Oito palavras

Sem mais comentários, não podia deixar de colocar aqui este poema de Manuel de Freitas (do livro Jukebox 2, Teatro de Vila Real, 2008):

PINA BAUSCH, 2008

Müller,
Café Müller.

A morte sabe onde fica.

Pina Bausch (1940-2009)

Morreu Pina Bausch. A grande coreógrafa, a inventora de gestos, a mulher que revolucionou a dança-teatro, tudo isso. Mas eu só me consigo recordar, agora, do seu corpo-ruína, percorrendo em cima do palco um labirinto de cadeiras, nesse Café Müller de há um ano, no São Luiz, em que foi fantasma ardendo na noite, com uma fragilidade sempre à beira do colapso.
Desceu hoje um silêncio insuportável sobre Wuppertal. E sobre o mundo.

Relâmpagos em busca de uma tempestade

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A primeira vez que assisti a Café Müller foi em 1994, quando Pina Bausch trouxe a Lisboa, então Capital Europeia da Cultura, uma retrospectiva dos seus principais trabalhos (A Sagração da Primavera, Kontakthof, Viktor), momentos para mim de pura descoberta e deslumbramento.
Uns anos mais tarde, em 1999 ou 2000 (já não sei precisar), escrevi um poema que viria a incluir no livro Nuvens & Labirintos, publicado pela Gótica em 2001. Era um exercício sobre o modo como as imagens de Café Müller permaneciam, já um pouco vagas nos contornos, mas ainda incandescentes, dentro do espectador que fui e sou. Imagens no fio da navalha, lutando contra o esquecimento, fixando na sua incerteza a beleza que um dia me comoveu.
Eis esse poema cuja precariedade ficava assumida logo no título:

MEMÓRIA, TALVEZ IMPRECISA, DE «CAFÉ MÜLLER»

O palco era uma desordem de cadeiras.
Havia corpos (seriam apenas dois?), corpos
lentos e desesperados – como náufragos.
Dido, sem Eneias, repetia a tragédia,
uma e outra vez. Os corpos rodavam,
indiferentes à sua própria magia, breves
relâmpagos em busca de uma tempestade.
Aquele não era, percebia-se, um lugar de
oráculos, certezas, declarações de amor.
Era um palco de cadeiras vazias.
Um deserto à espera de redenção.

No domingo passado, assisti de novo a Café Müller. Os seis bailarinos (sim, afinal são seis) reavivaram as imagens uma a uma, com os mesmos gestos, apenas feitos por corpos mais velhos. Pina Bausch lá ao fundo, como que desligada da acção, antecipando-a, foi mais do que nunca um fantasma ardendo na noite, com uma fragilidade sempre à beira do colapso. E os outros corpos desesperados (mas nem sempre lentos), agitando-se como náufragos; sim, como náufragos. Confirmei o que suspeitava: as duas figuras que melhor recordava, como que acima das outras, eram a rapariga sonâmbula e a personagem masculina (Dominique Mercy). Ela atirando-se para os braços dele, incapaz de a agarrar. Os dois atirando-se com estrondo contra uma parede. E a música de Purcell, a sua tristeza infinita: «Remember me but forget my fate.»
Quando cheguei a casa, procurei no YouTube e encontrei isto:

Escusado será dizer que em 1999 (ou 2000, tanto faz) ainda não existia YouTube.

[A última récita de Café Müller é hoje, pelas 18h00, no Teatro São Luiz; a lotação está esgotada]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges