Os dias do fim

Telex de Cuba
Autora: Rachel Kushner
Editora: Relógio d’Água
Título original: Telex from Cuba
Tradução: Jorge Pereirinha Pires
N.º de páginas: 352
ISBN: 978-989-641-512-9
Ano de publicação: 2015

No início de 2014, a publicação pela Relógio d’Água de Os Lança-Chamas, segundo romance de Rachel Kushner, permitiu aos leitores portugueses a descoberta de uma das mais fascinantes, e justamente aclamadas, escritoras americanas do nosso tempo. Entre a cena artística das vanguardas nova-iorquinas dos anos 70 e a agitação política de Itália na época das Brigadas Vermelhas, Kushner conduzia-nos à velocidade estonteante da mota de Reno, a sua protagonista, pelos meandros de uma narrativa que cobre quase todo o século XX. Mais do que um mero tour de force, o opus 2 de Kushner é um prodígio de técnica literária, erudição, inteligência e capacidade de entendimento da natureza humana.
Ao descobrirmos, agora, em ordem inversa, o primeiro romance (originalmente editado em 2008), o espectro de uma eventual desilusão desfaz-se ao fim de meia dúzia de páginas, assim que reencontramos o tom característico da autora e a qualidade superlativa da sua prosa. Menos ambicioso do que Os Lança-Chamas, o foco de Telex de Cuba restringe-se ao momento da retirada norte-americana da ilha, após a queda de Fulgencio Batista e a chegada ao poder de Fidel Castro. Como matéria narrativa, pode parecer circunscrito, mas Kushner sabe que há ali uma extraordinária complexidade – política, económica, social – à espera de ser revelada. Basta perscrutar, com olhos de ver, cada interstício das múltiplas camadas que compunham a sociedade cubana na década de 50.
O epicentro da narrativa é a região leste da ilha, superlativamente descrita na sua crueza tropical. Em Preston, tudo pertence à United Fruit Company: as plantações de cana-de-açúcar a perder de vista, a fábrica, os comboios, as casas luxuosas de La Avenida, onde as famílias dos administradores vivem numa espécie de casulo, como se estivessem nos States. Já os americanos de Nicaro tendem a queixar-se da «fina poeira avermelhada» que sai das chaminés da fábrica de óxido de níquel e cobre todas as coisas («até o próprio calor» parece ter cor de ferrugem). Uns e outros encontram-se em festas, encenando o fausto colonial dos expatriados que só estão ali, naquele «paraíso» dúbio, porque falharam noutro lugar qualquer. Kushner penetra fundo na paz podre das tensões familiares, das neuroses e paixões proibidas, dos impasses conjugais, muitas vezes apenas intuídos pelas personagens infantis. Mas o seu olhar é transversal, tão depressa se detém neste microcosmo em risco (há incêndios, sabotagens, rebeldes nas montanhas preparando o ataque definitivo), como mostra a existência miserável dos trabalhadores explorados, ou os labirintos do poder em Havana, que se estendem até à penumbra azul do Cabaré Tokyo, palco de uma improvável história de amor entre uma corista e um agitador francês. Este, La Mazière, figura real que em tempos se alistou nas SS, negociante de armas que fornece ditadores (Trujillo, Duvalier), acaba juntando-se a Fidel, só para assistir, melancólico, ao triunfo dos heróis românticos e ao fim do arco revolucionário que se esgota «no próprio facto da sua instauração».
Kushner cartografa o impacto da fuga, e suas perdas, na imensa galeria de personagens. Mas dá-nos sobretudo esses elementos quase impalpáveis que conferem espessura às vidas narradas. Há nestas figuras – frágeis, voláteis – uma verdade que reverbera. No navio do regresso, já resignados, despedem-se: «Isto é tão bonito sem nós.»

Avaliação: 9/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges