Um poema de Hugo Claus

GRAVO-TE NO PAPEL

(do poema O Grilo de Pedra)

Minha mulher, meu altar pagão,
que toco e afago com dedos de luz,
meu bosque viçoso onde hiberno,
sinal neurótico, terno, impudico,
gravo o teu bafo e o teu corpo no papel
em papel de música pautado.

E contra o teu ouvido sussurro horóscopos felizes
e falo-te de viagens à volta do mundo
com paragem na Áustria ou coisa do género.

Mas apesar dos deuses e dos signos do Zodíaco
a felicidade eterna também se cansa,
e eu não tenho casa, não tenho cama,
nem flores para te oferecer nos teus anos.

Gravo-te no papel
enquanto inchas e desabrochas como um pomar em Julho.

[do livro Een huis dat tussen nacht en morgen staat, Uma casa entre a noite e a alvorada, trad. de Ana Maria Carvalho, revista DiVersos n.º 13, Junho de 2008]

Um poema de Daniel Jonas, traduzido por João Pedro da Costa

LES CANARDS

Les canards qui voguaient au fil
des poèmes de Mandelstam,
encore une fois : les canards qui patinaient
les poèmes de Mandelstam
m’ont rendu visite comme si
un soleil et un lac limpide
m’appartenaient.

Et moi, si indigne de recevoir de
créatures si pures, si blanches,
j’ai essayé de dissuader ces
créatures si pures, si blanches,
de vouloir ainsi apparaître
dans cet atoll
dans ce brai.

[O poema original foi publicado no livro Os Fantasmas Inquilinos, Cotovia, 2005]

O ‘meu’ poema de Fernando Pessoa foi escrito por Álvaro de Campos a 15 de Janeiro de 1928

TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
Àparte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossìvelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos sêres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e êste lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz de propósito nenhum, talvez tudo fôsse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos,
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que seu eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas –,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fêz.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo.
Tenho feito filosofias em segrêdo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma
parede sem porta,
E cantou a cantiga de Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num pôço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sôbre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrêlas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e êle é opaco,
levantámo-nos e êle é alheio,
Saímos de casa e êle é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões tôdas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de fôlha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida dêstes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprêso sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fôsse viva,
Ou patrícia romana, impossìvelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocotte célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê –,
Tudo isso, seja o que fôr, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degrêdo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para àquem do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbedo tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com desconfôrto da cabeça mal voltada
E com o desconfôrto da alma mal-entendendo.
Êle morrerá e eu morrerei.
Êle deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta gigante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas
como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da
superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entra na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever êstes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como a uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de tôdas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal
disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fôsse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo trôco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria
sorriu.

Dois poemas de Vladimir Maiakovski

INSIGNIFICÂNCIAS

Exibirei a série de cores da minha imaginação como a cauda de um pavão,
entregarei a minha alma a um enxame de rimas desconhecidas.
Quero ainda ouvir nas colunas dos jornais rezingar
aqueles
que com o focinho zurzem as raízes
do carvalho que os alimenta.

1916

A CONFRARIA DOS ESCRITORES

Sem dúvida jamais me habituarei
a instalar-me na esplanada do «Bristol»,
beber chá,
contar histórias verso a verso –
tenho vontade de entornar os copos
e de trepar às mesas.
Escutai,
confraria literária!

Estais aí sentados,
os olhos mergulhados na chávena de chá.
Os vossos cotovelos estão luzidios à força de escrevinhar.
Levantai os olhos dos vossos copos por terminar.
Libertai as vossas orelhas das guedelhas.

Vós
colados ao papel
das paredes,
meus caros,
que fazeis vós com o verbo?
Sabíeis
que quando não escrevia
François Villon
era bandido?

Vós
que sois prudentes
mesmo para agarrar numa faca de cortar papel,
pensar que é a vós que está confiada a beleza do mais magnífico dos séculos!

Escrever ainda?
Hoje
a vida
é cem vezes mais interessante
mesmo a do último ajudante de notário.

Senhores poetas,
não estais já fartos
das páginas,
dos palácios,
do amor,
dos bosques de lilás?
Se chamam
criadores
a pessoas como vocês –
então quero lá saber da arte em geral.

Prefiro abrir uma loja.
Irei à Bolsa.
Os flancos eriçados com espessas toalhas.
Irei esvaziar a alma
berrando canções de bêbado
num privado de cabaré.

Será que uma pancada pode ter êxito sob os tufos de cabelo?
Um só pensamento
habita estes pêlos que nunca mais acabam:
«Pentear-se? Para quê?!
Por um momento não vale o esforço,
quanto a estar
eternamente bem penteado
é impossível».

1917

[in 33 Poesias, tradução e prefácio de Adolfo Luxúria Canibal, Edições Quasi, 2008]

Cinco poemas de José Luís Peixoto

QUARTO

Os posters, colados com fita-cola,
arderam nas paredes. Os ursos de
peluche fecharam os braços e, por
quase nada, arderam sobre a cama.
Os cartões de estudante antigos, os
postais de férias e os três poemas
passados a limpo arderam dentro
da gaveta da mesinha-de-cabeceira.
Fiz dezasseis anos, chegou o verão e
os bombeiros não tiveram meios
técnicos e humanos suficientes.

***

MONÓLOGO

Romeu, o teu nome é um pacto e um relógio.
Entrego-te o meu nome e permaneço imune
ao mundo, à mentira e à passagem dos anos.

Romeu adolescente, perdido e camuflado
nas minhas ilusões. Lírico Romeu, que volto
a baptizar, agora com sangue em vez de água.

Coincidimos à frente e atrás de uma pistola
carregada. Romeu, o teu nome chama-me
pela voz com que a morte chama o amor.

Somos derrotados por um outono defeituoso,
como por um poema errado ou pelo mar. Ali,
pouco longe, um túmulo precisa do nosso calor.

***

chave.jpg

***

DESMANTELAMENTO DE UM RIO

Arranco os autocolantes da parede do quarto do nosso filho,
como se a faca eléctrica da cozinha me atravessasse o braço.
Sou eu que apago os seus desenhos na parede. Não são riscos,
são desenhos. Há lápis de cera espalhados e partidos pelo chão.
Depois de nós, esta morada terá outros nomes e chegarão cartas
pacientes à caixa do correio. Agora, são impossíveis de imaginar,
como o nosso ontem será impossível de imaginar. Foi aos poucos
que ficou apenas o sofá e as recusas e os armários esventrados.
Foi muito demoradamente que chegaram as noites em que durmo
no sofá, sob um cobertor oferecido pela minha mãe ou pela tua.
Por fim, tenho tempo para habituar os olhos às sombras e avaliar
a devastação, acordar com o frio da madrugada, o esquecimento,
e assistir àquela hora azul em que já não é de noite, mas em que
ainda falta tanto para ser de dia. Despejo no fundo de um saco
tudo o que está naquela gaveta que nunca ninguém arrumou.
À minha volta, há caixotes que servem para guardar os livros,
já estão divididos. Escolho o lugar para pousar os pés. Fizemos
coisas nesta sala vazia, tivemos pensamentos, aprendemos
alfabetos. Resta-me agora o que sempre tive e, como se caísse
desamparado na banheira, prossigo e continuo o meu trabalho,
como se batesse com a cabeça na esquina de uma gaveta,
prossigo e continuo o meu trabalho.

(Lisboa, Junho de 2007)

***

ESTUDO PARA DESMANTELAMENTO DE UM RIO 2

Partiu-se uma caneca, partiu-se a caneca azul
que trouxemos de Estocolmo. Lembro-me
tão bem desse dia: esteve sol, andámos de bicicleta e,
ao voltarmos para o hotel, comprámos uma caneca.
Hoje, essa caneca partiu-se. Lembro-me tão bem do dia
em que a comprámos, só que agora vou esquecer-me
porque agora já não temos a caneca.

[in Gaveta de Papéis, Prémio Daniel Faria 2008, Edições Quasi, 2008]

Dois poemas de Manuel de Freitas

RESTAURANT BIBLIOTEKET

Há poemas assim, que não precisam
de ser escritos; apenas enunciados,
ditos em voz baixa a mais ninguém.
A cidade levar-te-á onde te quiser levar,
indiferente à paixão ou à minúcia dos teus passos.

Quem esteve na Toldbodgade, 5,
depressa concordará comigo.

TIVOLI

Seria um conto de fadas
num jardim de chuva
se não fosse já tão tarde.

O teu sorriso sobreviveu, não
abandonou sequer por um momento
a cadeira do Mezzo Bar,
apesar das luzes e dos gritos da cidade.

Esperavam, entre cervejas,
a chegada da rainha da neve,
um pesadelo que lhes fizesse
mais próxima e feliz a noite.

Nós estávamos, porém, demasiado
longe de saber que tudo ou quase tudo
serve unicamente para nos distrair da morte.

[in Brynt Kobolt, Averno, 2008]

Um poema de José António Almeida

A SÓS COM GANIMEDES

O sábio Freud não quis saber de ti
para nada. Todavia, tu serias

– muito mais do que Édipo, tão falado –
quem teria podido dar-lhe a chave

da porta que ele em vão tentou abrir.
A um canto, na sombra, como mito

rejeitado e por psicanalisar
para sempre, enigmático, ficaste.

Talvez um outro – menos distraído –
contigo venha a conversar por fim.

[in A Mãe de Todas as Histórias, Averno, 2008]

Dois poemas de Jorge Gomes Miranda

FOTOGRAFIA ACABADA DE REVELAR

Por vezes, só me dava dores de cabeça,
consumições,
a ponto de ter de ferrar-lhe um bofetão.

Mas que alegria noutras alturas:
quando vinda da escola chegava
ao pé de mim, a sorrir,
e me punha a mão, de criança, na cabeça
e eu,
um velha para aqui,
ficava tal

uma fotografia acabada de revelar.

SEMENTEIRA

Com um garfo
separava
para uma saca de plástico
arroz,
pedacinhos de pescada,
carapau, chicharro;
as espinhas deitava-as ao lixo.
O melhor do conduto
era sempre para os gatos.
Semelhante ao poeta
que guarda a parte maior
da sua vida,
as palavras,
para o leitor.

[in Velhos, colecção Poesia Portuguesa Contemporânea das edições do Teatro de Vila Real, 2008]

Um poema de Armando Silva Carvalho

Transportaste os meus versos, e a prosa corrida e manuscrita
Chegava a descer ao nível dos pedais,
Amarfanhada.
Quando solta de mim, a prosa era uma crueldade
Meio oculta.
Sentias-me a tremer, nas minhas mãos
As lâminas
Degolavam as sílabas,
Era um sangue confuso, incongruente,
Que manchava os estofos e vinha, gota a gota,
Turvar a placenta do texto
Nascido no meu colo.

Loucura tão apertada em ti
E à nossa volta as árvores erguendo a nobreza vegetal
Que subia dos alicerces
Da terra,
Da água ao abandono pelas inclinações
Que eu dava à língua.

Anos e anos e dias que chegavam à noite ofegantes
Sem saber o que fazer às frases.
Um mistério indefeso, infante e natalício
Cruzava-se nos teus vidros
Com a névoa tensa, densa, cimentada.

Eu não sabia dizer, puxava devagar as linhas novas,
Nervosas, cordões umbilicais
Toda essa baba azul da esferográfica
Ao redor do produto, ali, parido,
Deitado no papel.

Lembro agora esse tempo acrobático,
Em que a cabeça reclinava
E declinava
Ao volante o lume, os nossos breves lumes
Nas paragens,
As palavras roxas, franzinas, às cegas, enrodilhadas no tempo,
Na tua paciência,
No parque maternal da minha escrita.

[in O Amante Japonês, Assírio & Alvim, 2008]

Quatro ‘mínimas ficções’ de Ana Marques Gastão

bala

Cada batida do coração arrasta mais sangue. Não adianta descalçar os sapatos nem o gemido os abriga desse líquido espesso escorrendo pelas pernas. Nem mesmo. Nem mesmo vivemos algo semelhante a um romance vitoriano. Somente este não-sono profundo e forçado, o medo pisando folhas caídas sob o céu azul.

lírio

És uma lonjura sem nome, um lírio numa sebe de cactos.

clarão

A luz é poeirenta, magra. Vejo-te, vacilante, num voo rasante sobre as águas. Ao entrar em casa, detenho-me num clarão de contorno nítido. No quarto, vivem, silenciosas, estrelas-cadentes; no exterior o céu não se desmantela, vela por mim. Quando acordo, verifico que interior e exterior são afinal o mesmo tecto.

cintura

Deixo-te ir, dizendo palavras inabitadas, tenebrosas. Sou caruma, vento violento, borboleta esvaziada pela malignidade. Procuro, em minha perplexidade de asa, um outro coração. Na avidez do golpe, caminho com água pela cintura. Desapareço.

[in lápis mínimo, Oceanos, 2008]

Hoje no CCB

Um dia depois do Dia (por causa da Sexta-Feira Santa), o Centro Cultural de Belém, em parceria com o Plano Nacional de Leitura, decidiu abrir portas à poesia. Houve leituras, conferências, videowalls, exposições, feira do livro, ateliês para miúdos e graúdos, etc.
Por razões compreensíveis, uma com três anos e outra com ano e meio, fui parar à mais distante das salas, onde se contavam histórias infantis e havia letras espalhadas pelo chão:

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A poucos metros de distância, penduravam-se versos na corda como se fossem roupa:

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As palavras estavam por todo o lado:

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Até nas árvores:

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E agora algumas palavrinhas de Wislawa Szymborska

ALGUNS GOSTAM DE POESIA

Alguns —
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.

Gostam —
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia —
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.

[in Alguns gostam de poesia, antologia de Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska, tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves, Cavalo de Ferro, 2004]

Dia Mundial da Poesia

Just read it.

Dois poemas de Vicente Martín Martín

Já tenho o inventário das batalhas
ganhas e perdidas:
as ganhas,
guardadas à chave e em baús
de zinco; não suceda
que entre sonhos as nomeie sem querer
e acaso me desperte
o fedor que expelem seus cadáveres;
as perdidas,
de tanto acostumar-me à sua presença,
levo-as no bolso e recordam-me
que existo, que estou vivo,
nas vezes mesmo em que
me cai uma lágrima e ao cabo
de um tictac de silêncios
aparece,
solitária,
uma flor.

***

Sempre o suspeitei. Desde o dia em que
o poeta escreveu que as estrelas
não eram borboletas
abrigava o receio de que algo
tinha que falhar nos teoremas.
Viver não é caminhar para a morte.
Viver é construir-se a cada instante
um novo acontecer enquanto estalam
de riso pelo céu as pombas:
A vida, portanto, inventamo-la.
Mas a morte, não. A morte precede-nos,
como a luz ao tempo,
e a ela, por inércia, regressamos.

[in Eis a dor, o que me resta, tradução de Rui Costa, Ediciones Vitruvio, 2007]

Palavra Ibérica 2008

Já há programa para o Palavra Ibérica 2008, III Encontro Hispano-Luso de Escritores, que decorrerá em Punta Umbría, a 7 e 8 de Março. Eis alguns destaques:

Sexta-feira, 7 de Março

19h00 - Inauguração na Sala Polivalente, com Antonia Hernández Galloso (Vereadora da Cultura do Ayuntamiento de Punta Umbría), José Carlos Barros (Vereador da Cultura da Câmara Municipal de Vila Real de Sto. António) e Fernando Esteves Pinto (Círculo Literário do Algarve “Sulscrito”; co-coordenador Palavra Ibérica), Uberto Stabile (Coordenador do Encontro Hispano-Luso de Escritores Palavra Ibérica)

19h30 - Acto de entrega e apresentação dos Prémios Internacionais de Poesia Palavra Ibérica 2007, atribuídos a El sitio justo, de Rafael Camarasa (Valencia), e Sobre as imagens, de Amadeu Baptista (Viseu)

20h30 - “Cara a cara, verso a verso: outros tempos para a lírica”, com José Mário Silva (Lisboa) e Manuel Moya (Fuenteheridos, Huelva)

Sábado, 8 de Março

11h30 - Apresentação do livro Lo que cayó del Conquero (Antologia de Narradores Onubenses), com apresentação de Marcos Gualda e Uberto Stabile, seguida de intervenções de Rafael Delgado, Francis Vaz, Manuel Garrido Palacios e Manuel Moya

13h00 - “Cara a cara, verso a verso: espaços para a poesia”, com Manuela Ribeiro (directora do encontro “Correntes d’Escritas”, Póvoa de Varzim, Portugal) e Antonio Orihuela (director do encontro “Voces del Extremo” de Moguer, España)

18h00 - Apresentação dos livros e recitais poéticos dos autores da colecção Palavra Ibérica: Las moradas inútiles, de José Carlos Barros (Vila Real de Sto. António), Só mais uma vez, de Uberto Stabile (Valencia) e Pequeña antología para el cuerpo, de Luis Filipe Cristóvão (Torres Vedras)

20h00 - “No feminino plural”, com Margarida Vale de Gato (Lisboa), Josefa Virella (Huelva), Ana Mafalda Leite (Moçambique), María Gómez (Isla Cristina), Diana Almeida (Lisboa), Rosario Pérez Cabaña (Sevilla)

Brilhos de Minas

Ontem à noite, foi bem bacana o serão mineiro na Casa da América Latina. Prisca Agustoni, suíça italiana que vive há muitos anos no Brasil, apresentou de forma concisa a antologia Oiro de Minas — a nova poesia das Gerais, por si organizada (com chancela da Ardósia, colecção Pasárgada). Além da leitura de poemas dos dez autores antologiados, houve música (duas canções de Milton Nascimento, uma a abrir, outra a fechar, interpretadas com o corpo todo por um cantor de quem não fixei o nome) e muitas conversas no final, como explica o Luís Filipe Cristóvão.
A mim, impressionou-me a elevada qualidade destes poetas mineiros de agora, completamente desconhecidos em Portugal: Eustáquio Gorgone de Oliveira, Donizete Galvão, Júlio Polidoro, Ricardo Aleixo, Maria Esther Maciel, Fernando Fábio Fiorese Furtado, Edimilson de Almeida Pereira, Iacyr Anderson Freitas, Wilmar Silva e Fabrício Marques. Pensar que representam apenas a geração mais nova da poesia feita num só dos 26 estados do Brasil, ainda por cima fora da órbita centrípeta dos dois grandes pólos culturais do país (Rio de Janeiro e São Paulo), dá uma ideia do abismo de desconhecimento que temos em relação ao que se passa, em termos literários, lá no outro lado do Atlântico.
Como amostra, deixo aqui quatro poemas da antologia:

SILÊNCIO

De pedra ser.
Da pedra ter
o
duro desejo de durar.
Passem as legiões
com seus ossos expostos.
Chorem os velhos
com casacos de naftalina.
A nave branca chega ao porto
e tinge de vinho o azul do mar.
O maciço da rocha,
de costas para a cidade
sete vezes destruída,
celebra o silêncio.
A pedra cala
o que nela dói.

Donizete Galvão

***

DOIS

dois irmãos no começo. o que sabe o
caminho e o outro: dois. e não há
retorno. dois irmãos desde nunca. um,
o que vê e conta. outro, o que ouve.
dois. não se separam. por onde passam,
o mundo: o coração de um pássaro,
desvios, carcaças de antílopes, cidades
riscadas do mapa, o dorso tigrino de um
presságio, o tempo mais velho, um deus
trocando a pele. dois irmãos ainda agora.

Ricardo Aleixo

***

AULA DE DESENHO

Estou lá onde me invento e me faço:
De giz é meu traço. De aço, o papel.
Esboço uma face a régua e compasso:
É falsa. Desfaço o que fiz.
Retraço o retrato. Evoco o abstrato
Faço da sombra minha raiz.
Farta de mim, afasto-me
e constato: na arte ou na vida,
em carne, osso, lápis ou giz,
onde estou não é sempre
e o que eu sou é por um triz.

Maria Esther Maciel

***

CÓLERA

sem dúvida essa fadiga me entardece
é mais forte do que o vento
o vento que não é da família dos chacais
e me procura com uma lente invisível

o vento que racha as paredes
e atravessa a pintura

o vento que atravessa a pintura
e diz que os decibéis
das flores que lhe oferto
estão em anomalia

Wilmar Silva

Lembrete

Esta noite, pelas 21h00, lançamento do livro Oiro de Minas, a nova poesia das Gerais, com apresentação de Prisca Agustoni e Ozias Filho, na Casa da América Latina (Av. 24 de Julho, 118-B, Lisboa).

Quatro poemas de Adília Lopes

Degrau a degrau
verso a verso
o poema
a escada

***

No metro
cruzam-se as pessoas
como cartas de jogar
postas sobre a mesa

***

Dia
sem poesia
não é dia
é noite escura

Mas a poesia
é noite escura

***

Mesmo
uma linha
recta
é o labirinto
porque
entre
cada dois pontos
está o infinito

[in Caderno, & Etc, 2007]

Resgate

Na caixa de comentários do post em que traduzi um poema sobre tradução, um leitor respondeu colocando a sua versão portuguesa de um poema polaco sobre a tradução de poesia.
Uma vez que esse leitor/tradutor (e poeta) se chama Jorge Sousa Braga, não resisto a resgatar o seu contributo das catacumbas do blogue, a que nem sempre toda a gente desce:

SOBRE A TRADUÇÃO DE POESIA

Zbigniew Herbert

Como um abelhão desajeitado
pousa numa flor
vergando o frágil caule
abre caminho com os cotovelos
através duma fileira de pétalas
através das folhas de um dicionário
quer chegar
onde se concentram a fragrância e a doçura
e embora esteja constipado
e sem gosto
continua a tentar
até que a cabeça choca
contra o pistilo amarelo

e não consegue ir mais longe
é tão duro
forçar a coroa
até chegar à raiz
por isso levanta voo
emerge pavoneando-se
zumbindo:
eu estive lá
e aqueles
que não acreditam nisso
olhem para o seu nariz
amarelo de pólen

Descida da cruz

Vi os homens do alto da cruz, mas não vi o demónio.
O demónio dir-me-ia que a morte é vital, mas nada ouvi, aqui,
nesta paixão, sendo que apurei o ouvido e nem o eco das montanhas
do Moab ouvi, só ouvi como é doce a paixão e como esta crucificação
rende preito à esperança dos homens, tal como, de mim para comigo,
disse tantas vezes, e à multidão dos homens repeti.

Há coisas que não ouço e que não vejo, o demónio não vi, eis o que sei,
ele, se me visse nesta cruz, por certo choraria, pelos seus mil olhos
eu sei que choraria, pelos seus mil demónios no olhar, enquanto
chega a morte para que tudo se perfaça sobre o sofrimento,
a esponja do vinagre, a lança no flanco, os gritos das mulheres,
o grave galope dos cavalos a reter a multidão na sua esperança aflita.

Vi os homens do alto da cruz, mas não vi o demónio, essa luz
tão diferente, esse asco assinalável, mas não menos amistoso
pela demoníaca presença se aqui tivesse vindo, sendo que não me negaria
como outros me negaram, ah, não, não me negaria o que me persegue,
diria quem eu sou e qual o meu nome, e como os maltrapilhos desta terra
exercem pelo seu nome o nome que eu tenho, todos quantos
só pela minha dor rejubilam e se podem salvar.

Não vi aqui o demónio, nem vi Deus, vi o cálice e vi o abandono,
e vi a terra toda ensanguentada e Adonai ausente, ausente em parte incerta,
enquanto as mulheres e os homens se enlaçavam,
e foi a manhã inicial,
e a coroa de espinhos perfurava as minhas têmporas,
e os homens e as mulheres se enlaçavam,
e foi a noite inicial,
e por amor se uniram e geraram filhos,
enquanto sobre o Gólgota ecoavam os oboés e as trompas.

[in Sobre as Imagens, de Amadeu Baptista, inédito]

Francisco José Viegas por Francisco José Viegas


FJV lê Borboletas, incluído em Se me Comovesse o Amor (Quasi), durante a apresentação do livro na Casa Fernando Pessoa. O som é péssimo porque as imagens foram captadas no meio do público, sem microfone direccional. Mas há algo que legitima, creio, estas deficiências técnicas. Como disse o Pedro Mexia, os poemas mais recentes de Viegas são para ser ditos (e, neste caso, ouvidos) “em voz baixa”.

Hoje o Al Berto faria 60 anos

Em dia de aniversário póstumo, o site da Assírio & Alvim vende os livros de Al Berto com um desconto de 40%. Compreende-se o gesto, os leitores menos abonados agradecem, mas espero que existam formas mais poéticas de o lembrar (dizê-lo baixinho enquanto se atravessa as zonas mais escuras da cidade, por exemplo).

O mapa do geógrafo errante

capa FJV

Se me Comovesse o Amor
Autor: Francisco José Viegas
Editora: Quasi
N.º de páginas: 56
ISBN: 978-989-552-319-1
Ano de publicação: 2007

Francisco José Viegas é sobretudo conhecido como romancista, director da Casa Fernando Pessoa, cronista do quotidiano e da mesa bem posta ou blogger (dos mais antigos e regulares cá do burgo). Menos lembrada, a sua obra poética permanece numa espécie de segundo plano, o que não deixa de ser uma injustiça — como sabe quem tenha lido as quase 300 páginas de Metade da Vida (Quasi, 2002), volume que reúne todos os seus livros anteriores.
Em Se me Comovesse o Amor, Viegas escreve de um território fora do mundo, um lugar em que a poesia procura legitimar-se através de um absoluto desprendimento. Nos poemas, nada do que nos habituámos a encontrar nos versos de FJV ficou de fora: as elegias para os amigos (Manuel Hermínio Monteiro) ou familiares (uma tia); as subtis descrições de paisagens de outros continentes (o grande Sul, as montanhas, a neve em Ushuaia); o enlevo com “a doçura das coisas”; as elegantes enumerações; um certo fascínio com o que resiste ao olhar do viajante (seja o tango ou o silêncio da noite). Mas depois, pairando sobre tudo isto, há uma dúvida persistente quando ao verdadeiro poder da poesia: “Nenhuma palavra é capaz de dizer adeus com aquela perfeição das coisas que comovem.”
A servir para alguma coisa, a poesia serve para a contemplação: “o poeta / devia interpretar as meteorologias, prever / as tempestades, não dar voz às coisas / do mundo nem às pequenas glórias”. Neste livro melancólico, FJV insinua que a literatura é uma forma de afastamento da realidade concreta do mundo, fazendo de nós “passageiros obedientes” que desconhecem o nome do que “fica no meio das árvores”.
É contra este aturdimento, esta cegueira livresca, que se movem os poemas de Viegas, na vertigem de uma austera imponderabilidade existencial. Aqui não há segredos, não há mistérios, “só um risco no céu, um desígnio, um sinal, um aviso”. O sujeito poético já não faz perguntas e avança através de elipses (os poemas de amor), gozos e sarcasmos (como em O Beijo de um Académico em Paris) ou em voos picados sobre a passagem do tempo e os seus efeitos.
À desconfiança em relação à literatura, seguem-se as dúvidas em relação a si mesmo. O envelhecimento é olhado de frente, na sua obscena crueldade. E com ele o medo de quem vai “acrescentando ausências sobre ausências” e não sabe que herança deixar
aos filhos, “para além dos livros” e das “recordações de aldeia”, enquanto a “morte avisa uma e outra vez, / soletrando o teu nome, aprendendo as tuas sílabas, / o teu caminho, para depois te encontrar mais depressa”.
Evitando as lágrimas e a metafísica, este é o mapa de um geógrafo errante, de um “solitário entre ruínas”, que conta “o número de vítimas” e faz deste volume um dos melhores livros de poesia portuguesa editados em 2007.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado na revista Time Out Lisboa]

Escreva a sua opinião e dê uma nota a este livro nos comentários ao post

Um poema de ‘Tilt’

Ice on the beach

One single sheet of sprung light.
Touched here with the toe of your boot
it hurts in a distant part.

Dream stuff, with its own internal acoustic.
Striking it with a stick raises
a shocked note, a white bruise under the skin –

the physiology of ice on sand
is strange, we have not mapped it.
The sea can only scorch the edge.

This whole bay is locked
under a lid of referred pain.
At one end, a tanker

nudges out of the rivermouth.
In its wash, the ice shelf
barely shivers.

But thirty miles south,
in another town, it creaks
under the pier, where someone kneels,

staring down like a god
through a damaged sky, onto a wilderness
of ridges and blue shadows.

[in Tilt, de Jean Sprackland, Cape, 2007]

Poema nono do ciclo ‘Negrume’, de Amadeu Baptista

uma casa na terra. foi isso que criei,
sabendo como pode ser difícil encontrar,
muitas léguas em redor,
uma luz com esse benefício.

andar, andei. fazia como via,
os outros a fazer. invocava
as coisas da manhã e escrevia,
com elas, a nossa redenção.

o universo seria o que quiséssemos.
a nervura do mirto, a essência nítida.
a curva do arroio, a intensidade
com que o sol tocasse a pele.

mesmo de noite, a busca prosseguia.
ao subir ao abismo do teu corpo,
ao descer à densa irrupção do teu olhar,
procurava apartar a escuridão, e dissipá-la.

podia ser possível renascer.
podia ser possível antecipar
o fundo aterrador que há na mágoa
com que o meu no teu rosto se procura.

bastava, só, falar. dizer que ódio,
ou que cegueira, pesava sobre nós.
que impaciência gelava o nosso sono,
que pesadelo aniquilava o sonho.

bastava, só, dizer o que podia,
ou não, ser feito, usando a linguagem
das aves desabridas, as ondas
que há no mar, o vento sobre os campos.

agora, sobre a terra, há só desilusão.
cavalos sem forragem, colheitas por fazer.
e golpes desferidos nos sicômoros,
que, como chagas, sangram.

nada nos perdoará a atrocidade.
nada nos redimirá por termos ido
ao arrepio da afronta, da tristeza.
sempre que te chamo não respondes.

[in Negrume, & Etc, composto e paginado por Olímpio Ferreira, 2006]

Oferecer poesia na rua

lucy stand

Lembram-se daquela banca que a Lucy montava, nas vinhetas do Peanuts, para vender limonada ou apoio psiquiátrico, a cinco cêntimos a consulta? Em Princeton, EUA, um professor conseguiu convencer 13 alunos adolescentes a montarem uma banca parecida, mas com o objectivo de escrever poemas a quem os pedisse (e de graça). A história é daquelas que nos dá ânimo, depois de contemplarmos o negrume da condição humana. Está contada em grande detalhe por Douglas Goetsch (o professor, também poeta) aqui.

Mais um prémio para Amadeu Baptista

O poeta Amadeu Baptista acaba de ser distinguido com o Prémio Literário Florbela Espanca 2007 (Câmara Municipal de Vila Viçosa), no valor de 2500 euros, pela obra Outros Domínios. A concurso apresentaram-se 104 trabalhos. Foram ainda atribuídas duas Menções Honrosas a Espaço Livre com Barcos, de Graça Pires, e Quebranta Água do Tempo, de Luís Aguiar.

Ainda FJV

Do último livro de poemas do Francisco, Se me Comovesse o Amor (Quasi), gostava de partilhar aqui um que se intitula Questões com a Literatura:

Temos muitas, demasiadas, frases dentro da cabeça,
é preciso um grande pudor para não usá-las.
Séculos de literatura fizeram de nós apenas isso,
passageiros obedientes, leitores compulsivos,
geógrafos errantes que desconhecem os nomes
entre as montanhas, o que fica no meio das árvores.

Não vale de muito. A vida interrompe as páginas dos livros
como entende, transporta nuvens espessas,
ignora os pardais nas margens dos bosques.

Às vezes acontece qualquer coisa, dizem que a sorte
bateu à porta: uma grande dor que se esquece, os filhos
que repetem uma palavra nossa, uma que seja,
um avião que atravessa o céu, iluminado pela manhã.

Temos muitas frases dentro da cabeça, ideias arrumadas,
catálogos. A literatura perdeu-nos para as grandes profissões,
as pequenas esperanças, as bibliotecas de argila,
a poeira da tarde, os livros, as sombras dos caminhos.

Fará sentido os poetas limitarem a difusão dos seus versos na internet?

Não, claro que não, muito pelo contrário.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges