Fragmentos de ‘José e Pilar. Conversas Inéditas’

No próximo dia 18 será lançado o livro, com chancela da Quetzal, que reúne as muitas conversas entre José Saramago e Pilar del Río que o realizador Miguel Gonçalves Mendes não conseguiu incluir no seu documentário José e Pilar. Até lá, e a partir de hoje, o blogue O Caderno de Saramago publicará diariamente excertos da obra.

O livro inacabado de Saramago

Da entrevista a Pilar del Río, viúva de José Saramago, publicada ontem pelo Diário de Notícias:

«Ainda há muito espólio literário para revelar?
Não.

Só o último livro que estava a escrever?
Sim. Mas não é um livro.

Não será publicado?
Sim, será publicado. Creio que é um texto maravilhoso, cheio de humor, com uma profundidade e uma carga que merece que seja publicado. Mas não é um livro porque não ainda estava acabado. Não vamos enganar ninguém.

É o princípio de um livro?
Claro, e ao qual os leitores têm direito. Como? Quando? De que maneira? Isso, logo veremos como acontecerá. E não é para fazer negócio.

Não há mais nada desconhecido na arca de Saramago?
O que havia não publicado viu-se na exposição A Consistência dos Sonhos. Não há mais, lamento. Saramago não era um autor que escrevesse e fosse metendo em gavetas para o futuro. Foi um autor tardio, e aquilo que escrevia ia publicando. Existe, sim, uma obra da juventude, de que já falámos mil vezes – Clarabóia – e da qual disse “não a quero ver publicada em vida”. Mas como não proibiu que o fosse depois, assim irá acontecer um dia. Evidentemente, será apresentado como uma obra de juventude, como o foi Terra do Pecado.

Quando se prevê essa publicação?
Ainda não houve tempo para se pensar no assunto.

Para este último “romance” já existe uma data de publicação?
Ainda não falámos com os editores nem com a agente literária. Não há pressa.

Quantas páginas tem?
Teria de as ter contado mas nem sequer as tenho numeradas no meu computador. Mas não serão muitas, cerca de 50.»

A entrevista completa pode ser lida aqui, aqui e aqui.

Sobre a edição italiana de ‘O Caderno’

Após a recusa da Einaudi em publicar O Caderno (por causa dos ataques violentos de Saramago a Berlusconi, proprietário da editora milanesa), já se sabia que o livro seria publicado por outra editora importante: a Bollati Boringhieri. Mas ontem Pilar del Río deu uma notícia, julgo que em primeira mão: em Outubro, a obra de Saramago será apresentada por três pesos-pesados da literatura italiana. Em Turim, cidade onde fica a sede da Bollati Boringhieri, será Claudio Magris a falar do livro. Em Milão, Umberto Eco. E, em Roma, o também Prémio Nobel (de 1997) Dario Fo.



Pilar del Río sobre ‘O Caderno’

«O Caderno não é um livro de crónicas jornalísticas, é um livro de vida. Aí Saramago conta cada dia o que o motiva, o que o indigna ou o que lhe apetece. Comenta o minuto, mas também recupera uma declaração de amor a Lisboa. Fala dos seus autores preferidos, com humor define as calças sempre impecavelmente vincadas de Carlos Fuentes, mas também o universo turbulento dos turcos de Jorge Amado descobrindo a América. Fala de Obama, sim, mas também de Bush, e do Papa, e de Garzón, e de Pessoa, e de Sigifredo López e Rosa Parks, de tantos lutadores pacíficos que conseguiram mudar o mundo ou o estão tentando, embora haja quem prepare receitas para matar um homem ou para condená-lo à fome, à miséria, a um estádio em que o humano acaba por desaparecer. E Saramago emociona-se com gente, com amigos, com pormenores… São seis meses de vida em que Saramago opta e conta com pinceladas que bem poderiam ser versos, reflexiona na companhia de quem o lê, propõe e não se cansa. Seis meses de cartas inteligentes para leitores inteligentes, sem artifícios e com tudo o que tem para dizer. Porque Saramago não se cala, expõe, entra, derruba montanhas ou aponta com o dedo se nesse dia não pode com a escavadora, ou são necessários mais para manejá-la, então diz que essa encosta é um impedimento, uma rémora, um obstáculo na vida de muita gente e avançamos para a deitar abaixo porque poderemos, se somos muitos.»

O texto completo da presidenta da Fundação José Saramago pode ser lido aqui.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges