Entre Neptuno e Nzambi

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Contos de Morte
Autor: Pepetela
Editora: Edições Nelson de Matos
N.º de páginas: 94
ISBN: 978-989-95597-3-8
Ano de publicação: 2008

Depois do êxito conseguido com Lavagante, novela inédita de José Cardoso Pires que já vai na quarta edição, Nelson de Matos escolheu Pepetela para prosseguir a sua colecção Mil Horas de Leitura. Na introdução a estes cinco Contos de Morte, fica explicada a origem muito diversa dos textos (quase todos encomendas) e o facto de quatro décadas separarem o mais antigo do mais recente. Contudo, por muito que “o autor tenha forçosamente mudado” entre o início da década de 60 e os primeiros anos do século XXI, para Pepetela “pode ser que as realidades focadas não sejam afinal tão diferentes assim, ou pelo menos haja alguns fios de ligação”.
O mais óbvio desses fios, aliás sublinhado no título, é a constância da morte enquanto figura de espanto, irónica forma de castigo ou mero detonador ficcional. No primeiro conto, A Revelação (1962), ela é o agente de uma transferência simbólica, quando o miúdo protagonista vinga a indiferença com que Sô Ferreira trata uma rapariga negra, supostamente por ele engravidada, levando-a a suicidar-se com uma facada no coração. Não podendo medir forças com o comerciante português, alarve e machista, quem paga com a vida é um coelho branco e de olhos vermelhos – infeliz ersatz do colonizador.
Em O caixão do Molhado, o portuense Belarmino esconde um ataúde debaixo da cama, na sua casa nos arredores de Luanda, paredes meias com o mercado Roque Santeiro. Temendo que o levem para o cemitério de cara descoberta, só se aperceberá tarde demais que “tanta previdência pode não ser prudência”. Já Mandioca de Feitiço, em jeito de homenagem a Miguel Torga, põe Faustino, figura saída dos Contos da Montanha, a finar-se no mato africano por não dar ouvidos a “crenças pagãs”. Há também morte em O nosso país é bué, mas essa deve-se à cobiça e ilusão de quem julga que o petróleo pode nascer, pronto a usar, no quintal das traseiras.
Infelizmente, todos estes contos pecam por uma certa linearidade narrativa e limitações estilísticas que estão longe de fazer jus à obra romanesca de Pepetela. Salva-se o belíssimo Estranhos pássaros de asas abertas, escrito como introdução ao Canto V de Os Lusíadas (editado pelo Expresso em 2003), no qual se cruzam habilmente dois planos: por um lado, o contacto das populações indígenas africanas com os descobridores portugueses, vistos como “seres estranhos” e espíritos maravilhosos (ou terríveis, quando tocados pela luxúria); por outro, a luta etérea entre os deuses do concílio camoniano (Neptuno, Marte, Vénus) e as divindades locais (Nzambi, Suku, Kalunga).

Avaliação: 5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Apocalipse menor

capa 'O quase fim do mundo'

O quase fim do mundo
Autor: Pepetela
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 382
ISBN: 978-972-20-3525-5
Ano de publicação: 2008

Um dia aconteceu aquilo, a “coisa”, uma “luz intensa, como um flash num céu azul”, sopro de morte a varrer do planeta Terra todos os vestígios de vida animal. Todos, não. Como que por milagre, há quem sobreviva ao súbito desastre, uma espécie de dilúvio do Antigo Testamento mas sem água. Simba Ukolo, médico na imaginária Calpe (dois milhões de habitantes, algures na África Central, perto do Equador), é um dos sobreviventes. De regresso a casa após uma campanha de vacinação, encontra a cidade vazia: automóveis abandonados na rua, um silêncio absoluto, roupas caídas no solo a marcar o sítio onde as pessoas se volatilizaram. A primeira reacção é de pânico; depois chega a certeza de que enlouqueceu. A caminho do hospital, onde tenciona entregar-se aos cuidados de um psiquiatra, pára numa dependência bancária de portas abertas e só então esbarra na realidade. Ou seja, encontra Geny, senhora já entradota, seguidora de uma religião particularmente rígida (a dos Paladinos da Coroa Sagrada), no momento em que os dois se entregam à pouco edificante tarefa de «levantar» dinheiro à borla.
É a partir deste encontro entre náufragos, diametralmente opostos em tudo, mas ambos capazes de violar interditos sociais numa situação-limite, que se começa a estruturar a narrativa do último romance de Pepetela, arremedo de parábola pós-apocalíptica que questiona, por reductio ad absurdum, o estado da Humanidade nos tempos que correm. Para isso, o escritor cria uma pequena tribo de sobreviventes: ao médico e à fanática cristã juntam-se um ladrão pacífico, um pescador agora sem peixes para pescar (a fauna desapareceu quase toda), uma jovem historiadora somali, uma americana que passava meses na selva a estudar gorilas, um electricista nascido no sopé do Kilimanjaro e um sul-africano branco, segurança numa mina de diamantes com pinta de mercenário; entre outros.
O suhaili é a língua franca e eles vão-se conhecendo, confrontando, unindo, desunindo, resolvendo situações, acasalando, medindo forças e conjugando vontades ao sabor de uma dinâmica de grupo algo coxa — já que seriam de esperar, em circunstâncias tão precárias, muito mais conflitos. É notório que Pepetela gosta das suas personagens, às quais atribui por vezes o papel de narrador, cuida bem da prosa (apesar de algumas flutuações estilísticas) e sabe manter o ímpeto do enredo, mesmo se com uma explicação pouco plausível para o grande mistério, simbolicamente encontrada nas Portas de Brandenburgo, em Berlim, ao melhor estilo dos filmes de série B. O pior, porém, são as sistemáticas entorses na verosimilhança (a forma ultra-rápida como Jude aprende a pilotar aviões, por exemplo, ou a manutenção do fornecimento de electricidade em cidades desertas, vários meses após a catástrofe) que nem as liberdades do pacto ficcional conseguem justificar.
Já as reflexões que atravessam as longas conversas filosóficas do grupo, sobre o passado colonial, as diferenças étnicas impostas, o peso da História, a “fortaleza de Schengen” ou o regresso final às origens (para um novo começo da Humanidade a partir do seu antigo berço), conversas que ocupam grande parte do livro, raras vezes ultrapassam a superficialidade das evidências e e dos lugares-comuns.

Avaliação: 6/10

[Versão ligeiramente ampliada do texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

“O livro pediu para parar ali”

O Diário de Notícias publica hoje, nas suas páginas centrais, uma entrevista de Isabel Lucas a Pepetela. Começa assim:

«Quando terminou o romance Os Predadores disse que lhe apeteceu beber champanhe. No fim deste livro voltou a ter essa vontade?
Foi diferente. Este livro foi um jogo, espécie de brincadeira. Eu estava mais à vontade. Não estava tão agarrado à realidade. É ficção pura e quando terminei, pensei: “Isto até dava mais umas 800 páginas.” Mas tinha de parar. Foi um livro que não me custou escrever. Podia inventar as sociedades que quisesse e tive até uma certa pena de parar. No outro apeteceu-me beber champanhe talvez por saber que estava a fechar um ciclo. Houve um corte e um corte fundo.

E porque parou se o livro poderia ser o triplo?
O livro estava a pedir-me para parar ali.»

Continue a ler no site do DN.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges