As faces da guerra

Desmobilizados
Autor: Phil Klay
Editora: Elsinore
Título original: Redeployment
Tradução: Maria do Carmo Figueira
N.º de páginas: 297
ISBN: 978-989-8831-18-7
Ano de publicação: 2015

Com a retirada das tropas americanas do Iraque, o balanço do conflito militar que durou mais de uma década vem sendo feito por jornalistas e ensaístas, naturalmente interessados nas questões gerais – sejam elas os falsos pretextos para começar a guerra ou os equívocos de uma ideia de ‘nation building’ desfasada da realidade no terreno –, mas muito menos atentos ao impacto deixado pela experiência iraquiana naqueles que deram o corpo ao manifesto e ficaram com feridas físicas, ou psicológicas, por sarar.
Ex-marine, Phil Klay conheceu de perto as incidências da guerra e ouviu dezenas de relatos em primeira mão. Esteve lá. Sentiu no ar o pó do deserto. Conheceu o poder devastador do tédio e as picadas da adrenalina. Falou com soldados concretos e registou o modo como se expressam, como pensam, como sofrem, como sonham em sair dali o mais rapidamente possível. E também foi atrás dos que voltaram aos EUA e não sabem, ou não conseguem, reintegrar-se na vida quotidiana. No fundo, uma velha história que se repete. Foi assim com a guerra da Coreia. Foi assim com o Vietname. Volta a ser assim com a ressaca dos combates no Iraque e no Afeganistão.
O estilo de Klay é muito preciso, sem efeitos fáceis nem retóricas baratas. Atente-se, por exemplo, no início do conto Relatório pós-missão: «Noutro veículo, teríamos morrido. O blindado deu um salto, quase quinze toneladas de aço a irem pelos ares, a contorcerem-se, a deslocarem-se debaixo de mim, como se a gravidade estivesse a mudar. O mundo rodopiou e estilhaçou-se e, ao mesmo tempo, a explosão rebentou-me os ouvidos e fez-me estremecer todos os ossos. A gravidade foi reposta. Dantes havia ali edifícios. Agora há faróis na poeira.» A brutalidade da guerra é captada de forma crua, seca, como uma sucessão de factos em si mesmos terríveis, mas gradualmente transformados na matéria dos dias, e por isso integrados numa espécie de rotina: «Hoje de manhã, a nossa antiaérea despejou quase cento e vinte e cinco quilos de munições em cima de um ‘checkpoint’ dez quilómetros a sul da posição em que nos encontramos. Matámos um grupo de rebeldes e depois voltámos para Faluja e fomos almoçar ao refeitório. Comi peixe com feijão-manteiga. Ando a tentar fazer uma alimentação saudável.»
Descritas com a objectividade dos relatórios militares, as acções de combate são quase inteiramente desprovidas de pathos. É como se estivéssemos a assistir a um documentário feito por repórteres de imagem embedded. Há tiros, movimentações rápidas, posições ocupadas, mas Klay não oferece ao leitor a experiência do coração acelerado, dos suores frios, do medo que se embrenha até aos ossos, talvez por ver nessa partilha uma usurpação de algo que não pode ser usurpado. O horror, porém, está lá, em cada página. Mesmo se implica um certo recuo. Como o do soldado que atingiu um inimigo mas se recusa a confirmar a sua morte, antes cede a mira térmica a um camarada que assiste, pouco a pouco, ao apagamento da mancha branca que equivale à visão de um cadáver que arrefece.
Sempre na primeira pessoa, estes 12 contos colocam em cena 12 narradores diferentes. A maioria são soldados, marines confrontados com situações extremas, lá no Iraque, ou com o vazio existencial depois do regresso, quando a normalidade dos que não viveram ‘aquilo’ se torna uma agressão e o objectivo de manter relações humanas saudáveis, de amor ou amizade, vai pelo cano abaixo. Estes contos não escapam, porém, a uma certa previsibilidade, na medida em que correspondem a arquétipos ficcionais muito explorados. Que ninguém regressa inteiro de uma guerra é uma evidência. Os estragos que Klay descreve podem ser eloquentes, mas trazem sempre consigo ecos de histórias que já lemos antes, ou vimos no cinema.
O que torna Desmobilizados um livro interessante é a ampliação deste círculo, é o mostrar de outras faces, menos óbvias, da guerra. Uma delas surge num dos melhores contos deste volume: Oração na fornalha. Um capelão tenta apoiar um marine que se preocupa com o facto de os seus companheiros não fazerem distinção entre insurgentes e civis, matando indiscriminadamente todos os iraquianos que encontram pelo caminho. A sua é uma perspectiva moral, esmagada pela própria dinâmica de um movimento que assenta no mais absoluto maniqueísmo. No espelho da violência gratuita, e seu rol de vítimas inocentes, reflecte-se a falta de lógica de uma intervenção que nunca teve em conta os verdadeiros interesses do povo que era suposto salvar. Essa falta de lógica é particularmente bem captada em O Dinheiro como Arma, um conto que põe em cena um funcionário do Serviço de Relações Exteriores, «encarregado de dirigir uma equipa de reconstrução provincial». Idealista, ele quer recuperar uma central de tratamento de águas desactivada e apoiar um hospital para mulheres, mas, além de chocar com o muro da burocracia, enfrenta o absurdo dos interesses políticos, que o obrigam, entre outros disparates, a ensinar basebol às crianças iraquianas, para satisfazer a «ideia» de um milionário americano que enviou os respectivos equipamentos e tacos como sementes da «democracia».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges