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Um coro de feridas

Gado do Senhor
Autora: Rosa Alice Branco
Editora: &Etc
N.º de páginas: 49
ISBN: 978-989-8150-31-8
Ano de publicação: 2011

Na epígrafe deste livro, Rosa Alice Branco evoca o homem como «doença mortal do animal» e os poemas começam por criar a expectativa de uma denúncia, em voz alta, das nossas malfeitorias enquanto espécie dominante. As primeiras páginas falam-nos de vacas condenadas ao «churrasco de domingo», mas ainda assim trocando «mus» como «mantras de amor sob as estrelas»; mostram-nos aves em «previsível colisão com aviões», porque a guerra (em concreto, a do Iraque) nada sabe das rotas migratórias; ou um cão da infância que fingia não ser o dono do seu dono. Mais à frente, temos ainda a visão de aviários piores do que favelas («Nas favelas sempre se / tem alcunha e muita raiva. E manha para fugir ao medo»), o solilóquio de uma galinha à espera da faca em «dia de arraial», a clarividência dos caracóis que «vêem para dentro».
Esta aproximação à «candura dos animais», indefesos diante das mãos humanas, podia quedar-se por uma espécie de militantismo ecológico (entrevisto na evocação da «Terra» como «cadáver», ainda assim belo «entre as flores do campo que resta / e o fumo dos incêndios que te cinzam»). Mas a poeta logo demonstra que o verdadeiro tema é outro. É a própria ideia de morte, é a experiência da perda total, esse afinado «coro de feridas», esse vazio súbito que nos deixa num desamparo semelhante ao dos bichos e suscita uma revolta contra as ordens estabelecidas – em particular a religiosa, com os seus «altares do sacrifício» onde é suposto sermos, por nossa vez, uma forma de «gado», também ele submisso e temeroso.
Por muito que os cemitérios se tenham transformado em «repartições públicas», a que as famílias acorrem «sem os formulários preenchidos» e gastando «toda a tristeza que pouparam», há nestes poemas uma desarmante evocação das mais antigas formas de luto: «Sigo os números que conduzem a ti. / O rosário dos ossos desfia este amor / que não cabe nas mãos. A carne é fraca, / a madeira porosa e tudo o que respiro te consome. Fecho os olhos e os teus passos tocam de novo / o chão da casa.»
Atravessado de ponta a ponta por um subtexto bíblico, Gado do Senhor é um belo livro, agreste e corajoso, feito de parábolas, música magoada e uma ironia ácida, especialmente notória nos diálogos com o divino: «Se és deus, ressuscita os anjos. Eu cá em baixo / não espero peva a não ser um pouco de pudor da tua parte. / Mas continuas a exibir o sofrimento das larvas, / da tua mãe santíssima, dos teus pregos a escorrerem / sangue, um sangue que é puro desperdício. / Se ao menos fosses dador universal.»

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 105 da revista Ler]

Quatro poemas de Carlos Mota de Oliveira

VICENTE HUIDOBRO

Trataste-te com belos comprimidos
e esplendidamente.
Mais isto e aquilo mais disto
e daquilo.
Trata-se da tua vida, Vicente Huidobro:
Aqui yace el poeta Vicente Huidobro/
abrid la tumba/ al fondo de esta
tumba/ se ve el mar.
De navio de alto bordo, a tua poesia
é um chapéu alto.
Trata-se apenas da tua vida, Vicente
Huidobro.

***

HOMENAGEM A FLORBELA ESPANCA

Ser poeta é saber
rimar coração
com vinho do Dão.

***

HUGO, O MEU CAVALO COMUNISTA

Apanho o navio em Arraiolos
e fugindo com graça e gosto
me embarco para o Redondo.
À proa, enchem-se os rapazes
de tanto bailar
e já em S. Miguel de Machede
todos me vêem a florear
Hugo, o meu cavalo comunista,
e a engordar de pasto
a poesia.

***

O SONETO ALCOÓLICO

Até ver e pelo que vejo
a meu ver um soneto
deve ver pelos seus olhos
e pelos olhos dos outros.
Mais: um soneto alcoólico
deve andar cheio de tinto
e não ir para a taberna
vestido e calçado.

[in Os Poetas Adoram Massagens, edição do autor, 2011]

Três poemas de Ana Paula Inácio

Ó CÉSAR

não sou uma mulher moderna
não me ligo à net
gosto de compras ao vivo
cujas listas faço em cadernos de argolas
que depois esqueço
e só me lembro de elixir para aclarar a voz,
tenho tantas embalagens
como Warhol de Tomato Soup
ou de detergente Brillo,
para que ao chegares a casa
te envolva, te abrace e te queira
mas nem só de voz vive o homem
dizes tu,
e então a minha saúda-te
como a daqueles que vão morrer

***

Diz B. Moser em ‘Clarice Lispector – Uma vida’
que a felicidade para CL era clandestina,
página em que parei a minha leitura e
me interroguei se havia de cortar o cabelo
com risca ao meio ou ao lado,
eu a quem só restava a literatura,
que durante uma vida inteira recusara,
como suprema ironia
como a fava do bolo,
nesta quadra
em que o teu rosto já não é uma paragem obrigatória;
nesta mentira em que me enfio
como a calça curta do dandy
ou a jaqueta do paletó do José Mauro de Vasconcelos,
os poetas sempre ficaram melhor no retrato
do que na vida.

***

66-12-ZZ

Como um velho comerciante de carros falido
parecias saído de um filme de Tarantino.
Com as minhas plumas em forma de asas
e a maquilhagem de anjo doente
parecia saída de um filme de Wenders caído.
Relativamente às plumas, em forma de asas,
trazia os cálculos anotados
da distância a manter do Sol
e a imagem de Ícaro em chamas.
Mas naquele dia tudo correu mal.
O que poderíamos fazer de diferentes filmes saídos?
E choveu.
E o nevoeiro nem um cometa deixou ver.
A minha maquilhagem desfez-se,
confundiu-se com os veios das plumas
que se colaram à minha coluna vertebral
como um colete de forças.
E tu velho comerciante
já não me pudeste enganar
e vender um artefacto voador
por um coração ferido

[in 2010-2011, Averno, 2011]

Carne e voragem

Adornos
Autora: Ana Marques Gastão
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 79
ISBN: 978-972-20-4699-2
Ano de publicação: 2011

Neste livro de poesia, o seu sexto, Ana Marques Gastão fez corresponder a cada uma das partes um dos cinco sentidos: visão (Antevisão), tacto (O rapto), audição (Ondulações), olfacto (Inflorescências) e paladar (Confeitos). Esta é uma poesia sensorial, ágil e depuradíssima. Em vez de meros efeitos sinestésicos, porém, o que se busca é justamente o que os sentidos não conseguem apreender, a «invisível presença», o «indeterminado» que «se determina / pelo correr do tempo».
Para o sujeito poético, a escrita é «uma valsa, / blusa sem alça, / fractura d’um salmo / que amacio no papel». Aqui, imperam os ritmos puros e os movimentos aéreos (como passos de dança), a sintaxe elástica, as aliterações e rimas bruscas, a esquiva beleza que nasce do entrelaçar de elementos opostos. O mundo «não é senão / sonho, íris, degrau»; a vida «véu ou tocha», «tafetá ou monstro». À poesia – lunar, espectral, «neptúnica», feita de ressonâncias, turbilhões e quedas – cabe estabelecer a «sinapse sinopse / dum saturado real». Saturado ao ponto de exigir uma transubstanciação, o deslocamento do sujeito para outro plano, a manifestação de um desejo «corporeamente espiritual» («quando o rosto se expõe de tão oculto»).
Estas complexas metamorfoses simbólicas tornam por vezes os poemas algo crípticos, atravessados por imagens bizarras, barrocas, como que caídas neste nosso tempo vindas de outro século. Mas nunca Ana Marques Gastão esteve tão perto da exactidão formal a que todos os poetas aspiram: «Anda, suporta teu corpo de ferida / cicatriz ou nome, és esqueleto bravio / carne e voragem, sino que ressoa, / te ensurdece e desmorona».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Três poemas de João Silveira

uma mesa acesa, a vela ao centro.
a madeira, a voz range nas persianas como vento,
alguém fala nesse sítio, sussurrando.
o vento rangendo folhas, madeira,
há um portão chorando entre ervas altas,
secas, castanhas,
embaladas numa voz que murmura

os mortos ainda um nome
os mortos ainda um cheiro
os mortos com a roupa de domingo

percorrendo paredes,
movendo dedos em persianas,
o vento cria árvores largadas na terra
e alguém repete qualquer coisa,
alguém imita uma palavra,
alguém fala como fotografias
e um portão gemendo aberto às ruínas,
ao pó dos brinquedos, dos livros e cartas,
alguma roupa para sempre esperando o corpo,
um minúsculo resto de perfume,
uma tesoura negra,
uma máquina de costura.
a madeira estala,
o fogo estala
recordando os cantos exactos do silêncio
ao longo das paredes,
no quarto,
na porta que dará para um largo de plátanos.
os olhos em fotografias que sorriem
e lembram qualquer coisa aveludada:

um rádio rasgando estática, baixinho.

***

as árvores continuam mortas
e, por vezes, vêem-se garças junto aos carros.
ainda há crianças que brincam no ar
e há também um homem em álcool,
destruído contra a vitrina de uma galeria de arte.
há novas mãos enlaçadas
e novos mundos prestes a explodir junto ao mar.
há livros geniais
e há também um homem a comer fruta podre
encarando um restaurante.
há preços a pagar
e segredos que, com as garças,
permanecem junto aos carros.
há tempo de nascer e morrer

e é tudo tão real.
e tudo apenas atrás dos meus olhos.

***

Lisboa a largar-se ao céu em braços e cabelos
que poderiam também ser estrelas,
poderiam ser casas caídas em ruas cujo nome não sei,
poderiam ser nesse mesmo instante
uma palavra nunca dita a tempo
ou os dedos que se perderam em afectos
numa pele sem destino aparente
e dir-te-ia
‘meu amor’
julgando cabelos e dedos magros compridos
que afinal estrelas e um reflexo incrível sobre o rio,
Lisboa submersa largando-se em tons azuis,
dir-te-ia todas as mentiras,
todas as que se conjugassem numa só noite
e num só corpo.

[in Dever/Haver, de João Silveira, Artefacto]

Mais sete poemas de T. T.

Em inglês, aqui.

“Tudo está vivo, tudo canta, serpenteia, abana e rasteja”

O poema que num post anterior Tomas Tranströmer lê em sueco (língua incompreensível, estou certo, para 99,99% dos leitores deste blogue) foi ontem mesmo traduzido pelo incansável Luís Costa, autor de um ensaio muito interessante sobre a poética de Tranströmer, publicado em Novembro de 2007 na revista online Agulha.
Eis a versão portuguesa de Madrigal:

«Herdei uma floresta obscura, onde raramente vou. Porém, há-de chegar o dia em que os mortos e os vivos trocam os seus lugares. Então, a floresta põe-se em movimento. Nós não existimos sem esperança. Os maiores crimes ficam por esclarecer, apesar da mobilização de tantos polícias. Da mesma maneira, há algures, na nossa vida, um grande amor que fica por esclarecer.
Herdei uma floresta obscura, porém, hoje vou à outra floresta, que é clara. Tudo está vivo, tudo canta, serpenteia, abana e rasteja. É Primavera, o ar é robusto. Fiz os meus exames na universidade do esquecimento, tenho as mãos vazias como uma camisa num cordão de estender roupa.»

‘Madrigal’

Tomas Tranströmer lê um poema de Tomas Tranströmer.

Quatro poemas de Tomas Tranströmer

Em Fevereiro deste ano, o poeta João Luís Barreto Guimarães publicou no seu blogue alguns poemas do novo Prémio Nobel, traduzidos a partir da versão castelhana do livro Para vivos y muertos (editado em Espanha pela Hiperión, com tradução do sueco por Roberto Mascaro e Francisco Uriz). Desse post que me foi dedicado (e que agora agradeço, com meses de atraso), roubo então estas quatro pequenas maravilhas, vertidas para português por JLBG:

HISTÓRIAS DE MARINHEIROS (1954)

Há dias de inverno sem neve em que o mar é parente
de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza,
azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos
linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar.

Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca
de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas
tripulações vêm a terra, mais ténues que fumo de cachimbo.

(No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas
e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia
vive numa mina, de dia e de noite.

Ali, onde o único sobrevivente pode estar
junto ao forno da Aurora Boreal escutando
a música dos mortos de frio).

***

A ÁRVORE E A NUVEM (1962)

Uma árvore anda de aqui para ali sob a chuva,
com pressa, ante nós, derramando-se na cinza.
Leva um recado. Da chuva arranca vida
como um melro ante um jardim de fruta.

Quando a chuva cessa, detém-se a árvore.
Vislumbramo-la direita, quieta em noites claras,
à espera, como nós, do instante
em que flocos de neve floresçam no espaço.

***

DESDE A MONTANHA (1962)

Estou na montanha e vejo a enseada.
Os barcos descansam sobre a superfície do verão.
«Somos sonâmbulos. Luas vagabundas.»
Isso dizem as velas brancas.

«Deslizamos por uma casa adormecida.
Abrimos as portas lentamente.
Assomamo-nos à liberdade.»
Isso dizem as velas brancas.

Um dia vi navegar os desejos do mundo.
Todos, no mesmo rumo – uma só frota.
«Agora estamos dispersos. Séquito de ninguém.»
Isso dizem as velas brancas.

***

PÁSSAROS MATINAIS (1966)

Desperto o automóvel
que tem o pára-brisas coberto de pólen.
Coloco os óculos de sol.
O canto dos pássaros escurece.

Enquanto isso outro homem compra um diário
na estação de comboio
junto a um grande vagão de carga
completamente vermelho de ferrugem
que cintila ao sol.

Não há vazios por aqui.

Cruza o calor da primavera um corredor frio
por onde alguém entra depressa
e conta como foi caluniado
até na Direcção.

Por uma parte de trás da paisagem
chega a gralha
negra e branca. Pássaro agoirento.
E o melro que se move em todas as direcções
até que tudo seja um desenho a carvão,
salvo a roupa branca na corda de estender:
um coro da Palestina:

Não há vazios por aqui.

É fantástico sentir como cresce o meu poema
enquanto me vou encolhendo
Cresce, ocupa o meu lugar.

Desloca-me.
Expulsa-me do ninho.
O poema está pronto.

Um acto delicado

Nervo
Autor: Diogo Vaz Pinto
Editora: Averno
N.º de páginas: 120
Depósito Legal: 326223/11
Ano de publicação: 2011

Novíssimo entre os novíssimos, Diogo Vaz Pinto (n. 1985) começou a publicar os seus poemas longos na revista Criatura, que co-dirige com David Teles Pereira. Eram poemas de grande intensidade expressiva, simultaneamente íntimos e com ressonâncias geracionais, reveladores de uma voz singular e pouco alinhada com a restante poesia portuguesa contemporânea. Muitos desses textos reaparecem agora no extenso livro de estreia e confirmam DVP como um dos poetas mais estimulantes surgidos nos últimos anos.
Há, nesta escrita, uma espécie de urgência juvenil, uma vontade de vencer a «trôpega distância» que nos separa da «realidade / que passa por nós em diferido», uma «pressa insuportável de dar mundo / às palavras». Humildemente, o poeta reconhece que escrever «é só ir apanhando as coisas do chão», seja a «tão pouca vida, e tão repetida» a que parece condenada uma geração precária, à deriva numa «era a que falta assombro» e resignada a uma «amorosa derrota», seja a trama dos alheios versos «de esplendor puro», resgatados (a itálico) na «colagem violenta» de que se são feitos os poemas.
Se a revolta «contra o mundo» é um dos temas recorrentes, no centro desta energia lírica está o amor e as suas contingências. Em tom elegíaco, testemunhamos bebedeiras, noitadas, «derivas quixotescas», cansaços, «tudo, um pouco, ao sabor do desespero». O livro funciona como um labirinto sentimental (mas não sentimentalista), um catálogo de entregas e fracassos, idílios e rejeições. Melancolicamente, convoca-se a memória só para a ver andar descalça sobre pedaços de vidro. E fixam-se as imagens do passado porque elas «depressa se esvaem», como a própria juventude («uma piada que na altura / não entendemos, e agora é já um pouco tarde / para nos começarmos a rir»).
Mesmo quando a «mania efabuladora» o faz ceder a impulsos narrativos, DVP acredita que a poesia «é ainda um acto delicado», em que o poeta se limita a puxar o fio que há em cada nome. Mas eis o problema: «Daí a nada / mais parece que é o fio que te puxa a ti. / E puxa, horrorizando-te, enquanto / imaginas que costura do teu mundo / agora se descose.» É nesta tensão entre o que se puxa e o que é puxado, entre o direito e o avesso, que reside a força maior desta poesia, por vezes errática e demasiado palavrosa, mas outras vezes capaz de se aproximar da perfeição, em poemas magníficos como Wonderlands, Fósforo ou Carrossel.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 104 da revista Ler]

Quatro poemas de Ana Marques Gastão

PREGADEIRA

Coso o botão
a linha de sangue,
prego-o à página,
cedo à seda.
Semeio outro nó.

Lesto, embalo-o
ao peito, digo:
meu anjo e anseio,
sou uma pregadeira
de aço e pó.

***

CASTELO COM CAUDA

Hoje hiberno, ondulo
como as serpentes,
visto a blusa,
rodo a cintura.
Cinjo-a à coroa
de meu corpo.

Deixo de ver, vejo,
toco, entrelaço.
A cabeça solta-se
do pescoço,
desenha um castelo
com cauda.

Mais do que espesso,
meu invólucro é lunar.
Avanço não sem lastro,
suporto o vestígio,
amasso o linho,
como se chão fosse.

***

INTUIÇÕES D’UVA

Das uvas o cacho, os braços,
do vinho os rios, ínfimos caudais;
do livro, a citação; do amor
a renúncia ou quase nada querer;
da pele o xisto, do corpo o mel
em texto de boca, do lápis
a rosa-louca, imóvel de se mover
em ponto fixo, pois quando
nasce, único, o fruto, deixa a flor
de ser perplexa em seus espinhos.

***

ALIMENTO IMPERFEITO

Possa eu tornar-me pedra,
da pedra areia, da rocha
grão, do diamante brilho.

Endureça eu como concha
de água matricial, minério
de cobre, coração cristalino.

Seja eu alimento imperfeito
de clareza perfeita, mar denso,
condensado, astral e puro.

Seja eu mel coagulado
d’orvalho e ouro vivo.

[in Adornos, Dom Quixote, 2011]

Dois poemas de Nuno Dempster

Talvez houvesse rosas de Isabel
que Inês mudasse em outro paraíso,
andar por entre flores e pousar
a vista em coisas mínimas, pensar
que Pedro viria à noite, ou apenas
sentir o ventre ainda sossegado,
que assim melhor se vive, sem a culpa
magoar, como a cruz feria o deus
e a excomunhão dos bispos recordava.
Nada disto, porém, é verdadeiro.
Cenários apagados, tudo longe,
em ruínas o paço: uma janela.
A História só escreve equações,
da vida interior nada se lê.
Perdeu-se Inês nos campos do Mondego,
e agora recriamo-la, poesia
que se gera em sentido inverso à vida:
Inês, num paraíso que não há,
caminha virtual entre poemas.

***

Senta-te no silêncio das arcadas
místicas da abadia. Frente a Cristo,
vai pensando nos ossos de Pedro e Inês
e na imagem do filho abandonado
pelo pai, quando Deus se tornou o
grito «Eli, Eli, lama sabachthani?»
Medita então na morte dos amantes,
como deles se foi a luz e a força
centrípeta que os chamava, o íman real
da gravidade humana, e pensa o grito
que alguém deixou no livro dos profetas.
Sai então do mosteiro, observa a praça
e as casas em redor, cruas de sol.
Onde estão Pedro e Inês? Ninguém os vê.
Um a seguir ao outro, a morte teve
a carne luminosa dos seus corpos,
e hoje os ossos antigos nada dizem:
o presente é o largo do mosteiro
e a lojista ao fundo que dispõe
a tralha de ‘recuerdos’ sempre iguais,
e nada irá surgir ali que espante.

[in Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo, Edições Sempre-em-pé, 2011]

Três poemas de Ana Luísa Amaral

A IMPOSSÍVEL SARÇA

Que mais fazer
se as palavras queimam
e tanta coisa em fumo em tanta coisa
sarças ardentes do avesso
o fogo em labaredas que mais
fazer

Que mais fazer
se nem a água tantas vezes
descrita abençoada
mas de mais e cristã
também castigo

Mas como nem castigo
nem as nuvens de fumo na sarça
do avesso
se tudo no avesso
das palavras

que não chegam
– mas cegam

***

PALIMPSESTO

Limpa o cesto bem limpo,
mas deixa lá ficar sombra ligeira:
essa primeira sílaba.
Sobre ela
podes encher o cesto com mais sílabas,
e até outras palavras.

Terás assim um cesto
que aos olhos de quem vê
é um cesto só teu,
onde escondeste as coisas
do costume dos cestos: flores, solidões,
rastilhos, bombas.

Foi limpo o cesto
aos olhos de quem vê,
mas tu sabes que não.
Que houve ali um momento de ladrão,
quando nele ficou
a sombra dessa sílaba.

E agora mostras
a toda a gente o cesto,
e não há sombra.
Há só a mão que surge
e pega no teu cesto,
o toma devagar.

E o olha com olhos de quem lê,
e o limpa muito limpo,
ao teu antigo cesto,
deixando lá no fundo,
disfarçada,
uma segunda sílaba.

***

GATO EM APONTAMENTO QUASE BARROCO E DE MANHÃ DE SÁBADO

Gentilmente curvado sobre a flor,
Percorre devagar nervura e centro.
E em tantos delicados argumentos
Vai avançando lentamente as folhas.

A cabeça pondera e repondera
Defronte a haste fácil, rente a terra,
E uma pedra minúscula e serena
Sobe no ar, acesa como fera.

Não conhece os segredos do soneto,
Sendo de ofício muito ignorado
A sua arte. E em curto minuete:

Uma garra afiada em pé de valsa,
Um dente a desdenhar a flor e a folha
E a cravar-se, feroz, na minha salsa.

[in Vozes, D. Quixote, 2011]

Quatro poemas de Helder Macedo

PARA AS SOMBRAS DA LOURDES CASTRO

A solidão da morte gera sombras
que os corpos cristalizam
nas fronteiras de sombra dos destinos
para dar um nome pessoal
e exacto
à nossa identidade transitória.

As sombras preexistem os destinos
como a morte preexiste a vida
mas a luz que as sombras libertaram
projectadas
somos nós
aprisionados livres
nos espelhos paralelos
duma sombra e sua ausência.

***

ANUNCIAÇÃO

Espada dúctil de fogo
negro sol latejando na vertical
ave branca explodida no meu ventre

é sem partilha
o amor que me anuncias
nem é humana
ou tua
a sombra que cresceu sobre o meu corpo
e por mim se alongou
e me alongou num fundo mar
sem esperança
pois não há esperança no mistério revelado
e o que a carne concebe
é já divino
porque sem comando.

***

Um salto de raposa sobre a estrada
último sol à beira da fronteira.
Depois somente a sombra
duma lua diurna
a câmara dos ecos
e círculos de corvos sobre a neve.

Viagem de inverno
metáfora fechada deslizando
em espelho opaco
gotícula de sémen
pulsando sobre pele infecundada
contexto desconexo

viagem literalmente de inverno
literalmente viagem
por estradas escorrendo rios turvos
nas ondas congeladas das montanhas
com troncos encravados
mastros brancos de frotas soterradas

até que muito ao Leste
o hotel aberto
vazio e duvidoso
galo campestre em luxo desplumado
e onde o chefe já perdera a estrela
Michelin

por exagero de maçã nos molhos.

***

Tive uma amiga que ambicionava escrever
poemas de silêncio

trabalhou muito até que conseguiu
organizar numa mesa de vidro transparente
doze folhas brancas de papel em branco
com uma jóia em cima de cada uma
para cada amigo receber
o seu poema de silêncio
quando fosse encontrada no robe branco
da morte branca que nos oferecia

cheguei a tempo de salvá-la
fizeram-lhe a lavagem ao estômago
não me perdoou a alma mal lavada
nunca mais nos vimos
viaja agora de país em país
sem jóias sem poemas sem amigos
e telefona-me às vezes depois da meia-noite
quando o silêncio raspa o vidro da janela

[in Poemas Novos e Velhos, Presença, 2011]

Quatro poemas de Manoel de Barros

O que eu não sei fazer desmancho em frases.

Eu fiz o nada aparecer.

(Represente que o homem é um poço escuro.
Aqui de cima não se vê nada.
Mas quando se chega ao fundo do poço já se pode ver
o nada.)

Perder o nada é um empobrecimento.

***

AUTORRETRATO

Ao nascer eu não estava acordado, de forma que
não vi a hora.
Isso faz tempo.
Foi na beira de um rio.
Depois eu já morri 14 vezes.
Só falta a última.
Escrevi 14 livros
e deles estou livrado.
São todos repetições do primeiro.
(Posso fingir de outros, mas não posso fugir de mim.)
Já plantei dezoito árvores, mas pode que só quatro.
Em pensamento e palavras namorei noventa moças,
mas pode que nove.
Produzi desobjetos, 35, mas pode que onze.
Cito os mais bolinados: um alicate cremoso, um
abridor de amanhecer, uma fivela de prender silêncios,
um prego que farfalha, um parafuso de veludo etc etc.
Tenho uma confissão: noventa por cento do que
escrevo é invenção; só dez por cento que é mentira.

***

A BORRA

Prefiro as palavras obscuras que moram nos
fundos de uma cozinha – tipo borra, latas, cisco
Do que as palavras que moram nos sodalícios –
tipo excelência, conspícuo, majestade.
Também os meus alter egos são todos borra,
ciscos, pobres-diabos
Que poderiam morar nos fundos de uma cozinha
– tipo Bola Sete, Mário Pega Sapo, Maria Pelego
Preto etc.
Todos bêbedos ou bocós.
E todos condizentes com andrajos.
Um dia alguém me sugeriu que adotasse um
alter ego respeitável – tipo um príncipe, um
almirante, um senador.
Eu perguntei:
Mas quem ficará com os meus abismos se os
pobres-diabos não ficarem?

***

POEMA

A poesia está guardada nas palavras – é tudo que
eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.

[in Poesia Completa, Caminho, 2011]

Quatro poemas de Sylvia Beirute

CONOSCENZA

{o teu reconhecimento é a tua dependência},
não o deixes passar da fase da costura.
surge. insurge. inespera.
adquire expressões através do
eco difuso dos vegetais, coloca-te
nas ranhuras da madeira.
há uma vida imprópria algures.
pode não ser como aquela que espera
na plumagem de uma memória
por antecipação, mas protege o silêncio
e não deixa coagular o sangue.
{o teu reconhecimento é a tua dependência},
e quanto mais o memorizares
mais afastado estarás
dos lados obtusos de quem te deseja habitar
e da semêntica temporal
das pessoas que te pedirão um
poema bonito,
e nada pior do que escrever
um poema bonito.

***

DIA DOS NAMORADOS

o amor
passou-se no tempo em que não havia medo.
não havia paredes subidas.
as manhãs eram remotas como rosas.
os ontens uma mitologia condigna.
a pátria era tão labiríntica quanto uma lágrima.
tão imprevisível quanto o ofício de um deus.
o amor passou-se no tempo em que ainda não tinha nome,
em que os segundos eram uma espécie de sangue,
e a tarde podia ser uma só palavra
na órbita de uma outra palavra.
o amor passou-se neste poema para pessoas sós,
passou-se como mera reprodução de um tempo
em que não havia corpos, logo
corações distantes.
mas ainda assim o amor existe: mesmo sendo
um ontem, mesmo sendo uma lágrima,
mesmo sendo uma rosa esquecida
num quarto azul.

***

LEITURA EXPLÍCITA

{talvez um dia regresse à voz do leitor.}
o leitor morre mais depressa que o poeta.
quero os meus poemas a morrerem
daqui a cem anos
no último fio de voz do primeiro leitor imediato
e numa altura em que todos os livros
subirão aos céus.
não quero o prazer de haver sido distante
num tempo distante. quero o prazer
de ser imediata e soberba
num tempo imediato e arrogante.
quero manufacturar tudo o quanto de pescoço há
na representação.
porque o tempo futuro é um encolher de ombros,
e nos meus poemas as razões se limitam
a retirar razões a outras razões.

***

POEMA SIMPLES

escreve um poema muito simples
com ideias vagas, artefactos visuais,
e o azulecer de um castigo pendente,
um poema indietrónico e
sem dissecação possível
onde colocas, por fim, um intensificador
como aquele que deus usou
no começo do mundo.
um dia perguntar-te-ão de que
trata o teu poema,
e para explicares isso ao mundo – um mundo,
digamos, impessoal porque com excesso de gente –
escreverás um outro de alguns versos
encadeados como gotas de água
ou lágrimas da mesma substância.
aí, dirás que escrever poemas é errar
e que interpretar é a mais bela forma de erro.

[in Uma Prática para Desconserto, 4 Águas, 2011]

Poetas por Km2

Um festival de poesia que une, em 2011, Espanha e Brasil.

Questionário Schmidt

O poeta argentino Alejandro Schmidt criou uma lista de 24 perguntas que envia a outros poetas. As respostas podem ser lidas neste blogue.

Quatro poemas de Fernando Guimarães

PÁGINA

Principiamos a ler. O rosto inclina-se. Ainda separadas,
algumas das letras estremeceram. Tudo aquilo que se sente
é a respiração que fica à sua volta. O ar destina-se às palavras
e também ao silêncio. A luz que chega pode explicar-nos
melhor o que se passa. Os olhos sabem-no. Daí a pressa
com que se aproximaram dela, até se tornar o que se leu
mais nosso. Depois repousamos um pouco. Uma das mãos
estende-se e vai ao encontro de outra página. Esta será maior.

***

COROAÇÃO DA VIRGEM DE STEFANIO DA VENEZIA

Quem são aqueles que ficam ali reunidos e se submetem
a esta ordem que é a da pintura? Estão sentados. Há filas onde avultam
os rostos cercados pela luz. Podemos dizer que é um trono este lugar
onde descai uma das mãos para o que nos era oferecido? Tudo
o que se espera há-de ficar abrigado por um manto. Encontraremos
finalmente aquilo que se pode ainda receber. Dois rostos
inclinam-se e tornam-se maiores. À sua frente estava suspensa
uma coroa. O seu brilho aproxima-se para não ser diferente
do que se vê todos os dias ao amanhecer. Ela vinha ocupar o centro
deste espaço que se fecha agora em si mesmo. Num dos lados
dispunham-se algumas palavras que podiam ser lidas. No outro, alguém
continuava ajoelhado. A imobilidade permite encontrar outros caminhos.

***

F. GREGOROVIUS

Sozinho no seu gabinete, procurava a verdade acerca de uma mulher
chamada Lucrezia. Pertencia à família dos Bórgias. Este nome
foi conhecido por estar associado ao veneno. E também
ao amor. Um e outro podem percorrer o nosso sangue e depois ficar
no coração. Aí nasceria uma flor. As pétalas eram brancas
ou negras. Gregorovius colheu-as e preocupou-se apenas em ver
a sua transparência. Assim é que se principia a contemplar um rosto
amado. Nunca mais o esqueceu. Ao que já tinha escrito acrescentou
estas palavras: «É uma mulher amável e doce, frívola
e infeliz.» Deteve-se. Reflectiu durante alguns instantes. Mas continua
a escrever sem descanso, como se um fio de sangue corresse nas suas mãos.

***

ACERCA DE UMA ARANHA

O que se pode dizer? Falemos da sua leveza, dessa espécie de gesto
que a sustenta no ar. Permanece sozinha, para que se encontre
a si mesma. À sua frente estão múltiplos caminhos, mas escolhe
apenas um. Ela procura o centro de qualquer coisa. Aí fica
à espera, atenta como nós quando lemos um livro. Talvez esteja perto
daquilo que há muito se ignorava, de um segredo que a teia
lhe pode revelar quando estremece. Solta-se dela um fio
maior para que a luz venha ao seu encontro. Oscila um pouco
e afasta-se lentamente. É outra a página que se lê agora.

[in As Raízes Diferentes, Relógio d'Água, 2011]

Philip Levine é o escolhido para Poeta Laureado dos EUA em 2011/2012

Conhecido pelos seus longos poemas à la Walt Whitman sobre a classe operária de Detroit, Philip Levine vai herdar um título, o de poeta oficial da nação (ou consultor poético da Biblioteca do Congresso americano), que já pertenceu a figuras como Robert Lowell, Elizabeth Bishop, William Carlos William, Robert Frost, Stephen Spender, Joseph Brodsky, Billy Collins ou Charles Simic.

Cinco poemas de Luís Filipe Castro Mendes

CAVALOS DA ARÁBIA
(sobre fotografia de uma instalação de Subodh Kerkar na praia de Goa Velha)

Aqui chegavam os cavalos da Arábia,
sempre prontos para cavalgar os desertos
e enfrentar as espadas:
e aqui eram trocados por especiarias,
essas que aos homens do deserto
faziam tanta falta para conhecerem
o sabor do paraíso.
Assim se passavam as coisas,
ou assim as contaram nos livros
em que as lemos e acreditámos.

Foi antes de nós chegarmos. Os cavalos
olhavam para esta terra com a mesma maravilha,
mas sem o nosso terror.
Mas que fazer,
se para nós é do terror a maravilha?

***

AINDA A POESIA

A poesia não é feita por um nem por todos,
nem esteve nunca na rua.
A poesia está na aspereza das coisas contra nós,
tão mais nítidas ao nosso olhar isento
quanto mais doem no coração silencioso.

***

PESSOANA POBRE

Como nas ruas de Roma
ou no caos de Deli,
esta ruína que assoma
diz que não somos daqui.

Passado, terra estrangeira:
e o nosso em particular
é palavra derradeira,
não se pode articular.

Toda a memória que fui
longe de mim se escondeu.
E de muitos céus azuis
se fez noite neste céu.

***

OS ARGONAUTAS

Bichos da terra tão pequenos,
esgravatando à roda do mundo,
atarantados, sem rumo:

só e apenas isso,
agora e em todos os tempos.

***

GLOSA A UNS VERSOS DE NEMÉSIO

Se com quase quarenta anos mal começa,
ovo de tanta coisa, o coração,
que direi hoje, com quase sessenta anos?

Que névoa fria cerca agora o coração
e que voz de dentro resiste a essa névoa,
pois o amor não pára enquanto continuar
o mundo?

Abre os olhos, meu amor:
o mundo é vasto e diverso e brilha
por entre a névoa mais densa.

[in Lendas da Índia, D. Quixote, 2011]

Uma coerência dadaísta

Tudo Voltaire ao Cabaré
Autor: Luís Serra
Editora: Apenas Livros
N.º de páginas: 28
ISBN: 978-989-618-336-3
Ano de publicação: 2011

Professor de Filosofia, Luís Serra (n. 1970) publicou até agora dois conjuntos de poemas, com tiragem reduzida e circulação discreta. Atentando no seu aspecto artesanal (folhas agrafadas, sem lombada, presas por um cordel), estamos mais próximos da noção de plaquete do que do conceito de livro. O que faz aliás todo o sentido, ou não se desse o caso deste «poeta do arrabalde» cultivar uma irreverência e um descentramento que colocam a sua escrita nas margens – ou talvez mesmo fora – do mapa oficial da poesia portuguesa contemporânea, se é que tal cartografia existe.
À semelhança do primeiro trabalho (o desconcertante Brinquedos de Latão e Sarampo, 2009), Tudo Voltaire ao Cabaré reúne uma série de poemas muito breves, por vezes irónicos, outras vezes esquivos, vagos, ou então absurdos (melhor dizendo: não redutíveis a um qualquer sentido), mas capazes de fixar em três ou quatro versos uma ideia poética intensa. Constate-se a subtil acumulação de elementos sensoriais (imagem, som, tacto, desejo) do poema Manhã leve e amarga:

os portões de madeira carunchosa
o murmúrio do alambique
a luz e o gato que brincam recônditos

o amor flutuante em urgências perversas

Como o título da obra sugere, estes textos são varridos por «ventos fortes de coerência dadaísta». Luís Serra é sensível à força bruta dos acasos vocabulares, à sua incongruente beleza. Está atento às «derrapagens» e «atritos», ao que é «bambo» e «sem acerto», à «passageira arte com ferrugem». Quando pode, finta a semântica, essa «senhora / tão fora de horas». E oferece-nos, entre alguns poemas falhados, visões fulgurantes (exemplo: a nespereira «a um canto do pátio / como ardil amarelado / que não deserta»).

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Quatro poemas de Golgona Anghel

Aos Sábados repousava:
instalava-me no lugar mais cómodo
da minha cultura ocidental,
de cachimbo num quadro de época,
e levantava com o olhar
as rolas passeabundas da marquise.

Nos intervalos,
cultivava em pequenos parágrafos,
ao lado de couves-flor à sombra dum ginjal,
a história universal
do jeito como andas pela sala,
Adélia, Rosa-Maria, Lulú,
toda feita de rendas, toda gazes e veludos,
toda cheia de recantos africanos,
penas e cheiros, paisagens com garrafas,
pretos e pelicanos,
savanas e leopardos, minas gerais,
anéis e diamantes,
casas de campo em Vigo, Barcelona, Abrantes,
toda feita contas em dólares nos bancos da Suíça,
vistos para Estados Unidos,
minha fufa, minha farofa com linguiça,
toda Armani,
toda Gucci,
toda despida nos filmes de Mizoguchi.
À mesma hora,
na sala de microfilmes da Torre do Tombo,
uma turma de dez alunos curiosos
desfia o pergaminho do meu cancioneiro pessoal
num aparato crítico fundamental:
Filho de mãe incógnita,
fruto de um amor irregular,
(toma nota e vê lá se aprendes):
Carlos Fradique Mendes.

***

Não me interessa o que
dizem os dissidentes da ditadura.
Mas confesso que gostava dos chocolates Toblerone
que a minha tia me trazia no Natal.

Não acredito nos detidos políticos,
nem me impressionam os miúdos descalços
que mostram os dentes para as máquinas Minolta
dos turistas italianos.

Não vou pedir asilo.
Desconheço os avanços
ou retrocessos económicos do meu país.
Já falei de Drácula que chegue.
Já apanhei morangos na Andaluzia.
Já fui cigana, já fui puta.
Escusam de mo perguntar outra vez.

O que me preocupa – e isso, sim, pode ser relevante
para o fim da história – é saber
quando é que me transformei,
eu que era uma loba solitária,
neste caniche de apartamento que vos fala agora?

***

Abro a porta.
Olho constantemente para o mapa
mas já não me lembro para onde queria ir.
Podia ficar aqui,
enquanto a noite respira nas janelas embaciadas.
Os móveis apagam-me os passos
em ângulos cegos
e, nessas sombras do incerto,
deixo que o cansaço me tire a peruca da paciência
assim como a noite nos tira a roupa
antes de dormir.

Isolado num cantinho da boca entreaberta,
o teu sorriso
vai contribuindo para o genocídio dos camarões
que o vinho branco torna sempre menos sangrento.
Poderia, de facto, ficar aqui
enquanto desapareces, por fim, num sono sem importância.

Vou esvaziando os copos
e começo a compilar beijos,
como quem junta, à pressa, moedas caídas pelo chão:
somos todas putas, rapaz,
com ou sem vodka.

***

Vim porque me pagavam,
e eu queria comprar o futuro a prestações.

Vim porque me falaram de apanhar cerejas
ou de armas de destruição em massa.
Mas só encontrei cucos e mexericos de feira,
metralhadoras de plástico, coelhinhos da Páscoa e pulseiras
de lata.

A bordo, alguém falou de justiça
(não, não era o Marx).
A bordo, falavam também de liberdade.
Quantos mais morríamos,
mais liberdade tínhamos para matar.
Matava porque estavas perto,
porque os outros ficaram na esquina do supermercado
a falar, a debater o assunto.

Com estas mãos levantei a poeira
com que agora cubro os nossos corpos.

Com estas pernas subi dez andares
para assim te poder olhar de frente.

Alguém se atreve ainda a falar de posteridade?
Eu só penso em como regressar a casa;
e que bonito me fica a esperança
enquanto apresento em directo
a autópsia da minha glória.

[in Vim porque me pagavam, Mariposa Azual, 2011]

Dylan Thomas por Anthony Hopkins

Um poema extraordinário (Do Not Go Gentle into That Good Night) numa belíssima interpretação, roubada do Facebook de Rui Vieira Nery.

Cinco poemas de Rosa Alice Branco

O CÃO QUE ME TINHA

Eu tive um cão ou era ele
que me tinha e me deixava à solta
guiada sem saber que ia.
Tomava as minhas feridas,
a tristeza que eu pudesse ter
e sofria dela como eu nem sofria.
Trocava de mal trocando-lhe as voltas.
Punha a coleira ao pescoço
e levava-me a passear
como se eu fosse o dono.
E à noite dormia no chão
ou então fingia. Eu acordava
com um servo aos pés da cama,
armava-me em amo
e era ele que me tinha.
Exímio no silêncio
e no uso das armas
com que me defendia
de todos e também de mim:
a linha veloz do pêlo luzidio,
o frémito da língua,
o focinho em arco para a escuta.
Era um cão que me tinha
e uma tarde de verão
atirei-lhe um osso gostoso
antes de o deixar no canil.

***

AS VESPAS DE PALERMO

A virgem sorri-me com boca de mosaico,
os meus olhos mergulham nos arabescos do chão,
geometria do sol descendo as ruas de Palermo.
Insectos aceleram bzz bzz até nas passadeiras
e Cristo impávido na igreja em frente.
Mas Cristo não atravessa as ruas:
está um pouco acima da cruz, um pouco antes.
Os anjos abandonam a escuridão do templo.
As vespas parecem pirilampos
e bzz bzz são as asas dos anjos
conversando sobre os turistas do dia.
O bzz bzz das vespas cá em baixo é de encontros
com um copo na mão, a outra na cintura
e nos punhos das vespas, vespas, vespas
atordoando o riso, o beijo passageiro.
E já os anjos estão a postos na sua nudez redonda
enquanto as vespas dormem um sonho de alcatrão.
A ceia prepara-se. Cristo não nega o seu lugar à mesa.
Entre um bzz bzz e outro, olho-te no b barroco ou bizantino
e não aceito a tua morte, tu que atravessas acima das vespas,
vespas, vespas, acima do Etna que sobe ao céu
enquanto dentro se cozinham os infernos: a tua ceia,
os restos que deixaste para nós no microondas.

***

STREEPTEASE (CARTAGENA)

Cidades deitadas umas sobre as outras.
O peso pode ser insuportável. Comemos relva
do dia sobre as camadas que se vão despindo
lentamente, a malha urbana dos cinco apelos
para a prece, e cinco sob os cinco de outra era.
Mais abaixo escavam agora gritos lancinantes
mesmo ao centro do anfiteatro romano.
Animais carnívoros perfuram o solo
até às raízes. Tenho de respirar
um pouco nos teus olhos e acreditar que podes despir-me
da verdade soterrada há tantos séculos sob a arena.
Foi aqui que os leões nos lamberam as feridas
mas ninguém bateu palmas.
Só batiam os pés no chão em algazarra
para que os devorássemos. Mas somos
palhaços herbívoros e mesmo a erva
dói a entrar no coração.

***

SEU A SEU DONO

A pele espera nas coisas a carícia do uso
como o cão anseia pelo dono.
O bordo do copo, os dentes do garfo.
Usurpar os lábios entreabertos
com a alma útil e desinteressada.
Um gole de. Faz-se tarde.
O vinho faz esquecer a pele do copo.
Porque tocar (pensa ela)
é uma confidência nocturna.
Lá fora as flores. As sebes.
O ressumar de amantes no cálice.
Toco-te com mãos alheias:
eis toda a confidência de que sou capaz.
Um vestido de seda a abrir na minha perna:
um osso para te fazer correr:
um ganido de amor à porta do prédio.

***

SEM LIVRO DE RECLAMAÇÕES

No princípio era o verbo
e agora ninguém responde.
O marido, a amante, a família e os amigos,
todos alinhados sobre as campas.
Começam pela oração ou o correspondente laico
e logo passam às súplicas e aos subornos.
Os cemitérios são repartições públicas.
Por isso não há respostas.
Há noites mal dormidas pelas razões erradas.
Esta noite a cama tremeu três vezes. Os teus balbucios
na minha boca. A tua pele húmida. Sou o teu epitáfio?
A família e os demais continuam a acorrer aos balcões
sem os formulários preenchidos.
Os mortos já não pertencem às respostas.
Qualquer adjectivo apodrece como as flores.
Qualquer frase se decompõe sem sujeito.
Sou apenas uma tatuagem na tua campa.
No princípio era o fim.

[in Gado do Senhor, &Etc, 2011]

Motorizadas e megawatts

Um Arraial Português
Autor: Rui Lage
Editora: Ulisseia
N.º de páginas: 64
ISBN: 978-972-568-673-7
Ano de publicação: 2011

Ao escrever sobre Trás-os-Montes no seu penúltimo livro de poemas (Corvo, Quasi, 2008), Rui Lage não se limitou a mostrar como pode ser «triste» a «moral da fábula campestre», encontrada no fim de um «caminho» para fora da cidade (Porto) empreendido em Revólver (Quasi, 2006). Nas palavras de Osvaldo Manuel Silvestre, Corvo correspondeu a um «imperativo»: o de «dar voz» a «quem desapareceu da cena da representação portuguesa». Ou seja, esse outro país dentro do país (o interior) que é geralmente ignorado pelas elites culturais.
Lage leva agora o «imperativo» ainda mais longe, fazendo das festas populares na província, durante o «querido mês de Agosto», o objecto da sua lírica atenta e depurada. Inevitavelmente, há aqui um efeito de estranheza, porque se a «paisagem aturdida» desta poesia é a da estética pimba — bailaricos e casamentos, foguetes no ar, motorizadas e megawatts, luzes que piscam, desacatos, muito pó —, a escrita está no exacto oposto da vulgaridade berrante que descreve. Repare-se na adjectivação inventiva («beijo tangencial», «combustíveis raparigas», «varandas penitentes», «muro cabisbaixo»), no rigor da construção estrófica («Nas escadas alinhados / quais peças de artilharia, / um por degrau refulgem, / entre os vasos, / os instrumentos da filarmónica») ou no modo como em apenas dois versos se fixa uma antinomia, uma atmosfera («Pairam abelhas sobre dálias / e cravos de plástico»).
O olhar de Lage é por vezes irónico, mas nunca depreciativo. O que ele procura são as sombras que se escondem sob a euforia kitsch. No seu tom de fanfarra melancólica, este livro é o belíssimo retrato (sem filtros) da nossa ruralidade, emboscada pelas silvas do abandono.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Sete poemas de Luís Serra

CORPO A CORPO

a luz à margem um ensaio
um olímpico amor de passagem

certo como um moribundo sem visitas

***

CUERNAVACA

Com as palavras descontraídas
propus um fenómeno atmosférico.

Flutuo torto e bêbado.

***

RECORDAÇÃO

castelos de espuma ou bolos de arroz
perspectiva de gelatina e fintas

nos arredores de Atenas

***

DESVENTURA

no fim da rua um naufrágio
a noite cerrada de vinganças

o cinema sem índios

***

POESIA

um viajante remendado
como uma porta de Tebas

a beleza uma ingenuidade que passa
de faróis panorâmicos

***

AMORES DE PAPEL

alegria por pouco tempo amotinada
fresca calamidade de laranjas amargas

***

NOCTURNO

no fim a geologia
e um silêncio repentino

a semântica uma senhora
tão fora de horas

[in Tudo Voltaire ao Cabaré, Apenas Livros, 2011]

Quatro poemas de Rui Lage

JÁ PASSOU A PROCISSÃO

Descamam as telhas sob o sol
punitivo, zunem fios de alta tensão,
a pele do empedrado tremeluz
(pois é lá que tudo ondula).

No pátio salivam mangueiras
de abraço constritor, a canícula
ferve cascas de melancia, brilham
botijas de gás no xisto mendicante.

Nas escadas alinhados
quais peças de artilharia,
um por degrau refulgem,
entre os versos,
os instrumentos da filarmónica.

No ouro da tuba cabe o reflexo
do velho cão de companhia,
a gata reluz tubular
na esguia prata do clarinete.

Depostas sobre a toalha
as boinas brasonadas
e de húmidos círculos estampado
o sovaco das camisas,
oponíveis polegares calejam
copos de tinto em formatura

e não te é dada permissão
para vestires blusa mais fresca,
não venha teu seio chamar-se
um figo sobre a mesa.

***

BAILE DOS BOMBEIROS

Quer traves, rapaz,
quer precipites a mão

no seu cabelo a escaldarás
não tanto oxalá quanto

a pele do coração

pois naquela é passageira
a queimadura

mas neste
é sem cura.

Deixá-la correr um pouco
sob a torneira do pátio

se não for de seca
o sempre excessivo

e velhaco
Verão.

***

FESTA CIGANA

Alegra-me a presença
dos ciganos no recinto
manejando a pucarinha
com mãos de ilusionista.
Agrada-me o sebo
da mesa de armar,
o chocalhar das moedas,
as ciganas quais corvos
de olhares evasivos
em terra de inimigos.

Nunca lhes temi a navalha
e as promessas, terríveis,
de tripas ao sol:
ternas criaturas de raros dentes,
a soco fendidos, ou dourados,
em carroças de estrelas dormiam
(era no espelho do rio que as via
estacionadas).

Conforta-me vê-los no recinto,
ainda que já não lhes saiba o nome
como soube de certos outrora,
a uns supondo vivos
a outros assassinados.

***

ABOIO

Tinha um teclado barato
no recinto dos olhos
onde um loop eterno tocava
êxitos de ouro que o passado,
crendo-se futuro,
sem talento e sem contrato buscara.

Sentada no muro cabisbaixo
a si mesma descia por
escada interior
e na subida me puxava
como água
do fundo de um poço.

Para sua corte me chamava
e eu ia, cabeça de gado
numa só noite apreçada
e vendida.

[in Um Arraial Português, Ulisseia, 2011]

Arte de folgar

Bailias
Autora: Catarina Nunes de Almeida
Editora: Deriva
N.º de páginas: 62
ISBN: 978-972-9250-77-4
Ano de publicação: 2011

No seu terceiro livro de poemas, Catarina Nunes de Almeida apropria-se dos temas, ritmos e vocabulário das cantigas de amigo medievais. Os poemas são delicadamente atribuídos a donzelas cheias de graça e leveza, tão disponíveis para o amor como para o espectáculo grandioso da natureza. Este é um mundo de folguedos, uma espécie de primavera eterna, declinada em cânticos que ecoam nas «noites bem bebidas». Um mundo de cavalgadas e pomares, florestas e «pasto aceso», tranças e ramos, pão e uvas, lençóis e remos, «ancas ondeadas» e carne viva. As raparigas bailam «rente aos caules / pelos caminhos curvos do vento», ensaiando a «perfeição de um delito» que é sempre um excesso de felicidade, um alvoroço, a manifestação «de uma alegria que tem flores e frutos».
Catarina Nunes de Almeida deixa-se levar por estas criaturas diáfanas, aéreas, luminosas (embora não necessariamente inocentes), abre-lhes as dobras dos seus poemas, inventa-lhes um rasto e enquadra-as num universo verbal bem cerzido, feito de regras antigas que se estilhaçam com garbo, quase sempre através de subtis jogos de palavras («o grande aqueduto das éguas livres»; «adão e erva»; «árvore de rapina»). Aqui, a arte de folgar representa também a liberdade de fazer da linguagem o palco de todas as brincadeiras, de todos os desvios, de todas as reinvenções. É com «brandura épica» que acedemos às veredas que levam ao coração de cada texto. Como nos versos iniciais da secção intitulada “Barcarolas ou Manhãs Frias”:

Começávamos o dia por baixo
pelo tempo da pedra. A escarpa muscular
onde ia gastando os teus sapatos.
Manhãs compridas que chegavam ao mar.
Trazíamos as letras inclinadas trazíamos
na ponta da língua o nome dos naufrágios
e estávamos à mesa como um corpo de baile.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 102 da revista Ler]

Um poeta abre as portas da sua oficina

«A partir de amanhã, no meu blogue, vou começar a percorrer todos os poemas que publiquei em livro. A ideia é pegar em versões anteriores e posteriores à publicação em livro, tentando estabelecer uma versão possível para o momento actual. A cada semana, um bloco de sete entradas para cada um dos poemas. Obrigado por me acompanharem nesta viagem.»

O anúncio do Luís Filipe Cristóvão é feito hoje. A viagem começa este sábado. Para acompanhar aqui.

Frésias em Dezembro

Ao mais recente número da revista Ítaca (o terceiro), já pedi emprestado um poema de Tiago Patrício (Os Criadores de Poetas). Agora volto lá para roubar um poema de Margarida Ferra, autora de Curso Intensivo de Jardinagem (&Etc), além de co-autora da Alice e do Pedro:

NÃO TE ILUDAS, NÃO TE DESILUDAS

Não te iludas, não te desiludas
não há ninguém do outro lado
da linha, não precisas de bateria
para te ligarem,
nunca serás tu a pagar rodadas,
és invisível e não vale a pena
tentares gostar de vinho.

Não te iludas,
nada te tenta como uma romã antes
do tempo delas, frésias em dezembro
podem ser comoventes
mas não são frésias ou não é dezembro,
ninguém tas estende.
Se parecem pétalas nos cabelos das crianças
não são tuas. Não te iludas,
acende a luz.

Não te desiludas,
não há quem goste de ti e de dióspiros,
podes tentar, mas não tentas ninguém,
és uma solução fácil,
demasiado prosaica,
os teus versos não convencem mulheres
melhores
homens
crianças,
principiantes de toda a sorte,
riem-se das tuas palavras
e do teu dia-a-dia banal. Não há o que esconder
para além do despertador
e do comboio, nem entre uma coisa e outra.

Não te iludas,
podes ter inventado alguma coisa quase grande,
mas a dor da queda sente-se especialmente no
calcanhar. (Era a última curva que te prendia
ao chão a que voltarás e pertences.)
Havia uns sapatos vermelhos, sorrisos grátis e outras
formulações previsíveis
que te encantaram
porque vinham do outro lado da rua,
mas
não te desiludas:
um copo de vinho é um copo vazio
antes ou depois de teres dito tudo,
se é que alguém esticou os dedos.

As tuas estrofes são demasiado
iguais, serves-te
de um dicionário escolar
e o teu melhor poema foi o primeiro.
Não te desiludas,
os outros são sempre outros.
Não vale a pena ofereceres-te para escrever
sms ou requerimentos,
os teus desejos são irrevelantes
face a um novo par,
os saltos altos fazem pessoas diferentes.

Não te iludas
não corras, nunca terás o calçado
adequado para cada ocasião
- dança descalço –
não espreites perfis alheios
não te deixes embalar pelo toque de chamada,
a voz da operadora telefónica
lê todos os sinais que dizem que não és desejado
antes de encostares o peito ao que te estendem.

Não corras,
sem pressa evitas melhor chegar à verdade

(não há mais de mil verdades)

e saber que o fim
não é quando rodas o botão
e o fogo azul se apaga.

Poema a duas vozes

Miguel Cardoso e Catarina Nunes de Almeida lêem o poema As terríveis manhãs que se seguem, de Miguel Cardoso, no último ‘Verdes São os Cantos’ (sábado, 9 de Julho, no bar A Barraca).

E levavam-nos a conhecer as principais tipografias do reino

No mais recente número da revista Ítaca (o terceiro), encontrei um poema muito divertido de Tiago Patrício. Uma vez que a expressão «poema muito divertido» raramente coexiste na mesma frase com o nome de um autor português, façam o favor de apreciar:

OS CRIADORES DE POETAS

Recolhiam os escritores à porta
dos clubes recreativos e colocavam-lhes pulseiras
com um número e uma cor a condizer com a alcofa
depois ficavam a olhar para eles
com uma certa ternura e curiosidade
liam-lhes os direitos em prosa
e faziam apostas quanto ao valor
de mercado depois do primeiro Inverno

Escolhiam nomes provisórios como pseudónimo
uma nacionalidade e um passaporte
e quando eles começavam a esboçar
as primeiras inclinações para um género literário
metiam-nos num avião ou num comboio internacional
que os levasse a conhecer o estado da arte
e as principais tipografias do reino

Eram os criadores de poetas
que lhes lavavam a cara
e os vestiam logo de manhã
com roupas adequadas à estação
compravam alfinetes de ama
ou ganchos e fitas para o cabelo

Mudavam-lhes as fraldas e faziam-nos rir
com caretas e expressões idiomáticas
até esboçarem o primeiro poema de amor
depois levavam-nos ao colo para os encontros de poetas
ofereciam-lhes guloseimas quando eles fazia birras
e cantavam-lhes canções durante as crises criativas
como se dessem corda a uma caixa de música

Tosquiavam-nos na altura certa
ofereciam-lhes a ração diária e um afago sincero
enquanto os levavam pela trela
até aos caminhos apressados da transumância
dos lugares santos entre os portos nocturnos
das cidades a transbordar
e abriam as portas para as paisagens
mais férteis da imaginação

Entretanto mostravam-lhes as grandes inovações
e diziam-lhes isto é a ciência, isto é a arte
isso meu pequeno
é a impaciência

Eram os criadores que lhes apresentavam
as pessoas certas e os lugares onde se deviam sentar
que os ajudaram a decifrar letreiros noutras línguas
e a atravessar a estrada na passadeira

Quando atingiam um determinado porte
e aprendiam a escrever sozinhos
poemas de várias páginas
trocavam-nos por outros mais novos
ainda sem óculos e aquela barba incómoda
Às vezes os poetas resistiam à mudança
e sentiam-se rejeitados quando lhes diziam
- Agora vai à tua vida

Mas criadores de poetas continuam
a lembrar-se deles nos aniversários dos seus livros
oferecem-lhes canetas douradas
e papel timbrado e no dia mundial da poesia
ainda os convidam a dizer algumas palavras
para essa grande celebração religiosa

Nessa altura os poetas cativos
de outras casas de criação rápida
e um corpo empanturrado por atenção
cheios de um ressentimento criativo dizem
- Não te conheço de lado nenhum
e agora as palavras estão fora de moda

Crónica da Guiné

K3
Autor: Nuno Dempster
Editora: &Etc
N.º de páginas: 63
ISBN: 978-989-8150-28-8
Ano de publicação: 2011

Deixemo-nos de rodeios: K3, de Nuno Dempster, é um dos melhores livros de poesia publicados em Portugal nos últimos anos e a mais espantosa aproximação ao horror da Guerra Colonial desde Catalabanza, Quilolo e Volta, de Fernando Assis Pacheco (1976). Poema longo e de fôlego épico, K3 narra a experiência militar do autor na Guiné e procura arrancar às trevas do esquecimento os «anti-heróis» que combateram a seu lado, esses representantes involuntários das «gerações vencidas a quem coube / fechar impérios», homens usados como carne para canhão por um regime caduco. «E chega-me esta gente como um peso, / não me sai da lembrança, / não me sai do poema, / acompanhou-me oculta até hoje», assume Dempster, para quem o resgate da memória serve aqui de expiação, exorcismo e catarse.
No princípio é a Gare Marítima de Alcântara, o lugar simbólico das despedidas, com lenços brancos e choro aflito de mães e namoradas, intuindo que muitos daqueles jovens não regressariam vivos. O «alto navio negro», a abarrotar de soldadesca assustada, surge como «nefasta» réplica das caravelas dos Descobrimentos e quem lá vai dentro sente-se devedor de «juros / acumulados há seiscentos anos». A «gesta lusitana» repete-se, mas «escrita desta vez / ao contrário». É por isso no avesso da grandiloquência que o poema prossegue mar adentro, sentindo «o estremecer das máquinas / na medula dos ossos» e a respiração de três mil rapazes prestes a deixar a juventude para trás, sonhando à noite com mulheres que se assemelham a fogos de Santelmo, emanações do desejo que os distraem do pavor da morte.
Segue-se a descoberta da realidade africana, a «selva dos miasmas», as paisagens envoltas em sol vermelho, o calor que «formava uma abóbada / com o céu sempre baixo», o contacto com os negros e os seus «corpos de hulha / pronta a incendiar-se». Dempster leva para o mato livros de Pavese e discos de Stan Getz, a pensar ouvi-los num gira-discos a pilhas, mas quando a lancha cinzenta, «cor de guerra», o transporta para o palco dos combates, é já «sem hipótese alguma de lirismo». Assim que as balas começam a zunir «como abelhas mortais» e os aviões T-6 descarregam napalm sobre o inimigo, inscreve-se no cérebro em pânico «a gritaria, / o medo e o estigma». Surge então, como um círculo do inferno, o labirinto do K3, essa rede de subterrâneos «que nenhuma epopeia há-de lembrar», porque «não há poemas que celebrem / soldados sob fogo nos túneis escavados, / casernas enterradas, criptas cheias / de vencidos sem culpa e sem vontade».
Os dias no K3, riscados a esferográfica, são um «tumor», uma «síndrome em mim» que «me levou a luz / e trouxe a indiferença». O resto da guerra, em Colibuia, em Quebo, é o culminar de uma alucinação em que nunca deixaram de assomar, ao longe, os cavaleiros do Apocalipse. E será que se volta deste passado? «Voltar ou não voltar, // morrer ou não morrer, tanto fazia», conclui Dempster, depois de confessar, melancólico: «sobrevivi / nas coisas mínimas / que a falta de futuro me deixava».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 101 da revista Ler]

Três poemas de Rosa Alice Branco

STREEPTEASE (CARTAGENA)

Cidades deitadas umas sobre as outras.
O peso pode ser insuportável. Comemos relva
do dia sobre as camadas que se vão despindo
lentamente, a malha urbana dos cinco apelos
para a prece, e cinco sob os cinco de outra era.
Mais abaixo escavam agora gritos lancinantes
mesmo ao centro do anfiteatro romano.
Animais carnívoros perfuram o solo
até às raízes. Tenho de respirar
um pouco nos teus olhos e acreditar que podes despir-me
de verdade soterrada há tantos séculos sob a arena.
Foi aqui que os leões nos lamberam as feridas
mas ninguém bateu palmas.
Só batiam os pés no chão em algazarra
para que os devorássemos. Mas somos
palhaços herbívoros e mesmo a erva
dói a entrar no coração.

***

SEU A SEU DONO

A pele espera nas coisas a carícia do uso
como o cão anseia pelo dono.
O bordo do copo, os dentes do garfo.
Usurpar os lábios entreabertos
com a alma útil e desinteressada.
Um gole de. Faz-se tarde.
O vinho faz esquecer a pele do corpo.
Porque tocar (pensa ela)
é uma confidência nocturna.
Lá fora as flores. As sebes.
O ressumar de amantes no cálice.
Toco-te com mãos alheias:
eis toda a confidência de que sou capaz.
Um vestido de seda a abrir na minha perna:
um osso para te fazer correr:
um ganido de amor à porta do prédio.

***

SEM LIVRO DE RECLAMAÇÕES

No princípio era o verbo
e agora ninguém responde.
O marido, a amante, a família e os amigos,
todos alinhados sobre as campas.
Começam pela oração ou o correspondente laico
e logo passam às súplicas e aos subornos.
Os cemitérios são repartições públicas.
Por isso não há respostas.
Há noites mal dormidas pelas razões erradas.
Esta noite a cama tremeu três vezes. Os teus balbucios
na minha boca. A tua pele húmida. Sou o teu epitáfio?
A família e os demais continuam a acorrer aos balcões
sem os formulários preenchidos.
Os mortos já não pertencem às respostas.
Qualquer adjectivo apodrece como as flores.
Qualquer frase se decompõe sem sujeito.
Sou apenas uma tatuagem na tua campa.
No princípio era o fim.

[in Gado do Senhor, &Etc, 2011]

Elegias

Revista Relâmpago, n.º 27
Editora: Fundação Luís Miguel Nava
N.º de páginas: 201
ISBN: 977-087-39-5010-8
Ano de publicação: 2011

Num número coordenado por Carlos Mendes de Sousa, a Relâmpago oferece-nos um excelente dossier temático sobre o conceito de elegia. Além de quatro ensaios que abordam a origem helénica deste género poético (Maria de Fátima Silva), as «atitudes elegíacas» do Romantismo inglês (João Almeida Flor), a sua manifestação no espaço da língua alemã (António Sousa Ribeiro) e o impacto da «elegia e as suas perdas» na produção poética portuguesa moderna e contemporânea (Rui Lage), o essencial do dossier é composto por 20 abordagens ao tema, por 20 poetas que escreveram, nalguns casos propositadamente, uma elegia (complementada com um texto de reflexão, mais ou menos teórica).
Sem surpresa, Frederico Lourenço, fazendo jus à sua reputação de estudioso e tradutor de poesia grega, é o único autor que se mantém fiel à métrica e à cadência dactílica dos poetas helénicos, recorrendo até ao «dístico elegíaco» (um hexâmetro seguido de um pentâmetro) no segundo «andamento» do seu poema. Os restantes autores, abdicando dos espartilhos formais, quiseram antes captar uma «atmosfera» (Fernando Pinto do Amaral) ou um «estado de espírito» (Pedro Tamen), não deixando de convocar os elementos tradicionalmente associados ao género: a consciência da finitude e efemeridade das coisas, o negrume existencial, a «lírica do luto», a evocação de figuras ausentes, a melancolia, o «amor difícil», as marcas da passagem devastadora do tempo ou «esta constatação de que chegamos sempre tarde» (Luís Quintais). Também sem surpresa, o Rilke das Elegias de Duíno é o poeta mais citado; umas vezes como referência, outras como fonte de inspiração.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Nem só de filmes se faz a carreira de Ethan Coen

De vez em quando, o realizador que é uma das metades da dupla «irmãos Coen» também publica poesia. Em 2009, estreou-se com The Drunken Driver Has the Right of Way. Em 2012, reincidirá com The Day the World Ends.

Um poema novo de Vasco Graça Moura

ELEGIA BREVE À POESIA

fugitivo passar pela retina,
no virar de uma esquina ou de um silêncio,
a tua ausência é este ensombramento,

porém que a despedida seja breve
e que voltes com um relâmpago, um
desvendar-se do mundo entrecortando

dobras desamparadas do real.
e eu pergunto: que vozes do crepúsculo
se apagavam então? talvez o vento

agitasse tristezas na folhagem,
e esse fosse o frémito dos seus
melancólicos sinais rumurejando,

ou talvez fosse a cama de um hospital
e o branco desolado das paredes
e a mudez de estranhos aparelhos,

ou talvez fosse o próprio esquecimento
de que irias voltar, ou resvalar
numa lenta passagem de tercetos.

[in Revista Relâmpago n.º 27, com data de Outubro de 2010, mas distribuída agora]

Cinco poemas de Pedro Mexia

NÚMERO 5

Dei um passo atrás
e vi pela primeira vez
o número da minha porta.
No passeio, olhando
o metal gasto do algarismo
que há vinte e seis anos
sei que existe,
pensei em recuar um pouco mais
para ver todas as coisas que habito
e não compreendo.
Mas três passos depois
do passeio
o trânsito automóvel
impedia a perspectiva
e a sabedoria.

***

A MINHA ALTURA

Era a minha altura. Um livro
em cima da cabeça marcava
o lugar que um lápis semestralmente
riscava na parede da cozinha.
A única sabedoria dos ossos, crescerem
como a teia sólida de um propósito
e a anatomia mais transparente.
Centímetro a centímetro
espigava o corpo imaginário, essa contabilidade
que era assim, íntima, pictórica,
como uma cena burguesa.

Traço a traço a parede da cozinha
tornou-se rupestre,
a infância uma ternura assustadora.
Esta era a minha altura.
Agora sou tão mais alto e mais pequeno.

***

PARÁFRASE

Este poema começa por te comparar
com as constelações,
com os seus nomes mágicos
e desenhos precisos,
e depois
um jogo de palavras indica
que sem ti a astronomia
é uma ciência infeliz.
Em seguida, duas metáforas
introduzem o tema da luz
e dos contrastes
petrarquistas que existem
na mulher amada,
no refúgio triste da imaginação.

A segunda estrofe sugere
que a diversidade de seres vivos
prova a existência
de Deus
e a tua, ao mesmo tempo
que toma um por um
os atributos
que participam da tua natureza
e do espaço criador
do teu silêncio.

Uma hipérbole, finalmente,
diz que me fazes muita falta.

***

FERRO-VELHO

Terraços inúteis, varandas
das traseiras, arrecadações,
escadas de caracol, marquises
desbotadas, antigas estufas,
barracas, vasos partidos,
paredes abertas, telhas,
ferro-velho, andares vazios,
degraus sem uso, o fosso
do elevador, fechaduras
de portões, gatos, cadeiras,
um sol sem préstimo,
ervas daninhas, um triciclo,
humidade, silêncio, azulejos,
sábado à tarde e o meu corpo.

***

AUTO-RETRATO COM VERSOS DE CAMÕES

Foi-me tão cedo a luz do dia escura
enquanto me enganava a esperança
que naquilo em que pus tamanho amor
errei todo o discurso de meus anos.

[in Menos por Menos - Poemas Escolhidos, Dom Quixote, 2011]

Sara Poisson

Uma poeta lituana, a descobrir aqui.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges