Tinta da China publica mais crónicas de Ricardo Araújo Pereira

Depois das óptimas vendas conseguidas com Boca do Inferno, o primeiro volume das crónicas publicadas semanalmente na Visão por Ricardo Araújo Pereira, a Tinta da China volta à carga, certamente com os olhos postos no Natal. A acompanhar as cem Novas Crónicas da Boca do Inferno, quase a chegarem às livrarias, vale a pena descobrir (e montar) a versão ilustrada, «a cores», da crónica IKEA: enlouqueça você mesmo.
Um excerto:

«Toda a gente está convencida de que o IKEA vende móveis baratos, o que não é exactamente verdadeiro. O IKEA vende pilhas de tábuas e molhos de parafusos que, se tudo correr bem e Deus ajudar, depois de algum esforço hão-de transformar-se em móveis baratos. É uma espécie de Lego para adultos. Não digo que os móveis do IKEA não sejam baratos. O que digo é que não são móveis. Na altura em que os compramos, são um puzzle. A questão, portanto, é saber se o IKEA vende móveis baratos ou puzzles caros. (…)
É claro que há aspectos positivos: as tábuas já vêm cortadas, o que é melhor do que nada. O IKEA não obriga os clientes a irem para a floresta cortar árvores, embora por vezes se sinta que não faltará muito para que isso aconteça. Num futuro próximo, é possível que, ao comprar um móvel, o cliente receba um machado, um serrote e um mapa de determinado bosque na Suécia onde o IKEA tem dois ou três carvalhos debaixo de olho que considera terem potencial para se transformarem numa mesa-de-cabeceira engraçada.»

Na contracapa, em vez de amontoar blurbs, RAP optou por fazer mais um dos seus exercícios de autodepreciação, explicando que o seu é «um livro no qual a mais fina ironia e o humor requintado se juntam e resolvem não entrar».

Lançamento de ‘Se me Comovesse o Amor’

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Ricardo Araújo Pereira, Francisco José Viegas, Pedro Mexia e Jorge Reis-Sá

Foi uma coisa nunca vista. Na Casa Fernando Pessoa, quinta-feira ao fim da tarde, juntaram-se mais de 100 pessoas, talvez 150 (nunca tive jeito para calcular multidões a olhómetro, fossem pequenas ou grandes, como fazem os polícias nas manifs), mais de uma centena de cidadãos portugueses que atravessaram a Lisboa entupida do fim da tarde até Campo de Ourique, para aí um quinto do total de leitores de poesia recenseados (a fazer fé nas tiragens), enfim, gente que nunca mais acabava, ocupando todas as cadeiras, encostando-se às paredes, sentada nos degraus das escadas, em bicos dos pés para tentar ver alguma coisa, gente habituée destas coisas e gente que não costuma ir a estas coisas, de repente ali todos juntos para assistir ao lançamento do livro Se me Comovesse o Amor, de Francisco José Viegas (o director da CFP), apresentado por Pedro Mexia antes de Ricardo Araújo Pereira se estrear na qualidade de diseur.
E é aqui, claro, que está a explicação do fenómeno. Ricardo Araújo Pereira tem hoje um estatuto semelhante ao de uma estrela pop ou de um futebolista de topo. Onde vai, leva uma multidão atrás, mais os flashes dos fotógrafos e as câmaras televisivas (neste caso já devidamente actualizadas: SIC em vez de RTP). A enchente deveu-se a ele, acho que ninguém terá ilusões quanto a isso, mas o Ricardo, magnânimo e meio embaraçado, teve a elegância de não roubar o protagonismo ao anfitrião.
Depois de umas breves palavras de Jorge Reis-Sá, editor das Quasi, falou Mexia. Com desenvoltura e graça, apesar de ter deixado cair algumas piadas que anotara no moleskine (por estar presente Mota Amaral, “uma ex-segunda figura do Estado”). Sem entrar em grandes detalhes analíticos, Mexia explicou que o novo livro vem na sequência das obras mais intimistas que se seguiram a Metade da Vida, antologia que era também um balanço de vida. Aos poemas, dividiu-os em três tipos: 1) poemas “contemplativos”, reflexos de viagem por geografias do “fim do mundo” (até ao Sul mais longínquo, para lá da Patagónia, “onde nem Chatwin chegou”), cheios de enumerações e de uma enorme desconfiança em relação à capacidade da “literatura” descrever o real; 2) poemas de um “romantismo magoado” (na linha do que se pode ler no anterior A Noite, O Que É?, também de 2007), evocações melancólicas de um sujeito que procura, apesar de tudo, a “felicidade” e a “substância do amor” nos gestos mais vulgares e quotidianos, embora não ignore o efeito dissipador do tempo sobre as coisas; 3) por fim, O beijo de um académico em Paris, longo poema sarcástico, crítica às gerações anteriores (nomeadamente a de Maio de 68) e à forma como quiseram transpor para a arte os ímpetos revolucionários, um longo poema muito diferente dos outros todos e que acaba por ser um “corpo estranho” dentro do livro. Mexia disse ainda que não encontra grandes diferenças entre a escrita poética de FJV e a prosa dos seus últimos romances (Lourenço Marques e Longe de Manaus). “A linguagem é a mesma.”
Logo a seguir, Ricardo leu os poemas e deixou-me aliviado. Caramba, o homem afinal não é perfeito. Há pelo menos uma coisa em que ele não é bom. Mesmo nada bom. Bastante fraquinho, até. A bem dizer, uma nódoa: sentido do ritmo oscilante, voz monocórdica, problemas de dicção e uma expressividade digna de amanuense forçado a ler alto a portaria 1372/2007 do Diário da República. O humorista não queria que se rissem da (ou durante a) sua leitura e pelo menos isso conseguiu.
Depois de RAP, Francisco José Viegas a ler os seus poemas soou a Mário Viegas. O poeta agradeceu à Casa Fernando Pessoa a cedência do espaço (ai o sentido da ironia) e comoveu-se ao partilhar os próprios versos (sem ironia nenhuma). Fecho em beleza, muitos aplausos, apoteose, entusiasmo e atropelo para conseguir um autógrafo.
Conclusão: embora não dê uma para a caixa a ler poemas, exige-se a presença de Ricardo Araújo Pereira em todos os lançamentos de livros de poesia na zona da Grande Lisboa até Setembro (data do regresso à televisão). Afinal, foi para que isto se pudesse fazer que os Gato Fedorento entraram em licença sabática, não foi?

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges