Primeiros parágrafos

«Receoso do ímpeto da sua montada, um orgulhoso baio espanhol, Pierre Roger de Beaufort pôs pé em terra queixando-se do mau tempo. É estimulante ouvir como blasfema num latim puríssimo e diáfano um dos homens mais poderosos da cristandade, sobretudo se considerarmos que este servidor de Deus tem apenas vinte anos. Embora, com efeito, a queixa do cardeal diácono, futuro Gregório XI, não pareça desproporcionada, porque chove ininterruptamente há duas semanas, concretamente desde que De Robertis se trancou na torre de menagem do castelo de Sansepolcro para completar a sua última obra.
Beaufort entrega a um fâmulo as rédeas do seu cavalo com mão habituada a conceder e a tirar. É a mão de um príncipe da Igreja, órgão que unge e condena, sinédoque do objetivo ecuménico que representa, mão que no futuro será recordada nos livros de texto como a do último francês que guardou entre os mortais as chaves do Céu.
Entretanto, na parede norte da torre de menagem do castelo de Sansepolcro, como uma oferenda inscrita num cubo de pedra, outras mãos, as de De Robertis, concluíram o fresco que, ocupando apenas quatro metros quadrados, ameaça derrubar um antigo mundo de princípios.
Aos pés da pintura, vestígios de uma tarefa tão humilde como imperecível, podem ver-se pedaços de parede, cachos de uvas e caroços de cerejas, umas sandálias rebentadas, uma ânfora com azeite grego que destila lágrimas perfumadas.»

[in A Luz é Mais Antiga que o Amor, de Ricardo Menéndez Salmón, trad. de Helena Pitta, Assírio & Alvim, 2013]

Disfarçar a mentira

«Perverter a realidade através da linguagem, conseguir que a linguagem diga o que a realidade nega, é uma das maiores conquistas do poder. A política transforma-se, assim, na arte de disfarçar a mentira.
(…) Ninguém como o político perverteu tanto o sentido das palavras, de todas as palavras; nem sequer o mais recalcitrante fideísta. E se, como pretendia Heraclito, a alma humana se parece com uma aranha que acorre velozmente a qualquer lugar da sua teia quando sente uma das suas partes danificada, o político é uma aranha que acorre velozmente ao depósito comum da linguagem cada vez que se sente atacado por algum dos seus adversários.
(…) Somos repetidamente ludibriados, despojados da nossa honra, compelidos a comungar essa hóstia cheia de náusea a que eles chamam democracia, justiça ou liberdade. Todas estas palavras, na realidade tão profundas que deveriam queimar a língua de quem as pronuncia sem respeito, perderam o seu significado, a ponto de soarem aos nossos ouvidos como a música de Verão, ou como uma prece aprendida na catequese quando éramos crianças.»

[in O Revisor, de Ricardo Menéndez Salmón, trad. de Helena Pitta, Porto Editora, nas livrarias a partir do dia 27 de Janeiro]

Uma terceira vida para editar

«Una de las mayores satisfacciones de mi vida no me la han procurado los libros que he escrito, sino los libros que he editado. En cierta medida, no me siento capaz de discriminar del todo mi faceta de creador de mi faceta de editor. O, dicho de otro modo, comprendo que el acto de editar se parece mucho más de lo que comúnmente consideramos al acto de escribir. También aquí hay que seducir, asumir riesgos y atreverse a soñar. (…) Decía Borges que hubiera necesitado dos vidas para sentirse satisfecho: una para leer y otra para escribir. Quizá se le olvidó mencionar ese tercer camino, el de la edición, que integra lo mejor de ambos mundos y enseña, como una imperecedera lección de humildad, qué hermoso, necesario y noble sigue siendo este viejo arte de dotar de sentido al mundo mediante la palabra.»

Excerto de um artigo publicado na edição desta semana do suplemento Babelia (El País) por Ricardo Menéndez Salmón, escritor espanhol que hoje à tarde autografou livros na Feira do Livro de Lisboa (espaço da Porto Editora).

Uma das palavras mais curtas

Derrocada
Autor: Ricardo Menéndez Salmón
Título original: Derrumbe
Tradução: Helena Pitta
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 176
ISBN: 978-972-0-04511-9
Ano de publicação: 2010

Em Promenadia, cidade costeira imaginária (mas muito parecida com a Gijón onde nasceu e vive Menéndez Salmón), há um serial killer à solta. Um assassino metódico que lê Montaigne e Kafka, mata com frieza clínica e deixa sempre um sapato desemparelhado da vítima anterior como marca autoral. Manila, um dos cinco detectives que perseguem o criminoso, não ignora o alcance do que tem entre mãos: «Estamos a tratar do Mal, com maiúscula. Uma das palavras mais curtas; uma das viagens mais longas». Não muito depois, relembrará aos colegas uma citação de Thomas Hobbes: «No dia em que vim ao mundo, a minha mãe pariu gémeos: eu e o meu medo.»
É justamente desse Mal com maiúscula e do medo que ele espalha à sua volta, como veneno, que se alimenta este romance perturbador, segundo volume de uma trilogia que impôs Menéndez Salmón como um dos mais interessantes escritores espanhóis da actualidade. O primeiro volume, A Ofensa, sobre um soldado dos exércitos de Hitler que suspende os «vínculos com a realidade» depois de assistir a um massacre de inocentes, foi publicado pela Porto Editora em 2009, quase em simultâneo com a edição em Espanha, pela Seix Barral, do livro que fecha a trilogia, El Corrector (O Revisor), uma derradeira reflexão sobre o mal enquanto entidade omnipresente no nosso tempo, com os atentados de 11 de Março na estação de Atocha em fundo.
Se Derrocada começa num registo de thriller hiper-violento, elíptico, de frases curtas e imagens brutais, «usando a linguagem como se fosse um machado», depressa percebemos que a Salmón não interessa o horror circunscrito a uma pessoa (o assassino e o rasto das suas abominações) mas o modo como a ameaça da violência pode destruir, a partir de dentro, uma comunidade. Surge então uma história paralela que ecoa e amplifica a do serial killer. É a saga dos Arrancadores, três rapazes que se entregam a um niilismo nascido do tédio, sem objecto concreto nem ideologia, mera revolta pela revolta, cheia de raiva contra a sociedade da abundância e do espectáculo. Depois de colocarem agulhas em garrafas de leite e de misturarem estricnina na água das fontes públicas, levam a cabo o atentado total, a destruição do Corporama, parque temático gigantesco com a forma do corpo humano, símbolo da «feira de simulacros» em que o mundo se transformou.
No final, não há saída para o negrume, não há redenção pessoal ou colectiva. O detective Manila transforma-se naquilo que era suposto combater e a verdade mais dura, mas também mais lúcida, surge num dos cadernos escritos pelo assassino: «O mal não precisa de prova ontológica, nem de redução ao absurdo, nem de fé ou de profetas. (…) É o bem que precisa de um porquê, de uma causa, de um motivo. É o bem que, na realidade, constitui o mais profundo dos enigmas.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 89 da revista Ler]

O que aí vem (Porto Editora)

Derrocada

Depois de ter publicado em 2009 o excelente A Ofensa, a Porto Editora reincide com Ricardo Menéndez Salmón (e ainda bem). No final deste mês, haverá nas livrarias portuguesas novo livro do escritor espanhol: A Derrocada. Salmón vai ser um dos convidados estrangeiros das Correntes d’Escritas, que decorrem entre 24 e 27 de Fevereiro, na Póvoa de Varzim.

Um Homem: Kurt Crüwell

A Ofensa
Autor: Ricardo Menéndez Salmón
Título original: La Ofensa
Tradução: Helena Pitta
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 128
ISBN: 978-972-0-04502-7
Ano de publicação: 2009

A 1 de Setembro de 1939, quando completa 24 anos, o alfaiate Kurt Crüwell tem o destino traçado: herdará um dia a loja do pai, casará com a namorada (uma dactilógrafa judia) e circulará no mundo pequeno-burguês de Bielefeld. Acontece que Adolf Hitler, nesse mesmo dia 1 de Setembro, ordena a invasão da Polónia, o que muda tanto o curso da História como o futuro pacato de Crüwell.
Destacado para o 19.º Corpo Blindado do 6.º Exército, Kurt deixa-se apanhar pela euforia militar nazi em Saarbrücken, onde «tudo eram grinaldas, bandeiras ao vento, veículos velozes em cujas carroçarias se espelhavam os lombos dos corcéis e o cetim das braçadeiras». A «besta loura» prepara-se para conquistar o mundo e o poder das suas tropas parece invencível. Sem ter que disparar um tiro, limitando-se a conduzir num sidecar o seu superior hierárquico (Hauptmann Löwitsch), Kurt deambula pela França ocupada e encanta-se com o ambiente artístico de Montmartre. Quando a sua divisão chega a Nantes, porém, a realidade da guerra mostra-lhe por fim o seu rosto brutal.
Na manhã de 2 de Janeiro de 1941, numa pequena aldeia da Bretanha, aparecem mortos quatro cavaleiros alemães. Para vingar estas mortes, Löwitsch fecha todos os habitantes da aldeia na igreja (91 pessoas) e manda incendiar o templo. «Como reage o corpo de um homem face à presença do horror? (…) Pode um corpo dizer: “Basta, não quero ir mais longe, isto é demasiado para mim”? Pode um corpo esquecer-se de si próprio?» Diante do massacre, Kurt colapsa, recusa o mundo, esquece-se efectivamente de si próprio. Ou seja, torna-se insensível.
No sanatório onde recupera, há um médico (de cuja identidade se apropriará mais tarde) que vê, neste paciente único, «A Metáfora». Porquê? Porque no gesto radical de «suspender os seus vínculos com a realidade», Crüwell está a ser apenas o «molde de uma Europa cobarde» que se vergou ao fascismo e optou pela «paralisia, pela abnegada e fatídica paralisia». Uma paralisia a que ironicamente Lasalle, o médico, também sucumbirá, talvez porque «o pavor e a ferocidade não têm pátria e nidificam por igual em todos os corações».
Romance de pendor filosófico, A Ofensa é uma exploração dos caminhos mais negros e absurdos da experiência humana. Com o seu estilo cuidado (de longas frases, à maneira de Marcel Proust), com o seu notável sentido da economia narrativa e as suas subtis transições entre as várias escalas da História (dos movimentos colectivos às angústias individuais), Menéndez Salmón escreveu um livro certeiro, em que a brevidade é apenas sinónimo de rigor e depuração.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 79 da revista Ler]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges