Primeiros parágrafos

«Naquele dia 25 de Junho, por volta das quatro da tarde, tudo parecia pronto para a coroação de Talu VII, imperador do Ponukelé, rei do Drelchkaff.
Apesar do Sol declinante, o calor sufocava naquela região de África, vizinha do Equador, e cada um de nós sentia-se duramente incomodado pela tempestuosa temperatura que a brisa não conseguia alterar.
Diante de mim, estendia-se a enorme Praça dos Troféus, situada no coração de Ejur, imponente capital composta por inúmeras palhotas e banhada pelo Oceano Atlântico, cujos longínquos bramidos podia ouvir à minha esquerda.
O quadrado perfeito da esplanada estava delimitado por uma fileira de sicómoros centenários; as armas, profundamente enterradas na casca de cada tronco, sustinham cabeças cortadas, ouropéis, adornos de todos os géneros, ali amontoados por Talu VII ou pelos seus antepassados no regresso de muitas campanhas triunfais.»

[in Impressões de África, de Raymond Roussel, trad. de Júlia Ferreira e José Cláudio, Relógio d’Água, 2011]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges