No melhor pano cai a nódoa

A páginas 263 do romance de Rawi Hage, o protagonista (Bassam) fica fascinado com a forma como a empregada do hotel parisiense onde ficou a dormir sacode os lençóis da cama. Ele contempla os lençóis a “descerem vagarosa e elegantemente”, acompanha os gestos da rapariga e dá livre curso às suas fantasias sexuais:

«Quando lhe ofereci um cigarro, ela sorriu e disse que não fumava. Pegou no meu cinzeiro e esvaziou-o para um saco. Perguntei-lhe o nome. Perguntei-lhe de que país era. E quando lhe peguei na mão e exclamei: “Linda de Portugal, vou esperar que venhas ao meu quarto todos os dias! Deixa-me acariciar-te o peito, deixa-me cair suavemente sobre ti”, ela já tinha retirado a mão e saído apressada do quarto, empurrando o carrinho das limpezas para o elevador de serviço, enfiando a cabeça entre as portas antes que se fechassem para se certificar de que eu não a seguira e não a segurara pela cintura e não lhe ofereçera dinheiro e não lhe soprava à orelha e não carregava no botão de stop do elevador e não lhe desapertava o avental branco.
Depois disto, foi um homem mais velho quem veio limpar o meu quarto. Empurrava o mesmo carrinho e lançava-me olhares que diziam: “Eu conheço-te, eu conheço os do teu tipo, o tipo daqueles que se sustentam à custa de ajudantes de cozinha, de mães solteiras que trabalham arduamente, de trabalhadoras ilegais e de empregadas de limpeza silenciosas.” Não me cumprimentou, antes me tratou com desdém, tornando o voo suave dos lençóis brancos numa queda suicida, num acidente de aviação, privando-me das aterragens suaves feitas com as mãos de Linda, pelas quais eu tanto ansiava.
– Onde é que está a Linda? – perguntei-lhe.
Ele falou comigo com hostilidade, num francês com um forte sotaque português.
– Mantém-te afastado da minha sobrinha, percebe isso! – disse ele, cuspindo na carpete e precipitando-se violentamente para a porta que fechou atrás de si.»

Como se não bastasse esta cena, uma das poucas excrescências do livro, com o seu chorrilho de lugares-comuns (a femme de ménage do hotel parisiense que é portuguesa e se chama Linda, só faltando ser de Suza; a pose de ofendida da moçoila; o tio cioso da sua eventual virgindade, a cuspir na carpete e tudo), como se não bastasse este momento etnográfico de pacotilha, Hage volta à carga umas páginas mais à frente e coloca Bassam, arrependido, a tentar pedir desculpa ao tio de Linda. Numa perseguição rua fora, interpela-o 15 vezes com um insistente “Señor” (assim mesmo, em castelhano) até que o tio, farto daquilo tudo, arruma o assunto gritando “Conyo!“.
Alguém devia ter explicado ao escritor libanês a diferença subtil entre o idioma de Camões e o de Cervantes. Além disso, se o “senhor” português dispensa o “ñ”, não é menos verdade que ele é essencial no “coño” espanhol (interjeição que um português, por outro lado, jamais utilizaria, mesmo com um libanês muito chato à perna).
O mais grave, porém, não é a ignorância de Hage no campo das línguas ibéricas. O mais grave é saber que isto passou pelos olhos da tradutora (e dos revisores) sem que ninguém dissesse: “Não faz sentido, o melhor é contactar o autor, explicar-lhe a situação e corrigir o disparate.”

De lado

Rawi Hage responde a perguntas dos seus leitores, enquanto imita descaradamente um certo autor português.

Enquanto as bombas caem

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Como a Raiva ao Vento
Autor: Rawi Hage
Título original: De Niro’s Game
Tradução: Teresa Fernandes Swiatkiewicz
Editora: Civilização
N.º de páginas: 284
ISBN: 978-972-26-2614-9
Ano de publicação: 2008

Natural de Beirute, Rawi Hage (n. 1964) está radicado há 15 anos no Canadá, onde escreveu este belíssimo primeiro romance directamente em inglês (a sua terceira língua, depois do árabe e do francês). Em Junho, foi-lhe atribuído o valioso IMPAC Dublin Literary Award – deixando para trás figuras de peso, como Philip Roth, Thomas Pynchon ou Martin Amis.
Para comprovar que a euforia em torno de Hage se justifica, basta ler as primeiras páginas do livro. Na Beirute de início dos anos 80, dividida ao meio pela guerra civil, deparamos com uma aproximação ao Inferno: bombas caindo sem parar, escombros e mais escombros, gritos e poeira, falta de água, violência gratuita, o cheiro da morte e a realidade desdobrando-se com a vertigem absurda das alucinações. Deste cenário dantesco emergem então o narrador, Bassam, e o seu melhor amigo, George, dois rapazes de “camisas abertas com o maço de Marlboro preso nas mangas enroladas, refugos da escola, niilistas implacáveis com armas”.
Bassam trabalha no porto, manobrando um guindaste; o outro numa casa de jogos. Fumam haxixe, seduzem raparigas, andam de moto pelo sector Oriental com gasóleo roubado, metem-se em esquemas para arranjar dinheiro e outros sarilhos característicos da pequena criminalidade. Não sabem o que é o medo. Ignoram as balas dos snipers e nunca descem aos abrigos, nem mesmo quando as explosões se aproximam tanto que desfazem o vidro das janelas, porque morrer só faz sentido “a céu aberto”.
A amizade começa a vacilar no dia em que George adere a uma milícia cristã, mais tarde envolvida no massacre de palestinianos em Sabra e Shatilla. As traições sucedem-se, Bassam fica isolado e afunda-se aos poucos, depois de passar por várias experiências-limite: a orfandade, a prisão, a tortura, o prazer da vingança, o cerco do desencanto mais negro. Quando já não há escapatória, foge de barco para Marselha e daí para Paris, só para descobrir que as histórias deste tipo são sempre mais complexas do que aparentam.
Hage atravessa estas águas turvas com impressionante à-vontade e a arquitectura romanesca mostra-se capaz de resistir a sismos com oito graus na escala de Richter. Por exemplo, a longa elipse que permite transferir para as últimas páginas a cena central do livro (um jogo de roleta russa inspirado no filme O Caçador) é simplesmente magistral. O que eleva a escrita de Rawi Hage acima da média, porém, são os seus recursos estilísticos, a sua toada poética que tanto se alimenta das mais delicadas construções verbais da lírica árabe como das simbologias bíblicas (veja-se a repetição sistemática do número “dez mil”, a que se refere a epígrafe retirada do Livro de Ezequiel).
Hage não só domina a arte do diálogo e controla muito bem o ritmo da prosa, apostando em cenas curtas mas muito intensas, como cria surpreendentes nós de intensidade dramática, através de efeitos de acumulação que se sobrepõem à ordem narrativa linear, iluminando-a e conferindo-lhe uma espécie de textura quase táctil. Eis um exemplo:

“Saltei para a motocicleta do George, sentando-me atrás dele, e dirigimo-nos para as ruas principais, onde as bombas tinham caído, onde, certa vez, uns diplomatas sauditas tinham ido buscar umas prostitutas francesas, onde os antigos Gregos haviam dançado, onde os Romanos se haviam instalado, os Persas afiado as espadas, os Mamalucos saqueado a comida da terra, os Cruzados comido carne humana e os Turcos escravizado a minha avó.”

Outro exemplo:

“No terraço havia um grande barril de água, sob o qual eu costumava esconder coisas. Tirei um pedaço de mangueira, enrolei-a em volta da cintura e esperei que o George aparecesse. A Lua estava redonda e pairava sobre a minha cidade. Nós, eu e a Lua, observávamos as velas acesas que tremeluziam calmamente nos quartos das jovens virgens que se vestiam para ir dormir, enfiando-se nas suas camas de solteiras, atirando os cabelos penteados sobre as almofadas de penas de ganso, enchidas por avós, portadoras de nomes como Djamilé e Georgette, encobrindo os pêlos púbicos sob os lençóis de algodão e seda, sonhando com homens brancos sem pêlos e com carros desportivos, trajando fatos provincianos e contando contos de fadas numa língua estrangeira, em segredo, de tal modo que os dedinhos dos seus pés se encolhiam sob os lençóis, longe dos olhares das suas mães.”

Avaliação: 8,5/10

[Versão ampliada de um texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Todos amigos

«Atravessei as vielas de caminho para o casino, passei pela casa de Um-Sami, a modista, abandonada pelo marido que a trocou por uma criada egípcia. Estava a espetar umas agulhas no vestido de uma jovem noiva, cujo casamento iria decorrer numa capelinha ao som da gravação electrónica de uns sinos de meter dó, que arranhava como discos velhos dos anos trinta, e cujo pai tinha aceitado para genro um engenheiro canadiano de meia-idade, e cuja mãe andava atarefada a amassar pão e a juntar cadeiras e a picar salsa para o grande dia e cujo irmão planeava disparar a arma para o ar em honra do desfloramento oficial da irmã e cujo primo a haveria de conduzir, no seu carro polido e comprido, até à igreja e, depois, até ao navio atracado no Mar Mediterrâneo. O mar que está cheio das lágrimas dos faraós, dos destroços dos navios piratas, dos ossos dos escravos, dos afluentes dos esgotos e de tampões franceses.
No lado oposto ao da modista, Abu-Dolly, o merceeiro, abanava e enxotava as moscas para longe da sua cara em direcção às hortaliças apodrecidas. Abu-Afife jogava gamão com o seu sobrinho Antoine. Claude continuava à caça de um marido.
– Não hei-de ser eu! – disse-lhe. – Não hei-de ser eu.
O céu estava de um azul profundo e dele caíam fortuitamente balas e bombas. Olhar para o céu da nossa terra era como ver a morte mergulhar sobre nós – nós, um charco de água numa rua curva, um mar salgado povoado por cantarilhos, uma cama de corda para os rapazes saltarem; nós, umas cuecas bordadas, nas quais uns pés de dedos pintados se enfiam, uma bainha de diamante para uma adaga recurvada; nós…
Ao passar pela casa de Nabila, decidi deter-me e ir vê-la. Ela abriu a porta e quedou-se quieta e calada, apenas respirando.
– Andas outra vez à procura do teu amigo? – perguntou-me.
– Aqui somos todos amigos – repliquei.

[in Como a Raiva ao Vento, de Rawi Hage, trad. de Teresa Fernandes Swiatkiewicz, Civilização, 2008]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges