Grande Prémio APE de Poesia para Pedro Tamen

O Livro do Sapateiro (Dom Quixote), de Pedro Tamen, obra já distinguida este ano com o Prémio Literário Casino da Póvoa/Correntes d’Escritas, acaba de ganhar o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores. O júri, que decidiu por maioria, foi composto por Ana Marques Gastão, Fernando J. B. Martinho e Francisco Duarte Mangas.

Lição das trevas

Um Teatro às Escuras
Autor: Pedro Tamen
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 48
ISBN: 978-972-20-4401-1
Ano de publicação: 2011

Vinda lá de trás, uma personagem sem nome atravessa uma «floresta de cadeiras» e senta-se junto a outra personagem sem nome, na primeira fila. Então, as luzes apagam-se de súbito e elas saltam, «incandescentes», para o «palco que nunca ninguém viu». Que palco é este? Que personagens são estas? De onde veio e para onde vai o «drama inexistente» de figuras que se procuram, de poema para poema, tacteando no mais denso negrume? Não o saberemos. Em Um Teatro às Escuras, de Pedro Tamen (Dom Quixote), as perguntas desfazem-se no próprio momento em que são enunciadas. Aquele palco abstracto pode ser o mundo, a noite do mundo, a vida, mas isso não o torna mais concreto nem compreensível.
A única certeza é a de que as personagens que se procuram são um Ele e uma Ela, vozes perdidas nas trevas, duvidando de tudo e de si mesmas. São arquétipos, Adão e Eva sem um Éden que lhes dê sentido, perdidos num espaço que parece a antecâmara de outra coisa qualquer. Ansioso, Ele antecipa fulgores e cintilações, indícios que só ganham forma porque os evoca; enquanto Ela avança com «passos / de gazela insegura», mas ainda assim capaz de acreditar: «Piso estas tábuas e rebrilha / a crença em qualquer coisa que aconteça». Qualquer coisa que só pode ser o amor, com a sua força gravítica que transcende o vazio e permite o «milagre» do encontro.
Neste microcosmos opressivo, tudo está como que suspenso. O tempo, por exemplo, parou: «As horas não existem / quando nem sequer há lua». E, tal como nos estados prolongados de cegueira, a audição apura-se para compensar o que não se vê: «Se nos falta a luz não nos falta o som: / ouvem-se ramos de árvores roçagantes / e riachos, gente que fala ao longe / algo que não se entende, / o ruído do mel em certas bocas, / talvez uma andorinha.» As pessoas que falam à distância, fora do palco, são os profissionais do teatro que se descobrem subitamente desarmados pela escuridão: o electricista, o ponto ou o contra-regra (incapaz agora de distinguir a entrada em cena da saída). Cada um vai explicando a sua perplexidade – até o «autor da música», um Haydn «velho e feio» que se deixa adivinhar «sereno», «em estranha alegria» (talvez, imagino eu, com a partitura d’A Criação debaixo do braço). E há também vozes que chegam do público, questionando «se é vero amor ou poema» o que nasce do diálogo entre Ele e Ela. Sem esquecer o encenador, assumindo a sua impotência: «Tudo me ultrapassa / e ninguém me obedece. / Será isto uma peça? / Talvez uma arruaça / (pelo menos parece) / mas nada que se esqueça. / Sem luz ninguém dirige / palavras, corpos, gestos, / ou a fremente mão / que desliza ou transige.»
Numa das suas peças, Beckett reduziu o teatro ao foco de luz sobre um rosto, sobre uma boca. Tamen vai ainda mais longe e elimina a própria matéria dos corpos (desnecessários quando o teatro é para ser representado apenas na cabeça do leitor). Cada poema é uma corda, cada fala uma tentativa de vencer o deserto. Por isso a história só podia ser a da aproximação gradual dos amantes em potência, com a força do desejo maior, o de existirem um para o outro: «Nascemos vindos do escuro / e ora de repente aqui voltámos / ao escuro onde de novo nos fazemos. / E assim se faz fértil o negro nada / pelo qual perpassamos para o dia / de não ser preciso procurar / a mão ignorada que estendemos / e estreitaríamos se fosse dado vê-la / aos olhos que um dia bem abertos / nos hão-de ver totais e acordados.» Depois a luz regressa, mas só para esfumar de vez a ilusão.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 99 da revista Ler]

Quatro poemas de Pedro Tamen

1.

A personagem veio lá de trás
pelo meio da floresta de cadeiras
e foi sentar-se na primeira das filas
ao lado da outra personagem.

As luzes apagaram-se de repente
e de repente as personagens acederam à luz
e saltaram incandescentes para o palco.

Para um palco que ninguém viu então,
para um palco que nunca ninguém viu.

***

12. ELE:

Se não te vejo não existo.
Não que tenha furado os próprios olhos
mas porque os fados me negaram
a visão reveladora que as minhas mãos pediram.
Estás, não estás aqui? Pois não te vejo
e nem sequer pergunto
se estou, não estou, ou sou
eu próprio sombra, e só negrume.

***

35. ELA:

Piso estas tábuas com minhas pernas fortes
exercidas no verdor do mundo
e pelo mundo;
e penso
que o chão cintila
e só assim me vês.
Mas não é o meu rasto que desejas,
é a macieza mesma que navega
atravessando o negrume
e a própria procura.

Piso estas tábuas e rebrilha
a crença em qualquer coisa que aconteça.

***

36. O PONTO:

Não dizer, não ditar,
não fazer, não ser,
não ser destino ou presciência,
estar mais escuro que o escuro,
nulo, coisa nada.
Não ponto nem desponto,
não há caixa onde o vazio caiba.

[in Um Teatro às Escuras, Dom Quixote, 2011]

Na penumbra da oficina

O livro do sapateiro
Autor: Pedro Tamen
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 57
ISBN: 978-972-20-3971-0
Ano de publicação: 2010

Quatro anos após Analogia e Dedos (Oceanos), livro em que retratou – ora com paixão, ora com ironia – uma galeria de figuras históricas e personagens literárias, Pedro Tamen regressa com um ciclo de 49 poemas que funcionam como um jogo musical de tema e variações, sendo o tema a poderosa imagem de um sapateiro que se entrega ao seu mister, cosendo solas e moldando o couro no interior de uma cave escura, talvez irmã da caverna platónica. Se a comparação entre este humilde operário «quase cego» e o poeta só se estabelece de forma explícita no poema 45, quando o primeiro se diz «acocorado como estava o escriba», o certo é que o livro no seu todo se organiza como uma arte poética que busca no esforço e sacrifício do sapateiro um exemplo e uma espécie de ética da criação.
Preso ao «curto escabelo», ele exerce uma «arte calada / de entre cordeiro e leão», fazendo «do sapato / acto» e transformando «o nada que era / no tudo que será». Sempre na primeira pessoa, explica o seu trabalho, o cuidado posto em cada gesto, esse esmero que torna a ferramenta «leve sendo chumbo». E mostra-nos, em grande plano, a mão com os seus «dedos martelados» e unhas sujas, mão «mordida» onde «os pregos doem». É ela, afinal, a ponte entre o mundo de silêncio, negrume e solidão da cave e essa outra realidade que há-de receber a obra feita, a forma em que o sapateiro se revê, imaginando o «impalpável» pé que lhe dará uso e sentido (como o leitor ao ler o poema). Por vezes há sons – um violino cigano ao longe ou «o roçagar das nuvens» – que permitem adivinhar os mistérios exteriores. Outras vezes alguém traz lá de fora «a liberdade elástica do ar», despertando no sapateiro a inveja do «vento azul dos montes» e o sonho de recuperar a «giesta» ou «um gosto de cerejas» na boca. Mas é só ao tocar a pele curtida de animais que um dia viveram livres na natureza que se dá a «lírica explosão» e então «as pastagens verdes irrompem nesta cave / e tudo se ilumina num sol que não está cá».
Tal como o sapateiro se projecta nos sapatos que saem das suas mãos, Tamen projecta-se no sapateiro. E fá-lo com a destreza verbal do costume. Coeso, compacto, com sólidas costuras, este livro é um hino à dignidade dos artesãos e ao brio de fazer, na «penumbra habitada» da oficina, as coisas bem feitas:

«neste perdido reduto
em que as mãos amadurecem
a peça que fugirá
das mãos dos que não merecem
para andar ao deus-dará
num universo de espanto

em que o amor vai curtido,
calado, surdo, tingido
de uma cor que é o sentido
da salvação que acalanto

– aqui me caio e levanto.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 90 da revista Ler]

Cinco poemas de Pedro Tamen

Meia sola é meia sola.
Será por isso que a cola
me cheira tanto a vinagre?

Mas meia sola é milagre.
E eis o que ninguém sabe:
que neste cantinho cabe,
na penumbra da oficina,
na casca do caracol,
esta pequena aspirina
que é a largueza do sol.

***

Esta perna invertida
de ferro já vivido
que me serve de forma,
onde o sapato assenta,
exala sons de mar,
ventos, canaviais,
um aceno amarelo,
dentes que mordem livres
da mordaça da cave
onde tenaz martelo.

***

Amo o sapato que faço
na própria mão que o percorre,
no calo e nas unhas sujas,
na velhice do inchaço
de uma artrose de quem morre
mas não antes que me fujas;
ó meu sapato de milho,
de juventude virada
para um pé ao pé da mão,
sapato que és mãe e filho
da minha arte calada
de entre cordeiro e leão.

***

Essa nudez de carne que vislumbro
nesta reviva pele que a mão trabalha
vem como luz na escuridão da cave
e qual espuma do mar desce na praia,
e a ferramenta é leve sendo chumbo
já sem força vetusta que se acabe.

***

Acocorado como estava o escriba,
só não escrevendo, mas escravo sou
da matéria animal que do distante campo
veio curtida com ecos de verdura
e de tão lenta, infinda paciência.
Como ele cumpro destino de invenção,
de leve e não sabida descoberta
do mundo incompleto.

Mundo incompleto, e certo,
esse que preenche a minha cave
e lhe rasga as paredes.

[in O livro do sapateiro, Dom Quixote, 2010]

Pedro Tamen fala sobre Proust

Na próxima quinta-feira, dia 11, a Comunidade de Leitura “Nós e os Clássicos”, organizada por Filipa Melo na Livraria Almedina do Saldanha, vai receber o poeta Pedro Tamen, autor da tradução portuguesa de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust (Relógio d’Água), a obra em análise este mês. Uma oportunidade para ouvir Tamen, que é um excelente conversador, a partilhar as euforias e dificuldades do seu hercúleo trabalho de resgate para a nossa língua do magnum opus proustiano.
A partir das 19h00, com entrada aberta ao público em geral.

“Deram-me o prémio porque me chamo Pedro”

A leitora Maria João Afonso esteve presente na entrega do Prémio Inês de Castro a Pedro Tamen, no sábado passado, em Coimbra. Após uma troca de e-mails, disponibilizou-se gentilmente a escrever para o BdB uma curta descrição da cerimónia, que desde já agradeço. Aqui fica:

S. Pedro ajudou e, no meio de dias tão chuvosos, sábado amanheceu de sol em Coimbra. Mesmo a tempo de deixar que os membros da Fundação Inês de Castro, depois de realizada a reunião do seu Conselho Geral, almoçassem e pudessem dar um agradabilíssimo passeio no renovado jardim da Quinta das Lágrimas, em Coimbra. Guiados pela autora do projecto, Cristina Castel-Branco, os passeantes aproveitaram o ar livre antes de se deslocarem para a sala onde iria decorrer a entrega do prémio literário que leva o nome da Fundação.
Instituído em 2006, o prémio foi entregue pela primeira vez este ano, facto que foi referido por vários intervenientes. Os homenageados foram Pedro Tamen por um livro de poesia publicado em 2006 e Urbano Tavares Rodrigues pelo conjunto da sua carreira.
Numa sala cheia de membros da Fundação Inês de Castro, familiares e amigos dos agraciados e público em geral, procedeu-se então à cerimónia. Presidida pelo Prof. Doutor Rui Alarcão da Universidade de Coimbra e contando com a presença da Ministra da Cultura, a sessão começou com o anúncio do prémio, tendo cabido a Frederico Lourenço a tarefa de falar sobre a obra premiada:
Analogias e Dedos. Numa intervenção muito interessante e bem-humorada, assumindo a sua identidade de classicista, o professor falou de uma obra que, significativamente, nas suas palavras, começa com a palavra “Engano” e termina com a palavra “salvação”: “Trata-se de um grande poeta da literatura portuguesa, um arquitecto construtor [da língua].”
Coube então a José Carlos Seabra Pereira falar do trabalho de Urbano Tavares Rodrigues e das razões que levaram o júri, presidido por Aníbal Pinto Castro, a galardoar a carreira do escritor com um “Tributo de Consagração”. Em algumas palavras percorreu a vida e obra de Urbano Tavares Rodrigues, sublinhando a relevância das obras escritas a partir da década de oitenta.
Coube então a vez aos agraciados e, após referir o debate consigo próprio e com o papel que a escrita de poesia constitui e de se interrogar sobre as razões da atribuição do galardão, Pedro Tamen terminou de forma igualmente bem-humorada afirmando que prefere pensar que o prémio lhe foi concedido por se chamar Pedro, arrancando uma gargalhada ao público presente.
Por razões de saúde, não foi possível a Urbano Tavares Rodrigues estar presente, pelo que delegou a sua representação na neta, Sofia Fraga, que leu o texto escrito pelo avô agradecendo a homenagem.
Falou por fim a Ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, que sublinhou a importância da participação e iniciativa da sociedade civil no fomento e reconhecimento da actividade literária, aproveitando para anunciar que se prepara uma reformulação — mais uma! — dos apoios do Ministério aos prémios literários. Com umas palavras para o mecenato cultural, terminou a sua intervenção.
O prémio então entregue aos galardoados consiste num cheque de cinco mil euros e uma estatueta da autoria de Cutileiro, também presente.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges