – tem sete livros publicados – e professor de escrita criativa. Neste momento, está a doutorar-se em Literatura Feminina do século XVII, uma investigação académica que serviu decerto como detonador para o seu primeiro romance, 333, publicado pela Porto Editora – numa edição em capa dura que tem merecido um esforço promocional considerável (raro, diga-se, em autores estreantes).
Decalcando-a de Soror Mariana Alcoforado, mas igualmente de outras mulheres vítimas de «séculos de apagamento», Sena-Lino começa por inventar uma freira que escreve, em latim, 12 extraordinárias Cartas de amor (talvez místico, talvez carnal). Chama-se Soror Flâmula da Encarnaçam (1538-1622), é portuguesa, vive fechada no imaginário Mosteiro de Santa Maria Madalena, e as suas ardentes palavras acabam impressas, em Milão, por Darius Waerminger, um respeitado discípulo de Aldus Manutius.
Enfeitiçado pelas Cartas, Waerminger esmera-se na produção de cada um dos 333 exemplares do livro, ricamente encadernados e transportando, lá dentro, «a sua vida impressa». Isto é, albergando nas suas páginas uma espécie de totalidade, já que «observava em cada livro composto como o seu coração se desdobrava e se expandia, como se tivesse encontrado um lugar definitivo no mundo para todos os seus sentimentos». É a disseminação pela Europa desta obra que tudo reflecte, exalta e absorve (semelhante a «um livro de vidro, onde todos os homens possam ler e ver-se no que serão completamente no futuro») que o romance procura traçar, fragmentando-se pelo caminho em dezenas de pequenas histórias, uma para cada leitor ou proprietário dos exemplares das Cartas.
Esta multiplicação de enredos, alguns curtíssimos (tão lapidares que cabem num parágrafo, ou mesmo numa frase), outros maiores e com fôlego de história autónoma, trazia em si um risco: a implosão daquilo a que podemos chamar a consistência e unidade do romance como um todo. Que isso nunca chegue a acontecer, por muito que saltemos de um espaço geográfico para outro, ou de uma época histórica para outra, é a prova de que Sena-Lino conseguiu manter o controlo sobre a matéria ficcional proliferante que tinha entre mãos. Um feito em si mesmo, diga-se, e daqueles que não está ao alcance de qualquer escritor.
No fundo, 333 é um apaixonado exercício de bibliofilia, de fé no poder da palavra escrita e na capacidade que os livros têm de transformar a vida de quem os lê. O que acontece quando um livro encontra o seu leitor? Eis a pergunta a que este livro responde, inventariando com zelo cada um desses encontros, numa espécie de arqueologia da recepção que em condições normais é impossível de fazer (nenhum autor conhece o destino de todos os exemplares do livro que escreveu). Nas dezenas de histórias de 333, muitas delas cruzadas, encontramos algumas epifanias e encantamentos, mas sobretudo desastres, horrores, tragédias. De uma forma ou de outra, quase todos os exemplares se perdem e predominam, num universo saturado de símbolos, as destruições pelo fogo (com destaque para aquelas em que intervém Frei Jusué da Sarça Ardente, um censor obstinado) e pela água.
A arquitectura de 333 – original, sólida, bem articulada – é o seu maior trunfo. O problema está na escrita de Sena-Lino, no excesso metafórico, na ênfase lírica que boicota ou entorpece demasiadas vezes o processo ficcional, no abuso de expressões gongóricas («a profundidade secreta da sua alma», o olhar que golpeia «de eternidade», os amantes «rasgando-se num relâmpago interior de prazer», etc.) que se tornam cansativas, mesmo sabendo que a narradora, a tal monja reclusa do século XVII, teria forçosamente que escrever num estilo barroco, para ser fiel à sua natureza e ao seu tempo. Acontece que o barroco de Soror Flâmula é uma espécie de supra-barroco, de barroco para lá do barroco, uma apoteose verbal que acaba por se consumir no seu próprio ímpeto. Para domar um pouco a torrencialidade desta escrita, exigia-se um maior trabalho de edição, que podia ainda ter evitado pleonasmos («entrar dentro da loja»; «há uns anos atrás»), diversas incongruências narrativas (como os três filhos rapazes do Duque de Urbino que passam, na mesma página, a «duas crianças interessadas no entendimento», sem que se perceba o que aconteceu entretanto à terceira) e até erros toponímicos (há uma personagem que está «numa pequena leitaria na rua Ivens» em 1875, quando a rua não se chamava de certeza assim; até porque Roberto Ivens, nascido em 1850, só começaria dois anos depois as explorações geográficas em África que o tornaram famoso).

Avaliação: 6/10

[Versão longa de um texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Dedicatórias

As dedicatórias nunca são inócuas, mesmo as que parecem inócuas. Às vezes, são actos de despojamento ou noção da realidade (como a do Rui Pires Cabral). Às vezes, são apenas gestos que repõem uma certa forma de justiça. Como a dedicatória de Pedro Sena-Lino, em 333, um romance de bibliófilo, sobre o impacto que os livros podem ter na vida das pessoas:

«Para o Olímpio, que tanto viveu de livros,
e tantos livros fez viver»

Primeiro parágrafo

«Chegado aos cinquenta e cinco anos, e trinta de impressor, Darius Waerminger era Jacob contra o Anjo: imprimia furiosamente, para resgatar do silêncio e da memória tantas coisas que ficariam perdidas.»

[in 333, de Pedro Sena-Lino, Porto Editora, 2009]

Blogue sobre Escrita Criativa

É do Pedro Sena-Lino e parte das suas experiências de formador na área, bem como dos livros que publicou sobre o tema na Porto Editora. Consultar aqui.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges