Poesia para respirar
É o próprio Nuno Moura que o diz: são «30 minutos com exercícios respiratórios e alguma poesia».
‘Encontros na Poesia’
Maria do Rosário Pedreira e Menchu Gutiérrez juntam-se para uma leitura de poemas na quinta-feira, dia 9, a partir das 18h30, no Instituto Cervantes (Lisboa). Seguir-se-á uma «conversa sobre a criação poética».
Desertos e desastres

Como se Desenha uma Casa
Autor: Manuel António Pina
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 46
ISBN: 978-972-37-1616-0
Ano de publicação: 2011
Volume de poesia reflexiva, nostálgica e depurada, Como se Desenha uma Casa é o primeiro livro de originais que Manuel António Pina publica depois de lhe ter sido atribuído o Prémio Camões em 2011. Chegado à «tardia idade», Pina ainda procura o que há de material nos objectos, o sabor do «pão primeiro», mas os poemas reflectem sobretudo a «agonia interminável das coisas acabadas». O tom é de desencanto. Os versos enchem-se de fantasmas, passos ao longe, corpos e nomes que se desvanecem, escombros. O que pulsava deixou de pulsar, extingue-se o canto numa vida «excluída / da clarividência da infância», o poeta atravessa uma paisagem em que tudo se perde ou envelhece, acumulação de «desertos» e «desastres», consciência da «mudez do mundo». Um mundo «onde o Lexotan se tornou literatura» e em que «a porta está fechada na palavra porta / para sempre». Mesmo morrer «não é fácil», porque «ficam sombras nem sequer as nossas, / e a nossa voz fala-nos / numa língua estrangeira».
A escrita de Pina surge neste livro mais rarefeita, «com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso», embora circule pelos temas de sempre: o «rumor» dos livros («É então isto um livro, / este, como dizer?, murmúrio, / este rosto virado para dentro de / alguma coisa escura que ainda não existe»); os labirintos da memória; os gatos (para quem nós, humanos, somos «intrusos, bárbaros amigáveis»); as citações explícitas (Paul Celan, Sá de Miranda) e as escondidas; a «possibilidade de sentido» das estruturas verbais de que se faz o poema (mesmo quando no fim não sobra nada: «Uma casa é as ruínas de uma casa, / uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra»).
Há também evocações de amigos: alguns desaparecidos, quase todos poetas. Na Carta a Mário Cesariny no dia da sua morte, a despedida transformada em até já – «A gente vê-se um dia destes por Aí» – concentra toda a melancolia que atravessa o livro: «Há apenas agora um buraco aqui, / não sei onde, uma espécie de / falta de alguma coisa insolente e amável, / de qualquer modo, aliás, altamente improvável.»
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no n.º 108 da revista Ler]
Quatro poemas de João Miguel Henriques
HOCHGOBERNITZ (SEGUNDO THOMAS BERNHARD)
os primeiros assomos de loucura
trazem a destruição dos campos todos.
no traço inculto das coutadas
mingua a vida
repousam as alfaias
dos quartos vazios de gente
das terras vazias de tudo
sobram apenas muralhas
(ninguém se lembra)
há um prenúncio de tragédia
capaz de vergar os dias
aos trabalhos dolorosos
é o triunfo das gerações
sobre a antiga casa paterna
somente um reflexo de luz
um declínio inteiro
quando saio do quarto onde moro
e venho às muralhas
lembrar-me das coisas
reparo que as chuvas de inverno
vieram aqui para ficar
***
O DIÁRIO
o pai diz que aqui o tempo pára
e aqui (eu sei) o tempo pára mesmo.
não corre já pela azinhaga
a célere aragem carregada de tempo
encontrei o diário dela na quarta-feira
as pálidas notas de adolescência, amiúde enfadonhas.
recordo como ela dizia, não quero que o leias,
o pai diria: não, não lhe leias o pálido diário
não despertes com essa leitura aqui a corrida do tempo
há-de repousar esse caderno
entre outros livros de memórias:
proust e o seu tédio de morte
e também ashberry, codificado pelo dia absurdo
não deixarei pai por um segundo
que o tempo vá veloz pela azinhaga
***
A CASA FRIA
já cosi as duas faces do poema
as duas estâncias
com as palavras da casa fria
disse à mulher que viesse
que acorresse à casa fria
e agora já dobrei a folha ao meio
e uni as metades da casa
com um ponto de costura
***
BIBLIOTECA NACIONAL
infeliz esta coisa dos livros todos
e todos muito juntos uns aos outros
abstracta matéria
e lamacenta
de querer dizer coisas por livros
e neles ler o ror das coisas todas
estupenda empresa
e opulenta
a reunião de livros em grandes casas
e ter lá dentro gente que os leia
penosa façanha esta
já quase medonha
[in Isso Passa, Artefacto, 2011]
Quatro poemas de Fernando Assis Pacheco
Um homem tem que viver.
E tu vê lá não te fiques
– um homem tem que viver
com um pé na Primavera.
Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.
Cheio de luz – como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio dos mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.
Palavra, um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.
***
COM A TUA LETRA
Porque eu amo-te, quer dizer, estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.
Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.
***
MONÓLOGO E EXPLICAÇÃO
Mas não puxei atrás a culatra,
não limpei o óleo do cano,
dizem que a guerra mata: a minha
desfez-me logo à chegada.
Não houve pois cercos, balas
que demovessem este forçado.
Viram-no à mesa com grandes livros,
com grandes copos, grandes mãos aterradas.
Viram-no mijar à noite nas tábuas
ou nas poucas ervas meio rapadas.
Olhar os morros, como se entendesse
o seu torpor de terra plácida.
Folheando uns papéis que sobraram
lembra-se agora de haver muito frio.
Dizem que a guerra passa: esta minha
passou-me para os ossos e não sai.
***
F.A.P. FECIT
Este livro é teu que me aturaste
desvairos saüdades amorios
desde o primeiro mal cozinhado verso
ó cúmplice
um que me lê com respeito e vagar
a quem devo chamar prestante amigo
neste mundo de tanta cabronada
o livro é o que é nenhum enleio
nenhuma assinatura a baixo preço
não estou nessa tal lista e tem também
a confissão banal dos mil cagaços
de morrer (dores intercostais músculos
caindo na barriga da perna)
como se eu fosse à noite um filho terno
e teu, leitor, que o não desamparaste
*
Peçam a grandiloquência a outros
acho-a pulha no estado actual da economia
*
E não sublinhem o que não escrevi
*
A ti compadre irmão saúdo e já termino
com só o fósforo duma estrela
na lixa do fim da tarde
[in A Musa Irregular, ASA, segunda edição, 1996]
‘Manual da vida breve’
Quatro poemas de Inês Fonseca Santos
AS COISAS
São feitas de vidro.
Partem-se quando digo em voz alta
o teu nome. Nome de todas as coisas.
***
AS COISAS DO CORPO
Demasiado internas para lhes conhecermos os contornos.
Demasiado ocultas para lhes saber as razões.
Ostensivas, as coisas do corpo exibem-se perfeitas. Segundos
em que cheguei a odiá-las. Estavam demasiado longe
dos lugares a que devíamos regressar quando eu envelhecesse.
Puxei-te pela mão. A mão soltou-se do teu corpo.
Coloquei-a no lugar do coração; com as unhas
construí um fecho novo para o colar de pérolas;
vendi a pele e voltei a encher o frigorífico.
Alguém se sentou à mesa. Tinha o teu nome gravado;
um rosto sem marcas, irreconhecível,
aguardava a mão capaz de lhe levar coisas à boca.
Coisas de alimento às coisas do corpo. Como esta mão a bombear-te
o coração do lado errado do peito.
***
AS COISAS NAS PONTAS DOS DEDOS
Cortam os vasos, as veias. Minúsculas,
as coisas nas pontas dos dedos
são feitas de vidro partido.
Invisíveis aos olhos, levam com elas
as nossas impressões
digitais.
***
AS COISAS FRÁGEIS
Pegava-te no nome como no aquário
verde, quando era ainda cidade de peixes –
bichos de alimento diário e morte mensal,
silenciosa, sem desgosto ou pânico,
indiferente à vida. (As nossas, as deles.)
Hoje caminho, como todas as manhãs, com a tua existência
nas mãos (na cabeça, nos pés), seguro-a como coisa frágil,
quebradiça – coisa morta do dia em que morreste.
Recordo apenas o pássaro. Tinha no nome ruivo
e no bico o som atenuado de uma canção.
[in As Coisas, Abysmo, 2012]
Every poet needs a Virgil
The mystery of poetry editing.
Três poemas de João Miguel Fernandes Jorge
PEQUENOS VIDROS AZUIS
Cobria a mesa com velas acesas
a macerada tarde do mês último —
e escrevia em rectângulo
de papel bem aparado,
depois rasgava. Todos o podiam ver
sentado a essa mesa no cimo do parque,
a casa,
o vidro azul da janela
canal de água a par do caminho. Foi
quando surgiu o levadeiro
— as velas de um sopro apagou —
caía a água na extensão da rocha
no perfume magoado de dezembro
entre o rumor do vento
a sombra não se movia nem se prendia ao
traço do corpo, não imitava os gestos
em doce modo apagou todas as velas
ao que escrevia sem qualquer sentido
ao muro branco do nevoeiro
a última folha da faia rubra prendia a
vazia escrita do desejo, seguia-o
com o passo de um ladrão e o tremor
de quem falta a secreto juramento.
***
ESCHSCHOLZIA
Além naquele requebro sobre o mar, ao passar o pinhal
e os cálices brancos da esteva (tão grandes nunca assim os vi
no continente) está o chão de amarelo Chamisso. É a eschscholzia.
Semelhante à vulgar papoila
se não fôra o amarelo intenso
sobre o mar da ilha
estremece ao menor sopro de vento
ferida de pele queimada que recorda vencedores e derrotados no plaino de [Waterloo.
Pôs o chapéu de palha e levou-me pelo caminho da casa velha,
acachorrada, campestre. Em voz medida, a flor do acaso
rente ao passar — eufórbia, trevo rosa, artemisa,
o azul da chicória, a sombra desenhada da bardana, o
caminho do herbário. Na despedida,
não sei porque me disse em castelhano Y
las más de las veces la excelencia
sólo está en los mimados por los dioses. O obscuro azul da noite
descia, triste cravo de bronze sobre a leal flor
do linho que vinga sem cuidado.
***
OS AMARELOS DE NOVEMBRO
Não tem palavras a minha canção preferida. Tem antes
os amarelos queimados de novembro. Gosto de gente antiga e
obscura, gente culpada, jovem ou envelhecida para
quem a vida não passa de um contínuo de sombra
por isso sei abraçar por isso partem sem regresso.
Sombras que surpreendo — não quebres não
estragues o amarelo de novembro.
E aquele que está sentado à nossa frente é entre
todas as coisas
a ideia mais perfeita, a mais real, a mais sólida.
No instante seguinte nada sabemos.
É assim o nosso modo de ser e a própria
condição do amor. Destruir,
riscar até desaparecerem os amarelos de novembro.
[in Lagoeiros, Relógio d'Água, 2011]
599 poemas
Já instalei a aplicação que me dá poesia portuguesa para o iPhone (com bastantes inéditos de novos autores). Por exemplo este, de Minês Castanheira:
POEMA AZUL
Então não o sabíamos, já não se escrevia nos cafés,
porque já não se fumavam os vícios, Pessoa estivera sempre
morto e os demais poetas passeavam agitando as estátuas,
gritando versos à multidão surda.
Deixou de interessar contar quantos éramos à mesa sem
sinais de fogo.
Na certeza de escrever-te, perdida a voz que te falasse,
assumi os óculos de sol pequenos e quadrados
e castanhos monóculos por onde espreitar o estranho
mundo inavegável.
Então penso: cachimbo, fumo, caixa, café, chapéu, silêncio.
Vê como tenho evitado escrever-te.
As cidades não são líquidas,
reproduz-se em brandos depósitos a seca da geração anterior.
O passado é feito de muitas palavras – não é essa a
linguagem que persigo – e os que vieram antes de nós
afogaram-se em pátria, ponte apontada a cinza.
E fizeram baús maiores do que gente.
E fizeram grande gente que mata à fome um poema,
que não vê para além da caixa ou do que a sua tampa oculta.
Todo esse recolher das coisas aos seus lugares
exactos
leva ao extremo a tua ausência – se não estás aqui não
estás inteiro em lugar algum –
és um corpo entornado sobre o tapete. E também essa
recordação se há-de acomodar em nós, plantada em pele
fértil de pátria, ponte e cinza, ocupando
caixas e caixas de chapéu.
E dela guardaremos firme promessa. Agitando as estátuas,
domesticando o coração à cadência de novos sons internos.
De pouco me serve agora dizê-lo, mas não pertenço
a esse azul.
Nem quero barcos que hesitem sobre a mesma onda, pontes
por onde continuar a tua longínqua viagem,
moldura pequena, quadrada para encaixilhar a mancha
longa e caudalosa.
Quando corro dentro de mim meço apenas alguns palmos
e sujo o chão logo à entrada, mas sítio algum
se manteve intacto assim, como este, depois de teres partido.
Que se fumem os vícios. Fume-se esta linguagem que
persigo.
O ar passa a ter um cheiro doce e quente sempre que tento
escrever-te. Retornas em pedacinhos
em certas tardes de Inverno, como sedimentos de palavras
em terra firme.
Em doses virais.
Deixo que as formas me surpreendam e posicionando o
castanho monóculo, acendo o cachimbo imaginário para encher
de fumo no café a caixa de onde subtraio o chapéu íntimo.
Os que vieram antes gritam às estátuas. Vê como tenho
evitado escrever-te. Houve quem se escusasse ao furto das
águas e fosse lançar-se sobre as
palavras.
Nunca percebi porque tanto falam do mar. É nas trincheiras
deste jardim que mergulho, com todo este evitar-te e com todo
este escrever-me. E nele não há azuis.
Prémio T. S. Eliot 2011
O relato da controversa edição deste ano do Prémio T. S. Eliot, atribuído pela Poetry Book Society do Reino Unido, está no blogue da revista Agio, num post de Ricardo Marques (que traduziu três poemas de John Burnside, o vencedor).
Quatro poemas de Vítor Nogueira
À MANEIRA DE FILIPE NUNES
Para facilmente poderdes copiar uma cidade,
construí um quadrado com uma rede estirada,
de modo que as malhas fiquem todas direitas
na sua proporção. A seguir fazei num papel
a mesma rede com linhas. Depois procurai
o lugar de onde melhor se descubra a cidade,
os olhos e o quadrado num só ponto,
para que não percais a vista correcta do perfil.
Podereis então copiar facilmente. Porque
passareis a torre que fica numa malha da rede
para a malha que lhe responde no papel.
E fareis o mesmo a partir da outra malha
onde aparece a árvore. E assim podereis ir
pelas malhas, copiando a pouco e pouco.
***
À MANEIRA DE FRANCISCO DE HOLANDA
O dia é feito de deslizamentos, fantasmas
que emergem de cenários onde as cores
enlouqueceram. Mas o equilíbrio, quer dizer,
não é bem isto. Pintar é fazer perto o que está longe,
somente com duas linhas, uma recta e outra curva,
de modo que pareça estar numa tábua limpa
e lisa, ou num papel cego e franco, tudo aquilo
que não está. E assim mesmo com a razão
de duas coisas, porque de duas coisas
a pintura é formada, sem as quais é impossível
concluir alguma obra: a primeira é luz ou claro,
a segunda é escuro ou sombra.
***
TERRENO
Muitas vezes o pintor fica sozinho,
com o terreno à sua frente, acentuado,
e os demónios às bicadas na sua cabeça.
É a altura de arriscar, de subir
os degraus da escada óptica, de forçar
a realidade a caber nos seus desenhos.
É também, senhores, a parte mais perigosa
da escalada – seria mau momento
para a corda se partir. Como quem salta
de uma dor física para um amor perdido,
ter as mãos e os braços em farrapos
e poder subir ainda um pouco mais.
***
POMBO
Digam o que disserem, o grande vadio das cidades
é o pombo. Mistura-se com o fumo dos automóveis,
a luz dos cafés. Empoleira-se num busto
de homem célebre, o mesmo atrevimento
com que se mete num enfeite banal de cantaria.
Um dia bate as asas, lá se vai. Qual é o seu destino?
Sabe-se acaso o destino de uma asa que esvoaça?
[in Modo Fácil de Copiar uma Cidade, &Etc, 2011]
Uma jornada particular

Lugano
Autora: Tatiana Faia
Editora: Artefacto
N.º de páginas: 91
ISBN: 978-989-8417-09-1
Ano de publicação: 2011
Nos últimos anos, têm sido muitas as revelações femininas na poesia portuguesa – em flagrante contraste com o que se passa no domínio da ficção. Tatiana Faia, co-editora da revista Ítaca, é mais uma autora que se estreia com uma obra que não parece de estreia, tal a densidade e rigor estilístico dos textos reunidos em Lugano. Veja-se o início do poema que dá título ao livro:
muito entediadamente desceu as escadas
e sentou-se no último degrau, rapaz
de longe alguém te trouxe o hábito
de contar no páramo as estrelas
(…) assim somos trabalhados às vezes
pela mudez que fica em algumas imagens
um rasto de prata uma cor de cinza
a impressão de cores que nos visitam
e não sabemos de onde vêm mas chegam-nos
varridas para a margem por uma coisa concreta.
Esta é uma poesia fascinada com o «espectáculo da linguagem», mas também com o «lugar antes das palavras». Tatiana Faia, que fez Estudos Clássicos na Faculdade de Letras de Lisboa e prepara um doutoramento em Literatura Grega, não esconde a influência das suas leituras naquilo que escreve. Os poemas – quase todos longos, compostos por várias partes que funcionam como um mosaico – são marcados por uma deriva geográfica através da bacia mediterrânica, berço da civilização ocidental, um périplo que passa por Roma, Alexandria, Siracusa, Palermo, La Valleta, Pompeia, Atenas e Jerusalém. Há sempre, na viagem, «uma mala cheia de livros». A literatura impregna a escrita, entra nos versos, seja invocando uma imagem de escadas (vinda de Eugenio Montale), seja pela referência a mitos e narrativas fundadoras (Electra, Jano, Ariadne em Naxos, um hino homérico a Apolo). Não se julgue, porém, que a autora se perde nos labirintos da erudição. Pelo contrário, a sua escrita como que busca uma simplificação do real, pairando sobre os rituais do quotidiano, os êxtases e tribulações do amor, as pequenas nostalgias, o acto de abrir uma romã, a procura de um «gesto que nos dispensasse da fala» ou o registo de alegrias efémeras, como todas as alegrias, distribuídas por «um deus que não sabemos se é generoso».
Avaliação: 7,5/10
[Texto publicado no n.º 108 da revista Ler]
Quatro poemas de Henrique Manuel Bento Fialho
ADÃO A EVA
Não temas a trovoada,
o aconchego do relâmpago.
Senti-la aqui tão perto
é um regalo a poucos concedido.
Se a casa tremer,
lembra-te que não é de medo
nem do frio das paredes.
As casas só tremem
porque estão de pé,
fundadas na terra que recebe
as ossadas dos relâmpagos:
as trovoadas.
Não temas os mortos
nem o aconchego dos vivos,
nem deixes morrer nos vivos
as trovoadas que fazem tremer
as casas.
***
ERNESTO SAMPAIO A FERNANDA ALVES
Não temos mão na treva –
fio de lama que escorre
à superfície da pele,
acusação afectuosa
de um brilho esmorecido,
morte trespassada
de anúncios que nos embalam
à hora de adormecer os ninhos.
Viemos do nada, errámos
pelo corpo como a força
de uma raiz exaurindo o caminho
que vai dos tímpanos ao coração.
Por isso palpitamos
e tememos e agimos.
Por isso resgatamos num sopro
a explicação das pontadas.
Por isso dizemos ser o mundo
esta treva e nós a luz que destoa.
Por isso contrabandeamos paixões,
consentindo no insulto que é dizer:
amo-te.
Não sei quem és. Não sabes quem sou.
Somos apenas alguém à espera,
fantasiando o absurdo da vida,
crentes de que um dia o nada de onde vimos
possa tornar-se o tudo para onde vamos.
***
CESARE PAVESE A TINA PIZZARDO
Onde os pássaros fazem o ninho
e debicam os pulsos,
onde as crianças constroem casas
e afinam os dentes,
onde as marés arrebatam as luas
que o desejo renova,
onde um dia eu disse
que viria a desfalecer,
onde um dia no chão,
sob um manto de estrelas
a caírem do céu,
onde um dia no terraço,
onde um dia na cama,
onde um dia na mesa,
na praia, onde um dia
num vão de escada,
onde um dia no elevador,
na banheira, no sofá,
onde um dia cozinhámos a história
que ficou por acontecer.
***
SYLVIA PLATH A TED HUGHES
Dobra bem os versos por baixo do colchão,
estica a pele até ao ponto de rasgar.
Depois areja os nervos, os músculos,
tudo o que puderes fazer sair de dentro do corpo.
E com as palmas das mãos inscreve
a ansiedade que te escorre dos poros
neste espelho de cambraia quase invisível.
Tenho uma flor à tua espera, uma ferida
nos sulcos do meu ventre. Vem regá-la,
colhê-la, faz com ela o arranjo da refeição
que agora termina e de novo começa.
[in A Dança das Feridas, de Henrique Manuel Bento Fialho, edição do autor, 2011]
Três poemas de Vasco Gato
Aqui o mar é sono perpétuo,
câmara para o mais terrível segredo.
Entro nele de mãos trémulas, certo
das minhas cedências. Recordo o sabor
salino de outras perdas, casas tombadas
das quais sou solitária ruína.
Eu, que tanto tenho dado à insónia,
embebo-me agora nas águas de outro dialecto
– as palavras falham, e essa é a comunicação.
***
O barco impresso na areia.
O sal que,
pelo descuido que tudo infecta,
lhe vai rachando
a madeira.
Lentíssimas machadadas.
Lacónica realidade.
***
A tarde despedaçou-se
e nunca houve outro anseio
senão esta claridade sem sol,
a lenta supressão de uma morada.
Espiamos as naves que se soletram
a ouvido nenhum,
tocando um do outro
os dedos mais
sinceros.
Estamos prontos para singrar
na noite do nosso
desassossego.
[in Napule, Tea for One, 2011]
Às arrecuas
Poemas Novos e Velhos
Autor: Helder Macedo
Editora: Presença
N.º de páginas: 168
ISBN: 978-972-23-4613-9
Ano de publicação: 2011
Ficcionista, ensaísta e titular da Cátedra Camões do King’s College (em Londres), Helder Macedo é também poeta com uma obra significativa, mesmo se menos visível do que a restante bibliografia. O essencial desse trabalho poético, iniciado há 55 anos e disperso por livros nalguns casos difíceis de encontrar, acaba de ser resgatado pelo autor na antologia Poemas Novos e Velhos. Aos poemas inéditos, Macedo colocou-os logo a abrir, retrocedendo no tempo a partir daí, numa espécie de cronologia invertida que vai, não sem uma certa coragem, mostrando o caminho percorrido às arrecuas, desde a sageza do criador maduro à energia em estado puro das primícias.
Começamos então pelas Colagens de 2010-11, poemas de síntese e rigor prosódico, atravessados por ecos camonianos e uma aproximação à ideia do fim, a morte que ronda, deixando vazia a mesa dos amigos: «Já se foram todos / quase todos / (…) um dia destes alguém vai-me telefonar / com a notícia / de que também eu». O tom é de resignada melancolia, consciente de que «Este vai ser / talvez / o meu último poema // ou talvez não». A «finita eternidade» permite sempre um recomeço, «porque tudo é só como parece / e é sem cura».
Vem depois a luz triste, desolada, da Viagem de Inverno (o seu melhor livro), com o «certo entendimento / de que as vidas são feitas / no perdê-las»; a revisitação das mitologias clássicas (Penélope, Orfeu) ou bíblicas (Os Trabalhos de Maria e o Lamento de José); mais os poemas longos da juventude, cheios de «chama» e desafio à «face agreste do mundo» («ergui-me vertical / para dizer-te / existes porque sou»).
O mais espantoso é verificar como os temas de Macedo se mantêm constantes no arco de meio século: sempre a tensão entre Eros (o amor sensual) e Thanatos (a «matéria da morte / de que tudo é feito»), o jogo dos espelhos, as fronteiras, os bloqueios, a demanda identitária. Num poema de Vesperal (1956/57), está já implícito o fecho do círculo: «Serei a minha ausência e o seu indulto / reinventando a minha liberdade / como um sarcasmo, um passatempo e um culto.»
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no n.º 107 da revista Ler]
Os mil degraus do verso

Vozes
Autora: Ana Luísa Amaral
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 117
ISBN: 978-972-20-4781-4
Ano de publicação: 2011
No ano passado, Ana Luísa Amaral reuniu a sua obra poética completa num só volume (Inversos. Poesia 1990-2010, D. Quixote); coordenou uma edição anotada das Novas Cartas Portuguesas (na mesma editora); e traduziu, para a Relógio d’Água, Cem Poemas da norte-americana Emily Dickinson. Hiperactividade ou mera coincidência de projectos autónomos? Provavelmente coincidência. O certo é que ALA mal deixou que a poeira assentasse sobre Inversos e temos já nova obra original, Vozes, mais um exemplo da pujança criativa da autora.
Muitos dos poemas deste livro circulam por paisagens reconhecíveis: os ritmos do quotidiano, as epifanias domésticas, o rasto de coisas «evanescentes» que se guardam «por comovidas gavetas e memórias». Mas há também outras atmosferas. Por exemplo, o lirismo sossegado dos oito fragmentos sobre os Açores, como que a pairar sobre a geologia das ilhas, intuindo a criação do mundo na beleza agreste do basalto. Ou os «apontamentos» aéreos, escritos num avião, mais alto do que as nuvens («como exércitos / pintados»), por entre referências ao triste fim de Ícaro.
A escrita de ALA tem quase sempre uma dimensão lúdica, de experimentação e prazer no trabalho da linguagem, que neste livro se cruza com uma espécie de ventriloquismo, uma vontade de se aproximar (e, nalguns casos, de se apropriar) de outras «vozes», sejam elas estritamente poéticas (Rilke, Camões, Bocage) sejam históricas (Galileu na sua torre; D. Dinis e os navegadores que abriram caminho para novos mundos; ou Pedro e Inês imaginados na velhice, num delicioso exercício de ironia em que o desejo carnal do rei se reduz ao «bom bife / de javali macio», tendo ficado há muito para trás a «fantasia peregrina» de «ver Inês em esquife»).
Muitas vezes, esta desarmante ironia, espécie de antídoto para a solenidade, começa logo nos títulos (Junto a um levíssimo pormenor de estilo ou Gato em apontamento quase barroco e de manhã de sábado). Tudo se joga, afinal, «no avesso / das palavras // que não chegam / – mas cegam». Tudo se resume a «subir a pulso / os mil degraus do verso, / e não voltar / atrás», sem perder de vista que os «estados da matéria» são ambíguos: «Mas nem isto é balada nem estão certas as sílabas / em poema que agora nem sólido, nem líquido.» Indeterminados ou não, os poemas nunca deixam de exibir um certo requinte no acabamento. Como no «quase soneto» onírico que termina assim: «E esse corpo adormece ao nosso lado, / depois de tudo o resto acontecido // – que nunca acontecera, se acordado.»
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no n.º 107 da revista Ler]
Imagens translúcidas
O que mais me impressionou foi a súbita explosão de alegria. O anúncio do Nobel costuma ser uma cerimónia circunspecta. Abre-se uma porta numa sala cheia de dourados, o secretário permanente da Academia Sueca faz uma curtíssima declaração, ouvem-se os disparos das máquinas fotográficas e um ligeiro burburinho (geralmente um «quem é?» em várias línguas, quando o premiado sai das trevas do anonimato). Este ano foi diferente. Quando Peter Englund, visivelmente satisfeito, revelou que o Nobel ficaria em casa, na Suécia, nas mãos do venerado poeta Tomas Tranströmer, a sala rejubilou. E eu também. A sala rejubilou porque ao fim de 37 anos acabava o tabu provocado pela polémica atribuição do Nobel a dois suecos em 1974, Harry Martinson e Eyvind Johnson, ambos membros do comité do prémio. Eu porque o Nobel voltava a ser atribuído a um poeta, 15 anos depois. Pelo meio houve Saramago e Pinter, que também escreveram poemas, mas foram premiados pelos seus romances (o primeiro) e peças de teatro (o segundo). Poeta-poeta, o último fora a polaca Wislawa Szymborska, em 1996, há uma eternidade.
Alguém devia fazer um dia, se já não foi feito, um estudo sobre as justificações lapidares da Academia Sueca, reduzidas quase sempre a uma frase generalista, redonda e abrangente, que pode ser perfeita para a lógica dos soundbytes da comunicação social, mas é curta para quem deseja perceber o que distingue o autor premiado. No caso de Tranströmer, foram evocadas as suas «imagens condensadas e translúcidas» que permitem «novas formas de acedermos à realidade», um elogio que em bom rigor pode aplicar-se a dezenas de outros poetas. Houve, apesar de tudo, alguma exactidão na referência às «imagens translúcidas», porque é precisamente o refinadíssimo trabalho metafórico de Tranströmer, a capacidade de vermos através das imagens por ele convocadas, que torna a sua poesia tão arrebatadora.
Os poemas que conheço deste autor foram vertidos para inglês, castelhano e (poucos) para português. Se a poesia é o que se perde na tradução, como defendia Robert Frost, eu de cada vez que os leio fico com pena de não saber sueco. Pressinto neles uma delicadeza que o trânsito para outras línguas deforma. O poema traduzido é a sombra do poema original: tem o seu contorno, a sua silhueta, mas falta-lhe espessura. Ainda assim, encontrei belíssimas sombras. Como a de Madrigal, traduzido por Alexandre Pastor no Jornal de Letras: «Herdei uma floresta sombria onde raramente ponho os pés. Mas lá chegará o dia em que mortos e vivos mudarão de lugar. A floresta começará então a mover-se. (…) Eu herdei uma floresta sombria, mas hoje passeio numa outra, plena de claridade. Tudo o que está vivo e canta, serpenteia, acena, rasteja! É primavera, e o ar que se respira é fortíssimo. Tenho um diploma da universidade do olvido, e as mãos tão vazias como a camisa pendurada na corda de secar roupa.» Releio o poema e as imagens acendem-se: a floresta que se move, como no quinto acto de Macbeth; a explosão da primavera; a universidade do esquecimento; as mãos vazias agitadas pela ventania que não precisa de ser nomeada.
Este poema surgiu num livro de 1989 e há justamente uma imagem – a da camisa pendurada na corda – que rima com outro poema, de 1966, intitulado Pássaros Matinais (aqui em tradução do poeta português João Luís Barreto Guimarães, a partir de uma versão castelhana): «(…) Por uma parte de trás da paisagem / chega a gralha / negra e branca. Pássaro agoirento. / E o melro que se move em todas as direcções / até que tudo seja um desenho a carvão, / salvo a roupa branca na corda de estender: / um coro da Palestina: // Não há vazios por aqui. // É fantástico sentir como cresce o meu poema / enquanto me vou encolhendo / Cresce, ocupa o meu lugar. // Desloca-me. / Expulsa-me do ninho. / O poema está pronto.» A imagem translúcida, aqui, é a do poema que se desenvolve à custa do poeta, o crescimento de um fazendo-se do encolhimento do outro, o poema ocupando o lugar do poeta, expulsando-o do ninho. Uma lição essencial. Quem ganhou o Nobel este ano não foi Tranströmer, mas a poesia.
[Texto publicado no n.º 107 da revista Ler]
O poeta asceta
O Som do Sôpro
Autor: António Barahona
Editora: Poesia Incompleta
N.º de páginas: 142
Depósito legal: 325043/11
Ano de publicação: 2011
Em O Som do Sôpro, o cinzelado volume que António Barahona decidiu publicar com chancela da livraria Poesia Incompleta, assistimos a uma curiosa rebelião ortográfica. Numa altura em que o fatídico Acordo começa a ser aplicado no mundo editorial, Barahona recusa-se a pactuar com as novas regras. Mas, ao contrário de outros autores que também continuam a escrever como sempre escreveram, ele vai mais longe: em vez do questionável passo em frente, dá ostensivamente um passo atrás, recuperando grafias que a norma anterior já tinha banido, como «éther», «lucta», «hymno» ou «saüdade». E se há aqui um efeito de estranheza (o vocabulário aproxima-nos de Camilo Pessanha), ele faz todo o sentido no contexto da rigorosíssima poética do autor.
Central neste processo é a procura da sonoridade certa («o som em carne viva», o «som do sôpro / primordial») que obriga o poeta a uma «constante reescrita do poema», subindo a escada da «lenta e dolorosa» aprendizagem, cujos últimos degraus só a Deus pertencem. «É por causa do som que o vate vive», explicita Barahona, que muitas vezes procura no soneto a forma perfeita («como a roda, o cubo e o triângulo»), num esforço de pura oficina que procura alcançar «fulgor e limpidez verbal» – embora na «convulsiva tarefa» de esculpir a beleza (por exemplo, pondo «em verso / obscuro» a «claridade do fim do dia») acabe muitas vezes por ser o «escultor» a ser esculpido «até ao escalpe». O «gesto d’escrita» constrói um universo, mas também implica despojamento: «O poeta / é um asceta / que renuncia ao oiro do mundo / mas não aos frutos da Terra».
Na sua qualidade de muçulmano zeloso, para quem a «total entrega ao Alcorão» está acima de tudo, Barahona dedica muitos poemas a louvar o Profeta ou a descrever os rituais nas mesquitas de Lisboa. Mais interessantes, porém, são as suas aproximações ao amor, com forte carga erótica, muito na linha da tradição oriental: «O teu corpo é mais belo na minha cama / do que um céu de alegria sobre o mundo.» Na quarta parte do livro, talvez a melhor, é a memória dos mortos que se impõe, mas sem rasto de lágrimas, «a menos / que sejam d’alegria, em versos plenos / de fúnebre alabastro». As várias evocações de amigos perdidos têm o seu vértice num poema extraordinário, Memória do Café Gelo, em que se recupera a célebre tertúlia de «conversas incendidas, sismo a sismo, / no desabar da época», com Barahona a ver-se adolescente no meio do grupo de poetas, sentado «quase à margem / numa fresta de céu».
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no n.º 107 da revista Ler]
Quatro poemas de Manuel A. Domingos
Uma mulher
grita
contra um gafanhoto
Uma criança
mostra
um desenho ao avô
Uma andorinha
faz
o reconhecimento
dos telhados
***
SONETO #3
Gosto de fazer
a barba enquanto
no duche cantas
um qualquer samba
que sabes de cor
Eu de cor só sei
um ou outro verso
que aprendi na escola
mas confesso
que isso agora pouco
ou nada importa
Cortei-me e não há
verso capaz
de estancar o sangue
***
Não adianta
pensar nas coisas
na sua mecânica
por menos caiu
Tróia e Jericó
viu as suas muralhas
no chão
Abre a janela
respira o ar
antes que seja tarde
ou o dia passe
ao largo
dos sentidos
Sai à rua
Podes nem
acreditar
há vida
para lá de tudo
isto
Mas caminha
com cuidado
não vá
uma andorinha
cagar-te no ombro
***
João de Deus
não te ensinou nem
as primeiras letras
nem os primeiros
versos
e dele só ficaste
a saber – pela voz
do teu pai – que um curso
de três não se faz
em nove
Isso foi antes
de ganhares a primeira
bolsa de criação literária
e passares parte
do dia na esplanada
a olhar as pessoas
passar
de pouco serviu
preferiste
escrever sobre fantasmas
em vez de tremoços
e cervejas
Chegaste a ensaiar
uma teoria
sobre os malefícios
da poesia
que te levou
a fumar muitos
cigarros
pensar cada vez mais
na morte
Depois veio
o merecido prémio
e passaste a integrar
mesas redondas
colóquios
[in Teorias, edição do autor, 2011]
Dois poemas de A. M. Pires Cabral
DEFEITO DE FABRICO
Quando nasci, trazia de origem
um farol que despejava luz a jorros
sobre o que quer que fosse,
mormente sobre as dobras
pérfidas da noite.
Mas, por estranho que pareça,
também os faróis estão sujeitos
às leis da erosão,
e o meu farol deliu-se. Hoje não é
mais do que um triste farolim de bicicleta
que apenas me alumia dois palmos de noite.
Amanhã estará reduzido
a uma simples lanterna de bolso
com que mal poderei reconhecer
o lugar onde estou.
Até que um dia será, está bom de ver,
o mais fiável cúmplice da noite –
– da noite que devia dissipar,
e não fundir-se nela.
Defeito de fabrico.
Mas a garantia caducou e o fabricante
nega-se a ressarcir-me do escuro.
***
UMA TOUPEIRA NA CALÇADA
Vi uma toupeira na calçada.
As toupeiras não se dão bem em calçadas
– elas que têm no solo arável o seu habitat –
mas aquelas estava ali inexplicavelmente.
Uma aventura que acabou mal,
pensei para comigo.
A toupeira extraviada na calçada
esbracejava (se assim se pode dizer)
como um náufrago que não tem bóia nem tábua.
Tentava refugiar-se na terra
a que pertencia. Mas, desfavorável,
a pedra não se deixava fender das suas unhas,
tal como a água se não deixa nadar
do desespero do náufrago
que não tem tábua nem bóia.
Estava-se mesmo a ver como a coisa ia acabar.
Enquanto tivesse forças, a toupeira,
embora perplexa daquele lugar hostil,
continuaria sempre a esbracejar,
arranhando em vão a pedra da calçada.
Depois, algum gato havia de passar por ali
(há sempre um gato que passa ‘por ali’)
e daria o remate apropriado
a esta história sem história.
No fim de contas, uma toupeira é um rato,
não é verdade? (Pergunta o gato.)
Meditando na sorte da toupeira,
enquanto o gato ainda anda por longe,
ocorreu-me então que a calçada
podia muito bem ser um espelho
e a toupeira naufragada
a nossa imagem reflectida nele.
Toupeira em calçada todos nós.
[in Cobra-d'Água, Cotovia, 2011]
Ainda JLBG (2)
Peça do programa Ler Mais Ler Melhor sobre Poesia Reunida, de João Luís Barreto Guimarães.
Ainda JLBG
Vale a pena ler a excelente entrevista que João Luís Barreto Guimarães concedeu, na 3:AM Magazine, a SJ Fowler (também ele poeta, além de «full time employee» do British Museum e estudante de pós-graduação no Contemporary Centre for Poetic Research da Universidade de Londres). Acompanhando a entrevista, podem ser lidos cinco poemas de JLBG traduzidos para inglês por Ana Hudson.
Dentro da vida

Poesia Reunida
Autor: João Luís Barreto Guimarães
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 314
ISBN: 978-972-564-971-8
Ano de publicação: 2011
As edições que reúnem a obra completa de um poeta num só volume têm duas grandes vantagens. A primeira é permitir-nos o acesso a livros que não adquirimos em devido tempo e entretanto desapareceram das livrarias. A segunda é a leitura da obra como um todo, com as suas evoluções, rupturas, continuidades.
No caso de João Luís Barreto Guimarães, autor de sete livros, a Poesia Reunida permite assinalar três fases no seu percurso (ou «três andamentos distintos», como sugere José Ricardo Nunes, num excelente posfácio). O núcleo inicial corresponde aos três primeiros livros (1987-1994), nos quais JLBG explorou com grande sentido lúdico um modelo clássico (o soneto), sujeitando-o a todo o tipo de experimentações. Vemos assim surgir poemas com formas geométricas; com errata; com enigmas e respectiva solução no fundo da página; poemas que se ligam e apagam; um que está riscado como certos discos antigos; ou ainda um outro sem o ‘b’, porque «faz um mês que se perdeu / a tecla da letra» na Corona Four, «uma azerty americana já com uma certa / idade». Há depois um belo livro de poemas em prosa, Lugares Comuns (2000), escrito durante um ano, sempre à quinta-feira, no Café Corcel (Porto). Exemplar na arte da observação, o poeta recolhe acasos e gestos, pequenas epifanias, histórias breves, o trabalho da melancolia. Uma melancolia que ganha terreno na terceira fase, a dos últimos livros, muito atentos aos rituais quotidianos, aos estragos que a rotina provoca nos corpos e nos espaços domésticos, ao confronto com a ideia da morte e da perda.
Por muito que JLBG, médico de profissão, afirme que a poesia é uma «doença» que não se deseja a ninguém, a verdade é que ele só sabe escrever «de dentro da vida» e faz sempre da vida (e da escrita) uma celebração.
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
A Ocidente do Oriente

Lendas da Índia
Autor: Luís Filipe Castro Mendes
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 160
ISBN: 978-972-20-4629-9
Ano de publicação: 2011
Interrompendo um longo hiato de uma década – o livro anterior, Os Dias Inventados (Gótica), é de 2001 –, Luís Filipe Castro Mendes volta à poesia com Lendas da Índia. Um excelente regresso, em que a deriva geográfica do seu percurso profissional, ao serviço da diplomacia portuguesa em vários cantos do planeta, se transforma na «matéria chã» que fixa, mais do que uma visão do mundo, uma experiência dos lugares. Ou melhor, uma aproximação ao modo como a descoberta de outros países e culturas se reflete na consciência que o sujeito poético tem de si mesmo. Veja-se este poema escrito em Paris, cenário de uma bifurcação existencial borgesiana: «Quem eu fui há vinte anos / veio hoje tomar-me do braço e perguntou: / o que fizeste de mim? // Respondi-lhe: fiz tudo quanto deixaste / que eu pudesse fazer. // A sombra sorriu de troça. / E desapareceu. // (Ainda preciso de desculpas / para tudo o que não fiz.)».
Das 14 partes em que o livro se divide, oito evocam a passagem do diplomata pela Índia. Mas esta não é a Índia do exotismo, aquela que se abre aos olhos estrangeiros como uma flor misteriosa ou um segredo místico. O Oriente de Castro Mendes traz consigo a distância e a perplexidade do ocidental para quem «tudo nos é tão estranho aqui». Do anoitecer no Ganges, com os ghats preparando as piras funerárias, às chuvas das monções, aos ventos abrasadores do deserto e à «contemplação do lixo» (símbolo de uma «dividida modernidade»), das estátuas sorridentes nos templos de Angkor (Camboja) ao «incenso e bosta de vaca» junto às imagens de «deuses toscos» numa rua de Nova Deli, a poesia está «na aspereza das coisas contra nós». O poema acaba por ser o «saldo do dia», resgate de «tudo o mais que não fica na memória», e também um «acontecimento», o reverso da afasia, a instância onde as coisas se dizem, à procura do que um dia se perdeu.
Umas vezes subtil, outras oblíquo, Castro Mendes dialoga com a História, com a ideia da morte, com outros poetas (sobretudo Camilo Pessanha e Camões), mas os seus versos viram-se sobretudo para dentro, para uma «nostalgia sem objecto», consciente de que «o que verdadeiramente importa / é opaco ao nosso olhar» e está no «sopro antes da voz».
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no n.º 106 da revista Ler]
A conferência do Nobel
Este ano, a conferência do Nobel de Literatura não foi uma conferência. Por razões óbvias: desde 1990, quando sofreu um derrame cerebral, Tomas Tranströmer não consegue falar. Na quarta-feira, em Estocolmo, a habitual cerimónia de aceitação do prémio foi substituída pela leitura de 13 poemas de Tranströmer, nalguns casos com música a acompanhar (Wagner, Schubert e compositores suecos). O alinhamento do recital e a tradução dos poemas para inglês estão aqui.
Para a homenagem desta tarde, traduzi o primeiro dos poemas lidos:
MEMÓRIAS, OLHEM PARA MIM
Manhã de Junho, demasiado cedo para acordar,
demasiado tarde para adormecer de novo.
Tenho de sair – a paisagem verde é densa
de memórias, elas seguem-me com o olhar.
Não podem ser vistas, confundem-se completamente
com o cenário, são verdadeiros camaleões.
Estão tão próximas que consigo ouvir a sua respiração
embora aqui o cantar dos pássaros seja ensurdecedor.
Dois poemas de Manuel António Pina
COMO SE DESENHA UMA CASA
Primeiro abre-se a porta
por dentro sobre a tela imatura onde previamente
se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente,
a mãe para sempre morta.
Anoiteceu, apagamos a luz e, depois,
como uma foto que se guarda na carteira,
iluminam-se no quintal as flores da macieira
e, no papel de parede, agitam-se as recordações.
Protege-te delas, das recordações,
dos seus ócios, das suas conspirações;
usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos:
o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos.
Uma casa é as ruínas de uma casa,
uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;
desenha-a como quem embala um remorso,
com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso.
***
O QUARTO
Quem te pôs a mão no ombro,
a faca que te atravessou o coração,
são feridas alheias, talvez algo que leste;
entretanto partiste
para lugares menos iluminados
e corações menos vulneráveis,
pode perguntar-se é o que fazes ainda aqui
se já cá não estás.
A hora havia de chegar em que
nos perderíamos um do outro.
E acabaríamos necessariamente assim,
mortos inventariando mortos.
Morrer, porém, não é fácil,
ficam sombras nem sequer as nossas,
e a nossa voz fala-nos
numa língua estrangeira.
Apaga a luz e vira-te para o outro lado
e acorda amanhã como novo,
barba impecavelmente feita,
o dia um sonho sólido onde a noite se limpa e se deita.
[in Como se Desenha uma Casa, Assírio & Alvim, 2011]
Lançamento de ‘Vida: Variações II’
O novo livro de poemas de Bénédicte Houart (como os outros três editado pela Cotovia) vai ser lançado hoje, a partir das 18h30, na FNAC do Chiado. Haverá leitura de poemas pela autora e pelo actor Diogo Dória.
Quatro poemas de João Luís Barreto Guimarães
como se o acaso fizesse desta folha um reino
por habitar o endereço de janeiro algo branco
por começar como se de entre as nervuras da
folha apenas uma fosse o pombo que líquido se
eleva e voa como um aroma como um adeus ou
mesmo: como se uma ideia de ar fosse a força
dobrando uma pedra d’aço e o riso fosse água
e o jardim movimento onde se falasse das
cores do vinho e do corpo (substância de
referência) como se por exemplo: o amor fosse
só um de todos com outros todos (etc. assim:)
apenas eu como se livre fosse seria o eco que
volta como leve sono ou algo puro algo novo
raiz fixa ao gozo de ter uma vida nas mãos
***
este poema foi escrito ontem hoje não
vou escrever (na face nego sorrisos como
quem fecha janelas) hoje só preciso de
mim (este poema é grátis: não está
incluído no preço do livro). hoje
não tocarei o corpo da Corona Four
uma ‘azerty’ americana já com uma certa
idade (ainda é das que escreve poesia a
preto e ranco) faz um mês que se perdeu
a tecla da letra « » só por isso não
tenho escrito sobre o rilho dos teus
olhos. o meu copo está vazio (hoje
não é poedia) depois eu mando alguém
uscar as minhas palavras
***
11 DE ABRIL
Transpõe a porta de entrada um par que reconheço. Ela, das casas a norte. Ele, dos bairros a leste. Aqueles rostos porém, transportam uma impressão difícil de definir.
Entraram de mãos laçadas, anel doirando no dedo. Não os conhecia unidos. Desconhecia-os sequer conhecidos.
Não tenho vigiado os amigos. Tenho estado pouco atento à procura de percursos na calçada de cimento que fronteia o Café. Não fui eu que estabeleci que as horas que somam para mim, se multiplicam para os outros.
***
FALSA PARTIDA
Ainda estranho o lugar quando acordamos
no revés de já ser outro
o dia
porque espelhas o tempo à janela é
à face de teu rosto que decido
o que vestir.
O vento que molda a praia
é de todas as bandeiras:
há um silêncio talhado à substância do quarto
(o chão de madeira matiza o
frio que força uma fresta)
podia apostar comigo: hoje
de madrugada
um cão ladrou na voz do galo.
O meu sobrenome segue-te
pela véspera da casa
(fim de emissão no ecrã
cálices
meio hasteados) a
chuva desistiu de apagar o nosso amor embaciado
pelo lado negativo.
Tornas à cama e abres
aquele romance de sempre
(o descanso existe
noutro cansaço).
[in Poesia Reunida, Quetzal, 2011]
Quatro poemas de António Barahona
CORRESPONDÊNCIA COM SOHRAB SEPEHRÍ
Nasci na Andaluzia:
o meu sangue vem dos tempos do Profeta
e continua a fluir na consciência da brisa.
Ibn Arabí estudou numa madrassah em Lisboa.
Sou muçulmano:
o meu mihrab é uma rosa vermelha
ou um ventre de mulher adormecida
e, o mundo inteiro, o meu tapete de oração.
Faço as abluções com fogo refrescante.
Cada partícula, do que rezo, cristaliza,
quando o vento de vidro
chama os fiéis do alto do cipreste.
***
CORRESPONDÊNCIA COM IBN ZAYDUN
Serenidade tão desencantada
d’Ibn Zaydun, um bom poeta eleito,
que leio e releio com respeito
e d’alma deslumbrada.
Serenidade vinda dum olhar
azul, que lhe furtou o coração,
devolvido depois, mas só no som
do seu êxul cantar.
E cantou o pescoço da donzela
que atraía as pérolas, tal como, perto,
a água atrai camelos no deserto
e a sedenta gazela.
E cantou o pudor que lançou luz
sobre a fatal beleza feminina,
que, nua, se mostrou nessa menina,
ao poeta andaluz.
***
CORRESPONDÊNCIA COM MÁRIO CESARINY
Loira, curva, espontânea
é a zona que atravesso
no meu cavalo de espelhos
À luz do vidro e do metal
mato pulgas de oiro azul
em homenagem ao António
Maria e dele me despeço
Já ganhei a idade das barbas:
agora sou um barbo
a ‘violinar’, como diria o Herberto,
o rio poluído
Toco no fundo
‘o botão entre os limos’,
Mário,
mas ‘olho muito depressa como se fosse de moto’
e não posso em ti deter-me por mais tempo
Acelero a lucidez,
a alâmpada e a luva:
a estrada é muito larga sob a chuva,
o meu chapéu de sol acende a água:
intensamente álacre a minha mágoa
recusa-se a ser triste
e desço ao inferno
como Dante
pleno de esquizofrenia
e alegria
Loira, curva, espontânea
é a zona que atravesso
no meu cavalo de espelhos,
de todos me despeço,
dos novos e dos velhos
e solitário amanheço
***
ADVERTÊNCIA
Poeta
em verdade em verdade te digo
que, para ser genuíno e ficar vivo,
em glória corporal, não apenas em livro,
é-te necessário morrer primeiro que tudo
na Grande-Guerra-Santa dedicada ao estudo
da grã fonética de mil murmúrios
e do vôo das aves, pródigo em augúrios.
[in Raspar o fundo da gaveta e enfunar uma gávea, Averno, 2011]
Um coro de feridas

Gado do Senhor
Autora: Rosa Alice Branco
Editora: &Etc
N.º de páginas: 49
ISBN: 978-989-8150-31-8
Ano de publicação: 2011
Na epígrafe deste livro, Rosa Alice Branco evoca o homem como «doença mortal do animal» e os poemas começam por criar a expectativa de uma denúncia, em voz alta, das nossas malfeitorias enquanto espécie dominante. As primeiras páginas falam-nos de vacas condenadas ao «churrasco de domingo», mas ainda assim trocando «mus» como «mantras de amor sob as estrelas»; mostram-nos aves em «previsível colisão com aviões», porque a guerra (em concreto, a do Iraque) nada sabe das rotas migratórias; ou um cão da infância que fingia não ser o dono do seu dono. Mais à frente, temos ainda a visão de aviários piores do que favelas («Nas favelas sempre se / tem alcunha e muita raiva. E manha para fugir ao medo»), o solilóquio de uma galinha à espera da faca em «dia de arraial», a clarividência dos caracóis que «vêem para dentro».
Esta aproximação à «candura dos animais», indefesos diante das mãos humanas, podia quedar-se por uma espécie de militantismo ecológico (entrevisto na evocação da «Terra» como «cadáver», ainda assim belo «entre as flores do campo que resta / e o fumo dos incêndios que te cinzam»). Mas a poeta logo demonstra que o verdadeiro tema é outro. É a própria ideia de morte, é a experiência da perda total, esse afinado «coro de feridas», esse vazio súbito que nos deixa num desamparo semelhante ao dos bichos e suscita uma revolta contra as ordens estabelecidas – em particular a religiosa, com os seus «altares do sacrifício» onde é suposto sermos, por nossa vez, uma forma de «gado», também ele submisso e temeroso.
Por muito que os cemitérios se tenham transformado em «repartições públicas», a que as famílias acorrem «sem os formulários preenchidos» e gastando «toda a tristeza que pouparam», há nestes poemas uma desarmante evocação das mais antigas formas de luto: «Sigo os números que conduzem a ti. / O rosário dos ossos desfia este amor / que não cabe nas mãos. A carne é fraca, / a madeira porosa e tudo o que respiro te consome. Fecho os olhos e os teus passos tocam de novo / o chão da casa.»
Atravessado de ponta a ponta por um subtexto bíblico, Gado do Senhor é um belo livro, agreste e corajoso, feito de parábolas, música magoada e uma ironia ácida, especialmente notória nos diálogos com o divino: «Se és deus, ressuscita os anjos. Eu cá em baixo / não espero peva a não ser um pouco de pudor da tua parte. / Mas continuas a exibir o sofrimento das larvas, / da tua mãe santíssima, dos teus pregos a escorrerem / sangue, um sangue que é puro desperdício. / Se ao menos fosses dador universal.»
Avaliação: 7,5/10
[Texto publicado no n.º 105 da revista Ler]
Quatro poemas de Carlos Mota de Oliveira
VICENTE HUIDOBRO
Trataste-te com belos comprimidos
e esplendidamente.
Mais isto e aquilo mais disto
e daquilo.
Trata-se da tua vida, Vicente Huidobro:
Aqui yace el poeta Vicente Huidobro/
abrid la tumba/ al fondo de esta
tumba/ se ve el mar.
De navio de alto bordo, a tua poesia
é um chapéu alto.
Trata-se apenas da tua vida, Vicente
Huidobro.
***
HOMENAGEM A FLORBELA ESPANCA
Ser poeta é saber
rimar coração
com vinho do Dão.
***
HUGO, O MEU CAVALO COMUNISTA
Apanho o navio em Arraiolos
e fugindo com graça e gosto
me embarco para o Redondo.
À proa, enchem-se os rapazes
de tanto bailar
e já em S. Miguel de Machede
todos me vêem a florear
Hugo, o meu cavalo comunista,
e a engordar de pasto
a poesia.
***
O SONETO ALCOÓLICO
Até ver e pelo que vejo
a meu ver um soneto
deve ver pelos seus olhos
e pelos olhos dos outros.
Mais: um soneto alcoólico
deve andar cheio de tinto
e não ir para a taberna
vestido e calçado.
[in Os Poetas Adoram Massagens, edição do autor, 2011]
Três poemas de Ana Paula Inácio
Ó CÉSAR
não sou uma mulher moderna
não me ligo à net
gosto de compras ao vivo
cujas listas faço em cadernos de argolas
que depois esqueço
e só me lembro de elixir para aclarar a voz,
tenho tantas embalagens
como Warhol de Tomato Soup
ou de detergente Brillo,
para que ao chegares a casa
te envolva, te abrace e te queira
mas nem só de voz vive o homem
dizes tu,
e então a minha saúda-te
como a daqueles que vão morrer
***
Diz B. Moser em ‘Clarice Lispector – Uma vida’
que a felicidade para CL era clandestina,
página em que parei a minha leitura e
me interroguei se havia de cortar o cabelo
com risca ao meio ou ao lado,
eu a quem só restava a literatura,
que durante uma vida inteira recusara,
como suprema ironia
como a fava do bolo,
nesta quadra
em que o teu rosto já não é uma paragem obrigatória;
nesta mentira em que me enfio
como a calça curta do dandy
ou a jaqueta do paletó do José Mauro de Vasconcelos,
os poetas sempre ficaram melhor no retrato
do que na vida.
***
66-12-ZZ
Como um velho comerciante de carros falido
parecias saído de um filme de Tarantino.
Com as minhas plumas em forma de asas
e a maquilhagem de anjo doente
parecia saída de um filme de Wenders caído.
Relativamente às plumas, em forma de asas,
trazia os cálculos anotados
da distância a manter do Sol
e a imagem de Ícaro em chamas.
Mas naquele dia tudo correu mal.
O que poderíamos fazer de diferentes filmes saídos?
E choveu.
E o nevoeiro nem um cometa deixou ver.
A minha maquilhagem desfez-se,
confundiu-se com os veios das plumas
que se colaram à minha coluna vertebral
como um colete de forças.
E tu velho comerciante
já não me pudeste enganar
e vender um artefacto voador
por um coração ferido
[in 2010-2011, Averno, 2011]
Carne e voragem
Adornos
Autora: Ana Marques Gastão
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 79
ISBN: 978-972-20-4699-2
Ano de publicação: 2011
Neste livro de poesia, o seu sexto, Ana Marques Gastão fez corresponder a cada uma das partes um dos cinco sentidos: visão (Antevisão), tacto (O rapto), audição (Ondulações), olfacto (Inflorescências) e paladar (Confeitos). Esta é uma poesia sensorial, ágil e depuradíssima. Em vez de meros efeitos sinestésicos, porém, o que se busca é justamente o que os sentidos não conseguem apreender, a «invisível presença», o «indeterminado» que «se determina / pelo correr do tempo».
Para o sujeito poético, a escrita é «uma valsa, / blusa sem alça, / fractura d’um salmo / que amacio no papel». Aqui, imperam os ritmos puros e os movimentos aéreos (como passos de dança), a sintaxe elástica, as aliterações e rimas bruscas, a esquiva beleza que nasce do entrelaçar de elementos opostos. O mundo «não é senão / sonho, íris, degrau»; a vida «véu ou tocha», «tafetá ou monstro». À poesia – lunar, espectral, «neptúnica», feita de ressonâncias, turbilhões e quedas – cabe estabelecer a «sinapse sinopse / dum saturado real». Saturado ao ponto de exigir uma transubstanciação, o deslocamento do sujeito para outro plano, a manifestação de um desejo «corporeamente espiritual» («quando o rosto se expõe de tão oculto»).
Estas complexas metamorfoses simbólicas tornam por vezes os poemas algo crípticos, atravessados por imagens bizarras, barrocas, como que caídas neste nosso tempo vindas de outro século. Mas nunca Ana Marques Gastão esteve tão perto da exactidão formal a que todos os poetas aspiram: «Anda, suporta teu corpo de ferida / cicatriz ou nome, és esqueleto bravio / carne e voragem, sino que ressoa, / te ensurdece e desmorona».
Avaliação: 8/10
[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Três poemas de João Silveira
uma mesa acesa, a vela ao centro.
a madeira, a voz range nas persianas como vento,
alguém fala nesse sítio, sussurrando.
o vento rangendo folhas, madeira,
há um portão chorando entre ervas altas,
secas, castanhas,
embaladas numa voz que murmura
os mortos ainda um nome
os mortos ainda um cheiro
os mortos com a roupa de domingo
percorrendo paredes,
movendo dedos em persianas,
o vento cria árvores largadas na terra
e alguém repete qualquer coisa,
alguém imita uma palavra,
alguém fala como fotografias
e um portão gemendo aberto às ruínas,
ao pó dos brinquedos, dos livros e cartas,
alguma roupa para sempre esperando o corpo,
um minúsculo resto de perfume,
uma tesoura negra,
uma máquina de costura.
a madeira estala,
o fogo estala
recordando os cantos exactos do silêncio
ao longo das paredes,
no quarto,
na porta que dará para um largo de plátanos.
os olhos em fotografias que sorriem
e lembram qualquer coisa aveludada:
um rádio rasgando estática, baixinho.
***
as árvores continuam mortas
e, por vezes, vêem-se garças junto aos carros.
ainda há crianças que brincam no ar
e há também um homem em álcool,
destruído contra a vitrina de uma galeria de arte.
há novas mãos enlaçadas
e novos mundos prestes a explodir junto ao mar.
há livros geniais
e há também um homem a comer fruta podre
encarando um restaurante.
há preços a pagar
e segredos que, com as garças,
permanecem junto aos carros.
há tempo de nascer e morrer
e é tudo tão real.
e tudo apenas atrás dos meus olhos.
***
Lisboa a largar-se ao céu em braços e cabelos
que poderiam também ser estrelas,
poderiam ser casas caídas em ruas cujo nome não sei,
poderiam ser nesse mesmo instante
uma palavra nunca dita a tempo
ou os dedos que se perderam em afectos
numa pele sem destino aparente
e dir-te-ia
‘meu amor’
julgando cabelos e dedos magros compridos
que afinal estrelas e um reflexo incrível sobre o rio,
Lisboa submersa largando-se em tons azuis,
dir-te-ia todas as mentiras,
todas as que se conjugassem numa só noite
e num só corpo.
[in Dever/Haver, de João Silveira, Artefacto]
Mais sete poemas de T. T.
Em inglês, aqui.
“Tudo está vivo, tudo canta, serpenteia, abana e rasteja”
O poema que num post anterior Tomas Tranströmer lê em sueco (língua incompreensível, estou certo, para 99,99% dos leitores deste blogue) foi ontem mesmo traduzido pelo incansável Luís Costa, autor de um ensaio muito interessante sobre a poética de Tranströmer, publicado em Novembro de 2007 na revista online Agulha.
Eis a versão portuguesa de Madrigal:
«Herdei uma floresta obscura, onde raramente vou. Porém, há-de chegar o dia em que os mortos e os vivos trocam os seus lugares. Então, a floresta põe-se em movimento. Nós não existimos sem esperança. Os maiores crimes ficam por esclarecer, apesar da mobilização de tantos polícias. Da mesma maneira, há algures, na nossa vida, um grande amor que fica por esclarecer.
Herdei uma floresta obscura, porém, hoje vou à outra floresta, que é clara. Tudo está vivo, tudo canta, serpenteia, abana e rasteja. É Primavera, o ar é robusto. Fiz os meus exames na universidade do esquecimento, tenho as mãos vazias como uma camisa num cordão de estender roupa.»
‘Madrigal’
Tomas Tranströmer lê um poema de Tomas Tranströmer.
Quatro poemas de Tomas Tranströmer
Em Fevereiro deste ano, o poeta João Luís Barreto Guimarães publicou no seu blogue alguns poemas do novo Prémio Nobel, traduzidos a partir da versão castelhana do livro Para vivos y muertos (editado em Espanha pela Hiperión, com tradução do sueco por Roberto Mascaro e Francisco Uriz). Desse post que me foi dedicado (e que agora agradeço, com meses de atraso), roubo então estas quatro pequenas maravilhas, vertidas para português por JLBG:
HISTÓRIAS DE MARINHEIROS (1954)
Há dias de inverno sem neve em que o mar é parente
de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza,
azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos
linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar.
Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca
de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas
tripulações vêm a terra, mais ténues que fumo de cachimbo.
(No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas
e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia
vive numa mina, de dia e de noite.
Ali, onde o único sobrevivente pode estar
junto ao forno da Aurora Boreal escutando
a música dos mortos de frio).
***
A ÁRVORE E A NUVEM (1962)
Uma árvore anda de aqui para ali sob a chuva,
com pressa, ante nós, derramando-se na cinza.
Leva um recado. Da chuva arranca vida
como um melro ante um jardim de fruta.
Quando a chuva cessa, detém-se a árvore.
Vislumbramo-la direita, quieta em noites claras,
à espera, como nós, do instante
em que flocos de neve floresçam no espaço.
***
DESDE A MONTANHA (1962)
Estou na montanha e vejo a enseada.
Os barcos descansam sobre a superfície do verão.
«Somos sonâmbulos. Luas vagabundas.»
Isso dizem as velas brancas.
«Deslizamos por uma casa adormecida.
Abrimos as portas lentamente.
Assomamo-nos à liberdade.»
Isso dizem as velas brancas.
Um dia vi navegar os desejos do mundo.
Todos, no mesmo rumo – uma só frota.
«Agora estamos dispersos. Séquito de ninguém.»
Isso dizem as velas brancas.
***
PÁSSAROS MATINAIS (1966)
Desperto o automóvel
que tem o pára-brisas coberto de pólen.
Coloco os óculos de sol.
O canto dos pássaros escurece.
Enquanto isso outro homem compra um diário
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.
Não há vazios por aqui.
Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa
e conta como foi caluniado
até na Direcção.
Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca. Pássaro agoirento.
E o melro que se move em todas as direcções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:
Não há vazios por aqui.
É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.
Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto.
Um acto delicado
Nervo
Autor: Diogo Vaz Pinto
Editora: Averno
N.º de páginas: 120
Depósito Legal: 326223/11
Ano de publicação: 2011
Novíssimo entre os novíssimos, Diogo Vaz Pinto (n. 1985) começou a publicar os seus poemas longos na revista Criatura, que co-dirige com David Teles Pereira. Eram poemas de grande intensidade expressiva, simultaneamente íntimos e com ressonâncias geracionais, reveladores de uma voz singular e pouco alinhada com a restante poesia portuguesa contemporânea. Muitos desses textos reaparecem agora no extenso livro de estreia e confirmam DVP como um dos poetas mais estimulantes surgidos nos últimos anos.
Há, nesta escrita, uma espécie de urgência juvenil, uma vontade de vencer a «trôpega distância» que nos separa da «realidade / que passa por nós em diferido», uma «pressa insuportável de dar mundo / às palavras». Humildemente, o poeta reconhece que escrever «é só ir apanhando as coisas do chão», seja a «tão pouca vida, e tão repetida» a que parece condenada uma geração precária, à deriva numa «era a que falta assombro» e resignada a uma «amorosa derrota», seja a trama dos alheios versos «de esplendor puro», resgatados (a itálico) na «colagem violenta» de que se são feitos os poemas.
Se a revolta «contra o mundo» é um dos temas recorrentes, no centro desta energia lírica está o amor e as suas contingências. Em tom elegíaco, testemunhamos bebedeiras, noitadas, «derivas quixotescas», cansaços, «tudo, um pouco, ao sabor do desespero». O livro funciona como um labirinto sentimental (mas não sentimentalista), um catálogo de entregas e fracassos, idílios e rejeições. Melancolicamente, convoca-se a memória só para a ver andar descalça sobre pedaços de vidro. E fixam-se as imagens do passado porque elas «depressa se esvaem», como a própria juventude («uma piada que na altura / não entendemos, e agora é já um pouco tarde / para nos começarmos a rir»).
Mesmo quando a «mania efabuladora» o faz ceder a impulsos narrativos, DVP acredita que a poesia «é ainda um acto delicado», em que o poeta se limita a puxar o fio que há em cada nome. Mas eis o problema: «Daí a nada / mais parece que é o fio que te puxa a ti. / E puxa, horrorizando-te, enquanto / imaginas que costura do teu mundo / agora se descose.» É nesta tensão entre o que se puxa e o que é puxado, entre o direito e o avesso, que reside a força maior desta poesia, por vezes errática e demasiado palavrosa, mas outras vezes capaz de se aproximar da perfeição, em poemas magníficos como Wonderlands, Fósforo ou Carrossel.
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no n.º 104 da revista Ler]


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