Três poemas de José Luís Costa

CANTO DA ALFORRECA

Que prestígio resta ao bicho, nas hierarquias da Caparica? Nenhum pescador o admira. Da Praia da Mata à Fonte da Telha, crianças organizam brigadas de extermínio. Mas quando a alforreca canta, o mar não acredita, o mar é pele de galinha até perder de vista. São canções tolas, coisas como: «É amarga a vida das alforrecas / Ai Ai Lô / Quero crer na metempsicose / Ai Ai Lô / Quero reencarnar no dedal da tua amada.»

***

ADEUS A ISSO TUDO

Primeiro, trenós e carruagens, felizes por zarpar, e rolamentos. Depois mares, banheiras, alambiques. Gravatas, botões de punho, chapéus de senhora. «Também as minhas botas, tão doces companheiras, tão prontas a furar fronteiras?» Também as suas botas, senhor Severo. A seguir semáforos, fogos de artifício, retinas, tudo o que envolve luz. Salmos, aulas de carpintaria, senha e contra-senha.

***

ACROBATA

Antes do primeiro passo, lembra a fartura da rede dos tempos de aprendiz: Estepe de Almofadas, Oceano Salvífico. Vinho que não bebeu: nunca caiu. Hoje, nada a salvaria. A cidade veio toda. Se mar há que a submerja, é o do apetite da cidade para quedas, quebras, feras – lajes de granito querendo o seu cristão.

[in Canto da Alforreca, Douda Correria, 2016]

Três poemas de Rita Natálio

ARTESANATO

No âmago do âmago não há âmago
assim como no âmago do amo não há amo
disse o amo enquanto cuidava dos nervos das suas
plantas filosóficas.

***

START UP

Ontem estava eu no meio de um vendaval de cuecas sujas
quando proclamei: os meus objectivos
são tão claros como a minha falta de objectivos
nivelo-me pelo meio
como qualquer cidadã de metro e meio da Régua.

Sou alpinista de montes e serras de palha
troco arroz por palha
escrevo palha sobre todo o pilim do mundo
pedra sobre pedra, pedra papel tesoura
admito sem pudor e perante todos que não sei
nem quero domar o perlimpimpim do mundo.

Empalhada, empapada, empalada na conversa do psicanalista
começo a ter dificuldades no controlo de psicoventos
ai, a antevisão de todas as ideias é para mim uma câmara ardente
ai, os meus olhos de televisão vidente
vêem passar as carpideiras do real
e com elas limitam-se a carpir
com todo o já-sabido-sentido-lambido
com todo o estertor de um mundo quase vencido.

Conheço e mato,
reconheço e morro.
Reconheço e remato,
reconheço e remôo.

A ideia nasce
mas a ideia já nada-morta.
A ideia nasce
mas todo o século vinte e um
é um post-mortem e um.
Todo o século vinte e um
é um post-hit e um.
Todo o século vinte e um
é um trinta e um.

Por sorte, ainda me resta uma costela de feitante:
vendo esta ideia por dois euros no minipreço
para comprar um euromilhões
e penso na multiplicação do pão
do meu imaginário vão (de escada)
e com sorte, ainda chego a artista doutorada em vazio
e se me perguntarem porquê
responderei: porque preciso de dinheiro para comprar cuecas.

***

NOVE SEMANAS E MEIA

(para deleuze)

Deleuze, teu sapato era de nuvem
a tua língua o beco
em que aprendi a dizer
não volto mais aqui
não vejo mais televisão
quero fazer esse jardim arder
quero lento esse arder.

Deleuze, você foi embora ontem ou em 1995
e eu tinha 12 anos e já fazia planos
de consistência com as costelas
ou raspava panelas
para encontrar a linha de fuga
em que marcaria a sequência genética do acontecimento
do aço, do dente ou do radical crescimento.

Você foi embora, foi
só para eu lhe dizer adeus, adeus
eu fiquei ali na sala dos jovens lambendo o cinzeiro
acariciando a sociedade que sabe a rosa uva pasta pneu estriado
e você ali mesmo espatulou o tempo para ficar liso sobre o meu bicho.

‘Ah, mas o senhor é um verdadeiro planalto de afeto’
eu disse a você com 18 anos
e depois com 19 e depois com 20
como se você dissesse
‘ah, mas a menina é um verdadeiro túmulo de idolatria’
ao que eu respondi com 25 26 27 dúvidas
‘sei pouco sobre o devir da pedra’.

Deleuze, vem daí, deita comigo nessa mesa
sacode o meu sexo nessa jangada frágil
onde o corpo e os órgãos
são largados na operação do mundo.

[in Artesanato, não (edições), 2015]

À flor da boca

Pornografia Comum
Autor: Joaquim Cardoso Dias
Editora: Gulliver
N.º de páginas: 53
ISBN: 978-989-20-6243-3
Ano de publicação: 2015

Revelado durante a década de 90 nas páginas do saudoso DN Jovem, onde se tornou figura de culto entre os colaboradores do suplemento, Joaquim Cardoso Dias (n. 1973) é um poeta muito discreto e, talvez por isso, quase desconhecido, embora nunca lhe tenha faltado o reconhecimento de outros poetas. Até agora, a sua obra resumia-se a um único livro de poesia, O Preço das Casas (Gótica, 2002), e à organização de um volume de correspondência (Dez Cartas para Al Berto, Quasi, 2007). Esta contenção deve-se a um auto-escrutínio implacável e talvez excessivo («escrevo muito pouco e posso dizer tudo / e não falar nada»), nos antípodas de uma certa ligeireza que leva alguns autores a publicarem praticamente tudo o que escrevem.
Para JCD, a poesia só faz sentido se for um lugar de entrega absoluta, de exposição total, palco de todos os fulgores e fragilidades: «eu escrevo livros para pulsar / no mundo». E é isso que eles fazem. Pulsam como corpos perecíveis. Captam microscópicas vibrações, cambiantes de luz, matérias tão impalpáveis que estão sempre em vias de se desfazer. Em O Preço das Casas, circulávamos entre os abismos do amor e a desolação do que vem depois. Numa das páginas finais, um verso refere a «palavra morte sem princípio nem fim». Era ainda uma morte quase abstracta, mas que se materializa agora, como sombra omnipresente, em Pornografia Comum, livro que nasce de um estado de luto, após a morte recente, e quase simultânea, dos pais do poeta.
De uma obra para a outra, repetem-se títulos, alguns versos, um poema inteiro, a mesma voz magoada, delicadíssima. Esta é uma arte de elipses e incisões, de desvios e recuos, de coragem e recato, de coisas ditas «à flor da boca». E se «escrever é sempre aquele desejo demasiado / inocente», também conduz a uma espécie de conhecimento íntimo da beleza: «sei que uma criança é um espelho à janela / cercada pelas estrelas em plenos pulmões».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Quatro poemas de Joaquim Cardoso Dias

OS MORTOS

o que dissemos ontem aos mortos
talvez agora com menos amigos
seja a floração daquela memória
pesando nos ombros
para que os dias aconteçam
cada vez mais lentos
mas tudo recomeça
por me deitar contigo
deixar a luz acesa
e esperar muito que pare de chover

***

SERVIÇO DE ESTRANGEIROS

há tanto tempo que não acreditamos em nada
e nem sequer nos lembramos disso
sou apenas uma criança brincando
erguendo a recordação de uma nova pureza
o primeiro pássaro
esse peso de árvore tão feliz por engano
olha confio-te o meu coração
e trago-te esta comida estas palavras com o tempo
dos dedos
a casa onde a terra começa a viver

***

AS FOTOGRAFIAS SUJAS

conhecemos esse sortilégio fugitivo das vozes
as palavras lembradas pelos animais sob um céu imenso
vimos essa essência novos poemas
restos de ossos e de fogo indícios onde os braços
doem perseguidos pela melancolia
sabemos o azul das t-shirts no verão até perder o fôlego
e uma cama para foder o mundo
ou essa forma sublime de cuspir nos outros
e queremos ser felizes
com a máquina de barbear do irmão mais velho
e o que nos falta
é a coragem de compreender o que sabemos
como a chuva dentro de casa
demasiado transparente sobre os ombros

***

THE SCIENTIST

da via rápida os prédios parecem felizes
batendo na luz com esta música
nem se sentem os motores
muito menos ficar a olhar as árvores
e em câmara lenta a velocidade
é a verdadeira faca do sémen
a poucos segundos da civilização
fiel à morfologia dos outdoors
que separa de mim a minha própria pele
pagamento de juros no final do prazo
saiba tudo aqui ferido pelas paredes
e eu não conheço outras palavras
para tantas instruções de salvamento esquecidas
sem deuses na loucura
morder o coração perder a cabeça adormecer os prédios
e os anos passam todos os dias
e não somos felizes para sempre

[in Pornografia Comum, Gulliver, 2015]

Cinco poemas de Alice Sant’Anna

quando faltou luz
ficou aquele breu e eu
com as mãos tremendo
morta de medo
de tudo se iluminar
de repente

***


na esquina da rua
um piano que toca
notas esparsas
em lá menor

nunca vi
o rosto de quem
se esconde por trás
de acordes sustenidos

e que desfila dedos no teclado
com a leveza de quem
sustenta passarinhos
no ar

***

RUA DOS BACALHOEIROS

na rua dos bacalhoeiros
em frente à casa dos bicos
pontualmente às seis em pleno domingo
todas as lojas fechadas
sento na calçada para assistir
ao balé das andorinhas
são milhares, trilhares em revoada
que mergulham sincronizadas
feito um cardume
para anunciar em coro
os últimos dias de inverno

***

SETE ANOS

ela come tangerina
com centenas de dedos
meditativos
empenhados na função
de descascar, separar um gomo
do outro
mas não mastiga, empurra
com a língua até a pele
descosturar
feito tecido ou papel
e romper
em suco

depois caminha pelos quartos
acaricia os cabelos das bonecas
muda a posição dos objetos
desliza dedos pelas paredes

até que cada canto da casa
cheire como os dias de verão

***

dentro do apartamento
a janela sustenta a paisagem.
me aproximo, apóio
os braços: todo o mundo
desmedido
em minha frente.

mas nada
que eu possa segurar, reter.
nem mesmo o perfume
dessas tardes sem perfume, nem
um bibelô
para colecionar na estante
como fazem as avós
que não medem cuidados
com a porcelana

[in Dobradura, 7 Letras, 2008]

Corpos incorpóreos

Romance
Autor: Helder Macedo
Editora: Presença
N.º de páginas: 94
ISBN: 978-972-23-5713-5
Ano de publicação: 2015

A poucas semanas de completar 80 anos, Helder Macedo demonstra uma tremenda vitalidade ao publicar este inclassificável Romance, longo poema em cinco partes que mais parece abrir novos caminhos na sua obra do que consolidar os já existentes – como é uso acontecer com os autores consagrados. Talvez nem valha a pena discutir de onde vem o livro, ou como, ou porquê agora, uma vez que ele engendra as suas próprias circunstâncias. Contentemo-nos apenas – e já não é pouco – com a felicidade de o descobrir, nas suas acelerações, subidas ao céu, e abismos.
Logo nas epígrafes, Macedo assume o diálogo com Bernardim Ribeiro e a sombra do escritor quinhentista paira sobre cada verso, sobre cada estrofe. Numa frase de Menina e Moça, segundo a qual «o livro há-de ser o que vai escrito nele», encontramos a definição perfeita do que o autor do nosso tempo quis fazer: um texto que se alimenta de si mesmo, fantasma e eco de uma mesma voz onírica, em constante deriva. Há um ele e há uma ela, figuras nebulosas, erguendo-se de um emaranhado de sonhos, representando um vago teatro de signos que se repetem, à mercê das imagens poderosas que convocam, iluminações capazes de perfurar as trevas mais densas.
Aqui e ali surgem esboços de histórias, um fluir do tempo, uma fuga (talvez exílio), uma ilha, uma estrada em construção, faróis na noite, diálogos que se agarram a quase nada, mas depressa tudo se dissipa na força maior de uma cadência, uma espécie de ritmo cósmico que conduz o poema – e a nós, leitores, nos arrasta com ele. O impulso de metamorfose dos «corpos incorpóreos» que povoam estas páginas tende, sempre, para o horizonte de «um poema de silêncio / um romance que fosse / o que nele não fosse escrito / um olhar a olhar um olhar / a olhar / em direcções opostas / ao mesmo tempo / sem nada de permeio / um desejo a devorar o desejo / que depois iria devorá-lo».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

A voz das coisas

manhã

Manhã
Autora: Adília Lopes
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 126
ISBN: 978-972-37-1809-6
Ano de publicação: 2015

O dispositivo narrativo de Manhã não podia ser mais transparente. Adília Lopes olha para trás, escolhe momentos, e detém-se nessas clareiras do passado apenas o tempo necessário para captar uma atmosfera, uma fulguração, um rasto. Nada aqui é sistemático ou sequer cronológico, o que impera é a volúpia da recordação pela recordação, muitas vezes involuntária, como quem mordisca uma madalena proustiana sem se preocupar com as reminiscências que ela provocará.
A primeira memória circunscreve logo o horizonte desta escrita: «Em Colares, vi um bulldog branco anão em cima de uma coluna branca no jardim de uma vivenda. É a minha recordação mais antiga. É estranha. Parece inventada. Mas não é.« Ou seja: o mais estranho pode ser o mais verdadeiro. Quase no fim, lê-se: «Não se mistura a realidade com a ficção». Há nisto a força de um mandamento. Se é da vida que se fala, toda a literatura está em dizê-la como foi, sem filtros nem artifícios.
Vemos então desfilar, como num vórtice, imagens atrás de imagens. A boneca de faiança na montra da padaria, o bolo de aniversário infantil coberto de pralines («esferazinhas prateadas sobre a neve (…) de claras em castelo e açúcar»), a pistola com lanceta que pica os dedos por causa da diabetes, o «biberon» para as bonecas (caído um dia do eléctrico em andamento, «e eu a ver o asfalto pela fresta a correr vertiginoso»), os olhos das moscas que «são uma maravilha», as palmeiras demasiado altas da Escola Politécnica, os livros do Tintin, da Enid Blyton e da Condessa de Ségur («Devo tudo à Condessa de Ségur»), um vórtice de coisas que de repente se organizam, vindas do passado, como constelações.
A poetisa chega-se à janela e debruça-se para escutar «a voz das cousas», mas também para se confrontar consigo mesma. «Quando tinha 12 anos, fumava Ritz, punha Eau Verte de Puig, ouvia Cat Stevens, escrevia poemas num caderno cor-de-laranja comprado em Bruxelas. Estava apaixonada e não era correspondida.» Adília sempre escreveu este tipo de sinopses, mais literais e menos irónicas do que por vezes parecem, mas em Manhã a capacidade de síntese é levada ao extremo. Alguns poemas são mais breves do que um haiku. Penamacor: «Casas pardas / ruas tortas». Duas da tarde: «Um avião / um cão».
Por vezes, Adília assemelha-se a essa «escritora tão poupada que não escrevia para não gastar papel e tinta». Outras vezes, entrega-se à luxúria dos detalhes, de um discurso que se alimenta de si próprio. É de extremos, como na disciplina de geometria descritiva («ou tinha vintes ou tinha negativas»), ao ponto de a professora lhe dizer: «ó rapariga, tu és 8 ou 80». Tantos anos depois, a frase permanece, volta à tona, porque «é das coisas mais acertadas que há a dizer sobre mim».
Não há nisto, porém, qualquer fatalismo ou tristeza. Adília não se lamenta, nem se queixa. Pelo contrário, Adília brinca com as memórias, boas ou menos boas, Adília dança (ou melhor, dansa, «com s como a Sophia»), Adília ri-se dos outros e de si («Adília laughs»). Há mais luz do que sombras nestas páginas. Mas Adília também sabe como encostar-nos às cordas. Eis o Vazio em cinco linhas: «Aos 21 anos, a minha fotografia no bilhete de identidade sofreu uma reacção química, a minha cara desapareceu, ficou uma mancha castanha. Aos 39 anos, comprei um perfume na farmácia. Devia estar lá há muito tempo, não cheirava a nada.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

A música das esferas

collins

Amor Universal
Autor: Billy Collins
Título original: Aimless Love – New and Selected Poems
Tradução: Ricardo Marques
Editora: Averno
N.º de páginas: 293
Depósito legal: 383222/14
Ano de publicação: 2014

Nascido em 1941, Billy Collins é um caso singular na poesia contemporânea americana. Consagradíssimo entre os seus pares (foi Poeta Laureado dos EUA entre 2001 e 2003), académico respeitado, colaborador frequente da New Yorker, ele estabelece uma raríssima ponte entre a alta cultura e o público generalista. Se os livros passam o escrutínio dos críticos mais exigentes, rendidos ao alto grau de conseguimento estético de uma obra exemplar, Collins consegue igualmente reunir multidões de leitores e ouvintes, nas salas esgotadas onde faz as leituras públicas dos seus textos.
Em 2013, juntou 50 poemas novos a uma antologia generosa dos quatro livros anteriores: Nove Cavalos (2002), O Problema da Poesia (2005), Balística (2008) e Horóscopo para os Mortos (2011). Esse volume, Aimless Love, com perto de 300 páginas, acaba de ser editado em português numa cuidada edição bilingue, graficamente impecável (da belíssima capa à paginação elegante, os versos em inglês aparecendo em letra minúscula, no fundo da página) e com uma boa tradução. Dizer que se trata de um acontecimento editorial é pouco. Billy Collins é um dos maiores poetas do nosso tempo. Disponibilizá-lo finalmente aos leitores portugueses afigura-se-nos um inestimável serviço público.
O que torna Collins o poeta perfeito para quem não gosta de poesia (ou julga que não gosta) é a sua desarmante, e quase sempre ilusória, simplicidade. Não há nos seus poemas quaisquer efeitos de ocultação e opacidade, tudo se expõe com fulgurante clareza, sem necessidade de complexas exegeses. Collins canta o «amor pelas coisas quotidianas», é um homem muito atento à realidade que o cerca, aos seus ruídos, aos seus fulgores, às suas harmonias e dissonâncias. Mas é sobretudo um poeta capaz de captar o espanto na sua dimensão mais directa, quase física. Entrega-se, no fundo, a uma espécie de alquimia serena em que a matéria das existências banais se transforma noutra coisa qualquer, muitas vezes indiscernível, mas que as transcende, a essas vidas normais que são as vidas de todos nós.
Aos poetas, sugere-nos Collins, cabe o dever de olhar, de estarem «às suas janelas», sem fazerem nada mais do que observar o mundo, uma vez que é esse «o trabalho pelo qual não são pagos». A janela: eis o instrumento lírico por excelência, «porque há sempre algo para ver». E pode ser um pássaro que ficou preso dentro de casa, até que o poeta o embrulha numa camisa, entre «espasmos de bater de asas», libertando-o por fim no jardim, só para ficar a sentir durante o resto do dia «o seu vibrar selvagem / contra a palma das mãos».
Minuciosamente construídos, verso a verso, como quem esculpe um bloco de mármore (lá dentro uma «figura encerrada e ainda por revelar»), estes poemas são lugares onde o que há de mais inefável e frágil – vozes, corpos, presenças – pode ser resgatado e permanecer ao abrigo da usura do tempo, das devastações da memória. Caminhadas junto ao lago, contemplação de nuvens, cidades (Paris, Istambul, Palermo, Roma), jogos infantis, parábolas, questões metafísicas, súbitos impasses ou epifanias. Muitas vezes, assistimos ao fazer do próprio poema: o caderno, a «caneta em movimento», o «lápis de grafite macio» pronto para a anotação, o candeeiro de mesa que ilumina a escrita noite dentro e por isso merece uma ode (começa assim: «Oh luz fiel, sob a qual escrevi / e li durante todas estas décadas»).
Collins tem consciência dos sortilégios em que mergulha o leitor, mas isso nunca o conduz aos labirintos do comprazimento ou da auto-indulgência. Pelo contrário, há sempre nele um impulso irónico que lhe permite evitar a tentação da solenidade. Num dos textos de reflexão sobre o seu ofício, explica que «o problema da poesia é que / ela estimula a escrita de ainda mais poesia, / mais peixinhos a encher o tanque». E essa proliferação é sempre perigosa. Sabendo que tudo se pode transformar num poema de Billy Collins, as pessoas aproximam-se de Billy Collins e dão-lhe ideias. Se há uma simulação de incêndio, sugerem-lhe que escreva um poema sobre isso. Ou sobre aquele dirigível lá no alto, o café entornado, um rosto coberto de tatuagens. Ele conclui: «Talvez devesse escrever um poema / sobre todas as pessoas que pensam / que sabem sobre o que é que eu deveria escrever».
Felizmente, o poeta é imune a todos esses ricochetes e efeitos colaterais. Ele come sozinho, bebe sozinho, contempla sozinho, escreve sozinho. Só assim consegue escutar, no meio do ruído da modernidade, «o som que ninguém nunca ouve / porque está a ser transmitido desde sempre» e por isso «soa ao mesmo que o silêncio». Ou seja, a intangível música das esferas, sempre presente e ignorada, mas que, caso deixasse de existir, «então as pessoas iriam parar / nas ruas e olhar para cima». É essa música que atravessa estes poemas. É essa música que Collins – subtilmente, magistralmente, genialmente – consegue fazer-nos ouvir.

Avaliação: 9,5/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Um girassol de chumbo

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Como uma Flor de Plástico na Montra de um Talho
Autora: Golgona Anghel
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 63
ISBN: 978-972-37-1687-0
Ano de publicação: 2013

Romena doutorada em Literatura Portuguesa Contemporânea, Golgona Anghel publicou vários estudos sobre Al Berto, além de uma biografia do poeta de Sines e da edição «diplomática» dos seus Diários. Embora já tivesse editado poemas (Crematório Sentimental, Quasi, 2007), o verdadeiro reconhecimento crítico aconteceu com esse objecto estranho e inclassificável que é Vim Porque me Pagavam (Mariposa Azual, 2011). A poesia de Golgona não se parecia com nada, ao criar uma linguagem torrencial e anárquica, sempre em movimento, deixando o leitor em contrapé, entre pasmo e surpresa. O que impressionava não era só a sintaxe meio partida de quem se instala noutro idioma, apropriando-se dele; era uma certa desmesura que tropeça em si mesma, unindo as mais inesperadas referências culturais (Mizoguchi, Fradique Mendes) ao lado mais cru do dia-a-dia nas cidades (a «esquina do supermercado», as «metralhadoras de plástico, coelhinhos da Páscoa e pulseiras de lata»), na voz agreste de uma «loba solitária» que não se resigna a ser «caniche de apartamento».
À ironia que atravessa o livro anterior («Vim porque me pagavam, / e eu queria comprar o futuro a prestações»), Golgona contrapõe agora uma espécie de manifesto estético que se afirma logo no título do novo volume de poemas: Como uma flor de plástico na montra de um talho. A beleza, se existe, é sempre artificial, emergindo de uma paisagem de desmembramento e carnificina. O poema não existe para captar o sublime, mas antes para iluminar o que deixámos de saber ver, na matéria caótica dos dias: «(…) o poema / não tem outro precursor / a não ser a fome, / nem outro seguidor / a não ser o crime». Avançamos, a custo, no «passo lento das derrotas», para uma espécie de encruzilhada: «Onde havia medo, disciplina e poder, / temos descanso, “cultura” e diversão.» As trincheiras alugam-se, há quem degole «pardais e fadas de porcelana», predomina uma espécie de hiperconsciência das catástrofes em curso: «Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie, / condecorar o medo, / cortar-me a mão com que limpo as feridas / de uma civilização em queda. (…) Sou, em definitivo, este comediante de rua / que serve a desconhecidos, / em copos pequenos, / a medida certa da sua agonia».
Há nestes poemas uma expressividade que é deixada à solta, sem coleira ou açaime. Se os versos têm gumes, é mesmo para rasgar a pele: «Com esta caneta, / esventrei príncipes e porcos / acreditando que era com a barriga que pensavam. / Sonhei de mais. Jurei em falso. / O horizonte fechou-se, / lentamente, / como uma cicatriz do espaço. / O sol e a melancolia / fazem crescer agora, à minha volta, / um girassol de chumbo.» Mais do que a violência das imagens, o que espanta é o extraordinário domínio de uma forma única de dizer as coisas, como se a realidade fosse algo que podemos dobrar e trazer debaixo do braço: «Mudas de canal, de casa, de século, / e as esfinges domésticas / continuam lá, a falar do preço certo / e das notícias das cinco, / antes de adormecerem, / às escuras, / como nós.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado na revista Ler]

Arte de amonas

engenhos

Os Engenhos Necessários
Autor: Miguel Cardoso
Editora: &etc
N.º de páginas: 88
ISBN: 978-989-671-213-6
Ano de publicação: 2014

Os livros de Miguel Cardoso são animais difíceis de aprisionar na jaula de um texto. Por natureza, resistem ao exercício da domesticação crítica e mais ainda à paráfrase. É preciso ir lá, olhá-los de frente, ler o poema a arder na página. Assim com Os Engenhos Necessários, um bom exemplo da verve torrencial de MC. O poeta fala, o poeta observa, o poeta lembra outros poetas (pedindo versos emprestados a Whitman, Luiza Neto Jorge, Rimbaud), o poeta não sabe muito bem para onde vai, embaladíssimo, mas vai, o poeta deixa-se ir.
Entre inspirações e aspirações, há um sentido de urgência, uma necessidade de escrever «à pressa no meio da afasia», uma procura ávida de oxigénio para pulmões cheios de ferrugem: «a poesia é arte de amonas // o ofício de custar a respirar». À medida que avança, o poema rasga-se e vai sendo remendado, um «tecer do que é tecido», sempre consciente da «malha na meia». Cardoso gosta de acidentes e desvios, de interrupções, apartes e recomeços, de um coloquialismo que por vezes lembra Assis Pacheco, mas a tudo isto assistimos do alto da sua maquinaria verbal, em cujas entranhas pulsam potentíssimos «motores líricos».
O poema sabe que é poema e a auto-referencialidade explora os limites da ironia: «(três a doze linhas / as últimas duas tipo / toma e embrulha / ou toma lá que já almoçaste / a chamada anagnórise) // e haverá um estudioso que dirá // “Não está nada mal visto / Deixou só o nervo / É um talhante ao contrário”». Excelente definição de um poeta para quem a poesia é o reflexo de uma vontade de dizer o mundo. E se entre o mundo e os versos algo se perde, quando não se perde tudo, ao menos «um gajo tenta».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

Esta coisa da alegria

joquei

Jóquei
Autora: Matilde Campilho
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 135
ISBN: 978-989-671-213-6
Ano de publicação: 2014

Eis um livro de estreia que nos esmaga com o seu desassombro. Leitora de Whitman e dos bardos da Beat Generation, Matilde Campilho lança-se, destemida, ao poema longo e de alta rotação metafórica. De Lisboa ao Rio de Janeiro, fazendo uso de um «dialecto muito novo» (a meio caminho entre o português ‘de cá’ e o do Brasil: linguagem híbrida, dúctil, coloquialíssima), Campilho revela uma ânsia de tudo abarcar – grandes gestos, pequenos objectos, a espantosa vibração das coisas que existem sobre a terra.
Cada poema funciona como um microcosmos que se expande, sem que saibamos para onde vai ou quando explodirá nas nossas mãos. O olhar da poeta é omnívoro, logo imprevisível: tanto a comovem as oscilações do sismógrafo sentimental como a estrutura do ácido desoxirribonucleico (ADN): «Cromossomas me animam, ribossomas me espantam. A divisão celular não me deixa dormir». Tudo é susceptível de ser fixado por estes versos: um nascimento, um «rosto kodachrome», referências a poemas de Eliot e a esculturas de Chillida, invocações a santos, os «snipers das barricadas de Kiev», um imaginário nova-iorquino (verões quentes em Brooklyn e Coney Island), a bola de ouro de Cristiano Ronaldo ou as ondas de 22 metros da tempestade Hércules («e ao invés de vestir o escafandro / meu velho amor e eu / escolhemos ver a revolução aquática / a partir da bancada do bar»).
O principal mérito de Matilde Campilho é não pensar demasiado, é deixar-se ir no torvelinho, mas a sua criatividade vocabular e o modo fácil como cria imagens poderosas levam-na a perder-se, aqui e ali, nos labirintos de uma verve que às vezes se torna algo vazia, ou então ostensivamente pirotécnica. Quando acerta em cheio, porém, os seus poemas atingem um alto grau de conseguimento estético, como é o caso da toada enumerativa em Descrição da cidade de Lisboa: «Rapariga feita de átomos e sombra. (…) Rapariga de ossos partidos, rapariga dos óculos negros, rapariga em camisola de poliéster (…) Rapariga de rosto cortado pela faca de Alfama».
Coisa rara nos nossos dias, a poesia de Campilho é ainda de um exuberante optimismo, acreditando que o mundo se «vai salvar», que «a raça humana é toda brilho», que «esta coisa da alegria» ainda pode «dar muito certo» e que «Apesar das visitas / Breves do pavor / A beleza é tudo / O que permanece».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Quatro poemas de Matilde Campilho

PRÍNCIPE NO ROSEIRAL

Escute lá
isto é um poema
não fala de amor
não fala de cachecóis
azuis sobre os ombros
do cantor que suspende
os calcanhares
na berma do rochedo
Não fala do rolex
nem da bandeirola
da federação uruguaia
de esgrima
Não fala do lago drenado
na floresta americana
Não diz nada sobre
a confeitaria fedorenta
que recebe os notívagos
para o café da manhã
quando o dia já virou
Isto é um poema
não fala de comoções
na missa das sete
nem fala da percentagem
de mulheres que se espantam
com a imagem do marido
aparando a barba no ocaso
Não fala de tratores quebrados
na floresta americana
não fala da ideia de norte
na cidade dos revolucionários
Não fala de choro
não fala de virgens confusas
não fala de publicitários
de cotovelos gastos
Nem de manadas de cervos
Escute só
isto é um poema
não vai alinhar conceitos
do tipo liberdade igualdade e fé
Não vai ajeitar o cabelo
da menina que trabalha
com afinco na caixa registadora
do supermercado
Não vai melhorar
Não vai melhorar
isto é um poema
escute só
não fala de amor
não fala de santos
não fala de Deus
e nem fala do lavrador
que dedicou 38 anos
a descobrir uma visão
quase mística
do homem que canta
e atravessa
a estrada nacional 117
para chegar a casa
ou a algum lugar
próximo de casa.

***

COQUEIRAL

A saudade é um batimento que rebenta assim
vinte e oito vezes desde meu ombro tatuado
de desastre até à rosa pendurada em sua boca

E o amor, neste caso específico, é um mergulho
destemido que deriva quase sempre de uma nota
climática apenas para convergir no osso frontal
do crânio do rei da ilusão – terno é o seu rosto

Senhor, os ossinhos do mundo são de mel e ouro.

***

DESCRIÇÃO DA CIDADE DE LISBOA

A rapariga a pensar naquilo, a rapariga ao sol, menina a comer cachorro quente, menina a dançar na rua, rapariga do dedo no olho, do dedo na árvore. Rapariga de braços levantados, rapariga de pés baixos, rapariga a roer as unhas, rapariga a ler jornal, rapariga a beber um líquido chardonnay, rapariga no vão de escada, rapariga a levar na cara. Rapariga aflita, rapariga solta, rapariga abraçada, rapariga precisada. Rapariga a fumar charuto, rapariga a ler Forster, rapariga encostada na palmeira, rapariga a tocar piano. Rapariga sentada em Mercúrio ao lado de um leão, rapariga a ouvir discurso de Ghandi, rapariguinha do shopping. Rapariga feita de átomos e sombra. Rapariga de um ponto ao outro e medindo quarenta e dois centímetros, rapariga impávida, rapariga serena. Rapariga apaixonada por igreja quinhentista, rapariga na moto a trocar velocidades a mudar o jeito. Rapariga que oferece à visão o hábito da escuridão e depois logo se vê. Rapariga de ossos partidos, rapariga de óculos negros, rapariga de camisola em poliéster, rapariga debruçada na cadeira da frente no cinema, rapariga a querer ser Antonioni. Rapariga estável, rapariga de mentira, rapariga a tomar café em copo de plástico, rapariga orgulhosa, rapariga na proa da nau africana. A rapariga a cair no chão, rapariga de pó na cara, rapariga abstémia, rapariga evolucionista. Rapariga de rosto cortado pela faca de Alfama, rapariga a fugir de compromissos, rapariga a mandar o talhante à merda, rapariga a assobiar, rapariga meio louca. Rapariga a deslizar manteiga no pão, rapariga a coçar um cotovelo, rapariga de cabelo azul. Rapariga a brincar com um isqueiro no bolso, rapariga a brincar com um revólver nas calças, rapariga a nadar, rapariga molhada, rapariga a pedir uma chance só mais uma ao santo da cidade. Rapariga a ostentar decote no inverno, rapariga a olhar pelo canto do olho esquerdo, rapariga a ser homem, rapariga na cama. Rapariga a subir o volume, rapariga a querer ser Dylan, rapariga a cuspir no chão. A rapariga a girar a girar a girar a girar no eixo de uma saia de seda amarela. Amarela da cor de um feixe de luz apanhado numa esquina.

***

ATÉ AS RUÍNAS PODEMOS AMAR NESTE LUGAR

Lembro-me muito bem do tal cantor basco
que costumava celebrar a chuva no verão
Não ligava quase nada para as conspirações
que recorrentemente se faziam ouvir
debaixo das arcadas noturnas da cidade
naquela época do intermezzo lunar
Foi já depois do fascismo, um pouco antes
da democracia enfaixada em magnólias
O cantor, as arcadas, o perfume e os disparos
me ensinaram que se deve aproveitar a época
de transição para destrinçar o brilho
As revoluções sempre foram o lugar certo
para a descoberta do sossego:
talvez porque nenhuma casa é segura
talvez porque nenhum corpo é seguro
ou talvez porque depois de encarar uma arma
finalmente possa ser possível entender
as múltiplas possibilidades de uma arma.

[in Jóquei, Tinta da China, 2014]

Quatro poemas de Vítor Nogueira

REFÚGIO

Seja como for, só te podes culpar a ti mesmo.
De algum modo, sempre foste fascinado
pelas estrelas. Mas um céu nebuloso decidiu
juntar-se a ti, sombras opacas num jogo
complicado. Já não é como um vestido,
não podes espreitar por baixo. Setembro
traz consigo os dias curtos. Tens de encontrar
um refúgio, por mais pequeno que seja.

***

PAREDES

De repente não te sentes muito bem.
És a única pessoa numa sala cheia,
uma sala cheia de rostos que não se dissipam.
Estes retratos antigos deixam-te pouco à-vontade.
Ninguém sobe, ninguém desce, ninguém entra,
ninguém sai. E contudo, caro amigo,
todas as regras gerais têm excepções.
Talvez possas destruir o sistema só por gozo,
deixar os pregos sem nada, repartidos como estão
pelas paredes da sala. A memória, no entanto
(dentes grandes, aparelhos de colheita),
é mais forte e corajosa do que tu. Sentir isso
nas entranhas produz um grande vazio.

***

SEMENTES

É claro que me lembro. Havia dois atalhos
pelo meio do pinhal, direcções espantosamente
precisas, animais que não voltei a ver.

Enquanto as colheitas amadureciam nos campos,
havia talismãs pendurados nas árvores e mercúrio
para tratar certas lesões, uma peça vital
do equipamento. Havia girassóis à volta da casa
e as palavras imortais dos espantalhos, uma forma
de evitar que endoidecêssemos. E havia um muro
que era preciso saltar, a manhã gloriosa
da escalada, a ciência das grandes migrações.

Mas não vale a pena entrar em mais detalhes.
Este é o meu corpo. Esta é a minha mente.
Conhecem-se desde a infância e cumpriram pena juntos.

Do futuro nada sei. Apenas que vem aí.

***

FORMOL

A casa por sob o sótão. O sótão por sobre
a casa. A casa por sobre a rua. A rua por sobre
o mundo. À volta desta praça, quis o tempo
conservados em formol os edifícios, esquinas
de onde surgem cada vez mais perguntas
sem aviso. Escondida pela fachada do liceu
há-de estar ainda a velha biblioteca
onde Ulisses veio sentar-se à tua frente,
cotovelo esquerdo alicerçado no tampo
da secretária, braço servindo de coluna,
rematado em capitel pelo punho semicerrado
que lhe amparava o queixo e, acima do queixo,
o olhar e as ideias. Eras demasiado novo
para todos aqueles livros, todos aqueles ossos
arrumados nas estantes. Livros como este,
que se fecha sobre si e só dói a quem o escreve.

[in Segunda Voz, Averno, 2014]

Quatro poemas de Juan Manuel Roca

ARENGA DE UM QUE NÃO FOI À GUERRA

Nunca vi nos corrimões de uma ponte
A doce mulher com olho de assíria
Enfiando uma agulha
Como se fosse remendar o rio.
Nem mulheres sozinhas à espera nas aldeias
Que a guerra passe como se fosse outra estação.
Nunca fui à guerra, nem me faz falta,
Porque desde menino
Sempre perguntei como se ia à guerra
E uma enfermeira bela como um albatroz,
Uma enfermeira que corria por longos corredores
Gritou com grasnido de ave sem olhar para mim:
Já estás nela, rapaz, já estás nela.
Nunca fui ao país dos hangares,
Nunca fui porta-bandeira, hussardo, mujique de alguma estepe.
Nunca viajei de balão por eriçados países
Povoados de tropa e cerveja
Não escrevi como Ungaretti cartas de amor nas trincheiras.
Nunca vi o sol da morte a arder no Japão
Nem vi homens de grande pescoço
A repartir a terra num jogo de cartas.
Nunca fui à guerra, nem me faz falta,
Para ver a soldadesca a lavar os brancos estandartes
E de seguida a ouvi-los falar da paz
Ao pé da legião das estátuas.

***

CANÇÃO DO QUE FABRICA ESPELHOS

Fabrico espelhos:
Ao horror acrescento mais horror,
Mais beleza à beleza.
Levo pela rua a lua de azougue:
O céu reflecte-se nos espelhos
E os telhados bailam
Como um quadro de Chagall.
Quando o espelho entrar noutra casa
Apagará os rostos conhecidos,
Porque os espelhos não contam o seu passado,
Não denunciam antigos moradores.
Alguns constroem prisões,
Grades para jaulas.
Eu fabrico espelhos:
Ao horror acrescento mais horror,
Mais beleza à beleza.

***

PARÁBOLA DA SOLIDÃO

Quando se desdobrava a solidão,
Quando descia a sua máscara de proa,
Convidava-a para um passeio na praia.
Muitas vezes
Levei a solidão aos bailes
Ou ao grande concílio de solidões
Que se agride nos estádios.
Para não a ver maltratada
Uma vez levei-a ao alfaiate
No meio de fatos vazios.
O costureiro
Com a boca cheia de alfinetes
Como um boneco vudu,
Desdobrou na sua mesa um pano negro.
Tirou as medidas à arisca solidão
E traçou a giz o seu molde.
Tinha a mesma medida da minha sombra.

***

POEMA INVADIDO POR ROMANOS

Os romanos eram maliciosos.

Encheram a Europa de ruínas
Conjurados com o tempo.

Interessava-lhes o futuro,
Os traços mais do que as pegadas.

Os romanos, Cassandra, eram manhosos.

Não imaginaram o Aqueduto de Segóvia
Como uma conduta de água e de luz.
Pensaram-no como vestígio,
Como um absorto passado.

Semearam de edifícios musgosos a Europa,
De estátuas acéfalas
Engolidas pela glória de Roma.

Não fizeram o Coliseu
Para que os tigres devorassem
Por capricho seu os cristão,
tão pouco apetecíveis,
Nem para ver trespassados
Como aperitivos do inferno
os exércitos de Espártaco.

Pensaram a sua ruína, uma ruína proporcional
à sombra mordida pelo sol que agoniza.

O meu amigo Dino Campana
Poderia ter saltado à jugular
De um dos seus deuses de mármore.

Os romanos dão muito em que pensar.

Por exemplo,
Num cavalo de bronze
da Piazza Bianca.
No momento de o restaurar,
Ao assomarem à boca aberta,
Encontraram no ventre
esqueletos de pombas.

Como o teu amor,
Que se torna ruína
Quando mais o construo.

O tempo é romano.

[in Os Cinco Enterros de Pessoa, selecção e prólogo de Lauren Mendinueta, tradução de Nuno Júdice, Glaciar, 2014]

Três poemas de Angélica Freitas

ítaca

se quiser empreender viagem a ítaca
ligue antes
porque parece que tudo em ítaca
está lotado
os bares os restaurantes
os hotéis baratos
os hotéis caros
já não se pode viajar sem reservas
ao mar jônico
e mesmo a viagem
de dez horas parece dez anos
escalas no egito?
nem pensar
e os freeshops estão cheios
de cheiros que você pode comprar
com cartão de crédito.
toda a vida vocês quis
visitar a grécia
era um sonho de infância
concebido na adultidade
itália, frança: adultério
(coisa de adultos?
não escuto resposta)
bem se quiser vá a ítaca
peça a um primo
que lhe empreste euros e vá a ítaca
é mais barato ir à ilha de comandatuba
mas dizem que o azul do mar
não é igual.
aproveite para mandar e-mails
dos cybercafés locais
quem manda postais?
mande fotos digitais
torre no sol
leve hipoglós
em ítaca compreenderá
para que serve
a hipoglós.

***

metonímia

alguém quer saber o que é metonímia
abre uma página da wikipédia
depara com um trecho de borges
em que a proa representa o navio

a parte pelo todo se chama sinédoque

a parte pelo todo em minha vida
este pedaço de tapeçaria
é representativo? não é representativo?

eu não queria saber o que era
metonímia, entrei na página errada
eu queria saber como se chegava
perguntei a um guarda

não queria fazer uma leitura
equivocada
mas todas as leituras de poesia
são equivocadas

queria escrever um poema
bem contemporâneo
sem ter que trocar fluídos
com o contemporâneo

como roland barthes na cama
só os clássicos

***

querida angélica

querida angélica não pude ir fiquei presa
no elevador entre o décimo e o nono andar e até
que o zelador se desse conta já eram dez e meia

querida angélica não pude ir tive um pequeno
acidente doméstico meu cabelo se enganchou dentro
da lavadora na verdade está preso até agora estou
ditando este e-mail para minha vizinha

querida angélica não pude ir meu cachorro
morreu e depois ressuscitou e subiu aos céus
passei a tarde envolvida com os bombeiros
e as escadas magírus

querida angélica não pude ir perdi meu cartão
do banco num caixa automático fui reclamar
para o guarda que na verdade era assaltante
me roubou a bolsa e com o choque tive amnésia

querida angélica não pude ir meu chefe me ligou
na última hora disse que ia para o havaí
de motocicleta e eu tive que ir para o trabalho
de biquíni portanto me resfriei

querida angélica não pude ir estou num
cybercafé às margens do orinoco fui sequestrada
por um grupo terrorista por favor deposite
dez mil dólares na conta 11308-0 do citibank
agência valparaíso obrigada pago quando voltar

[in Um útero é do tamanho de um punho, Cosac Naify, 2012]

A siderurgia das coisas frágeis

fluor

Flúor
Autora: Andreia C. Faria
Editora: Textura
N.º de páginas: 61
ISBN: 978-989-98751-1-1
Ano de publicação: 2013

De Andreia C. Faria, nascida em 1984, conhecíamos um pequeno volume atravessado por gatos e mulheres «a habitar a perda». Nesse De haver relento (Cosmorama, 2008) impressionou-nos a extrema segurança da dicção poética e o fulgor de algumas imagens, mas o livro era um círculo fechado, por vezes opaco, quase sempre claustrofóbico, com uma energia latente que nunca chegava verdadeiramente a explodir. Essa explosão, qual supernova, acontece em Flúor, um livro poderoso que amplia de forma brusca os horizontes desta escrita.
Logo no primeiro poema, evoca-se uma rapariga «tão magra / que os pensamentos lhe apareciam à flor da pele» e «bela / como osso saindo da carne / ou pássaro largando a árvore». Estamos perante uma poética que nunca se desliga do corpo, enquanto evidência, glória ou maldição. Os elementos anatómicos – coxas, ancas, pulsos magoados, vértebras, pele, a «cerviz de encontro à noite sem se curvar» – são pontos de partida em torno dos quais se articulam visões de um mundo que se perdeu (a infância, a vida na aldeia, o sabão Offenbach a lembrar «a barrela das lavadeiras») ou do próprio ímpeto criativo («à música / de costelas e clavículas / faria um poema, se soubesse, / de ressonância e susto / desvinculando ossos»).
Há uma certa violência nas metáforas, uma força bruta de arestas e lacerações, uma forma crua de olhar para tudo o que está sujeito a ser partido, esmagado – isso a que a poeta chama «siderurgia das coisas frágeis». Coisas como o amor («o amor é soslaio, oblíquo»), um rosto («o meu rosto implodirá como um punho») ou o corpo que se oferece («pela noite / fazer do corpo raso / prato vazio de onde se come»).

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

O intervalo preciso

passageiro_frequente

Passageiro frequente
Autor: Daniel Jonas
Editora: Língua Morta
N.º de páginas: 91
ISBN: 978-989-8638-09-0
Ano de publicação: 2013

Há na poesia de Daniel Jonas uma resistência explícita a qualquer discurso que a pretenda enclausurar num determinado tempo, ou em quaisquer linhagens literárias. É como se o poeta quisesse deliberadamente trocar as voltas ao leitor, confundi-lo, empurrá-lo para um estado de perplexidade, em que o desenho inscrito pelos poemas no pensamento está sempre a transformar-se noutra coisa. Este efeito de desorientação nasce do facto de ser muito vasta a gama de registos poéticos em que se declina a sua escrita. Tão depressa se aproxima da volúpia barroca (com rimas, sintaxe antiga, vocabulário raro) como se entrega a exasperações românticas sobre o lugar do sujeito no mundo, ou então a súbitas sínteses de poucos versos, de um minimalismo próximo da perfeição dos haikus. Num instante passamos das referências bíblicas e das citações literárias cifradas para a mais prosaica realidade quotidiana.
No poema que dá título ao livro, surge a figura do «passageiro frequente dos faux-pas», alguém que está «muito a tempo de alguma coisa» que não se sabe bem o que é: «Ei-lo: tardiamente chegado dos subúrbios / ao coração de tudo, ao centro das coisas». Sublinhe-se a pertinência do advérbio, porque o «tardiamente» sinaliza um atraso, um desajuste, uma descontinuidade com a época em que se vive e com o real que as palavras tentam em vão fixar, que é a própria matéria desta poesia. Consciente do desfasamento, o sujeito poético transporta as suas percepções para uma espécie de paisagem mental (veja-se o poema Praia pensada), em que muitas vezes encena o espectáculo da sua auto-reflexividade: «Sou jusante, escusado de mim, / o pior de dois mundos, / o intervalo preciso entre / nada // e coisa nenhuma». Neste caso, o sentido de «preciso» tanto pode ser o da exactidão como o da necessidade. Essencial é a ideia de intervalo, de algo que se interrompe e retoma (não será por acaso que surge tantas vezes, mais metafórica ou mais literal, a imagem de uma ponte).
Dos muitos recursos retóricos que Daniel Jonas exibe, há um particularmente poderoso, que consiste no cruzamento ou sobreposição de planos sensoriais distintos («Meu deus, o que faríamos sem a sinestesia», admite algures). Aves negras sobre a neve serão sombras, «corvos corvos» ou «píxeis fundidos, / o anátema da inexistência»? Há fotografias que se ouvem, sons que se vêem, objectos conscientes da sua condição de símbolos. As maiores alturas estéticas, porém, atingem-se através da mais pura contemplação. Como no poema Velho Mestre: «O silêncio / de um fruto sobre a mesa, / apenas ferido / por um gume de luz / no meridiano. // Mas nenhuma ameaça, / nem o arnês de dedos / formando-se no horizonte, / apenas o golpe do sol / afiado na vidraça. // Um fruto / é um velho mestre / esperando na luz / as trevas / do amadurecimento.»

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Quatro poemas de Frederico Pedreira

Obediente turvado o tronco vai solto
repete endurecimentos abaixo da cintura
faixa de vento descobre a rosa clara ao meio
abalroa o tronco queimado
ainda a escuta atenta a fumigações
o ar recusado perdendo aos poucos o pulmão

***

Remexe as ameixas podres em volta
com a cabeça encaixada no frio de um tanque
a tua coroa no fio
escuta só a música prolongada
reverbera nos dentes essa armadura
que faz tremer o cimento do coração

***

a teia de vidro que te traz a memória
e te rompe os buracos mais escuros
a tua boca escavada como a ruína conhecida
onde faz aquela música de asas doentes

a memória engrossa com febre
mostra a contragosto um olhar de passagem
sem nenhuma arte sem roupas
sem saber melhor forma de
dizer adeus

***

CONSERVAÇÃO

É sempre com este medo de dizer
que me apresento, na vergonha
de umas mãos metidas para dentro
à procura desse abismo de pele
côncavo e azul.

Ando à escuta
de um rosto que aprendi
a lembrar no oco das paredes,
húmido como barro, guardado
entre ossos muito limpos.

Sei de algumas coisas: que nunca
sobreviverei perto de ti com um
punhado de metáforas de inverno,
que vou andando voltado para trás,
e só confio na mancha do meu sopro.

[in Doze Passos Atrás, Artefacto, 2013]

Cinco poemas de Andreia C. Faria

SABÃO OFFENBACH

Rugoso e maciço, fatiado e vendido
ao balcão de madeira de qualquer mercearia,
o sabão Offenbach é recomendado pelas autoridades
para lavagem de espaços comuns
sempre que surge a ameaça de uma epidemia

Modernas donas de casa têm pudor em comprá-lo, por lembrar
a barrela das lavadeiras – o linho, os lençóis
e a higiene íntima dos antigos
Com os novos sabonetes perfumados
a perfeição química da pele e a pura lã virgem
extinguem-se
pelo ralo da comunidade

Mas eu trago no bolso um pedaço de bom sabão azul e dispo-me
para lhe ser amável

e que uma fome insaciável se apodere de mim
quando o esfrego nos lábios faz-me pensar
na enxaguada misericórdia de Deus

***

Sou a mulher que se mata por amor a ti
e a mulher por amor de quem se morre
Sou o rapaz que há como uma água turva
na mulher por quem se morre
o bucal húmido do telefone onde ela expia
pensamentos violentos como plumas
Sou a pluma que lhe abre os lençóis
a lasca de madeira sobre a mesa
a lâmina à espera
que a nudez dê frutos
Sou aquilo que fere o rapaz
e a roupa que o tapa
Sou o brilho da janela onde a mulher
se balança

***

PORNO

A mulher dispõe-se equestre
Justaposto
o homem relata o cavalo

***

ESTEREOGRAMA

Ouvi dizer que um cão
e algumas senhoras com saias de balão
sobreviveram ao lançar-se da ponte
O rio quebrou-os mal
e se ao cair não fecharam os olhos libertou-se-lhes o cérebro
da membrana em que dormia
como se libertam as cores de um caleidoscópio
ou ressuma de uma noz o ranço ou um óleo essencial
Talvez tenham enlouquecido como os olhos de um falcão
livre do seu capuz, meditando
se entre o falhanço e o milagre existirá uma diferença estrutural
Às senhoras que se matavam por amor talvez
alguém novo tenha amado o sangue estropiado
Talvez o cão tenha voltado a obedecer
à crueldade de um rapaz. Serenamente
a vida volta a ser uma ilusão de óptica um estereograma
em que às vezes o cérebro se cansa de acreditar

***

No regresso, despi-me em frente à minha mãe
A nudez dir-lhe-ia das paisagens,
das fracturas, solitários minerais
que nos ossos se engastam, da viagem
O que ela viu
era pouco mais que o esforço de dunas,
suave e compacto para emergir
do chão, a flora acidental
Pedi-lhe
que me procurasse os flancos,
o ligeiro afundar da anca, ou debaixo
dos braços, o principiar de um vale,
qualquer sobejo de me ter
contornado o mundo, mas também aí
ela sentia a fragrância
impúbere do que já não cresce

[in Flúor, Textura, 2013]

Uma coça bem dada

pleno_emprego

Pleno Emprego
Autor: Miguel Cardoso
Editora: Douda Correria
N.º de páginas: 21
ISBN: 978-989-20-4383-8
Ano de publicação: 2013

Não é fácil construir um discurso sobre a poesia de Miguel Cardoso porque ela nunca abandona a sua condição de objecto em fuga, de coisa que se ergue assim, de repente, do nada, com uma energia cinética espantosa, e nos leva pela longa escadaria dos versos, ou pelos labirintos da prosa (como neste caso), sem que saibamos muito bem o que é isto afinal, ou para onde se dirige a imparável torrente de palavras, ideias e imagens.
Os seus poemas – quase sempre longos, feitos de acumulações, derivas, apartes, coloquialismos, interrupções – são paredes verbais a ir de encontro ao leitor para o derrubar. São uma coisa física. Um encontrão valente. Lê-los é levar porrada, é não conseguir agachar-se, à la Álvaro de Campos, «para fora da possibilidade do soco» (e curiosamente talvez ninguém se aproxime tanto da energia do Poema em Linha Recta, hoje, como Miguel Cardoso).
Pleno Emprego, um texto que começou por ser uma instalação sonora na casa de banho do bar Purex, é mais uma coça bem dada nos que se atreverem a entrar no seu torvelinho. O lirismo nasce do real em catadupa, esmiuçado como quem não quer a coisa – mas afinal quer, por muito que se desconverse. Por baixo e por cima do alarido está a miséria, o desemprego, o pérfido minguar das vidas e dos horizontes. Mesmo quando vai por partes, e lhes dá a volta, é sempre disso que o poeta fala: «Sou pelos plenos pulmões, e por esvaziá-los até ao fim. (…) Sou pelo pleno emprego das razões, mas nunca das certas. Das revoluções, mas daquelas que, como aquele livro de poemas que andas há semanas a ler em voz alta no autocarro, podes levar a casa de amigos e de estranhos a qualquer hora».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Quatro poemas de Daniel Jonas

NOSTALGIA

Perder uma fotografia
é perder
um momento
duas vezes.

***

beslan

OSSÉTIA

Ou como uma foto de Karpukhin
a Madonna ampara com o braço um
dos lados do triângulo
e deixa um derradeiro beijo escorrer por ele
até à cabeça morta
do seu menino no catre.

Uma cena difícil: a contenção
das sombras, do chiaroscuro,
o profundo luto quando a luta
cedeu a sua luz.

De preto ela
emoldurando a palidez do seu querido,
o crânio envolto numa ligadura,
halo de mártires.

O inconsolável.

O fotojornalismo
tem fortes influências da renascença.
Algo de terror.
Algo de Leonardo.

***

SPLEEN

Cemitério de todos os sóis
o mar, cinza
onde habita o beemote do tempo,
a grande baleia do oblívio
sob socalcos de aço,
na chapa recurva,
sucata de toda a metáfora.

Porquê dizê-lo?
Cansaço de o dizer…

O mar é uma maçada.

***

CANTONEIROS

A pura simetria dos cantoneiros
concordes na sintonia clássica
da sua dança, no modo como desmantelam
a embriaguez, induzem o vómito a caixotes
ou dispõem de bolas de plástico
e as lançam para a baliza ruminativa
sem tempo para comemorarem os golos.

Pulgas da quietude,
industriosos entre o mar de detritos,
fosforescentes noctilucos,
espectros a céu aberto,
ídolos de montureiros,
aclarando das margens as nuvens rentes
sob aguaceiros desabridos.

Acrobatas da morosidade
fúnebre do seu curso,
a cidade ignora-os
ou execra aquele féretro deletério
se apanhada no cortejo de ocasião.

[in Passageiro frequente, Língua Morta, 2013]

Quatro poemas de A. M. Pires Cabral

A GAVETA DO FUNDO

A gaveta do fundo: onde guardava
brasas e jóias de família –
ou seja, reservas de calor
para os dias do frio que aí vêm.

A gaveta do fundo:
forçada a fechadura, saqueada,
desmantelada em tábuas e ferragens.

Dada a beber às altas labaredas
que, bebendo, multiplicam a sede,
em vez de a extinguir.

***

PUNHAL EXCELENTE

Já quase não há, o punhal excelente
com que a mim próprio me esventrei algumas vezes
para melhor me desentranhar em versos –

– esse lícitos salpicos de lama,
essas coisas à toa, hossanas, ambições,
promessas, juras, astutas
ingenuidades: toda essa merda que há
dentro do poeta e com que ele gosta
de borrifar os outros. Para que
não se fiquem a rir.

E eis que agoniza: o gume rombo,
manchas inamovíveis de ferrugem,
incapaz de incisões, definitivamente
inoperacional o punhal excelente.

Paz ao seu aço.

***

NORA

I

Muito tilintou esta nora.

Isso foi no tempo em que musgos,
heras, caracóis, lagartixas e ferrugem
não se tinham ainda sentado em cima dela.

Agora já não tilinta.
Secou-se-lhe o tilintar, que por sinal
era o som mais húmido do campo,
o mais quebradiço, mas também
mais apto a fecundar.

II

Mas não se extraviou nos complicados
trilhos do tempo:
limitou-se a migrar para dentro de mim.
Guardei-o num baú de que só eu tenho a chave
e donde às vezes o tiro para ouvir de novo
os pingos de prata derretida
caindo insistentes sobre a tarde esguia

que, aproximando-se do fim,
ficava de repente mais sonora
de pássaros e brisas, e de risos
e ralhos vindos da horta.

[in Gaveta do Fundo, de A. M. Pires Cabral, Tinta da China, 2013]

Juan Luis Panero (1942-2013)

panero

EPITAFIO FRENTE A UN ESPEJO

Dura ha de ser la vida para ti,
que a una extraña honradez sacrificaste tus creencias,
para ti, cuya única certidumbre es tu recuerdo
y por ello, tu más aciaga tumba.
Dura ha de ser la vida, cuando los años pasen
y destruyan al fin la ilusa patria de tu adolescencia,
cuando veas, igual que hoy, este fantasma
que tiempo atrás te consoló con su belleza.
Cuando el amor como un vestido ajado
no pueda proteger tu tristeza
y motivo de burla, de piedad o de asombro,
a los ojos más puros sólo sea.
Duro ha de ser para tu cuerpo ver morir el deseo,
la juventud, todo aquello que fuiste,
y buscar sin pasión tu reposo
en la sorda ternura de lo débil,
en la gris destrucción que alguna vez amaste.
«Es la ley de la vida», dicen viejos estériles,
«y nada sino Dios puede cambiarlo», repiten,
a la luz de la noche, lentas sombras inútiles.
Dura ha de ser la vida, tú que amaste el mundo,
que con una mirada o una suave caricia soñaste poseerlo,
cuando la absurda farsa que tú tanto conoces
no esté más adornada con lo efímero y bello.
Dura ha de ser la vida hasta el instante
en que veles tu memoria en este espejo:
tus labios fríos no tendrán ya refugio
y en tus manos vacías abrazarás la muerte.

Dois poemas inéditos de José Luiz Tavares

Do livro Polaroids de distintos naufrágios, ainda por publicar, um par de poemas de José Luiz Tavares, oferecidos ao BdB no dia em que o poeta faz 46 anos:

Olhas para lá das colinas,
e a idade é onda que vem,
profunda de extremo a extremo,
solene nome caindo assim opaca
em ti sozinho com a vida.

Mas vem no riso nascido na boca
do mais só, do que ganhou gosto
à fome de mais vida, sem jeito para
a melancolia nem para a vergonha
de chorar a dor dos outros.

A bem dizer, não te comovem os ademanes
metafísicos, ó criança sentada nas trevas
que protegem a infância, quando a febre
descia devagar como um dom celeste
à correnteza oculta das vidas subitamente
iluminadas.

Mas vês a demora nas mãos dos construtores,
esses que selam nas pedras os pactos com
o tempo e um sinal de eternidade deixam
sobre as cabeças comovidas por essa paciência
que não cuida do azebre desenhando
as rosáceas da extinção,

porquanto olhando para lá das colinas
o que se vê é da ordem do puro pensamento,
da iluminação mais secreta – fundas paisagens
com seus perfis trementes, posto que
o incomovível vento, que é caçador audaz,
uiva nos mastros erectos, entenebrece
nos esteios lavados pelas chuvas,

mas tudo persiste
entre queda e queda, no redemoinho de pó
restituidor da perene pensada vida.

***

(com joão vário)

Não te deram coroa alguma
para te medires com os da tua casta,
mas a pedra que conhece de antemão
o lugar da conveniência e aterra
sem o pavor da grandeza na funda
predestinada, posto que voracíssimo
é o ofício das parcas e mais esteios
não dispões tu que esse sal que preserva
a intensidade com que se amanha
esse ofício ambivalente.

E sob tal tecto vigias a calamidade,
pois para a continuidade não basta
o estrondo da exaltação, ó homem
dilacerado pelas indagações fatídicas,
habituada que a vida é à estreiteza
abnegada, à sua altiva orfandade,
sem o unguento do alívio ou qualquer
outro rumor reparador.

Estás só, medindo-te com a vara do teu
senso, e é deveras uma via estreitíssima
que não se abandona com a vinda
do escuro, pois muito esperaste pelas contas
do passado, pelos argutos conselhos
temperados de sagacidade; e ainda assim

só estás e continuarás no chão da semeadura,
e nada deves às sibilas imemoriais,
nem a coroa do espanto ou o favo
da coragem, que tudo é pedra talhada
com a abnegação que não prescinde da incerteza,
e para atravessar tal desígnio nenhuma estendida
meada existe – tudo é construção no ovo
da contingência, e quem por ti, quem por ti,
ó homem em duas metades repartido?

O terror da beleza

servidoes

Servidões
Autor: Herberto Helder
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 117
ISBN: 978-972-37-1696-2
Ano de publicação: 2013

Há no primeiro livro de José Tolentino Mendonça (Os Dias Contados, 1990), um poema intitulado A infância de Herberto Helder que começa com o verso: «No princípio era a ilha». O que cria a tensão nesse texto é o diálogo entre a própria infância de Tolentino Mendonça – evocada explicitamente no poema – e a imaginária infância de Herberto Helder, de cuja vida sabemos sempre tão pouco (quase nada), confinadas as duas meninices a um território comum: a ilha da Madeira. Uma das muitas surpresas que Servidões nos reserva é a oportunidade de vislumbrarmos alguns fragmentos da infância real de Herberto Helder. No longo poema em prosa que abre o livro, o poeta fala-nos de como era crescer «no meio do atordoamento de flores e animais», atento «às matérias e sopros do mundo expressos em imagens e vozes autónomas».
Se a poesia é «um início perene, nunca uma chegada seja ao que for», a «interminável preparação» talvez tenha começado nesses primeiros anos, com a aprendizagem de «certas astúcias», como «apanhar a ocasional distracção das coisas, e desaparecer; fugir para o outro lado, onde elas nem suspeitam da nossa consciência», para depois «enriquecer e intoxicar a vida com essas misteriosas coisas roubadas». A «vida» que é sempre, na matéria «ferozmente parcialíssima» do poema, uma «paisagem transfigurada». Ao regressar à ilha, após muitos anos de ausência, o poeta não a reconheceu: «nenhuma imagem confirmada pelo olhar, ou esse odor de vaza marinha, de jasmins, e o vento trazido das montanhas, nada era vivo, actual, reiterado, circulatório, nada me reatava, um ímpeto do espírito, uma religação». Ainda assim, sabe que foi ali que forjou a sua liberdade («o meu espírito seria daí em diante irredutível, não me sujeitaria nenhuma regra alheia») e o esboço de uma existência «subtil, unida e invisível que o fogo celular das imagens devorava».
Neste livro crepuscular, Herberto relembra-nos a cada passo que já ultrapassou os 80 anos, mas a extraordinária combustão lírica da sua escrita como que o desmente. O corpo vai ficando cego mas ainda é «sôfrego», cheio de energia sexual, «fedendo a testosterona e sangue»:

(…) farejo-te,
mordo-te a nuca, lambo,
e faminto me meto por ti adentro,
rebento os selos,
marco-te a fogo,
levíssima visita à minha sêca luz e arrebatada fome, (…)

Como sempre, o poeta devora o mundo e é por ele devorado. Mas se noutro tempo olhou a morte de frente, agora não: «agora sou olhado, e estremeço / do incrível natural de ser olhado assim por ela». O fim é uma ideia fixa, vai montando o cerco e insinuando-se como uma obsessão: «bom seria entrar no sono como num saco maior que o meu tamanho, / e que uns dedos inexplicáveis lhe dessem um nó rude, / e eu de dentro o não pudesse desfazer».
Na maior parte dos poemas, aflora uma sensação de perda, a consciência de que «tudo acaba: canção, talento, alento, papel, esferográfica». Pode ainda haver vontade de escrever o «poema fixo entre as palavras móveis», mas «a arte da iluminação foi toda ao ar pelos fusíveis fora». O «passarão» a quem vai falhando o «sopro», que perdeu o ouvido absoluto para «as músicas sumptuosas do verso livre», resigna-se: «já não tenho mão com que escreva nem lâmpada, / pois se me fundiu a alma, / já nada em mim sabe quanto não sei / da noite atrás da luz: livros, frutas na mesa, o relógio que mede / minha turva eternidade». Resta-lhe procurar a «perfeição de poucas linhas», os versos rápidos, o poema curto, «trémulo e severo», uma arte tão «breve» quanto «furtiva».
Herberto zanga-se, exalta-se, imagina infernos, vitupera a geração «inclitamente vergonhosa» que em testamento deixou uma «montanha de merda», procura «corpo a corpo o nada disso tudo», mas continua a elevar às alturas, como nenhum outro na poesia portuguesa, a música da língua:

até cada objecto se encher de luz e ser apanhado
por todos os lados hábeis, e ser ímpar,
ser escolhido,
e lampejando do ar à volta,
na ordem do mundo aquela fracção real dos dedos juntos
como para escrever cada palavra:
pegar ao alto numa coisa em estado de milagre: seja:
um copo de água,
tudo pronto para que a luz estremeça:
o terror da beleza, isso, o terror da beleza delicadíssima
tão súbito e implacável na vida administrativa

Avaliação: 9,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Quatro poemas de Rosalina Marshall

VELOZ FAÚLHA ATMOSFÉRICA

atrás dos comboios que passam
não fica nada
o ar que lá estava
lá fica
porta invisível
eternamente chiando

***

CALOTES SUSPENSAS

numa cama
enquanto lá fora chilreavam pássaros
coloquei os dedos na jugular
precipício
sobre um jardim
onde nunca mais
se teme a morte

***

NA SENSAÇÃO DE ESTAR POLINDO AS MINHAS UNHAS

sei que morrerei no dia do aniversário da minha morte
ainda há coisas certas na vida
o dia do aniversário da minha morte apresenta tamanha discrição

que nem dou por ele
portanto não mudarei de roupa
talvez passe o dia deitada
no displicente descanso
de não atender telefones
nem me levantarei para ir ver o correio
e se alguém se lembrar de me acender
as inconsequentes velinhas
deixarei que derretam e estraguem o bolo
no dia do aniversário da minha morte
nem me penteio

***

DAS BANCADAS

muito bem
serei a barata tonta
não quero dum-dum
ao menos matem-me
com pancadas de molière

[in Manucure, Companhia das Ilhas, 2013]

Quatro poemas de Raquel Nobre Guerra

BÍLIS NEGRA

aqui morro muitos anos convosco
estremecendo à sabedoria dos tolos
aqui certo clima de nojo e uma galeria viva
de absurdos para a visão integral da coisa
solene
peçam-se óculos para ver melhor, peçam-se janelas
para ver o mar
eu estarei certa à chuva própria desse estado
adequada e a direito despejando-me aqui
chamo a minha mãe ao corpo, não tenho nada
preparado, tenho um telegrama visual e chamo
alto e chego para provar que este mote é só um meio
de porte
há-de encastelar em areia o finalismo rente aos dedos
subir-me à boca subir em bando à do louco onde
terei posto a minha
e aí na ervinha de um passeio restar
à perseguição da luz como um animal deslumbrado
que atravessou

***

VIR ÀS MÃOS / Aforismos terceiros

subindo rei no horizonte sou rei de luzes apagadas
sou rei na divina loucura do trono
o trono vazio sou eu

***

PURA

esta gente que colhe água para derramá-la
compassivamente sobre a chaga
esta virtuosa carraça da solidão pública
com redentor cigarro público também
esta solidão assediando cretinos e sábios
esta deserta implausível cartada
grande força erguida a prumo
esta gente sobre esta imperial e sopa à frente
esta gente que se levanta de peito e escreve
para não matar ninguém

***

SEM TÍTULO

deus por cima
o grande abandono

[in Groto Sato, Mariposa Azual, 2012]

Quatro poemas de Eugénio de Andrade

OS FRUTOS

Assim eu queria o poema:
fremente de luz, áspero de terra,
rumoroso de águas e de vento.

***

METAMORFOSES DA CASA

Ergue-se aérea pedra a pedra
a casa que só tenho no poema.

A casa dorme, sonha no vento
a delícia súbita de ser mastro.

Como estremece um torso delicado,
assim a casa, assim um barco.

Uma gaivota passa e outra e outra,
a casa não resiste: também voa.

Ah, um dia a casa será bosque,
à sua sombra encontrarei a fonte
onde um rumor de água é só silêncio.

***

CANTE JONDO

A mão onde pousava
o que a noite trazia
é quase imperceptível;
memória só seria
do que nem nome tinha:
um arrepio na água?,
um ligeiro tremor
nas folhas dos álamos?,
um trémulo sorrir
em lábios que não via?
Memória só seria
de ter sonhado a mão
onde nada pousava
do que a noite trazia.

***

DESPEDIDA

Colhe
todo o oiro do dia
na haste mais alta
da melancolia.

[in Ostinato Rigore, Assírio & Alvim, 2013]

Dia da Poesia no CCB

Hoje, dia 24, a poesia volta a invadir o CCB. São muitas as iniciativas: debates, exposições, homenagens (a Ruy Belo), ateliers, concertos, maratonas de leitura, uma Feira do Livro. À semelhança do que aconteceu o ano passado, eu lerei poemas na sessão “De Viva Voz” (apresentada por Beatriz Batarda), na Sala Luís de Freitas Branco, a partir das 16h45. A programação completa, aqui.

Bilingue

Poemas meus em português e castelhano, numa revista cultural online venezuelana (obrigado, Raquel Molina!).

Quatro poemas de Gastão Cruz

3

Fotografia de uma personagem
de ti inseparável: nela pesa
essa parede a arder que sem querer ao
procurar ainda ver-te
vi, já não corpo deitado
somente a luz informe da passagem

***

5

Tornara-se perfeita a coincidência:
sobre a mesa puseras os braços e subia
o teu olhar; ameaçavas mas eras
o ser ameaçado, por um tiro talvez;
nesse momento não podias
nem mesmo suspeitar de como era tão breve
a personagem
de que não te separaras

***

13

Os mortos estão
mortos? Onde existe o seu
tempo de vivos? Há dias em que
o traço desses dias
morre infinitamente e todavia o filme
de actos findos
continua a passar numa tela vazia

***

33

Eu vivi nesses anos mas não sei
o que foi por exemplo ter vivido
em mil novecentos e setenta e sete
embora lembre bem a face e o
movimento de cada actor
no palco de cimento,
e o que fora de cena era a alegria
e a dor da minha noite e do meu dia

[in Fogo, Assírio & Alvim, 2013]

Poema inédito de José Luiz Tavares

DÚVIDA SOBERANA
(À memória de Wislawa Szymborska)

Não seremos puros, anuncia o poema.
Grão de areia havemos de conter,
o zumbido das moscas, música propícia
do âmago das infinitas brumas declararemos.
Das estrelas apenas o pulsar negro
havemos de saudar.

Grande calamidade a dor de um único
homem. Por isso odes não cantaremos
às esferas, mas as perturbações geológicas
saudaremos com grave equilíbrio,
se bem que com considerável afoiteza
rodopie dentro de nós o tempo zombador.

Se forças nos faltarem para gizar os grandes
voos, um murmúrio seco será então o penhor
da nossa vontade, porquanto mais amamos
o instante em que o espírito sangra
que as fileiras de preciosos pensamentos
dispostos em camadas seculares.

Certamente os olhos brilharão quando o rude chão
os pés tocarem e um oh soltarmos diante
do mundo que se revela. Morte, definitivamente
sim, mas só aos bocados deglutiremos,
talvez à espera do olvido impossível.

O privilégio do silêncio proclamaremos
diante das pedras cujos milénios não contaremos.
O infinito tocaremos só ao de leve, que nossos
curtos braços são precisos para dar à manivela
à celeridade triunfante.

Ressonância terá acolhimento em nosso
seio, mas não debateremos se será matéria
reciclável, pelo menos enquanto nos interrogar
a face esfolada de um único vivo. Alta metafísica,
devolver à procedência. Contrato rescindir com
o desassossego que não seja o eco
da própria vida a debater-se.

Beleza, só a lacerada daremos guarida,
a que emerge dos escombros que dão nome
à derrota, atiça a fome do que não há,
improviso irrepetível, fagulha em extinção,
oração que não redime, mas persiste
impertinente como maleita gerada pela nossa
retumbante miséria.

No entanto, generosos seremos sempre
com as barrigas inchadas, os olhos esbugalhados,
as falanges sem ardor, e por vós testemunharemos,
silenciosas musas, tudo o que é indigno da vossa
majestade, e à vossa presença o levaremos em inefáveis
vestes envolto, sem nada que provoque riso ou cólera.

Contudo, eternidade alguma almejaremos,
sequer a simples verdade, tributos por demais
pesados para as nossas frágeis canelas,
mas bem vinda seja um pouco ou toda a vivaz
liberdade brotada da carne da pura imaginação,
ainda que amiúde rendida à vénia conveniente.

No entanto permiti que protestemos
contra a alegre despreocupada cor azul
à ilharga das pancadas que o escuro arreia
em nossas junturas, não sabendo nós
com que intenções, salvo que nos salta ao caminho
com um alforge de incontáveis repenicantes ruídos.

Uns soluços amealharemos, mas paisagem
de sentimentos não seremos. Um momento
de deslumbramento, e é tudo — voltamos à inicial
mudez da pedra que fala, se interrogada com
os instrumentos convenientes. Não recriminaremos
a pressa se for o vento golfando sobre os povoados.
Abraçar a chuva é excepção permitida, conquanto
nos deixe o hirto pescoço à flor do dilúvio assomado.

Não remiraremos nas águas lustrais o perfil
primitivo ou a felina destreza com que saltávamos
de constelação em constelação, quando com delicadas
luvas o cosmos acolhedor afagávamos e em nosso
cálido regaço o mundo nem ao de leve cedia
ao apalpar inclemente; porém a máscara mais
esfarrapada afilaremos não para o fingimento
nos entreactos em que com esbracejante vigor
alinhavávamos os grandes temas — tempo, solidão,
eternidade —, mas para o desconsolo nosso
ocultarmos e não ofendermos a glória farejada,
a alta omnisciência que escarnece do nosso
desabrochar impuro, ou do assomo farfalhante
de um oceano de dúvidas.

Um bom dia de carantonha ressequida embora
acolheremos quando inferno de pó abraça
a cintura do território, mas não usaremos coloridas
lentes de ler da pedra o movimento, porquanto
confiamos na imobilidade primordial,
e um estremecer fortuito é normal,
seja vivo ou inanimado o assediado pelo temporal.

O sol consentiremos bem repartido pelas
unhas, cabelos e pele, inda que momentaneamente
uma nuvem escale o topo das preocupações
sensíveis. Daí termos a alma de prevenção,
mas bem trancada, que se insinua em tudo, a danada.

A mudança e a metamorfose aplaudiremos,
mesmo se com elas trazem a defenestração fatal.
Motivo de profundo regozijo será para nós
o olhar desdenhoso dos circunstantes
quando arribados à soleira declararmos
«saudações, senhores, somos a peregrina poesia».

Infinitamente compreensivos seremos
com o desiludido que logo se retira grunhindo
«isto não é um poema», mas milagres não
prometeremos, pelo menos nesta estação ou safra:

nas costas corsárias na flibusta outrora embrenhados,
até o ar expelir agora nos custa. Mas asas e bico
de rapina na imaginação teremos e, eia avante
agigantados ante a treva, com lume nos ossos
e bocejo rangente às lacustres moradas então
retornaremos (as sublimes mansões derruídas
foram pela mão do tempo), ao imo do primeiro
ovo, e seremos pão do povo, se pólvora já não
podemos, sequer a simples pedra que se atira
ao cocuruto do destino, aos fundilhos do infinito.

De borco, com o suor do esforço,
ergueremos já não as cidades futuras
onde o passado é longo e refulgente
e batedores trazem novas dos feitos imorredoiros,
mas um sítio apenas onde poisar a cabeça
espreitando o milagre corriqueiro.

Por isso mensageiros já não somos do estertor
dos tiranos nas praças do mundo enforcados,
mas reflectimos logo de manhã a taxa de madrugada
lançada sobre o nascente raio de sol, sobre a viela
que pisamos, e o abraço retribuído com um
entusiasmo de caveiras nas fileiras dos crematórios.
Decerto baixará o rating da dívida, mas aumentará
a soberana dúvida sobre nosso poder de esconjuro e dolo.

Um último suspiro porém guardaremos para gritar
«poesia ou morte», de tal sorte que nosso retorcido
esqueleto em mil estilhas se espalhará. Nossa eterna
tristeza, nossa definitiva derrota porém seria
todo o leitor aqui chegado não declarar
«algo aqui há a acrescentar».

José Luiz Tavares

Quatro poemas de José Emílio-Nelson

EPITÁFIO

Dum cesto de flores carrega a púrpura.
Da noite o ar rouco.

***

CHAFARIZ

Peixinhos da cinta aos pés
Num chafariz até ao umbigo.
E vermelhinhos
Nadam na sua doçura para o aquário cristalino. E tanto faz
Se depois são enxugados com pano cardinalício
Ou cinza de incensário.

***

IMOLAÇÃO

A perdiz ao dar voltas em círculos sacudidos,
A cair lançada para dentro das
Penas coloreadas, enceguece
A glaseada mão do caçador.

***

MINA SAN JOSÉ

Rezo pelos mineiros chilenos.
As almas soltando labaredas de El Greco.
Ciclopes à espera de subirem ao céu azul pelos tubos dum
órgão de luzes que os ressuscita no sepulcro.

Estes mineiros extraem Deus.

[in Pesa um Boi na Minha Língua, Afrontamento, 2013]

Quatro poemas de Manuel Gusmão

um risco na página
um gesto furtivo
um movimento
de queda
na sombra
da sombra
de um corpo, uma boca
: alguém chama — palavras contra
o sentido, contra a direcção
do vento

***

O rio divide-te entre
as margens montanhosas
pelas pedras
que saltando
vais de
onde vens
rosto de quem
uma borboleta
brilha na claridade
do súbito assombro.

***

a lagartixa
o pequeno sáurio
miniatura sobrevivente
de uma adaga pré-histórica
deixa cortada
e de si separada
a cauda, a lâmina em movimento
que fica para trás e deixa fugir
o tronco e os seus velocíssimos
dois pares de pés.

***

o comboio de corda
cruza o sítio de partida
e fecha um dos zeros
do ∞ deitado no mapa
celeste
e se leste
até ao fim o seu movimento
viste-o fechar o outro zero
e caíste infinitamente
na terra finita.

[in Pequeno Tratado das Figuras, Assírio & Alvim, 2013]

O que não se sabe

(glosa oblíqua de um verso de Ferreira Gullar)

Murmuras
Só o que não se sabe é poesia
e eu vejo-te à janela,
observando o movimento das coisas
na rua Duvivier, seu lento desfile,
sua prodigiosa vertigem, sua incerta glória,
uma miríade de coisas simples e pequenas
que desembocam numa grandeza cósmica,
coisas que se agitam, que se inflamam,
que brilham, coisas já matéria verbal
a aninhar-se no poema ainda no limbo,
esse novelo crescendo algures no
labirinto das circunvoluções cerebrais,
acendendo-se na tua consciência durante
o simples acto de olhar a rua, o poema
à espera de encontrar quem não saiba
o suficiente para o escrever, para o dizer.

Estás à janela, com o poema
expandindo-se dentro da cabeça,
poema silencioso, pés de lã, a erguer-se
do nada para uma espécie diferente
de silêncio, o som áspero das palavras
agora no papel, andaimes de tinta, carena
de um navio invisível mas que flutua
e avança leitor adentro, com os porões
carregados da melancolia que julgavas
só tua, mas que cedes agora ao
estranho comércio da poesia,
esse tráfico de ouro e pólvora,
brilho e deflagração.

Estás à janela, a cabeleira branca
reflectida no vidro, consciente
de cada um dos teus ossos,
e sobre os telhados do Rio de Janeiro
o céu que escurece é o de São Luiz
do Maranhão, paira no ar o cheiro
das bananas apodrecendo na tua infância,
a sombra das mil faces da miséria, a violência
venenosa do jasmim, o passado inteiro
com a sua carga ora sublime, ora abjecta,
e tudo isso cai no buraco do poema ainda
por existir, ainda buscando a sua forma
mas já em aproximação brusca
a quem um dia o lerá, compreendendo
ou não todos os sinais, a ordem
dentro da desordem, as asas da mosca
pousada no parapeito e a espiral
da mais longínqua das galáxias.

A rua Duvivier, não a conheço.
Fica numa cidade, o Rio de Janeiro,
onde nunca estive. Por isso, o teu
prédio, a tua janela, assumem na minha
imaginação uma forma que nasce
dos prédios todos de que me lembro
(prédios que não ficam na rua Duvivier)
e de todas as janelas que não são janelas
de prédios que fiquem na rua Duvivier.
É imaginária a janela em que te imagino,
no alto de um prédio também ele imaginário,
mas reais ambos, janela e prédio, porque
és tu e a tua cabeleira branca que se
reflectem no vidro enquanto o poema
ganha forma no labirinto das minhas
circunvoluções cerebrais.

Agora sou eu que murmuro:
Só o que não se sabe é poesia.
Não há poucos poetas porque
saibamos pouco. Há poucos
poetas porque sabemos demais.
Escrever é levantar uma cerca,
arame farpado na planície:
para cá da cerca, as nossas certezas;
para lá da cerca, o que desconhecemos.
Se tivermos sorte, o poema vem ter
connosco quando insones,
sonâmbulos, abrimos o portão
sem fazer barulho e nos perdemos lá
fora, nessa noite que escurece sobre
a nossa ignorância, sobre o Rio,
sobre a verdadeira rua Duvivier
e sobre a que imagino, sobre ti
e sobre mim, perdidos os dois
no reflexo da janela que não há.

[Poema escrito anteontem à noite, na Póvoa de Varzim, e lido ontem à tarde, na mesa 3 das Correntes d’Escritas]

De onde vem o verso

O mote para a mesa 3 saiu do primeiro texto do livro Em Alguma Parte Alguma, de Ferreira Gullar (edição portuguesa da Ulisseia). Eis esse magnífico poema, sem a devida formatação gráfica (que o WordPress, hélas, não permite):

FICA O NÃO DITO POR DITO

o poema
antes de escrito
não é em mim
mais que um aflito
silêncio
ante a página em branco

ou melhor
um rumor
branco
ou um grito
que estanco
já que
o poeta
que grita
erra
e como se sabe
bom poeta (ou cabrito)
não berra

o poema
antes de escrito
antes de ser
é a possibilidade
do que não foi dito
do que está
por dizer

e que
por não ter sido dito
não tem ser
não é
senão
possibilidade de dizer

mas
dizer o quê?
dizer
olor de fruta
cheiro de jasmim?

mas
como dizê-lo
se a fala não tem cheiro?

por isso é que
dizê-lo
é não dizê-lo
embora o diga de algum modo
pois não calo

por isso que
embora sem dizê-lo
falo:
falo do cheiro
da fruta
do cheiro
do cabelo

do andar
do galo
no quintal
e os digo
sem dizê-los
bem ou mal

se a fruta
não cheira
no poema
nem do galo
nele
o cantar se ouve
pode o leitor
ouvir
(e ouve)
outro galo cantar
noutro quintal
que houve

(e que
se eu não dissesse
não ouviria
já que o poeta diz
o que o leitor
– se delirasse –
diria)

mas é que
antes de dizê-lo
não se sabe
uma vez que o que é dito
não existia
e o que diz
pode ser que não diria

e
se dito não fosse
jamais se saberia

por isso
é correto dizer
que o poeta
não revela
o oculto:
inventa
cria
o que é dito
(o poema
que por um triz
não nasceria)

mas
porque o que ele disse
não existia
antes de dizê-lo
não o sabia

então ele disse
o que disse
sem saber o que dizia?
então ele o sabia sem sabê-lo?
então só soube ao dizê-lo?
ou porque se já o soubesse
não o diria?

é que só o que não se sabe é poesia

assim
o poeta inventa
o que dizer
e que só
ao dizê-lo
vai saber
o que
precisava dizer
ou poderia
pelo que o acaso dite
e a vida
provisoriamente
permite

Quatro poemas de Susana Araújo

MÁTRIA

Puxada pela cabeça, no reverso do
que tínhamos ensaiado, costuras
raspadas e cerzidas, na tentativa de
expelir um país em chamas onde o
Tecnocrata ternamente rege, ruge e cospe.

Pela clareira púrpura, os mesmos escrevem as
mesmas palavras nos mesmos jornais. Pátria,
puta hipócrita, porque falas de mim pelas costas?
Comprei o bilhete de regresso por engano.

***

RAIVA

Ladraste-me ao ouvido (rugidos em forma
de cálculo) e dizes agora que a rima é cáustica.
Morderam fundo: eu seco bem a pele,
(para ressequir zoonoses, nevoeiro em nódoa)
o barco em que dormimos
vela sobre o fel

Por onde andámos, membros fechados
de corporação em corporação, sonhando
com o mel de uma amputação, partilhámos
Raiva: porta perfeita para
o nervo periférico.

E assim, prenunciados,
rendidos a um estado
sem graça nem jurisdição
vadiamos pelo branco adentro,
bocas espumando
tinta em papel

***

SPREAD

A colcha branca conhece o lucro do
diluído acervo que se estende anguloso
sobre mar incerto. Reúne no húmido centro
os resultados do nosso câmbio (como aliás
ficou demonstrado em extrato integrado)

Na performance da métrica que
nos torna igual à diferença entre
o custo do capital (total) e a reposição do
seu investimento (impossível), arquejam
dobradas as tuas pernas dispersas
partidas, abaladas (i.e. das minhas
já desenlaçadas).

***

PROGRAMA DE ESTABILIDADE E CRESCIMENTO

Tu vacilas, não queres ouvir e eu
não vou ter contigo a meio caminho
deposta, abandonada e irrisória
a ponte de ferro quebra-se
assim que o FMI avança

Um casal ainda criança
já refinancia
os seus juros

Não há compensação
para quem sonha severamente
enquanto espera pelo autocarro
durante o horário de Inverno

Vê agora, lá fora: uma
família que forja falsetes
tenta agarrar-se à rede,
frívolos esforços em que
os nossos filhos falham

O estímulo ao investimento
de iniciativa privada promove
a utilização proveitosa dos nossos
recursos: como esta faca de cozinha
que avança para nós com serrilha, sorrindo
combinação certeira entre a ergonomia
o melhor design e a qualidade

Todas as domésticas suturas serão
submetidas a uma rigorosa
análise de sensibilidade

Dorme bem, meu amor e
deixa a manhã reestruturar
a nossa dívida.

[in Dívida Soberana, de Susana Araújo, Mariposa Azual, 2012]

A música certa

Poesia Reunida
Autora: Maria do Rosário Pedreira
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 256
ISBN: 978-989-722-047-0
Ano de publicação: 2012

Os três primeiros livros de poesia de Maria do Rosário Pedreira – A Casa e o Cheiro dos Livros (1996); O Canto do Vento nos Ciprestes (2001); e Nenhum Nome Depois (2004) – encontravam-se há muito tempo esgotados, pelo que a sua reunião num só volume de Poesia Reunida, com chancela da Quetzal (um regresso a casa ao fim de 15 anos), permitirá a muitos leitores um grato reencontro e a outros uma importante descoberta.
Não tendo sofrido qualquer tipo de «revisão, corte ou acrescento», estes livros iniciais permitem comprovar a constância dos temas e a consistência do dizer poético de Maria do Rosário Pedreira. Com subtis variações ou deslocamentos, os poemas são o testemunho e a expressão de um amor que é vivido até ao limite, quase sempre em estado de perda. No prefácio, Pedro Mexia assinala que «esta poesia não teme o trágico nem o ridículo, que é o trágico visto de fora». Ou seja, entrega-se de peito aberto a um «ultra-romantismo» arriscado, sem nunca cair na facilidade do mero derrame sentimental (mesmo se dele escapa, por vezes, apenas in extremis). O segredo está na ênfase recatada desta voz que se maravilha e desilude, uma e outra vez, com a improbabilidade do encontro de duas vidas, dois tempos que se unem, para depois voltarem a bifurcar-se, deixando as feridas da ausência, da solidão e da espera.
O que se define nesta poesia é uma paisagem emocional carregada de sinais (os objectos, os cheiros, as memórias que deixamos na casa e nos corpos), uma linguagem capaz de captar e decifrar as mais ínfimas vibrações que os amantes despertam um no outro:

Nada entre nós tem o nome da pressa.
Conhecemo-nos assim, devagar, o cuidado
traçou os seus próprios labirintos. Sobre a pele
é sempre a primeira vez que os gestos acontecem. Porém,

se se abrir uma porta para o verão, vemos as mesmas coisas –
o que fica para além da planície e da falésia; a ilha,
um rebanho, um barco à espera de partir, uma palavra
que nunca escreveremos. Entre nós

o tempo desenha-se assim, devagar.
Daríamos sempre pelo mais pequeno engano.

Aos livros conhecidos, Maria do Rosário Pedreira acrescenta um conjunto de inéditos (A Ideia do Fim), onde descobrimos, em vez da falta, uma espécie de plenitude. O amor continua a ser uma violência, mas uma violência tranquila. A «desordem» do tempo em que «andava de ferida em cicatriz» ficou para trás. A ambição pode resumir-se a «ser velhos juntos nos degraus da casa», e é a própria «ideia do fim» que traz consigo «a música certa para os meus versos».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 117 da revista Ler]

Quatro poemas de Maria Teresa Horta

TUA ESPIA

Sou tua espia
Sou tua neta
Tua vigia

Sou tua asa
Sou tua guia
Tua passagem

Crio-te a fresta
Abro-te a porta
Teço-te a aura

***

RETRATO

Tinha uma silhueta
esbelta e quebradiça

O desassossego
no espelho das palavras

Olhos de anil
a boca indefinível
Andar audaz de culpa recusada

Tinha um trejeito
de pressa leve e esguia

Odes, sonetos
sonhos, verso e lava

Tinha paixões
que sempre rasurava

***

INFÂNCIA

Tabuinha de carvalho
menina de pulso
fraco

Língua de ouro e anis
branca de pele
e de nardo

***

PARTIR

Não sei
se te deixei partir

Mas num segundo
já não estás na minha mão
nem à minha frente no papel

Ficando eu sem saber
quem eras
quando te encontrei

Se o retrato que de ti
tracei te é fiel

Ou se de tanto te inventar
eu te perdi, por entre
as florestas das histórias

Penumbras dos palácios
Pensamentos, poesias e diários
Oceanos e ventos

Pois nem sequer
percebo se por mim
te afastei ou te larguei

Se obstinada fugiste
ou te esqueci
Se a Torre onde te pus é de Babel

E dela partirás
para viver a única
paixão da tua vida

Não, nem sequer sei
qual foi o meu olhar
pousado em ti

Se com ele te espiei
te persegui
E no espelho onde te vias

Eu te olhei

[in Poemas para Leonor, Dom Quixote, 2012]

Três poemas de Joana Serrado

‘Doem-me os cafés da minha cidade
os que fecham ao domingo
os que fecham para obras
os que fecham para férias
os que fecham indefinidamente

os que fecham por fechar
os que não precisam de fechar e se trespassam trespassando-me.

Sei que vou morrer com eles, sei que vou morrer sem eles.

Sei que o teu corpo é um corpo perecível, corruptível.
Sinto a tua morte nos meus ossos e não consigo salvar-te.
A tua frigidez, a tua alvura apodrecida
a maneira como os teus maxilares se adormecem um no outro.

Só o perfume das violetas que brotam do teu corpo me faz acalmar.’

in Autonecrografia de uma Península

Dói-me a cidade que escolhi para morrer.
Não tenho lugar para escrever um poema de amor.

***

BOXES

Vejo do topo das escadas os 140 lugares indisponíveis
para as palavras de amor.

Como o que eu procuro não se encontra catalogado
ando aqui por cima,
entre o gás
as nuvens
e os pequenos sofás verdes
à espera de entrar.

Encontro o meu lugar vago
todos os lugares vagos com livros que ninguém lê.

***

OS ESTATUTOS DO AMOR

1. (Direito à Possibilidade)
Que todo o abraço seja tão contundente como o teu olhar.
Que todo o olhar seja tão emergente como a tua palavra.
Que toda a palavra seja tão urgente como a tua mão nos meus cabelos.

2. (Direito ao Espaço e ao Tempo)
Que haja tempo em bloco e não ruptura de tempo.
Que a minha ilha seja teu porto e teu porto nos seja santo.
Que a comunhão se faça tanto no beijo como no silêncio.

3. (Direito à Fecundidade)
Que do teu umbigo nasçam flores com seiva de primavera.
Que eu possa viver do seu perfume e sobreviver à sua acidez sem as desflorar.
Que o prazer não precisa de extrema-unção mas que a unção do prazer seja extrema.

4. (Direito à Perfeição)
Que a palavra “amor” nunca seja proferida em vão.
Que o amor venha já feito, perfeito e não por fazer.

[in Guarany, 4Águas Editora, 2012]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges