O Evangelho segundo o irmão gémeo

Jesus o Bom e Cristo o Patife
Autor: Philip Pullman
Título original: The good man Jesus and the scoundrel Christ
Tradução: Ana Saldanha
Editora: Teorema
N.º de páginas: 189
ISBN: 978-972-695-978-6
Ano de publicação: 2011

Ateu assumido, Philip Pullman está habituado a ter problemas com os fundamentalistas cristãos. Na trilogia fantástica His Dark Materials, uma espécie de resposta à «propaganda religiosa» das célebres Crónicas de Narnia, de C. S. Lewis, Pullman criou um mundo em que há um Deus senil, além de impotente, inspirador de uma igreja opressora e corrupta. O facto de pertencer à National Secular Society e ter sido um dos intelectuais britânicos que assinou, há cerca de um ano, uma carta aberta contra as «honras de Estado» concedidas à visita do Papa Bento XVI ao Reino Unido, também não contribuiu para a sua boa imagem junto dos crentes mais ortodoxos. Foi contudo o lançamento de Jesus o Bom e Cristo o Patife, em 2010, numa colecção que a Canongate dedica à revisitação dos grandes mitos por escritores contemporâneos (editada em Portugal pela Teorema), a colocá-lo debaixo de fogo. Às previsíveis reacções violentas de vários sectores da igreja, juntaram-se dezenas de cartas a acusarem-no de blasfémia (e a condenarem-no ao «inferno eterno»), bem como um livro inteirinho que se limita a desmontar, ponto por ponto, as supostas inconsistências bíblicas desta obra de ficção (Philip Pulmann’s Jesus, de Gerald O’Collins).
Tal como outros escritores que se debruçaram antes sobre o tema (entre os quais José Saramago), Pullman dá um sentido diferente a vários episódios (encontrando explicações racionais para os milagres, por exemplo) e resolve alguns pontos delicados da história, que na forma canónica só se sustêm como matéria de fé (no caso da concepção «imaculada» de Maria, explica que esta chama «anjo» a um homem que lhe entrou pela janela). O achado desta abordagem narrativa, porém, está na dissociação de Jesus Cristo. Quando nasce em Belém, ele não é um, mas dois. Um par de irmãos gémeos: Jesus, o primogénito, robusto, iluminado, pronto a anunciar por toda a parte a vinda próxima do Reino dos Céus; e Cristo, o mais novo, frágil, uma sombra do outro, incapaz de grandeza, cheio de dúvidas e dilemas morais.
Cristo admira Jesus e salva-o muitas vezes com a sua argúcia, sobretudo durante a infância, mas sabe também que a mensagem do irmão, quando este começa a pregar na Galileia, precisa de uma estrutura que a perpetue. Sugere por isso a importância dos milagres como elementos persuasivos e a necessidade de uma «poderosa organização», capaz de determinar aquilo em «que se deveria acreditar e o que deveria ser rejeitado». Jesus recusa «montar um espectáculo sensacionalista para os crédulos» e continua o seu caminho de intransigente rectidão, em nome de um Deus que por vezes parece «impulsivo», «arbitrário» e até injusto. Mais do que pela trajectória do profeta, destinado a morrer na cruz para cumprir o seu desígnio divino, Pullman interessa-se pela tragédia íntima de Cristo, que no fim substitui Judas no papel de traidor, antes de encenar o embuste decisivo (ao fazer-se passar por Jesus, legitimando o suposto milagre da ressurreição).
A dado momento, um «estranho» (outro «anjo» dúbio, agente de não se sabe que poder) atribui a Cristo a função de registar, moldar e «melhorar» as histórias do irmão: «Há o tempo e há o que está para além do tempo. A história pertence ao tempo, mas a verdade pertence ao que está para além do tempo. Ao escrever sobre as coisas como elas deveriam ter sido, estás a permitir que a verdade entre na história.» Segundo o «estranho», Jesus exige uma perfeição absoluta – isto é, excessiva, impossível de alcançar. «O verdadeiro Reino cegaria os seres humanos como o sol, mas, mesmo assim, eles precisam de uma sua imagem. E é isso que a igreja será.» A igreja que Jesus antecipa como manifestação quase diabólica, ao confrontar-se com o silêncio de Deus no jardim de Getsémani. Eis a trágica ironia: a igreja ergueu-se como poder à custa do sacrifício de Jesus, mas sem a igreja ele seria esquecido, como água despejada sobre a areia. Neste belo livro, complexo, corajoso e muito bem escrito, Pullman ataca aquilo em que a religião cristã se tornou, mas nunca o seu profeta.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Philip Pullman lê Anton Tchekov

Num podcast disponibilizado pelo The Guardian, Pullman lê o conto The Beauties, de Tchekov, «a masterpiece of minimalism».

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges