Formas de cair

In Situ
Autora: Inês Dias (com ilustrações de Daniela Gomes)
Editora: Língua Morta
N.º de páginas: 52
ISBN: 978-989-97718-4-0
Ano de publicação: 2012

Editora da Averno e da revista Telhados de Vidro, Inês Dias publicou o seu livro de estreia no final de 2011: Em Caso de Tempestade Este Jardim Será Encerrado (tea for one). Logo no primeiro poema dessa recolha, ao aperceber-se da passagem do tempo sobre a rua da infância, o sujeito poético sente «o sol a queimar o futuro / e o desmoronar tímido / da última casa em que podia / deixar confiadamente o coração». O tom de lamento atravessa o livro inteiro, é uma espécie de música em que a autora se compraz, enquanto olha de frente a morte que tudo cerca e da qual foge, aceitando a inevitabilidade da perda e a natureza tão perecível da beleza.
Esta toada melancólica mantém-se no segundo livro, In Situ, mas as imagens tornaram-se mais duras, mais cortantes: «Quero um amor que tenha / a lealdade de um cancro, / que alastre apenas dentro de mim / e me escolha os ossos / com dedos ligeiros mas demorados / de nódoa negra». Há também o «coração no fio», «sangue emparedado» e uma delicadeza que magoa: «Aprendi a bordar / iniciais, às vezes na própria pele, / a construir diques cada vez mais frágeis / de palavras».
A morte volta a circular por estas páginas como uma ameaça, sempre à espreita «para reclamar o seu rebanho de sombras». À margem da vida – e dos seus «dias armados de pedras» – fica a aguda consciência de estar «do lado errado», esse território onde ninguém parece capaz de suster «o avanço das águas». Se os «compromissos com o absoluto» estão fora de questão, é preciso procurar «um sentido codificado dentro de / outro sentido como um tiro no escuro». A indeterminação contamina tudo, espalhando-se como as metástases de um «tumor enferrujado».
Inês Dias procura novas «formas de cair», outras aproximações possíveis à matéria negra de uma realidade despida de mistério. Mas, no meio de tanta desolação, de tanto desconsolo, não deixa de entrever a recôndita e talvez inesperada força de um gesto poético que «perturbasse destinos, / acordasse motins serenos, fosse o grão / de pólen no mecanismo sensível do mundo».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 116 da revista Ler]

Quatro poemas de António Carlos Cortez

ARGILA DO SONO

A mesma «argila do sono»
o deserto silencioso da noite
e tantas vezes um corpo
não encontrou posição
para a entrega à paz dos mortos

Uma névoa solar o rasgava
Um tampo de mesa era claro
Havia que escrever mas tardava
da névoa o sol e seu gelo
Só na argila do sono a escrita
era corte de carne mais óbvio
(por flashes construía a palavra)

***

ARTE POÉTICA E NÃO

A poesia é o signo extremado. Estremecendo, plástica, a palavra rasga. Contra a opacidade dos dias, a cristalização da frase, límpida, com seus sintagmas oferecendo ao lado de lá da tela a história original de um mundo. Estremecendo, o leitor sobrevive e insiste em reler passagens que, de algum modo, o penetram por imagens, flashes. Assim, contra os actos não há argumentos – e a poesia, se construída em verdade, produz novas formas de perceber as idades de que é feita, afinal, a nossa vida: metro, verso, estrofe, cadência rítmica, corpo a corpo, combate entre vida e morte. Extremidades da linha de fogo.

***

POESIA

Quando não esperas nada
não esperas nada

Quando não esperas nada
tudo acontece

Quando não esperas nada
o nada é certo

Quando não esperas nada
das leis do verso

Quando não esperas nada
porque esperavas?

Quando não esperas nada
lembras fantasmas

Quando não esperas nada
o som concreto

do poema cresce e tu recebes
lição de um nada em tudo

e recomeças

***

AO LEITOR

Escreves quando as fábulas escavas.
Falas da morte no poema neste tempo
mercantil e de imagens rápidas.
Olhares oblíquos foi quanto viveste?

E agora, quando lês, consegues separar
o lido na página do vivido onde encerraste
a verdade íntima dos factos? Se somos
o que fazemos, como negar que és

ficção cinematográfica nos outros?
Para ti tem o texto a posse do que foste
mas a poesia não anula a dor e os actos

aos poucos sobem aos olhos Escombros
no teu íntimo mar suspenso e vasto
(num escafandro desces aos desastres)

[in Linha de Fogo, Licorne, 2012]

Forward Poetry Prize

A vencedora da edição deste ano foi Jorie Graham, com o livro P L a C E (Carcanet).

Três poemas em prosa de Jorge Roque

Da paixão cansei-me (pode acolher tanta morte um corpo, esse mesmo que brilha à luz do desejo, esse mesmo que guarda a promessa da alegria). A verdade gastou-se (é o mais fácil de perceber: a verdade gasta-se, quando chegamos ao lugar de a encontrar, sabemos por fim que não existe). Sobrou o que sou e o que não sou também, pelo meio a linha de uma estreita solidão, e é isto que te dou (isto o que te posso dar). Só aqui, só agora, este sorriso de estar vivo, e por vezes o cansaço, tantas vezes o cansaço (que embora não pareça, faz parte do sorriso). E agora já me entendes? E agora ainda me queres?

***

Caem-lhe as peças de xadrez do tabuleiro derrubadas por movimentos involuntários do braço. Ouvem-se no andar de baixo a embaterem no soalho e calarem-se num som trémulo, quase um lamento. Ele apanha-as e volta a colocá-las nos lugares de que se lembra. Sabe que erra os lugares, em particular quando cai mais do que uma peça. Sabe também que não importa. Como não importa quem ganha ou quem perde, ele ou o outro que com a sua mão joga do outro lado. Importante é não parar de jogar. Cansar a noite, cumprir a vida, deitar-se para amanhã recomeçar.

***

Quero que se foda o sublime. A minuciosa construção do absoluto literário. Assim sem emendas e em rigoroso vernáculo, parece-me mais exacto. Quero que se foda o sublime (desculpem-me a repetição). Prefiro portas fechadas, casas destruídas, chaves de pouco ou nenhum uso para gestos de pouca ou nenhuma glória que são o absoluto onde me posso sentar para beber mais um copo deste vinho que te pinta os lábios e te acende nos olhos esse fulgor de luz, esse pulsar de salto, onde me lanço para voltar ou não voltar, mas ter cumprido do sangue o impulso. Quero que se foda o sublime (começa a saber-me bem repeti-lo, o ritmo sincopado conjugado com a limpidez expressiva). Estou a falar contigo, a viver contigo, a morrer contigo. Estou a dizer-te ama comigo, sofre comigo, morre comigo um pouco mais devagar.

[in Canção da Vida, Averno, 2012]

Quatro poemas de José Tolentino Mendonça

ISTO É O MEU CORPO

O corpo tem degraus, todos eles inclinados
milhares de lembranças do que lhe aconteceu
tem filiação, geometria
um desabamento que começa do avesso
e formas que ninguém ouve

O corpo nunca é o mesmo
ainda quando se repete:
de onde vem este braço que toca no outro,
de onde vêm estas pernas entrelaçadas
como alcanço este pé que coloco adiante?

Não aprendo com o corpo a levantar-me,
aprendo a cair e a perguntar

***

DENTRO DE CASA

Todas as casas se parecem
com um naufrágio ou um saque
testam sucessivamente a elasticidade das gerações
compõem-se de heranças, jogos descasados,
cinco ou seis cores que vão ficando
sinais de um poder apenas atenuado

Quando estamos fora
à mercê dos elementos
o mundo celebra em nós
aquilo que se extingue

***

ARTE AMERICANA DO SÉCULO XX

Há um telefone que toca
O homem levanta-se e fala por longo tempo
condescendente a cada repetição

Podia ser um cônsul errante
podia forçar a memória a soltar
a enseada, a estação ou o trilho
mas para entregar-se à luz
é preciso ser devorado por ela
e aparentemente ele depende disto
que vai repetindo:
«não que não te deseje boa sorte
para resolveres este sarilho.»

Duas horas depois está à janela
sem conseguir dormir
Há uns miúdos em algazarra mesmo ao seu lado
e dá-lhes tempo para se afastarem
pois falharia à primeira pergunta
que alguém fizesse

O luar apanha o rebentar da onda
quando ela se aproxima
e durante esses instantes
é como se a natureza ficasse ao contrário
e o tempo com ela

***

A CIÊNCIA DO AMOR

O amor é um acordo que nos escapa
premissas traficadas sem certeza noite fora
em casas devolutas, em temporais, em corpos que não o nosso
aluviões para tentar de forma contínua
num sofrimento corrosivo que ninguém consegue
não chamar também de alegria

Pensamos que quando chegasse as nossas vidas acelerariam
mas nem sempre é assim:
há emoções que nos aceleram
outras que nos abrandam

Um mês ou um século mais tarde
movem-se ainda,
tão subtilmente que não se notam

[in Estação Central, Assírio & Alvim, 2012]

Três poemas de Catarina Barros

KAIROS

Não é ainda amor, amor
como Heródoto na refeita iteração da história
‘délicieux': um pequeno-almoço em visita
ao inverno do descontentamente alheio

Ao meu lado a tribo francesa
tece loas ao pastel de nata
enquanto o mais pequeno enfia num dente
o dedo universal

e não é ainda amor, amor
deitar-me lavada, olhar-te de lado, falar-te de ti
‘super’

Ensaiámos a vida cumprindo
um por um os erros filiais (por vezes
ao fundo: «the pirate gospel» e a mãe numa carta
desaconselhando tudo)

mas não pudemos esperar o ‘kairos’
um clássico para momento certo
metidos no trânsito de Copenhaga (ou
de Campo de Ourique)

porque não é ainda amor
mesmo que lembremos o que nunca se esclarece
uma letra em singular iluminura
uma seta para alvo nenhum

TRIVIALIS

Porque a diegese não começou esta manhã
depois do cigarro à janela, quando lhe pedi
que a mim voltasse

Façamos o esforço de inverter a marcha
atravessando de novo a estepe desta dificuldade
e perscrutar (haverá palavra mais difícil?)
alguma espécie de princípio

Partindo de um astro muito quente
acharemos finitude nos vincos de um lençol
o tempo todo-coração nunca foi matéria
nas lições de História e Geografia de Portugal
nem o bordel do porvir admite reis e costureiras

Ao atributo etimológico do título nada corresponde
sou noviças e gratuita em tempo de delírio
(o topless no pátio é a recompensa por tudo isto)
luminosa afogada que rouba à fome sentido
histórico nenhum

Pois que não haja mais que uma referência
que se inaugura e se repete
(Atlântida, Poseidon, Walt Disney) ou que para trás
vá sempre dar ao soalho da concepção
sobram ‘snapshots’ de um verão em verso livre
a proto-geografia biográfica, toda uma profecia
por abjurar

HOW TO BE ALONE

não foi em Kalkbreite nem sequer em Lochergut
mas na Zähringerstrasse, junto à biblioteca. vinha
de uma dessas avenidas que há em todas as cidades
onde lojas de moda convivem com livrarias, casas
de chocolates e um grupinho de punks

na memória uma ideia de pássaro, meu atributo
e uma gratidão quase solene

à minha volta os homens pousavam no lugar vazio
da imaginação e eu olhava, nunca mais de três segundos
a fim de manter o anonimato

a felicidade era as palavras de um poeta
no balcão da despedida: «a Dickinson tem um verso
sobre Zurique e não é triste»

era a Europa de ipod nas orelhas, era eu peninsular
agora ilha desconsolada com aquele livro ‘compelling
and invigorating’ (cf. Times), no fundo, era
essa missa de corpo presente onde nenhum
pater me levava pela mão

rapariga sem flor na transparência da língua

[in Quinteto, Artefacto, 2012]

O grande navio da melancolia

Fórmulas de uma Luz Inexplicável
Autor: Nuno Júdice
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 109
ISBN: 978-972-20-5025-84
Ano de publicação: 2012

No seu novo livro de poemas, Fórmulas de uma Luz Inexplicável, Nuno Júdice volta a deambular, com a habitual proficiência, por algumas das suas obsessões temáticas: a lírica amorosa; o «pensamento queimado pela memória»; as argumentações lúdicas; a autoconsciência poética; os exercícios eruditos; a aproximação irónica à realidade. A facilidade enunciativa e os amplos recursos estilísticos permitem ao poeta escrever sobre praticamente tudo, em vários registos, o que nem sempre favorece a consistência e equilíbrio do livro como um todo. Resultado: neste volume deparamos mais uma vez com poemas dispensáveis (repetitivos ou redundantes), embora em menor número do que na obra anterior (Guia de Conceitos Básicos, 2009).
Esta é uma escrita atenta às limitações e ambiguidades da linguagem: «Procuramos o sentido. Andamos às voltas. Por / vezes, aparece um significado, mas tudo é vago, / como se as palavras já não dissessem o que / dizem». Ao mesmo tempo, reafirma-se o poder transfigurador da imaginação, que permite a metamorfose súbita de uma rua num «imenso campo», com searas a ocupar o asfalto e a trazer para o meio da cidade os camponeses do Angelus de Millet. «O que vemos oculta o visível; e o que não / vemos revela o que podemos adivinhar», resume Júdice.
Os melhores poemas são os que recuperam uma «infância antiga», a partir de evocações nostálgicas, despertadas pela visão de um «coreto vazio» numa praça de província ou pela imagem da mesa à volta da qual se reunia a família. Há ainda casas carregadas de tempo, figuras extintas que só existem numa «caixa de fotografias», lugares que mudam ou desaparecem, histórias de desencontro, acasos que criam bifurcações e desvios cruciais nas nossas vidas. Júdice também brinca em quadras rimadas (Almoço Cosmopolita) e compara a angústia de Schopenhauer com a de Sartre ou o Fernando Pessoa de Mensagem com o Oscar Wilde do De Profundis. Mas o que passa no horizonte é sempre o «grande navio da melancolia», naufragando com os «porões esvaziados do seu lastro de frases».

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no n.º 114 da revista Ler]

Poemas da Foz do Cobrão

No dia das grandes manifestações que varreram o país, com centenas de milhares de pessoas a saírem à rua contra o estado das coisas e o sufoco da austeridade, a Margarida Vale de Gato, o Jaime Rocha e eu deambulámos pela aldeia de Foz do Cobrão, no concelho de Vila Velha de Ródão, a convite da Biblioteca Municipal e da sua principal dinamizadora, Graça Batista. À tarde, numa casa que em tempos foi uma escola primária, partimos do poema de Ruy Belo que o Jaime Rocha encontrou por acaso naquela manhã (num marcador, dentro de um livro de Paul Celan) e cada um escreveu uma aproximação a O Portugal Futuro.
Eis a da Margarida Vale de Gato:

O senhor por exemplo o que é que o leva a participar numa manifestação numa tarde
tão quente?

Era ontem um peixe sufocado o meu país,
hoje súbito tanta gente buscando brilho de água
que se move

Não sei onde fica, não é um lugar no mapa
É um espaço na boca com sede da gente

numa tarde a mover-se com muito calor, o meu país
Um peixe, um sítio pouco evidente,

ou corpo
exangue, coalho, desabituado de saber

como se juntam os membros, respira-se aqui
com dificuldade, desenvolve-se vocação de submerso

Precisamos de ar
que é uma pergunta a que não se teria de responder logo
porque de princípio devia haver em toda a parte
como O que faremos nós?

O que havemos de fazer
com este peixe? Peixe era cristo e repartiu-se
para se tornar maior – disseram-me que isso era amor
mas eu não sei se creio
De manhã lembrei-me de um país para todos
onde no interior voltassem a crescer crianças
a arregaçar as fraldas das velhotas, esta tarde na TV parece
que meu país é mais que peixe, mas não vou chamar-lhe frota nem mar
pois basta hoje a poesia dos fenómenos pouco óbvios
de quando se juntam pessoas e há sempre alguma coisa,
acontece

Eu fiz este:

Da forma breve desenhada
– peixe, pássaro, pequeno país –
não guardar mais do que o sobressalto,
o desmanchar do tempo
que nos desmancha,
a fúria infantil do giz nos dedos.
O negro asfalto impenetrável
devora até a luz do verão
imaginado um dia, à sombra
da ideia mais vaga de futuro.
Como desinclinar
as vozes
curvadas pela incerteza
é o que não sabemos.
Mas os dias
abrem-se
ao espanto,
como sempre se abriram,
têm degraus infinitos,
corrimões, ângulos agudos.
A grande corola das possibilidades
só se encolhe quando ficamos quietos.

Do poema do Jaime Rocha não tenho registo porque ele escreveu-o à mão, num caderno.
Depois desta primeira fase, decidimos fazer um poema que nos aproximasse das imagens e ideias dos poemas escritos pelos outros dois participantes.
Eis o resultado:

Poema a partir de Jaime Rocha e de José Mário Silva a partir de Ruy Belo

Sobressalto.
Desmanchar do país, do tempo
à sombra da ideia mais vaga
onde faz ainda escuro.
Desinclinadas as vozes
um peixe agoniza

Agoniza no duro asfalto um país pequeno,
está virado para as casas e esquece
que tem sombra para o mar e faz calor na rua

E pessoas a quem acontece
querer terminar a sede do espaço na boca
aberta neste dia as vozes
desinclinadas
Onde no interior faz a criança a descoberta
do peixe e de um cântico ainda inseguro
a descompasso de degraus
e de um inteiro futuro.

Margarida Vale de Gato

Poema a partir de Margarida Vale de Gato e Jaime Rocha, a partir de Ruy Belo

Inventamos espaço na boca
para fenómenos pouco óbvios,
como as palavras que nos levam
para dentro da multidão, entre
outras formas subtis de desenvolver
a vocação de submerso.
À sombra dos crimes inesperados,
reivindiquemos a dança
no cimo das árvores, a beleza
áspera de um sítio pouco evidente.
No brilho de água que se move
o país é um peixe de guelras abertas,
a respirar com dificuldade,
brilhando à luz do asfalto
que arde na noite,
um peixe que lá
nas alturas decifra,
desenhado a giz, o contorno
da sua vocação de pássaro.

José Mário Silva

Mais uma vez, não posso partilhar aqui o poema escrito por Jaime Rocha, porque ficou no seu caderno manuscrito. E foi nesse caderno manuscrito que começou a nascer o poema colectivo com que quisemos manifestar-nos à distância:

Poema ingénuo comprometido
15 de Setembro 2012

O que é um país à procura de futuro?
Coitado de um país que procura um futuro
e só encontra muros e cinza.

Um país sem luz, sem geografia,
com uma mágoa metida no tronco.
Um país doente que rói os ossos
e bebe água por um tubo pequeno.
Um país invadido por um deserto,
sem palavras, um país final.

O que é um país à procura de futuro?
Um país que se levanta inteiro
numa tarde quente.

Alguém disse: «Se tivessem ficado em Lisboa, seriam apenas mais três numa manifestação gigantesca. Pelo contrário, a vossa presença em Foz do Cobrão vai ter um impacto muito mais importante e duradouro.» Olhando para a sessão pública de leitura e apresentação do projecto, que reuniu mais de 40 espectadores (numa aldeia com 49 habitantes), é capaz de haver alguma verdade nesta afirmação. O tempo o dirá. Indiscutível foi a gentileza e extraordinária hospitalidade de todas as pessoas de Vila Velha e de Foz do Cobrão. Sentimo-nos, os três, em casa. E tão depressa não esqueceremos os dias magníficos que ali passámos.

A mão que arde

Nada Está Escrito
Autor: Manuel Alegre
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 88
ISBN: 978-972-20-4958-0
Ano de publicação: 2012
Avaliação: 7,5/10

Desde o tempo em que escrevia versos contra a mordaça e o negrume do regime salazarista, o poeta Manuel Alegre fez sempre questão de reflectir, nos seus textos literários, as ideias e princípios do homem político que também é. Não espanta por isso que abra o seu mais recente livro de poesia, Nada Está Escrito, com uma Balada dos Aflitos – retrato fiel destes dias de troika e austeridade, em que os «irmãos humanos» estão à mercê da crise, dos «mercados» e da «mão invisível» que «nos tem aqui proscritos», no «desconcerto» de um mundo «tão diferente daquilo que se queria».
O poeta indignado rapidamente dá lugar ao poeta que se questiona sobre a própria essência da poesia. De onde vêm as palavras e os versos que «rompem como cactos»? A escrita é um mistério insondável, matéria que antes de existir já ensina, a quem a cria, o seu caminho. E Alegre curva-se diante desse sortilégio que o domina e o ultrapassa, essa «mão que escreve e arde e é só lume». O poema impõe-se como revelação e «eco de uma ausência», empurrando quem o escreve para uma busca do sentido das coisas que é mais metafísica do que propriamente lírica: «Quem sabe o que na página se esconde / e se dentro do branco está um muro / e se depois do muro não há onde / e se depois do branco é tudo escuro?»
A partir da segunda de sete partes, as temáticas tornam-se mais abrangentes: memórias de infância, cenas quotidianas, nocturnos, evocações da Grécia Antiga e da Índia mítica, feitos desportivos (Carlos Lopes em Los Angeles, Jesse Owens contra Hitler), litanias sobre os perdedores da História (Trotsky, António Prior do Crato), deambulações lisboetas, devaneios fadistas. Mudam os registos, mantêm-se a destreza prosódica e a cadência musical tão características de Alegre. Depois, a última parte como que fecha o círculo. Regressa a visão de um país ameaçado, volta a poesia que reflecte sobre si mesma: «O poema há-de emergir da sombra / florir no zero e no silêncio / o poema que está dentro / da forma por nascer / o poema que já é / antes de ser.»

[Texto publicado no n.º 114 da revista Ler]

Quatro poemas de Maria do Rosário Pedreira

Lembrava-se dele e, por amor, ainda que pensasse
em serpente, diria apenas arabesco; e esconderia
na saia a mordedura quente, a ferida, a marca
de todos os enganos, faria quase tudo

por amor: daria o sono e o sangue, a casa e a alegria,
e guardaria calados os fantasmas do medo, que são
os donos das maiores verdades. Já de outra vez mentira

e por amor haveria de sentar-se à mesa dele
e negar que o amava, porque amá-lo era um engano
ainda maior do que mentir-lhe. E, por amor, punha-se

a desenhar o tempo como uma linha tonta, sempre
a caira da folha, a prolongar o desencontro.
E fazia estrelas, ainda que pensasse em cruzes;
arabescos, ainda que só se lembrasse de serpentes.

***

Lê , são estes os nomes das coisas que
deixaste – eu, livros, o teu perfume
espalhado pelo quarto; sonhos pela
metade e dor em dobro, beijos por
todo o corpo como cortes profundos
que nunca vão sarar; e livros, saudade,
a chave de uma casa que nunca foi a
nossa, um roupão de flanela azul que
tenho vestido enquanto faço esta lista:

livros, risos que não consigo arrumar,
e raiva – um vaso de orquídeas que
amavas tanto sem eu saber porquê e
que talvez por isso não voltei a regar; e
livros, a cama desfeita por tantos dias,

uma carta sobre a tua almofada e tanto
desgosto, tanta solidão; e numa gaveta
dois bilhetes para um filme de amor que
não viste comigo, e mais livros, e também
uma camisa desbotada com que durmo
de noite para estar mais perto de ti; e, por

todo o lado, livros, tantos livros, tantas
palavras que nunca me disseste antes da
carta que escreveste nessa manhã, e eu,

eu que ainda acredito que vais voltar, que
voltas, mesmo que seja só pelos teus livros.

***

Vejo brilhar uma estrela que,
pelos vistos, já morreu – assim
a minha vida: luminosa e, porém,
assombrada pela escuridão. Sorte a

daqueles que só conhecem a morte
pelas mãos frias – toda a vida fiz luto
por corpos ainda sãos. A felicidade

faz-me, apesar de tudo, infeliz –
é sempre a ideia do fim que traz
a música certa para os meus versos.

***

As palavras começam a ficar velhas: têm
dores nas articulações e rangem, de vez
em quando, sem razão; reclamam óleos
e resinas, tempo e açúcares mais lentos.

Mas também eu estou velha demais para
oficinas, tão cansada de livros e papéis,
morta por viver outras coisas – por amor,

talvez espreitasse de novo nas mangas do
mundo e escrevesse uma fiada de búzios
no pulso da areia. Mas quantos dos teus
beijos perderia? Perdoem-me os que

ainda esperam por mim. Não sei se volto.

[in Poesia Reunida, Quetzal, 2012]

Cinco poemas de Rui Baião

Perder tudo ao jogo das ofensas,
ser ravina, antiga noiva dos céus.
Ter o mal à mão, a foice no sangue,
a gárgula que o auge dissesse
a nenhuma divindade: sub-
trair o nada ao nada, subsistir,
buscar razia e razão, acreditar: hoje
menos que ontem, amanhã
menos que hoje…

***

Os dois sem palavras, a noite sem luvas nem nuvens,
o ruído à ponta da corda. O gelo fulmina, cerca
a fêmea e o erro, a boca fula a entrar
numa lua de pedra.

***

Entre arames e ruínas até ao carreiro das formigas.
Sempre uma última vez: mesa posta sem um único idioma
ou a glória de nada querer. À noite,
com os dentes na cal. À noite,
com a força das ancas. À noite,
com feridas lácteas pela pequena face,
ou bátegas quase gestos.

***

O homem é o medo com uma dor altiva lá dentro.
Um homem é tudo e nada, tão próximo de não saber.
Um homem não se lembra de desaparecer.
Depois, as dúvidas e o nojo. Depois, é só tu quereres
o rude rigor em acção.

***

Três janelas e um pântano.
Falemos de casas devolutas,
das muitas pontes especulativas,
da renovação das veias e dos gritos,
do dedo no gatilho dentro da cabeça,
dos fungos que escureçam tudo à volta.
Falemos de nós, do rastilho que do pulso vá
à idade do olhar, e daí à sebenta da infâmia.

[in Rude, Averno, 2012]

Quatro poemas de Gaio Valério Catulo

Pássaro, delícia da minha miúda,
com quem brinca, que aperta contra o seio,
a quem dá a ponta do dedo,
e provoca valentes bicadas,
quando, ardendo de desejo por mim,
lhe agrada divertir-se com não sei quê de querido
como pequeno consolo para a sua dor,
julgo, para assim acalmar o ardor intenso –
pudesse eu, como ele, contigo brincar
e do coração afastar os tristes cuidados.

***

Vivamos, Lésbia minha, e amemos.
A má-língua dos velhos mais sisudos
para nós não valha mais do que um tostão.
Podem os dias morrer e nascer:
quando a breve luz de vez morrer
noite perpétua devemos juntos dormir.
Dá-me beijos mil, e depois cem,
e depois mil outros, e depois mais cem,
e depois ainda mais mil, e depois cem.
Depois, quando muitos dermos,
baralhá-los-emos para não sabermos quantos,
ou não possa homem mau invejar-nos
ao saber que tantos beijos demos.

***

O cu e a boca vos foderei eu,
Aurélio, minha bicha, Fúrio, meu paneleiro,
que pelos meus versinhos me julgais
pouco virtuoso, por tão delicadinhos serem.
É que casto deve ser o bom poeta,
não têm de o ser os seus versinhos,
que além do mais têm picante e graça,
sendo tão delicadinhos e pouco virtuosos,
e porque podem provocar comichões,
não digo aos miúdos, mas a estes peludos
que não conseguem mexer as duras piças.
Vós, lá por “muitos milhares de beijos”
terdes lido, achais que sou pouco macho?
O cu e a boca vos foderei eu!

***

Diante do marido tão mal de mim diz Lésbia:
isto para aquele idiota é alegria enorme.
Burro, não percebes nada: se esquecida de nós se calasse,
estaria curada. Agora, porque gane e ofende,
não só se lembra, como, o que é muito pior,
está furiosa: isto é, de amor arde e fala.

[in Carmina, trad. de André Simões e José Pedro Moreira, Cotovia, 2012]

Um espanto oculto

Ensinar o Caminho ao Diabo
Autor: Miguel-Manso
Editora: edição de autor
N.º de páginas: 95
ISBN: 978-989-96644-2-5
Ano de publicação: 2012
Avaliação: 8/10

Um lugar a menos
Autor: Miguel-Manso
Editora: edição de autor
N.º de páginas: 90
ISBN: 978-989-96644-1-8
Ano de publicação: 2012
Avaliação: 7/10

Colocado voluntariamente à margem do mundo editorial, Miguel-Manso é um caso singular na literatura portuguesa contemporânea. Desde 2008 vem publicando, a expensas próprias, os seus livros de poemas: volumes simples, brancos, com grafismo sóbrio e paratexto fotográfico, uma série em curso (são já cinco) que o poeta apelidou «Os Carimbos de Gent», porque nas capas são reproduzidas imagens de carimbos comprados numa loja de velharias daquela cidade belga. Embora razoavelmente diferentes entre si, os livros partilham um mesmo tom, uma escrita atentíssima à pulsação caótica do mundo, pródiga em «entusiasmos verbais», em «proezas de linguagem», e com uma certa queda para as palavras raras (um verdadeiro festim para quem gosta de vocabulário arcaico, daquele há muito enterrado no fundo dos dicionários). Com edição simultânea, Um Lugar a Menos e Ensinar o Caminho ao Diabo são as obras mais recentes de Manso, confirmando as qualidades que já lhe reconhecíamos nos três primeiros livros.
Um Lugar a Menos é composto por algumas dezenas de textos curtos, em prosa, parágrafos bem lapidados que estão mais perto da reflexão aforística do que do lirismo. O título é um trocadilho com o locus amoenus, tópico da literatura clássica, mas os lugares que aqui se revelam e questionam são os da própria escrita, na sua difícil tarefa de olhar pela janela «os vestígios do mundo» e esconjurar a paisagem. Afirma Miguel-Manso: «A qualquer poemário devemos atribuir uma estrutura que permita todas as perplexidades.» É o que acontece neste livro exigente, umas vezes opaco, outras irónico (a variação de Cesariny para autarcas: «Ama como a rotunda começa»), outras tangencialmente próximo da realidade quotidiana (a história da mulher que esteve nove anos morta em casa). «Que o texto seja não o texto consumado mas o caminho para a consumação do texto», sugere o início de um dos fragmentos. E os outros fragmentos obedecem-lhe.
Menos hermético, Ensinar o Caminho ao Diabo é o livro de um poeta nocturno e invernal, um flâneur que «caminha de um lugar que não sabe / a um lugar que não pode», saltando de cidade em cidade (Lisboa, São Paulo, Londres, Évora, Veneza), rabiscando versos e suas cicatrizes («o caderno é a máquina fotográfica»), em busca do «espanto oculto» do poema, esse amontoado de palavras em deslocação que «é a coisa mais triste que há». Coisa triste mas necessária, capaz de dizer tudo com quase nada. Como prova este dístico escrito no Mindelo, Cabo Verde: «estão a construir um bar / e começaram pela música».

[Texto publicado no n.º 113 da revista Ler]

Três poemas de Tiago Patrício

O MEDO

O vento abeira-se das grades
cresce por debaixo das pedras
e pode ser a qualquer momento
um comboio que abranda
ou uma acidez que corrompe o tempo

Dentro da casa
a fisiologia da noite
propaga-se em vibrações
e movimentos peristálticos
na transmutação da sombra

Duas voltas à porta e à respiração
uma para o medo e a outra para o vento
para a sombra das árvores
ou para uma coisa mais terrível
como o recomeço do Inverno

***

TINHA UMA MULHER A CAMINHAR EM FRENTE QUE

desfiava páginas inteiras de uma geografia visceral
e ocultava os tecidos internos numa pálpebra
sublinhada de vermelho

Era uma mulher leve de cabeça emplumada
a inspirar a gradação no homem
e a pedir que soletrasse a cor do sexo
E ele a compreender tudo
e a retirar uma dioptria excessiva
para explicar o peso tremendo
dos olhos num alfabeto anguloso
cheio de figuras angustiadas
e polígonos manchados de sémen

Mas a mulher discorria pela sala cheia de imprudência
subia à tona e desaparecia com as mãos lúcidas
gravadas na cordilheira do homem intumescido
Separava o corpo do corpo e interrompia a tradução
quando ele se inclinava para aclarar os cabelos

E o homem gelado pela insuportável suavidade
daquelas sílabas a repousar os olhos dentro dela
a procurar o lábio no sangue ofendido
e a sucumbir como figos secos em Dezembro

***

A ABOLIÇÃO DAS FRONTEIRAS

As fronteiras eram belas
cheias de mulheres fardadas
de cores fortes e madeixas imperativas
que ansiavam por ser atravessadas
Fronteiras solenes quando cobertas de frio
no aperto da multidão
como trincheiras forradas a papel em triplicado
e semeadas de vida em trânsito

Eram fábricas de nacionalidades
com carimbos espalhados pela periferia
em linhas acidentais entre as montanhas
Eram a máxima descentralização de um estado
a exterioridade até às costuras
para conter a implosão do território
Essas mulheres a desfiar um sorriso de vidro
e a ordenar um amor impuro aos expatriados

[in Cartas de Praga, Clube Português de Artes e Ideias, 2012]

Cinco poemas de Tomas Tranströmer

CARRIL

Duas da madrugada: noite luarenta. O comboio detém-se
no meio da campina6. Bem ao longe, pontos luminosos, urbanos,
tremulam friamente a perderem-se de vista.

O mesmo sucede quando sonhamos tão profundamente
que nunca havemos de nos recordar onde estivemos
ao regressar ao nosso quarto.

Ou como alguém com uma doença tão adiantada
que todos os anos vividos passam a ser pontos trémulos,
um enxame frio e sem importância no horizonte.

O comboio continua sem se mexer um milímetro.
São as duas da madrugada: luar intenso, poucas estrelas.

***

ABRIL E O SILÊNCIO

A primavera mostra-se deserta.
A valeta, de um escuro aveludado,
rasteja ao meu lado
sem reflexos.

A única coisa que brilha
é o amarelo de flores.

Sou levado na minha sombra
como um violino
no seu estojo negro.

O que apenas quero dizer
tremeluz fora do meu alcance
como prata
em montra de casa de penhores.

***

UM CÉU POR ACABAR

O desânimo interrompe o seu curso.
A angústia interrompe o seu curso.
O abutre interrompe o seu voo.

A luminosidade impaciente escoa-se,
até os fantasmas pedem um copo de três.

Pinturas rupestres vêm à luz,
animais em ocre vermelho de um ateliê glaciar.

Todo o existente olha à sua volta.
O astro-rei é adorado.

Cada ser humano é uma porta entreaberta
que conduz a um quarto para todos.

O solo imenso no qual caminhamos.

Por entre o arvoredo, a água da chuva ilumina.

Lagos são janelas com vista para a terra.

***

O CASAL

Apagam a luz, o globo branco treme
um instante antes de se desvanecer
como um comprimido num copo de escuridão. Às escuras,
as paredes do hotel elevam-se, atingem o negrume celeste.

Os movimentos do amor esmorecem, eles dormem,
mas os pensamentos mais íntimos encontram-se
como duas cores que esbarram e se misturam,
tal papel humedecido da pintura de um garoto na idade escolar.

Ainda não é dia e há silêncio. Esta noite, porém, a cidade acercou-se.
Com janelas apagadas, as casas estão ali.
Juntas umas às outras, à espera, muito perto,
uma multidão com rostos sem expressão.

***

MEADOS DO INVERNO

Um rasto de luz azulada
irradia da minha roupa.
Decorrida está metade do inverno.
Música de choques de mil blocos de gelo.
Fecho os olhos.
Há um mundo sem ruídos,
uma fissura,
onde os mortos,
como contrabando, são passados para o além.

[in 50 Poemas, tradução de Alexandre Pastor, Relógio d’Água, 2012]

Quatro poemas de Nuno Costa Santos

MINEIRO

Mineiro do teu próprio abismo,
vais saindo para o dia
depois de uma eternidade de mágoas racionadas.

Não te esperam televisões.

Espera-te a luz, somente a luz,
que faz as perguntas que nenhum
repórter teria coragem de fazer.

***

PERDOA-ME

Perdoa-me esta tristeza
de súbito revelada

(já passa
como passam as nuvens
e as notícias em rodapé).

este ar de passarão triste
estes olhos de boga
este contrato a termo incerto com o pensamento.

Não é nada

sou só eu
de vez em quando.

***

NEM AS NUVENS

Ali está ele,
orgulhoso e mudo,
abrindo por vezes o olho
ao vento e à indiferença.

Sobrevoamo-lo
como quem passa por um velho esquecido na doca,
estremecendo, sem expressão, entre os barcos.

Sim, até o mar das ilhas
vai envelhecendo.

Nem a máscara das nuvens lhe disfarça a idade.

***

LOJA DO CIDADÃO

Povo de roupa lavada
que arrumas os assuntos da vidinha
nestes algarvios dias de Agosto,
dança comigo um melancólico kuduro,
festeja comigo
como, na Praça do Chile,
vi festejar um golo de Espanha
um grupo de russos e de chineses.

Trata por igual os que já cá estão e os
que ainda hoje de manhã
chegaram ao Aeroporto da Portela
para vender camisolas do Brasil no Martim
Moniz. Olha por este pequeno rapaz
nascido em Portugal,
chama-se Jairson, como o pai e o avô,
e traz no bolso dos calções o desejo, generoso e insensato,
de ser português
como tu.

[in às vezes é um insecto que faz disparar o alarme, Companhia das Ilhas, 2012]

Jardins da carne

De Amore
Autor: Armando Silva Carvalho
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 72
ISBN: 978-972-0-79306-5
Ano de publicação: 2012

Em De Amore, Armando Silva Carvalho explora dois tipos de sentimento amoroso: o erótico, na primeira parte (intitulada Os que fazem o amor); e o fraternal, nas espantosas 42 Canções entre 2 Portas (exercício de luto pela sua irmã, Genoveva, recentemente desaparecida). Não surpreende por isso que o registo seja muito diferente nas duas secções. Ao tom maior dos poemas em que descreve a atracção da matéria pela matéria, o choque dos corpos cegos que se devoram na «geometria do desejo exposto», sucede o tom menor de quem sinaliza o apego à «doente acamada» mas muito «desenvolta» a «orquestrar as arestas diárias», essa mulher com quem partilhava muito mais do que «o mesmo sangue» da herança familiar.
Logo na epígrafe a Os que fazem o amor, sob o signo de Agustina Bessa-Luís, Armando Silva Carvalho alude à impossibilidade de fixar objectivamente o tema a que se propôs: «O que fica aqui dos amorosos, lembrados ou surgidos no discursar do invento, será sempre a imagem dos dois lados inseparáveis, ignotos». Na verdade, o amor nunca mostra completamente o seu rosto, há nele uma dimensão incognoscível com a qual o poeta se conforma, não deixando por isso de tentar sucessivas aproximações à sua essência. Por estes poemas desfilam então «figuras mentais» que assumem as muitas faces do júbilo ou do tormento amoroso: viúvas e adolescentes («no corpo que cresce só e se repete na noite / numa fala só»), onanistas e velhos «insensatos», assassinos passionais.
Este é um «mundo mudo», atravessado por uma energia visceral que se liberta em imagens fulgurantes: o «coração amarrado às patas turbulentas / do desejo», os «jardins da carne», os «gritos / de álcool». O amor propriamente dito, esse, é visto como um «exército / que conquista as idades, derrota o pó do tempo, / e avança pelo país dos mortos / montado na delicadeza dos murmúrios, / na leviana / argúcia musical, na dor exacta». Mas por muito que os poemas pretendam subir «à condição sublime», dificilmente se desfazem da sua condição animal, terrena, próxima do corpo perecível de quem «paga o tributo / antes do massacre». É como se os versos, muitas vezes emergindo de brumas e neblinas, tivessem consciência dos seus limites: mesmo recolhidos os vocábulos certos, «deles resulta um escasso ouro / de luz, de sémen escrito». A «tímida vertigem da invocação» está assim condenada ao fracasso num tempo em que tudo arde, o horror é planetário e um «manto que se diz babélico cobre de silêncio / a maravilha do crime organizado».
Mas nem todas as abordagens tendem para a abstracção. Silva Carvalho também convoca amantes concretos, que tanto podem ser os anónimos jovens sujos que nas escadas do metro formam um «novelo», do qual se desprende um «halo amarrotado», de «carne sôfrega / exposta à multidão», como os inevitáveis Pedro e Inês, cuja tragédia «abre a flor dos sentidos, desfeita / a golpes de espada, / de traição». Há ainda um belo poema sobre «os dois de Lanzarote», Saramago e Pilar del Río: «(…) Um velho, uma mulher madura, uma ilha vulcânica. / E o ar que acolhe os seus impulsos / com a firme decisão de fazer estremecer / o mundo».
É porém na segunda parte, no comovente «ofício de treva» sobre o definhar da irmã, que a escrita de Silva Carvalho sobe mais alto. Sem artifícios, o poeta assume o papel do «vivo de serviço», o sobrevivente, algures «entre fantasma e mendigo», atentíssimo às minúsculas reverberações de uma existência que se apaga. A dor surge inteira, brutal, mas não rompe o recato da intimidade. Fica algures no quarto, olhada de fora com infinita delicadeza: «O sol, largo animal de lume, encolhia-se / junto das janelas / e tudo era uma sombra, calada, sôfrega de sinais, / suspensa, à tua cabeceira».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Oferenda

O blogue Poesia & Lda. de vez em quando oferece-nos, sem estarmos à espera, pequenas grandiosas maravilhas. É o caso deste post, com seis poemas de Wisława Szymborska ainda inéditos em português, traduzidos por Teresa Swiatkiewicz. São todos magníficos e de leitura obrigatória, mas eu não resisto a transcrever os que mais me impressionaram:

ADOLESCENTE

Eu – adolescente?
Se, de repente, aparecesse aqui, agora, diante de mim,
saudá-la-ia como pessoa que me é próxima,
embora seja, para mim, estranha e distante?

Verter uma lágrima, beijar-lhe a testa
pela simples razão de termos
a mesma data de nascimento?

Tão poucas semelhanças entre nós,
quiçá, apenas os ossos são os mesmos,
a caixa craniana, as órbitas.

Já que os olhos dela parecem maiores,
as pestanas mais compridas, ela mais alta
e todo o seu corpo revestido
com uma pele lisa, sem mácula.

Na verdade, ligam-nos parentes e conhecidos,
no mundo dela, porém, quase todos estão vivos,
enquanto no meu já não há quase ninguém
deste círculo que tínhamos comum.

Somos tão diferentes uma da outra,
pensamos e falamos sobre coisas tão diferentes.
Ela pouco sabe –
mas com uma teimosia digna de melhores causas.
Eu sei muito mais –
mas sem nada saber ao certo.

Mostra-me uns poemas,
escritos com letra clara e cuidada,
como já há muito eu não escrevo.

Leio esses poemas e leio.
Bem, talvez este daqui,
se o reduzirmos
e corrigirmos aqui e ali.
O resto nada de bom augura.

A conversa está difícil.
No seu pobre relógio,
o tempo ainda é vacilante e barato.
No meu, já é muito mais caro e preciso.

Na despedida nada, um breve sorriso
e nenhuma comoção.

Somente quando se afasta
e, apressada, se esquece do cachecol.

Um cachecol de pura lã,
às riscas coloridas
feito em croché para ela
pela nossa mãe.

Ainda hoje o tenho.

***

VERMEER

Enquanto aquela mulher do Rijksmuseum,
em quietude pintada e concentração,
dia após dia, não verter o leite
do jarro para a vasilha,
o Mundo não merece
o fim do mundo.

***

A MÃO

Vinte e sete ossos,
trinta e cinco músculos,
cerca de duas mil células nervosas
em cada uma das pontas dos cinco dedos.
É quanto basta
para escrever ‘Mein Kampf’
ou ‘A Casinha do Ursinho Puff’.

Quatro poemas de Daniel Faria

Examinemos também a escrita
O solo negro deixado pelo fogo
O mecanismo semelhante às queimadas
Deixando a terra arável na sua devastação.
Tudo isto interessa para retomarmos a pedra onde está escrita
A palavra nova
A pedra onde corre o sangue.
Enquanto perguntas pelas dez palavras.
Põe a boca na palavra líquida
Examina o coração de carne em vez da escrita antiga
O verbo onde jorra a palavra incessante

Há dentro dela uma pedra nupcial

***

Amo-te nesta ideia nocturna da luz nas mãos
E quero cair em desuso
Fundir-me completamente.
Esperar o clarão da tua vinda, a estrela, o teu anjo
Os focos celestes que a candeia humana não iguala
Que os olhos da pessoa amada não fazem esquecer.
Amo tão grandemente a ideia do teu rosto que penso ver-te
Voltado para mim
Inclinado como a criança que quer voltar ao chão.

***

Trabalho a partir da existência da luz
E de certos minerais
Mesmo se não mereço a matéria luminosa
Da terra soprada donde o homem vem. A ânfora, o vidro. E recolho
O fogo
Quando como no princípio a manhã se abeira

Trabalho a partir da ceifa matinal. Experimento
A paveia antiga do homem vergado, o rumor enxugado do líquido
Na névoa, no orvalho, na carne
Da palavra calculando o voo
Pelo reflexo sobre as águas: no início

Trabalho na água que a voz movimentou
Gerando os sismos: e sou
O húmus, o barro nas margens
O homem que nunca compreendeu

***

Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas – podes pensar
Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita,
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
Que a magnólia – e essa é a verdade – cresce sempre
Apesar de nós.
Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo,
Mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,
A colherei.

A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão

[in Poesia, Assírio & Alvim, 2012]

As pequenas coisas, sem Deus

O Novíssimo Testamento e outros poemas
Autor: Jorge Sousa Braga
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 47
ISBN: 978-972-0-79303-4
Ano de publicação: 2012

No seu novo livro, Jorge Sousa Braga revisita, em modo irónico, a linguagem bíblica e as suas simbologias. Os dois primeiros versos («Escrevi este testamento com sangue / de galinha») afastam logo, pelo efeito de estranheza do enjambement, quaisquer resquícios de solenidade religiosa. Ao apropriar-se de um universo semântico conhecido (matriz da nossa cultura judaico-cristã), o autor reinventa-o à luz de um lirismo singular e pessoal. Na sua versão do Génesis, Deus está ausente (no princípio, não há verbo divino) e a cosmogonia é substituída pela cosmologia: o universo «continua a arrefecer e a expandir-se a expandir-se e a arrefecer / e a condensar-se para formar galáxias estrelas planetas nebulosas // e este ramo de rosas» (a aridez da explicação científica salva pelo carácter inesperado do último verso). Se de um baptismo laico – no rio Cávado, em vez do Jordão – o poeta retém apenas, muitos anos depois, o «calafrio» da água gelada; no Sermão da Montanha limita-se a enumerar, como numa litania, os 14 picos mais altos do planeta («Cho Oyo / Dhaulagiri / Evereste / Gasherbrum II (…)», etc.), concluindo com um lapidar mandamento: «Quando chegares ao cimo da montanha / continua a subir».
Após uma sequência de poemas sobre a morte e o luto (pelo pai, mas também pelo seu antigo editor), o livro fecha no território de eleição de Sousa Braga: o das pequenas coisas, ilhas de beleza submersas na realidade quotidiana e resgatadas por um olhar atento. Podem ser os agapantos, que «explodem» como «se fosse / um fogo-de-artifício rente / ao chão». Ou a insistência de um semáforo. Ou a «luta inglória» contra as ervas daninhas: «corriola», «escalracho» e, pior de todas, «a poesia».

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Esquinas e quedas

Prémio Nacional de Poesia
Autor: Nuno Moura
Editora: Mia Soave
N.º de páginas: 44
ISBN: 978-989-97215-1-7
Ano de publicação: 2012

Nuno Moura é um dos elementos mais desalinhadamente activos da poesia portuguesa contemporânea. Ex-jogador de pólo aquático, ex-publicitário, tem sido um declamador todo-o-terreno de versos seus e de outros – a solo, em dupla (COPO, com Paulo Condessa) ou em grupo (Ventilan) –, além de responsável por projectos editoriais arriscados, sempre à margem dos circuitos estabelecidos. Depois da Mariposa Azual, fundou recentemente a Mia Soave – assumidamente uma «editora de vão de escada», que se estreou a publicar um livro de poemas de Alberto Pimenta (Reality Show ou a alegoria das cavernas, acompanhado por um CD com temas originais de Ana Deus e Alexandre Soares).
Agora, em Prémio Nacional de Poesia, igualmente com um disco de bónus (14 temas musicados por José Ferreira, a partir de textos antigos de Nuno Moura, ditos pelo próprio ou cantados por Beatriz Nunes, a nova voz do Madredeus), volta a prevalecer a dimensão oral desta escrita: «O que aqui se lê em silêncio foi escrito para ser lido ao vivo.» Performativa e surrealizante, a prosa poética de Nuno Moura é um mecanismo imparável de sabotagem e rebeldia, um exercício de liberdade livre em doses generosas.
«Entre o pensamento e a fala, dentro do dicionário completo de sons, dois amantes abraçam-se.» O resto é caos, espalhafato, provocação (farpas a rodos; tiro ao alvo a tudo o que mexe, de musas a críticos), uma energia que muitas vezes acende a página, mas outras vezes se dissipa, palavrosa, no abismo da escrita automática. É um poema «de esquinas e de quedas», sempre a fugir, desobediente, «rasando o canteiro cheio de terra e de folhas». Com ele, diz o poeta, «as miúdas vão voltar a gritar nos recitais». Esperemos que sim.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Quatro poemas de Jorge Sousa Braga

BARRAGEM DA BEMPOSTA

As águas que alimentam estas
turbinas não se reconhecem

quando são devolvidas ao leito
do rio Algo da sua essência

navega agora nos cabos de
alta tensão Quase precisam

– essas águas – de serem agora
conduzidas pela mão

***

AGAPANTOS

Quem desce a avenida até à
praia nos canteiros entre os

prédios nos recantos mais
sombrios do meu cérebro

por todo o lado explodem
os agapantos… É como se fosse

um fogo-de-artifício rente
ao chão como se inteiros

os dias te explodissem na mão

***

O POEMA DO CORTADOR DE RELVA

Lê-me disse ela o poema do
cortador de relva mas eu já

me esquecera do poema
apenas que era de manhã

havia um rasto de erva cortada
de fresco e o cortador de relva

eléctrico no meio do jardim sem que
ninguém conseguisse explicar

como fora ele lá parar

***

O LIVRO

Há um livro que nunca chegarás
a ler um livro que te escapou

da mão estava exposto na livraria
mas outra coisa chamou a tua

atenção ou alguém o arrumou
em segunda fila na estante…

Tu não o sabes – como o poderias
saber? – mas esse livro descreve

como e quando vais morrer

[in O Novíssimo Testamento e outros poemas, Assírio & Alvim, 2012]

Em tempo de indigência

A Terceira Miséria
Autora: Hélia Correia
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 41
ISBN: 978-989-641-281-4
Ano de publicação: 2012

No seu regresso à poesia, com A Terceira Miséria, Hélia Correia parte da famosa e devastadora pergunta de Friedrich Hölderlin: «para que servem os poetas em tempo de indigência?» Uma questão que faz tanto sentido hoje como fazia há dois séculos, porque mesmo «sem deuses» ou o «sentimento / sequer da sua falta», mesmo reduzidos agora à condição de «pobres confortáveis», sofremos de «idêntica indigência». Ameaçada por Persas que desta vez chegam do Norte, é na Grécia que se volta a jogar o nosso futuro enquanto civilização.
A par de Hölderlin, o da «meiga loucura», Hélia convoca Nietzsche, outro germânico condenado a enlouquecer, porque «uma vida / não chegaria para tanto adeus». E se o primeiro Friedrich «falava com fantasmas», o segundo foi o «anunciador», o que «caminha / sobre águas estagnadas e parece, / ao afundar-se, desenhar no lodo / Um mapa para o qual não há leitura». O que há é o «rasto extraordinário» da beleza, a imagem de uma Grécia idealizada, ardente, esplendorosa, que também chamou Byron e os «jovens da Europa», a Grécia da «rápida alegria / que levanta o cavalo em plena guerra», onde os sábios eram «enfurecidos gloriosos» que muito bebiam e cantavam, recitando a Ilíada de cor e desdenhando da paciência.
A helénica Hélia lamenta os «amados vestígios entretanto / pisados, arrastados pelos becos, / os véus de outrora presos na imundície» e enumera as três misérias que se foram abatendo umas sobre as outras. Primeiro, a «deserção dos deuses». Depois, a «miséria da interpretação / que tudo trai». E por fim a miséria actual: «A de quem já não ouve nem pergunta. /
 A de quem não recorda. E, ao contrário / Do orgulhoso Péricles, se torna
/ Num entre os mais, num entre os que se entregam, / Nos que vão misturar-se como um líquido / Num líquido maior, perdida a forma, / Desfeita em pó a estátua.»
Esta é uma poesia do desencanto e da revolta diante do «apetrecho dos destruidores», essa «arrogância / pela qual o ocidente se perdeu». Há nestes versos muita melancolia, uma tristeza face às ruínas (hoje mais simbólicas do que literais), um sentido agudo do que ficou perdido talvez para sempre, mas também uma vontade de escapar ao abismo da resignação. Por baixo do «ferro retorcido», acredita a autora dos «exercícios» sobre Antígona e Medeia, esconde-se uma Atenas que se mantém oculta, à espera de novos mensageiros que esvoacem pelo éter, alimentando a «ardência do improvável».
Como as ágoras de há 2500 anos, as praças voltaram a ser lugares onde se escuta a «fervilhante / palavra própria da democracia» e a «gente do Sul» que um dia «se desnorteou» encontrará decerto formas novas de se orientar. Uma esperança que se materializa, inteira, no poema final:

De que armas disporemos, senão destas
Que estão dentro do corpo: o pensamento,
a ideia de polis, resgatada
De um grande abuso, uma noção de casa
E de hospitalidade e de barulho
Atrás do qual vem o poema, atrás
Do qual virá a colecção dos feitos
E defeitos humanos, um início.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 112 da revista Ler]

Quatro poemas de Henrique Manuel Bento Fialho

AUTO-ESTRADA DO SUL

A velocidade dos veículos
é proporcional à ânsia de chegar.
Jamais saberemos se os veículos
chegarão à velocidade com que circulam,
mas temos noção de que
em todas as chegadas há uma velocidade
a circular dentro de quem parte.
Uma velocidade conduzida, talvez,
pela vontade de novamente circular
dentro de tudo o que nos impele para o regresso,
dentro de tudo quanto transita,
dentro de tudo aquilo que já não existe.

***

Retomo a casa onde as noites têm a luz dos dias.
Não é a mesma casa de onde parti, nada é o mesmo
quando se regressa. Só o canto dos grilos, a dança
dos canaviais e o mar ao longe permanecem

intactos. Também as constelações, desde o sono
divino as mesmas, abraçam a quietude terrena.
Oferecem-nos vinho, batatas e ovos, pimentos
e tomates, sorrisos, uma certa nostalgia no olhar.

Nunca tinha reparado, onde as portas se abrem
sossegam os anseios. Se ao menos pudéssemos
aprender o proveito de estarmos sempre perto

de quem nos quer bem. Mas que bem nos querem
aqueles cuja ausência é só mais uma lição
de que estamos vivos e, por isso mesmo, quase mortos?

***

Pelas 7 a maré está baixa. Os polvos, escondidos
nas rochas, ficam à mão de semear. Balde num braço,
gancho nos dedos, descemos ao mar. Das enseadas
todas as marés são baixas. Puxamos das rochas

estrelas do mar, anémonas, cracas. Os polvos estarão
já, a esta hora, na cozinha de um restaurante onde
hordas de turistas lambuzarão os dedos. Velhos e
novos, nenhum escapa aos mergulhadores pelas 4.

Metemos as mãos a medo, mordem-nos caranguejos,
enchemos um balde com burriés. Uma cabana rente
ao mar numa aldeia piscatória, nada de telefone, nada

de rendas. As nossas academias amanham percebes
como quem devolve ao passado os promontórios
da sabedoria. Malcolm Lowry aos jantar, pelas 10.

***

NOITE ESTRELADA

Onde as flores sobrelevam fronteiras
e desabrocham para lá dos vasos,
para lá dos canteiros,
assomando à beira dos regaços
uma luz que queima a terra de alegria,
encontra o consolo a sua satisfação.

Onde as estrelas perdem a idade
que as separa umas das outras,
a distância que distingue a efemeridade do eterno,
encontra a satisfação o seu consolo.

[in Rogil, Volta d’Mar, 2012]

Cinco poemas de Liberto Cruz

POEMA CONTRA A CIDADE

Aqui na cidade nossos dedos não acabam gestos
E a incauta presença nos suga
O esforçado mel de todos os dias.

São inúteis todos os rios de resina,
Todas as amoras maduras
Que pisámos, bravas,
No intervalo das estações.

As primeiras chuvas são apenas
Primeiras chuvas
E as crianças brincando são apenas
Crianças brincando.

Punhais de duas lâminas nos correm nas veias
E cavalos selvagens penetram
Em nosso corpo, até à raiz dos ossos.

Falsos, caminhamos, esmagados os olhos
Pela indiferença das árvores,
Pelo silêncio dos cisnes.

Aqui na cidade, talvez tudo seja o contrário,
Do que digo, do que escrevo,
Mas a amada perde-se em florestas de ar puro
E meus dedos não acabam gestos,
Não conseguem a calma da sua presença.

***

Vem a noite. E um límpido
E frio cansaço rompe
Entre as árvores. O mar
Abranda quase ausente.

Breve toda a esperança
Já o sonho não persiste
E só o medo aumenta
A raiva o desespero.

Uma corda: a solidão.
Uma névoa antiga
E depois a queda livre

O alívio talvez.
Quem sua vida comanda
Também a morte ordena?

***

Lembro o vinco do lençol
Uma certa mancha leve
Que mui de leve tacteio.
Lembro o perfil dos seios

A lisa curva do ventre.
Os dedos a divagar
Vão pelo cetim da pele
Vão a chama pressentindo.

Intermitente leitura
De um corpo todo meu
Na penumbra o evoco

Sua ausência folheio.
E de novo recupero
A memória do seu rosto.

***

Trinta e sete braços:
o dragoeiro
é um candelabro
de sombras orientais.

***

A folha em branco:
um campo minado.

[in Poesia Reunida, 1956-2011, Palimage, 2012]

Quatro poemas de Manuel Alegre

OS SANTOS DE RIBERA

Os santos de Ribera têm as unhas sujas
cabelo curto
a barba por fazer em rostos curtidos e morenos
os santos de Ribera são todos espanhóis
camponeses apóstolos cor de terra
só o corpo de Cristo tem a palidez
de uma lua morta de Andaluzia
e não há rosto mais de povo do que o rosto
de Maria.
Os santos de Ribera são outra fé
outra hierarquia.

***

DEZEMBRO NAS MARGENS DO RIO

Aqui nas águas do rio
quantas vezes nos banhámos
mas agora ninguém chama
ninguém salta dos salgueiros
para o fundão junto à nora
ninguém à tarde assobia
para olharmos no areal
as pernas das lavadeiras.
Dezembro diz-se com frio.
Diluídos na neblina
vão aqueles que se banhavam
comigo nas águas do rio.

***

OS GUERREIROS

Subitamente saíram da sombra.
Vinham de cara ao sol
com suas armas cintilantes
soltando grandes gritos de combate
para morrer diante da cidade
que ninguém sabe ao certo onde ficava
e talvez fosse apenas
uma palavra.

***

ARTE POÉTICA

Nada se sabe
que já não se saiba.

Nada se escreve
que não esteja escrito.

Mas nada se sabe
nada está escrito.

[in Nada Está Escrito, Dom Quixote, 2012]

Nomear o indizível

As Coisas
Autora: Inês Fonseca Santos
Editora: Abysmo
N.º de páginas: 52
ISBN: 978-989-97448-3-7
Ano de publicação: 2012

Numa nota inicial, Inês Fonseca Santos (n. 1979) explica que os poemas de As Coisas – o seu livro de estreia – foram escritos em poucos dias, «mas levaram anos a formar-se». De facto, pressente-se nesta obra uma lentidão quase geológica, um avanço que se faz por acumulações e sobreposições, através de sucessivas camadas de memórias, experiências, sedimentos. É uma poesia em torno de um tema só (o desafio de nomear o que é indeterminado ou indizível) e com a consciência exacta de que nos escapa sempre o essencial, de que nunca conseguiremos fechar dentro do recorrente aquário verde no topo da estante (o poema?) esses «peixes-palavras» que são as únicas «coisas inquebráveis».
Há nestes textos cheios de arestas – frágeis, opacos, feitos de vidro (e por isso cortantes quando se partem) – um «nome de todas as coisas» que se desfaz e recompõe continuamente. É um nome que evoca uma ausência, uma perda, esse «algo que já lá não está ou se perdeu» de que fala Manuel António Pina no poema As Coisas (incluído no seu último volume de originais: Como se Desenha uma Casa, Assírio & Alvim), poema que serve de mote a este livro e, segundo a autora, «confirmou o seu eventual sentido». Mais do que um trabalho de luto, ou de nostalgia, os textos procuram uma espécie de recomposição, uma forma de organizar os «restos», de colar os cacos do que um dia se partiu. «Puxei-te pela mão. A mão soltou-se do teu corpo. / Coloquei-a no lugar do coração; com as unhas / construí um fecho novo para o colar de pérolas; / vendi a pele e voltei a encher o frigorífico.»
Elíptica e desconcertante, a escrita de Inês Fonseca Santos faz da estranheza uma forma de defesa. Nada é transparente neste universo em que tudo se remenda: os copos, as palavras, o coração. Um mundo estanque, urdido com repetições e circularidades, em que fazer versos equivale a fumar um cigarro apagado: «Apago-o antes / que me chegue aos lábios. // Está frio neste lugar. A boca abre-se / como uma coisa lenta em forma de espanto.»

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 111 da revista Ler]

Quatro poemas de Miguel-Manso

ANTIMUNDO

Para o João Diogo

plágio manhoso do big-bang
a matéria do poema expande, arrefece
tão estranhamente se demora e permanece
semelhando o Universo

o poema é a imagem-espelho de um corpo
sem reflexo: a poesia

oco assimétrico, residual desse princípio
colocada em lugar dubitativo, separada quase sempre
do buraco negro a que chamam literatura

poder-se-á supor que poucos são os poetas
capazes de acelerar partículas
de modo a ver-se não só o que a luz já percorreu
mas a região mais central do nada, o pátio
furioso da potência

e neste lugar de substâncias, de objectos
as palavras são figuras do imundo, coisas que
sobraram do estampido inaugural desse ‘dia inicial inteiro
e limpo’ que culminou no lugar a menos deste texto
breve logaritmo sem aplicação ou saída

resta ao poeta o embuste
de afirmar o que propende para o infindo
espiar o acesso que cada coisa consente pela fissura do milagre
e dá pelo nome de imprevisto, ou acidente

a criança na rua abrindo o caixote do lixo
onde alguém sem saber depositou o assombro de um
balão de hélio branco ainda cheio
que se soltou e subiu à laia de lua ao fim da tarde
ao pé de casa

a criança pasmou, entristeceu depois
mais tarde lembrou-se: ‘tens de escrever um poema sobre o balão
que voou do lixo e não agarrámos’

um poema é a coisa mais triste que há
e escrevi

***

PIAZZA SAN MARCO – ACQUA ALTA

às Musas não interessam
drenagens, deixam alagar livremente
com o que sobrevém: a água do instante
subjectivo

quando o poeta era uma fera luminosa
e Veneza, sobre a laguna, a porta para o Levante
com seu tráfego de peregrinos imateriais – que também traziam
as laranjas douradas, a seda, a musselina
porcelanas, aço, pimenta
incenso e alívios

a cidade detinha um colégio de sábios
que sabia, em dialecto próprio, ser a magia
este palácio mergulhado nos silêncios
meio submersos

e que apenas a ciência da leitura paulatina
poderá ser o escafandro glotal e sinal que soltará
da grosseria eloquente

o espanto oculto do poema

***

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***

NEM TANTA COISA DEPENDE

preferes o canto, o lugar oculto
a folhagem, a sombra, o quarto, este
saco de trigo: ouro de um texto
sobre a velha escrivaninha do real

lá fora o clarão do arvoredo
atalhos para a tingidura da paisagem
cá dentro menos caminho, outro

panorama: a presença tão-só
desabitada de uma pessoa, mistério sem
atributo ou função

sempre a desfeita de um coração
o cultivo intensivo das figuras
e sobram tristeza e dias ao corpo que escreve
no calabouço de uma manhã muito larga

reluzente de gotas de mel
enquanto os gatos lambem o sábado
e sentado, sapo de ouro, permites-te pôr no mundo
(mas porquê) outro poema

[in Ensinar o Caminho ao Diabo, edição do autor, 2012]

Manual de pintura

Modo Fácil de Copiar uma Cidade
Autor: Vítor Nogueira
Editora: &Etc
N.º de páginas: 46
ISBN: 978-989-8150-34-9
Ano de publicação: 2011

Desde 2006 que Vítor Nogueira vem publicando todos os anos, alternadamente na Averno e na &Etc, livros que nunca são meras acumulações de poemas dispersos, mas antes obras pensadas como um todo, obedecendo a um conceito e a uma estrutura claramente definidos. Em Mar Largo (&Etc, 2009), tudo convergia para a calçada «tristalegre» da praça do Rossio, evocada de múltiplos ângulos e perspectivas, desde a memória dos homens responsáveis pela pavimentação à forma como as pedras negras e brancas assistem aos paradoxos do multiculturalismo – no que é hoje um «coração de Babel». O opus mais recente, Modo Fácil de Copiar uma Cidade, organiza-se à laia de um tratado de pintura antiga, com explícitas referências a teóricos da arte portuguesa dos séculos XVI (Francisco de Holanda), XVII (Filipe Nunes) e XVIII (Cirilo Volkmar Machado). Mas se há nestes poemas uma certa pátina vocabular e sintáctica, ela rapidamente é diluída pela inclusão de elementos do nosso tempo, que vão sabotando a suposta harmonia clássica das instruções e conselhos dados ao «pintor».
Estamos, escusado será dizer, no campo da reflexão sobre a arte e o papel do artista. O «modo fácil» de copiar a cidade resultaria da transferência directa desta para o papel («forçar / a realidade a caber nos seus desenhos»), respeitando as proporções e o rigor das malhas geométricas. Um cavalo, por exemplo, «é feito em quatro / compassos: um ao peito, dois ao ventre e um à anca». Falta depois escolher o que enquadrar e as tintas que se lhe adequam (para um casal de namorados, a «morte-cor», que é a «primeira tinta que se dá nas figuras»; para um par de viúvas, o «vermelhão»). Há sempre, porém, aspectos que a paleta não capta: as «terríveis» lições «sepultadas no passado», a verdadeira sombra da decadência, «os restos de quem aqui viveu». Porque «a parte melhor da pintura / não se pode ver de fora, nem sequer se faz com a mão, / apenas com a fantasia». É por isso que ao pintor se exige recato, sageza, a inteligência de deixar «muitas coisas por pintar». E quem diz pintor, diz poeta.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 110 da revista Ler]

Quatro poemas de Paulo Tavares

Em berlim, o inverno dura sete
ou oito meses, e dizes que a cidade,
ainda um pouco provinciana nos
seus tiques bipolares, vive e brilha
para os meses de verão. no centro,
os corvos propagam-se em redor
da catedral – e por esta altura,
na cidade materna, são os pombos
e alguns melros que se aglomeram
nas praças e nos jardins quase desertos,
como uma praga de pássaros um pouco
mais silenciosos. dizes que é impossível
um bater de asas no exílio, ou tirar
uma fotografia sorridente junto ao muro
de berlim. e no entanto, vendo-as
mais de perto, com a democrática
garantia de que nenhum monumento
se abate duas vezes sobre um corpo,
todas as caras sorriem para a objectiva.

***

Não é, na verdade, azul
este lamacento danúbio,
mas olhando-o da ponte,
depois do mercado central,
é possível ver afundada
a narrativa que nos precede:
os tanques capotados ao longo
de estradas sem rumo, a ascensão
dos movimentos estéticos,
os campos silvestres e os campos
de morte. e empilhada sobre
tantas outras, uma porta ao canto:
símbolo sem transposição.

***

No tuschinski, a árvore
da vida e o riso adolescente
de duas recém-ganzadas.
é inevitavelmente dupla
a perspectiva que encontra,
com subtis forças de atrito,
a origem da matéria finita:
alguém que se perde, um olhar
que arrefece, e a densidade
do real como uma dor crónica
no momento exacto da revelação.

***

No restaurante italiano
da greek street, soho londrino,
as bocas trituravam lentamente
a comida em intervalos cíclicos
de nostalgia: falavam de regimes,
métodos e soluções – e vindo
cobertas por uma fina camada
de novos polímeros, as ruas,
frias e seculares, desembocavam
ao redor das mesas, servindo
os referenciais do esquecimento
que crescem nos poros
das grandes estruturas vivas.

[in Capitais, edição do autor, 2012]

As canas

CANTO DÉCIMO TERCEIRO

De criança sempre gostei de canas
e roubava-as do rio
ainda verdes.
Deixava-as depois estendidas ao sol durante todo o verão
e recolhia-as, ligeiras,
como o sussurro dos mosquitos.

Quando no inverno
os ossos estalavam de frio
e os gatos tossiam sobre o damasqueiro
corria até ao sótão
e metia as mãos no meio das canas quentes
ainda com todo aquele sol em cima.

[in O Mel, de Tonino Guerra, trad. de Mário Rui de Oliveira, Assírio & Alvim, 2004]

Quatro poemas de Hélia Correia

1.

Para quê, perguntou ele, para que servem
Os poetas em tempo de indigência?
Dois séculos corridos sobre a hora
Em que foi escrita esta meia linha,
Não a hora do anjo, não: a hora
Em que o luar, no monte emudecido,
Fulgurou tão desesperadamente
Que uma antiga substância, essa beleza
Que podia tocar-se num recesso
Da poeirenta estrada, no terror
Das cadelas nocturnas, na contínua
Perturbação, morada da alegria;

2.

Essa beleza que era também espanto
Pelo dom da palavra e pelo seu uso
Que erguia e abatia, levantava
E abatia outra vez, deixando sempre
Um rasto extraordinário. Sim, a hora,
Dois séculos antes, em que uma ausência
E o seu grande silêncio cintilaram
Sobre a mão do poeta, em despedida.

7.

Nós, os ateus, nós, os monoteístas,
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizavam
Olhando para cima, para as torres,
Supondo que as podiam habitar,
Glória das águias que nem águias tem,
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia.

23.

A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.

[in A Terceira Miséria, Relógio d’Água, 2012]

Quatro poemas de Rui Almeida

Como se um sobressalto
Pudesse prolongar-se por vários dias
E conter passos e olhares
Sem que o espanto momentâneo se dissipe.

A limpidez de tudo
Delimita o mundo à sensação,
Traz as coisas ao contacto com a pele,
Experiências do tremor
Na demora que concentra.

***

Agora é o tempo todo desde sempre.

Abandono tenso de leveza
Levada às cordas vocais
No incómodo do esforço.

Caudal da vontade
Tornada assombro táctil.

***

Um golpe na pele
Como um abismo onde
O desamparo cresce para dentro.

Um golpe justo a deixar
Que as noites sejam tensas,
Rigorosas
Em sua escuridão propícia
À fertilidade.

***

Em três horas de viagem
Se lêem poemas com 40 anos,
Contemporâneos de começar
A ser quem hoje é em viagem
Nesta costa, neste longe
Atlântico incerto, inevitável.

Nesta costa foi o que é agora
Sonhado, silencioso,
Tenso, rumoroso
E fraco, como ainda
Custa ser. Se ser é isto,
Como seria não ser?

E como seria limpar o rosto
Depois de cada Agosto?

[in Caderno de Milfontes, volta d’mar, 2012]

Cesariny dito por Sandro William Junqueira

Ontem à noite, numa das salas do Hotel Vermar, Sandro William Junqueira, que lançará amanhã nas Correntes d’Escritas o seu segundo romance (Um Piano para Cavalos Altos, Caminho), disse um excerto do poema Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos, de Mário Cesariny. Belo momento.

A perfeição da cobra

Cobra d’Água
Autor: A. M. Pires Cabral
Editora: Cotovia
N.º de páginas: 75
ISBN: 978-972-795-324-0
Ano de publicação: 2011

Como noutros dos seus livros de poesia, A. M. Pires Cabral reúne em Cobra-d’Água um considerável bestiário: cães, rãs, vacas, ratos, vermes, andorinhas. E até uma metafórica toupeira que esbraceja na calçada «como um náufrago». Os bichos servem de medida para o homem porque se contentam com a «quantidade de dias» que lhes foram atribuídos – ao contrário de nós, seres pensantes, capazes de implorar um «para além do fim», mesmo se à custa de uma «triste figura». É a «perfeição da cobra», porém, que o poeta inveja: «Quisera ser como a cobra. / Quando, como ela, começasse / a ficar grande demais por dentro, / em vez de me oprimir para continuar a caber, / poder despir a pele, // como quem descalça com alívio / sapatos que lhe entalavam os pés, // sabendo que outra pele está a caminho, / onde caberá sem constrição alguma / o novo volume que foi tomando o corpo».
Este desconforto com o próprio corpo, simultaneamente físico e mental, talvez irredimível, é a «chaga» que o poeta – «jacobino» com «defeito de fabrico», iluminado por um «extenso pessimismo» – anda há décadas a «coçar». Pires Cabral assume-se como alguém que faz perguntas «de trazer por casa» (as importantes foram-lhe escondidas, «como de uma criança o frasco da compota») e precisa que lhe expliquem «as coisas vertiginosas», agora que já vê «túnel ao fundo da luz». Os poemas oscilam entre a elegia dos tempos perdidos (ou desfeitos «em fumo») e a autodepreciação, entre a ligeireza da sarabanda e a solenidade do requiem, entre a ironia agreste de supostas «bagatelas cediças» e a evocação das «coisas graves que mais valera omitir» (como a morte). Em última análise, é sempre da morte que se fala, essa «grande boca universal / semelhante a uma fornalha / que queima tudo o que se põe lá dentro». Porque nada lhe resiste, nem sequer o Seringador, com a sua omnisciência de almanaque: «Mas vem um dia / em que de súbito perdeste a validade. / E morres a menos sábia das mortes. / E eu queimo-te no lume às primeiras horas / de alguma fria madrugada de Janeiro».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 109 da revista Ler]

Poesia para respirar


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É o próprio Nuno Moura que o diz: são «30 minutos com exercícios respiratórios e alguma poesia».

‘Encontros na Poesia’

Maria do Rosário Pedreira e Menchu Gutiérrez juntam-se para uma leitura de poemas na quinta-feira, dia 9, a partir das 18h30, no Instituto Cervantes (Lisboa). Seguir-se-á uma «conversa sobre a criação poética».

Desertos e desastres

Como se Desenha uma Casa
Autor: Manuel António Pina
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 46
ISBN: 978-972-37-1616-0
Ano de publicação: 2011

Volume de poesia reflexiva, nostálgica e depurada, Como se Desenha uma Casa é o primeiro livro de originais que Manuel António Pina publica depois de lhe ter sido atribuído o Prémio Camões em 2011. Chegado à «tardia idade», Pina ainda procura o que há de material nos objectos, o sabor do «pão primeiro», mas os poemas reflectem sobretudo a «agonia interminável das coisas acabadas». O tom é de desencanto. Os versos enchem-se de fantasmas, passos ao longe, corpos e nomes que se desvanecem, escombros. O que pulsava deixou de pulsar, extingue-se o canto numa vida «excluída / da clarividência da infância», o poeta atravessa uma paisagem em que tudo se perde ou envelhece, acumulação de «desertos» e «desastres», consciência da «mudez do mundo». Um mundo «onde o Lexotan se tornou literatura» e em que «a porta está fechada na palavra porta / para sempre». Mesmo morrer «não é fácil», porque «ficam sombras nem sequer as nossas, / e a nossa voz fala-nos / numa língua estrangeira».
A escrita de Pina surge neste livro mais rarefeita, «com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso», embora circule pelos temas de sempre: o «rumor» dos livros («É então isto um livro, / este, como dizer?, murmúrio, / este rosto virado para dentro de / alguma coisa escura que ainda não existe»); os labirintos da memória; os gatos (para quem nós, humanos, somos «intrusos, bárbaros amigáveis»); as citações explícitas (Paul Celan, Sá de Miranda) e as escondidas; a «possibilidade de sentido» das estruturas verbais de que se faz o poema (mesmo quando no fim não sobra nada: «Uma casa é as ruínas de uma casa, / uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra»).
Há também evocações de amigos: alguns desaparecidos, quase todos poetas. Na Carta a Mário Cesariny no dia da sua morte, a despedida transformada em até já – «A gente vê-se um dia destes por Aí» – concentra toda a melancolia que atravessa o livro: «Há apenas agora um buraco aqui, / não sei onde, uma espécie de / falta de alguma coisa insolente e amável, / de qualquer modo, aliás, altamente improvável.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 109 da revista Ler]

Quatro poemas de João Miguel Henriques

HOCHGOBERNITZ (SEGUNDO THOMAS BERNHARD)

os primeiros assomos de loucura
trazem a destruição dos campos todos.
no traço inculto das coutadas
mingua a vida
repousam as alfaias

dos quartos vazios de gente
das terras vazias de tudo
sobram apenas muralhas
(ninguém se lembra)

há um prenúncio de tragédia
capaz de vergar os dias
aos trabalhos dolorosos

é o triunfo das gerações
sobre a antiga casa paterna
somente um reflexo de luz
um declínio inteiro

quando saio do quarto onde moro
e venho às muralhas
lembrar-me das coisas
reparo que as chuvas de inverno
vieram aqui para ficar

***

O DIÁRIO

o pai diz que aqui o tempo pára
e aqui (eu sei) o tempo pára mesmo.
não corre já pela azinhaga
a célere aragem carregada de tempo

encontrei o diário dela na quarta-feira
as pálidas notas de adolescência, amiúde enfadonhas.
recordo como ela dizia, não quero que o leias,
o pai diria: não, não lhe leias o pálido diário
não despertes com essa leitura aqui a corrida do tempo

há-de repousar esse caderno
entre outros livros de memórias:
proust e o seu tédio de morte
e também ashberry, codificado pelo dia absurdo

não deixarei pai por um segundo
que o tempo vá veloz pela azinhaga

***

A CASA FRIA

já cosi as duas faces do poema
as duas estâncias
com as palavras da casa fria

disse à mulher que viesse
que acorresse à casa fria
e agora já dobrei a folha ao meio
e uni as metades da casa
com um ponto de costura

***

BIBLIOTECA NACIONAL

infeliz esta coisa dos livros todos
e todos muito juntos uns aos outros
abstracta matéria
e lamacenta
de querer dizer coisas por livros
e neles ler o ror das coisas todas
estupenda empresa
e opulenta
a reunião de livros em grandes casas
e ter lá dentro gente que os leia
penosa façanha esta
já quase medonha

[in Isso Passa, Artefacto, 2011]

Quatro poemas de Fernando Assis Pacheco

Um homem tem que viver.
E tu vê lá não te fiques
– um homem tem que viver
com um pé na Primavera.

Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.

Cheio de luz – como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio dos mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.

Palavra, um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.

***

COM A TUA LETRA

Porque eu amo-te, quer dizer, estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.

Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.

***

MONÓLOGO E EXPLICAÇÃO

Mas não puxei atrás a culatra,
não limpei o óleo do cano,
dizem que a guerra mata: a minha
desfez-me logo à chegada.

Não houve pois cercos, balas
que demovessem este forçado.
Viram-no à mesa com grandes livros,
com grandes copos, grandes mãos aterradas.

Viram-no mijar à noite nas tábuas
ou nas poucas ervas meio rapadas.
Olhar os morros, como se entendesse
o seu torpor de terra plácida.

Folheando uns papéis que sobraram
lembra-se agora de haver muito frio.
Dizem que a guerra passa: esta minha
passou-me para os ossos e não sai.

***

F.A.P. FECIT

Este livro é teu que me aturaste
desvairos saüdades amorios
desde o primeiro mal cozinhado verso
ó cúmplice
um que me lê com respeito e vagar
a quem devo chamar prestante amigo
neste mundo de tanta cabronada

o livro é o que é nenhum enleio
nenhuma assinatura a baixo preço
não estou nessa tal lista e tem também
a confissão banal dos mil cagaços
de morrer (dores intercostais músculos
caindo na barriga da perna)
como se eu fosse à noite um filho terno
e teu, leitor, que o não desamparaste

*

Peçam a grandiloquência a outros
acho-a pulha no estado actual da economia

*

E não sublinhem o que não escrevi

*

A ti compadre irmão saúdo e já termino
com só o fósforo duma estrela
na lixa do fim da tarde

[in A Musa Irregular, ASA, segunda edição, 1996]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges