Prémio de conto da APE para Ondjaki
O autor angolano Ondjaki, que acaba de lançar um romance (AvóDezanove e o Segredo do Soviético, Caminho), foi hoje distinguido pela Associação Portuguesa de Escritores com o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2007, pelo seu livro Os da Minha Rua (Caminho). O prémio, no valor de cinco mil euros, é patrocinado pela Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão.
Rawi Hage arrebata o IMPAC Dublin Literary Award
Pode considerar-se uma surpresa. Melhor dito, uma enorme surpresa. O IMPAC Dublin Literary Award deste ano, no valor de 100 mil euros, foi atribuído a De Niro’s Game, romance de estreia de Rawi Hage, um escritor libanês que escreveu directamente em língua inglesa (apesar de ter crescido a falar árabe e francês). Radicado no Canadá, Hage, com 44 anos e um percurso profissional ligado à fotografia, centrou a sua narrativa no clímax da guerra civil que destruiu o seu país nos primeiros anos da década de 80.
O júri preferiu Hage a autores consagrados, como Philip Roth, Thomas Pynchon, Martin Amis, Paul Auster, Cormac McCarthy, John Updike, Alessandro Baricco, Tahar Ben Jelloun ou Margaret Atwood (que se ficaram pela longlist). Da shortlist de oito nomes, constavam o espanhol Javier Cercas (por A Velocidade da Luz, editado em Portugal pela ASA), o russo Andrei Makine (The Woman Who Waited), o irlandês Patrick McCabe (Winterwood) e o argelino Yasmina Khadra (The Attack).
Eis um excerto da declaração dos jurados:
«(…) De Niro’s Game is also a compassionate novel of friendship and betrayal, of love and loss. The war-torn city of Beirut plays host to the bravura of the young men- a city full of marauding militia, cleverly compared with the mad dogs that also haunt its precincts - a city that gradually drags its inhabitants into the blood-red sands of extreme situations and heart-breaking betrayal. (…)
In recounting Bassam’s struggle to escape, Hage offers an explosive plot that is also effective as a meditation on war and its psychological cost. There is no easy resolution, no redemptive ending in this visceral account. There is, however, an uplifting and original lyricism to the writing, one where Hage’s imaginative flair fuses the present horror into passages of poetic intensity. The cadences of the Old Testament are there, as are angry Ginsbergian litanies as well as strong European echoes, especially of Camus’ The Outsider. Remarkably, a dark but rich sense of humour also surfaces in the narrator’s self-deprecating reflections.
This is a magnificent achievement for a writer writing in a third language. Luck has nothing to do with this novel’s selection. Its originality, its power, its lyricism, as well as its humane appeal all mark De Niro’s Game as the work of a major literary talent and make Rawi Hage a truly deserving winner.»
Refira-se ainda que os 137 títulos apresentados a concurso este ano foram nomeados por 162 bibliotecas públicas de 122 cidades, em 45 países. Desta longlist fazia parte The Book of Chameleons (tradução inglesa de O Vendedor de Passados, vencedora em 2007 do Independent Foreign Fiction Prize), de José Eduardo Agualusa, indicado pela Biblioteca Demonstrativa de Brasília e pela Biblioteca Municipal Central de Lisboa.
Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLB para Filomena Marona Beja
A Associação Portuguesa de Escritores (APE) atribuíu o seu Grande Prémio de Romance e Novela relativo a 2007, no valor de 15 mil euros, ao romance A cova do lagarto (Sextante), de Filomena Marona Beja. O júri, composto por Annabela Rita, Fernando Martinho, José Luís Peixoto, Júlio Moreira, Serafina Martins e José Correia Tavares (presidente), decidiu por unanimidade, de entre os 117 livros apresentados a concurso.
Prémio Orange para Rose Tremain

A escritora Rose Tremain arrebatou, ontem à noite, o Orange Broadband Prize for Fiction 2008, com o romance The Road Home (Chatto and Windus). A versão do prémio que distingue novas autoras foi para Joanna Kavenna, por Inglorious (Metropolitan Books).
Um pequeno vídeo sobre a cerimónia de entrega pode ser visto aqui, enquanto aqui Rose Tremain lê uma passagem do seu livro.
Grande Prémio de Poesia da APE para Ana Luísa Amaral
A Associação Portuguesa de Escritores atribuíu o seu Grande Prémio de Poesia, no valor de 5000 euros, ao livro Entre dois rios e outras noites, de Ana Luísa Amaral. O júri, que decidiu por unanimidade, foi constituído por Ana Paula Arnaut, José Cândido Martins e Nuno Júdice.
The Best of the Booker
Foi ontem anunciada a shortlist para o prémio com que o Booker Prize assinala o 40.º aniversário e que pretende escolher o melhor entre todos os vencedores desde a primeira edição (1969). Os seis candidatos são:
- The Ghost Road, de Pat Barker (1995)
- Oscar and Lucinda, de Peter Carey (1988)
- Disgrace, de JM Coetzee (1999)
- The Seige of Krishnapur, de J G Farrell (1973)
- The Conservationist, Nadine Gordimer (1974)
- Midnight’s Children, de Salman Rushdie (1981)
Convém lembrar que o romance de Rushdie foi considerado, em 1993, o Booker dos Bookers. Ao contrário do que aconteceu então, desta vez a escolha será feita pelos leitores, através da Internet. A urna virtual ficará aberta até 8 de Julho, aqui.
Prémio Rainha Sofia para Pablo García Baena
O escritor Pablo García Baena (n. 1923), natural de Córdoba, venceu a 17.ª edição do Prémio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana, atribuído pela Universidade de Salamanca e pelo Património Nacional. O prémio, no valor de 42.100 euros, distingue “o conjunto da obra de um autor vivo que pelo seu valor literário constitui uma contribuição importante para o património cultural comum iberoamericano e de Espanha”. José Saramago fez parte do júri.
Eis um dos poemas de García Baena:
Hay una débil música enredada en mis dedos
como indolentes, verdes algas dormidas,
cuando mayo desnuda de negros pabellones
mi errante pensamiento.
Hay un tejido espeso como aroma de mieles y de trigo,
que envuelve adormeciendo roca y nube.
Es temprano en la tarde.
El arroyo abandona su flauta entre la hierba.
Me inclino reverente para beber y el agua
pone en mis cerrados párpados su húmeda caricia.
Sobre la tierra extiendo mi pereza
y mayo me despoja de la corteza gris y extraña de mi traje
ciñéndome triunfal con la guirnalda azul de
sus ramajes lánguidos
y en el silencio olvido el remolino inquieto de mi alma.
Ahora soy complacido todo tierra,
sólo un montón de tierra donde crecen florecillas salvajes
como desnudas piernas deseadas
y hay un himno en mis labios,
un himno que levanta su corola
como la púrpura de la diana en un alba con lluvia.
Por el pinar en sombra se difunden sonrisas de armonía
cuando la tarde estruja jacintos olorosos
en el cáliz temblante de los árboles.
La montaña se aleja en éxtasis de humo…
Yo espero confiado que tu inicial escrita en la piedra
vuelva a hablarme en la noche con tu voz,
con la voz del agua en el venero,
de esa agua que rompe su líquido alabastro
en el silencio verde de las hierbas.
Orange Prize
Foram anunciadas, ontem, na Feira do Livro de Londres, as seis finalistas do Orange Prize 2008, prémio que distingue escritoras de qualquer nacionalidade que tenham escrito romances em língua inglesa: Nancy Huston (Fault Lines), Sadie Jones (The Outcast), Charlotte Mendelson (When We Were Bad), Heather O’Neill (Lullabies for Little Criminals), Rose Tremain (The Road Home) e Patricia Wood (Lottery).
Nenhum dos livros está editado em Portugal.
Prémio Blaise Cendrars para Liberto Cruz
O poeta, ensaísta e tradutor português venceu a edição deste ano do Prix National Blaise Cendrars, instituído pela cidade de Vannes (Bretanha, França).
Quer ganhar 100 mil euros? Pergunte-me como
É simples. Primeiro, procure nas gavetas lá de casa se tem um romance com mais de 200 páginas pronto a editar. Caso não tenha, compre uma resma de papel e uma Remington em 15.ª mão (se for um fetichista armado em Hemingway) ou abra um ficheiro do Word e lance-se ao trabalho (se for apenas um candidato a escritor, moderno e pragmático). Quando tiver terminado a sua obra-prima, de preferência antes de 15 de Junho, leia este regulamento, trate da parte burocrática, envie tudo para a morada no Cacém e aguarde que a sorte grande ande à roda em Frankfurt, lá para Outubro. Ah, já agora não se esqueça de ler as letras pequeninas, que neste caso têm o mesmo tamanho das outras mas foram deixadas estrategicamente para os artigos finais (o 13, o 14, o 15 e o 16).
Prémio Casino da Póvoa para Ruy Duarte de Carvalho

É a primeira notícia importante a sair das Correntes d’Escritas 2008: o Prémio Literário Casino da Póvoa, no valor de 20 mil euros, foi esta manhã atribuído ao livro Desmedida, de Ruy Duarte de Carvalho (editado pela Cotovia em 2006). O júri foi composto por Maria Lúcia Lepecki, professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; Ana Paula Tavares, escritora; Luiz Fagundes Duarte, professor da Universidade Nova de Lisboa; Carlos Quiroga, professor da Universidade de Santiago de Compostela; e Patrícia Reis, escritora e editora da revista Egoísta.
Os outros oito finalistas foram Santiago Gamboa (A Síndrome de Ulisses, ASA), Mário Cláudio (Camilo Broca, Dom Quixote), Tabajara Ruas (O Amor de Pedro por João, Ambar), Lídia Jorge (Combateremos a Sombra, Dom Quixote), António Lobo Antunes (Ontem não te vi em Babilónia, Dom Quixote), Pepetela (Predadores, Dom Quixote), Mia Couto (O Outro Pé da Sereia, Caminho) e Bernardo Carvalho (O sol se Põe em São Paulo, Cotovia).
Ruy Duarte de Carvalho é neste momento objecto, no Centro Cultural de Belém, de um ciclo sobre a sua obra intitulado “Dei-me portanto a um exaustivo labor“.
Prémio Daniel Faria para José Luís Peixoto
Já é oficial: a edição de 2008 do Prémio de Poesia Daniel Faria — instituído pela Câmara Municipal de Penafiel, as Quasi Edições e os herdeiros do autor de Explicação das Árvores e de Outros Animais — distinguiu Gaveta de Papéis, de José Luís Peixoto.
Contactado pelo Bibliotecário de Babel, o responsável máximo da editora que promove o prémio, Jorge Reis-Sá, descreveu a surpresa que tomou conta do júri (de que também fizeram parte Francisco José Viegas, Tito Couto e Vera Vouga) ao abrir o envelope relativo à escolha final, verificando só então que atrás do pseudónimo se escondia um escritor de primeiro plano, curiosamente já com um livro de poesia editado nas Quasi (A Criança em Ruínas, sete edições desde 2001). “Foi mesmo uma grande surpresa, mas uma surpresa boa, porque vem dar força e credibilidade ao prémio. Enquanto editor, este desfecho enche-me de alegria e orgulho, além de que engrandece o nome do Daniel Faria”, disse Reis-Sá.
A decisão do júri, tomada por “unanimidade total e veemente”, foi a mais rápida de sempre. “Em dois minutos resolvemos o assunto, porque percebemos logo que o livro do Peixoto era, de muito longe, a primeira escolha para todos os jurados. Durante a leitura dos originais, já tinha suspeitado que se tratava de um autor experiente, com grande domínio da linguagem e das técnicas de escrita, e não alguém que envia o seu primeiro livro.”
Reis-Sá salienta ainda que o prémio não tem qualquer compensação financeira, consistindo apenas na publicação do livro pelas Quasi, algo que José Luís Peixoto conseguiria sempre, sem necessidade de passar pelo crivo de um júri. “Gostava de salientar a extraordinária humildade do Zé Luís, que ao querer ficar associado a este prémio, e ao nome do Daniel Faria, correu o risco de perder para um autor desconhecido ou, pior ainda, de receber uma mera menção honrosa.”
A edição de Gaveta de Papéis está prevista para o próximo mês de Março.
***
Entretanto, José Luís Peixoto acaba de ser igualmente distinguido em Espanha. O prémio Cálamo - Otra Mirada 2007, para livros de ficção estrangeira editados no país vizinho, foi para o romance Cementerio de Pianos, publicado pela editora El Aleph.
[Foto: JMS]
Prémio D. Dinis para Manuel Alegre
Um júri contituído por três poetas (Vasco Graça Moura, Nuno Júdice e Fernando Pinto do Amaral) atribuiu hoje a Manuel Alegre o Prémio D. Dinis, pelo livro Doze Naus, publicado em 2007 pela Dom Quixote.
Costa Book Award (ex-Whitbread) para A. L. Kennedy

A escritora escocesa A. L. Kennedy arrebatou o prémio principal dos Costa Book Awards 2007 (25 mil libras, cerca de 33,6 mil euros), numa cerimónia que decorreu ontem à noite no Hotel Intercontinental, em Londres. Sucessor do Whitbread, o Costa distingue os melhores livros do ano publicados por autores que vivam no Reino Unido e Irlanda. No início de Janeiro, tinham sido anunciados os vencedores das cinco categorias em que o prémio se subdivide, de entre os quais foi agora escolhida Kennedy, que além de romancista também faz stand up comedy.
Com Day, uma narrativa sobre o regresso à Alemanha de um aviador inglês, prisioneiro de guerra durante a II Guerra Mundial, Kennedy superou o ensaísta Simon Sebag Montefiore, biógrafo do “jovem” Staline, confirmando as previsões feitas pelas casas de apostas britânicas.
Prémio Vergílio Ferreira para Mário Cláudio
O escritor portuense, escolhido por um júri composto por José Alberto Gomes Machado, José Carlos Seabra Pereira, Isabel Allegro de Magalhães, Elisa Nunes Esteves e Clara Ferreira Alves, receberá o prémio com que a Universidade de Évora distingue, desde 1997, autores de ensaio e/ou romance no próximo dia 1 de Março, aniversário da morte de Vergílio Ferreira (1916-1996). No valor de cinco mil euros, o galardão já foi atribuído a Maria Velho da Costa, Maria Judite de Carvalho, Mia Couto, Almeida Faria, Eduardo Lourenço, Óscar Lopes, Vítor Manuel de Aguiar e Silva, Agustina Bessa Luís, Manuel Gusmão, Fernando Guimarães e Vasco Graça Moura.
“Deram-me o prémio porque me chamo Pedro”
A leitora Maria João Afonso esteve presente na entrega do Prémio Inês de Castro a Pedro Tamen, no sábado passado, em Coimbra. Após uma troca de e-mails, disponibilizou-se gentilmente a escrever para o BdB uma curta descrição da cerimónia, que desde já agradeço. Aqui fica:
S. Pedro ajudou e, no meio de dias tão chuvosos, sábado amanheceu de sol em Coimbra. Mesmo a tempo de deixar que os membros da Fundação Inês de Castro, depois de realizada a reunião do seu Conselho Geral, almoçassem e pudessem dar um agradabilíssimo passeio no renovado jardim da Quinta das Lágrimas, em Coimbra. Guiados pela autora do projecto, Cristina Castel-Branco, os passeantes aproveitaram o ar livre antes de se deslocarem para a sala onde iria decorrer a entrega do prémio literário que leva o nome da Fundação.
Instituído em 2006, o prémio foi entregue pela primeira vez este ano, facto que foi referido por vários intervenientes. Os homenageados foram Pedro Tamen por um livro de poesia publicado em 2006 e Urbano Tavares Rodrigues pelo conjunto da sua carreira.
Numa sala cheia de membros da Fundação Inês de Castro, familiares e amigos dos agraciados e público em geral, procedeu-se então à cerimónia. Presidida pelo Prof. Doutor Rui Alarcão da Universidade de Coimbra e contando com a presença da Ministra da Cultura, a sessão começou com o anúncio do prémio, tendo cabido a Frederico Lourenço a tarefa de falar sobre a obra premiada: Analogias e Dedos. Numa intervenção muito interessante e bem-humorada, assumindo a sua identidade de classicista, o professor falou de uma obra que, significativamente, nas suas palavras, começa com a palavra “Engano” e termina com a palavra “salvação”: “Trata-se de um grande poeta da literatura portuguesa, um arquitecto construtor [da língua].”
Coube então a José Carlos Seabra Pereira falar do trabalho de Urbano Tavares Rodrigues e das razões que levaram o júri, presidido por Aníbal Pinto Castro, a galardoar a carreira do escritor com um “Tributo de Consagração”. Em algumas palavras percorreu a vida e obra de Urbano Tavares Rodrigues, sublinhando a relevância das obras escritas a partir da década de oitenta.
Coube então a vez aos agraciados e, após referir o debate consigo próprio e com o papel que a escrita de poesia constitui e de se interrogar sobre as razões da atribuição do galardão, Pedro Tamen terminou de forma igualmente bem-humorada afirmando que prefere pensar que o prémio lhe foi concedido por se chamar Pedro, arrancando uma gargalhada ao público presente.
Por razões de saúde, não foi possível a Urbano Tavares Rodrigues estar presente, pelo que delegou a sua representação na neta, Sofia Fraga, que leu o texto escrito pelo avô agradecendo a homenagem.
Falou por fim a Ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, que sublinhou a importância da participação e iniciativa da sociedade civil no fomento e reconhecimento da actividade literária, aproveitando para anunciar que se prepara uma reformulação — mais uma! — dos apoios do Ministério aos prémios literários. Com umas palavras para o mecenato cultural, terminou a sua intervenção.
O prémio então entregue aos galardoados consiste num cheque de cinco mil euros e uma estatueta da autoria de Cutileiro, também presente.
Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica para Amadeu Baptista
A edição portuguesa do Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica, no valor de 2500 euros, distinguiu Amadeu Baptista pelo livro Sobre as Imagens.
Instituído pela Câmara Municipal de Vila Real de Santo António e pelo Ayuntamiento de Punta Umbria, com a colaboração da Sulscrito — Círculo Literário do Algarve, o prémio recebeu 138 originais a concurso, analisados por um júri constituído por António Carlos Cortez, Fernando Esteves Pinto e o autor deste blogue. A decisão final foi tomada por unanimidade.
Rafael Camarasa Bravo, com a obra El sitio justo, venceu a edição espanhola do Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica 2007.
Nos últimos meses, Amadeu Baptista já arrebatara três outros prémios de poesia: o Sebastião da Gama (Juntas de Freguesia de S. Lourenço e S. Simão, Azeitão), o Natércia Freire (C. M. Benavente) e o Florbela Espanca (C. M. Vila Viçosa).
As vistas curtas de Isabel Pires de Lima
Segundo o Jornal de Letras (edição de ontem), a ministra da Cultura anunciou no sábado, durante a entrega a Pedro Tamen do Prémio Inês de Castro, na Quinta das Lágrimas (Coimbra), uma revisão da política de apoios do ministério a prémios literários. Ipsis verbis, a frase de Isabel Pires de Lima terá sido esta:
«Dado que neste momento há uma série de prémios literários de vulto, emanados da sociedade civil, através de fundações ou empresas, entendo que é chegado o momento de revermos a nossa política de apoios a prémios literários.»
Confesso que a minha primeira reacção foi de espanto. Espanto e ingenuidade, porque pensei: “Olha, olha, o MC não quer ficar para trás. Se os privados se chegaram à frente (agora é a Fundação Inês de Castro que dá cinco mil euros; em Outubro será a LeYa a avançar com cem mil), o ministério acabará por rever os apoios, oferecendo melhores compensações financeiras nos prémios que patrocina [alguns da Associação Portuguesa de Escritores, por exemplo]”. Depois continuei a ler a notícia e percebi que a “revisão” dos apoios era puramente socrática. Ou seja, em baixa. Nas palavras da ministra:
«Temos que repensar a existência destes apoios financeiros. Podemos continuar a apoiar, mas de outras formas.»
Que outras formas? Não especificou, mas suspeito que o MC vai, na melhor das hipóteses, disponibilizar umas t-shirts do Plano Nacional de Leitura aos autores distinguidos. Ou umas esferográficas com o logótipo do programa Novas Oportunidades. Ou uns marcadores de livros com a éfigie de Eça de Queirós, escritor muito do agrado de Isabel Pires de Lima.
Extintas as bolsas de criação literária (durante o governo PSD/CDS) e reduzidos à insignificância os prémios financiados pelo Estado (como parece mais do que provável), deixará praticamente de existir um incentivo público à literatura feita por autores portugueses. E é preciso não esquecer que estamos a falar de verbas na ordem das poucas dezenas de milhares de euros, absolutamente irrisórias no orçamento total do MC.
São detalhes como este que revelam, em toda a sua mesquinhez, a cegueira e o miserabilismo de um governo.
Mudança de ementa chez Drouant
François Nourissier, um dos dez membros da Academia Goncourt, responsável pela atribuição do mais importante prémio literário francês, resolveu antecipar a sua saída do célebre conclave, invocando “razões de saúde” para abandonar um cargo que por natureza é vitalício. Agora, está lançado o debate sobre a necessária renovação e rejuvenescimento do júri, bem como a reforma das vetustas regras do prémio, no sentido de o tornar mais transparente.
Jorge Semprun, também membro da Academia, é o mais radical. Para ele, todos os elementos com mais de 80 anos (exceptuando Edmonde Charles-Roux, que serviria de elo de ligação intergeracional) deviam demitir-se em bloco, para que o júri possa “renascer”. Se esta ideia fosse avante, o que não parece provável, só sobrariam quatro jurados (além de Charles-Roux): Françoise Mallet-Joris, Françoise Chandernagor, Didier Decoin e Bernard Pivot.
Seja como for, a imagem do Goncourt a ser discutido à mesa, numa sala reservada do restaurante Drouant (Paris), por um comité de decanos, parece ter os dias contados.
Prémio Inês de Castro para Pedro Tamen
Na sua primeira edição, o Prémio Literário Inês de Castro (cinco mil euros) foi atribuído hoje ao livro Analogia e Dedos (Oceanos), de Pedro Tamen, que o receberá sábado, em cerimónia presidida pela ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, na Quinta das Lágrimas, Coimbra.
O prémio é uma iniciativa da Fundação Inês de Castro e pretende distinguir obras sobre a temática do mito inesiano, “podendo abranger temas tão abrangentes como a paixão, a vingança, a tragédia, a razão de Estado ou outros aspectos da representação histórico-cultural portuguesa”. Fizeram parte do júri Aníbal Pinto de Castro, José Carlos Seabra Pereira, Mário Cláudio, Fernando Guimarães e Frederico Lourenço.
Com este mesmo livro, Pedro Tamen já vencera o Prémio Luís Miguel Nava.
Prémio Nadal
O escritor Francisco Casavella ganhou a 64.ª edição do Prémio Nadal, no valor de 18 mil euros, com Lo que sé de los vampiros, um romance cuja acção decorre no século XVIII, durante as perseguições aos jesuítas por parte do rei Carlos III.
PS — Por falar em prémios literários espanhóis, esqueci-me neste post de referir o Planeta, que é o que mais se aproxima do que o LeYa pretende vir a ser. Além de oferecer quantias verdadeiramente chorudas (601 mil euros ao vencedor; 125 mil ao finalista), é promovido pelo maior grupo editorial de Espanha. Nos últimos anos, tem sido fustigado por numerosos escândalos: desde acusações de plágio a críticas do júri à qualidade das obras premiadas e insinuações de que os premiados são decididos de antemão. Por estas e por outras, o seu prestígio esfumou-se, sendo literariamente mais importante ganhar, por exemplo, o modesto mas impoluto Nadal.
LeYa

A marca LeYa (com y maiúsculo, segundo o Público) foi hoje apresentada, no Centro de Congressos do Estoril, por Isaías Gomes Teixeira, administrador da holding de Miguel Pais do Amaral. Além da intenção já antes demonstrada de fazer com que o projecto “cresça” (previsão de mil novos títulos em 2008 e um volume de negócios de 90 milhões de euros, tendo como objectivo tornar-se, em breve, «o maior grupo editorial de toda a área da língua portuguesa»), houve duas grandes novidades:
- O esclarecimento de que cada editora manterá a sua chancela antecedida pelo nome do grupo. Ou seja, teremos a LeYa-Caminho, a LeYa-Dom Quixote, a LeYa-Asa, etc. (A marca LeYa foi criada pelo publicitário Carlos Coelho, que a considera «nobre, simbolizando o Y a abertura da nossa língua».)
- O anúncio da criação do prémio literário LeYa, no valor de 100 mil euros, para um romance inédito escrito em português, a atribuir durante a Feira de Frankfurt (com a ideia de “exportar” os “nossos autores”). O regulamento será conhecido a 15 de Fevereiro.
Quanto ao primeiro ponto, parece-me que haverá inevitavelmente uma descaracterização da identidade de cada uma das editoras, agudizada pelo previsível nivelamento das linhas gráficas. Ter o nome da holding à frente (e não atrás) da designação original das editoras, empobrece-as, coloca-as em segundo plano, exibe de forma quase hostil quem realmente manda. E, para piorar as coisas, a marca LeYa é de uma pobreza franciscana. Fora o imperativo fonético (leia!), não diz absolutamente nada. Parece um nome made in China, um nome da loja dos trezentos. Já para não dizer que o simbolismo do Y enquanto «abertura da nossa língua» (abertura a quê ou de quê?) é um rotundo disparate, a começar pelo facto da letra tão na moda (veja-se a Byblos) não existir sequer no alfabeto português.
O prémio literário levanta-me ainda mais dúvidas. Cem mil euros é muito dinheiro. Ou seja, tanto como o atribuído pelo Prémio Camões, de longe o mais importante do espaço da lusofonia, mas que distingue uma carreira (como o Nobel) e não um livro concreto. Neste campeonato, digamos assim, o LeYa não tem rival à altura na CPLP: o Prémio PT de Literatura em Língua Portuguesa atribui um total de 70 mil euros (mas apenas 37.500 para o vencedor), o Prémio Saramago ”fica-se” pelos 25 mil euros e o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores não ultrapassa os 15 mil euros. Na verdade, o LeYa pede meças aos principais prémios do mundo anglófono, sendo superior ao Costa Book Awards (40 mil euros) e mesmo ao tão mediático Man Booker Prize (cerca de 67 mil euros), ficando apenas aquém do maior prémio para um livro: o IMPAC Dublin (127 mil euros).
Financeiramente, o LeYa vai ser incontornável. Resta saber qual a sua credibilidade. É que se alguns dos prémios atrás referidos são patrocinados por empresas assumidamente não-literárias (especialistas em investimentos alternativos, café ou sistemas de controlo), o LeYa vai ter como patrono uma holding editorial. Como é que vão ser geridos os conflitos de interesses? Se o prémio é aberto a todos os autores de língua portuguesa, será que os escritores publicados pela LeYa podem participar? Por outro lado, se os nomes fortes da casa ficarem de fora (como a lógica e a transparência exigem), que interesse é que a LeYa terá em premiar e promover autores de outras editoras ou grupos concorrentes?
Ainda há aqui muitas zonas de sombra. Esperemos que se dissipem no dia 15 de Fevereiro.
PS — Estou muito curioso de saber que figuras serão convidadas para o júri…
PS 2 — O objectivo de “internacionalizar” os autores lusófonos, anunciando o prémio em Frankfurt, revela ambição. Mas, é bom dizê-lo, também alguma ingenuidade. Sabendo-se que por aqueles dias os suecos revelam a identidade do Nobel da Literatura, alguém vai ligar alguma coisa ao vencedor do prémio português com nome patusco?
[Foto: DN]
A vitória da ex-carteira
Catherine O’Flynn, que ganhou quarta-feira o prémio Costa (antigo Whitbread) para primeiro romance, é um exemplo de perseverança: o seu livro, What Was Lost, foi recusado 14 vezes mas ela não desistiu. Aos 37 anos, O’Flynn já fez de tudo: foi professora, carteira, funcionária de uma loja de discos e cliente-mistério. Sobre o triunfo que lhe abre as portas para uma carreira estável de escritora, disse: “I hope it does give people hope. It’s very hard to get published and it’s hard if you go in there with this burning ambition. I didn’t have that, I was protected by my natural pessimism.“
Costa Book Awards 2007
Já se conhecem os vencedores das cinco categorias do Costa Book Awards relativo a 2007:
- Primeiro romance - What was Lost, de Catherine O’Flynn
- Romance - Day, de A. L. Kennedy
- Biografia - Young Stalin, de Simon Sebag Montefiore
- Poesia - Tilt, de Jean Sprackland
- Literatura Infantil - The Bower Bird, de Ann Kelley
Cada um dos autores premiados recebe cinco mil libras (cerca de 6,8 mil euros). De entre eles será agora escolhido o Costa Book of the Year, a anunciar no próximo dia 22, com um prémio suplementar de 25 mil libras (cerca de 34 mil euros).
Mais um prémio para Amadeu Baptista
O poeta Amadeu Baptista acaba de ser distinguido com o Prémio Literário Florbela Espanca 2007 (Câmara Municipal de Vila Viçosa), no valor de 2500 euros, pela obra Outros Domínios. A concurso apresentaram-se 104 trabalhos. Foram ainda atribuídas duas Menções Honrosas a Espaço Livre com Barcos, de Graça Pires, e Quebranta Água do Tempo, de Luís Aguiar.
Anunciado o júri para o Man Booker Prize 2008
A 40.ª edição do Man Booker Prize, o mais importante dos prémios literários atribuídos a escritores da Commonwealth, no valor de 50 mil libras (quase 70 mil euros), vai ter um júri “ecléctico”: liderado por Michael Portillo, ex-coqueluche dos conservadores ingleses, transformado em homem de letras desde que abandonou a política, o grupo inclui Alex Clark (jornalista literário), Louise Doughty (romancista), Hardeep Singh Kholi (comediante que trabalha na rádio e na televisão) e James Heneage (fundador da cadeia de livrarias Ottakar).
Como habitualmente, a longlist (12 ou 13 títulos) é revelada no início de Agosto e a shortlist (seis livros) no começo de Setembro. O vencedor será conhecido a 14 de Outubro, no Guildhall, em Londres. Em 2007, o Booker foi para Anne Enright, pelo romance The Gathering, que acaba de chegar às livrarias portuguesas com o título Corpo Presente (Gradiva).
Mais informações aqui.


Receba por e-mail


