Regresso a Buenos Aires

Um breve diário de Ricardo Piglia, no suplemento Babelia do El País.

Leitores puros (de Cervantes a Joyce)

James Joyce

«Primeira questão: a leitura é uma arte da microscopia, da perspectiva e do espaço (não são só os pintores que se ocupam dessas coisas). Segunda questão: a leitura é um assunto de óptica, de luz, uma dimensão da física.
Joyce também sabia ver mundos múltiplos no minúsculo mapa da linguagem. Numa foto, vemo-lo vestido como um dândi, um olho tapado com uma pala, a ler com uma lupa de grande aumento.
O Finnegans Wake é um laboratório que submete a leitura à sua prova mais extrema. À medida que nos aproximamos, aquelas linhas baças convertem-se em letras e as letras encavalitam-se e misturam-se, as palavras transmutam-se, trocam-se, o texto é um rio, uma torrente múltipla, sempre em expansão. Lemos restos, pedaços soltos, fragmentos, a unidade do sentido é ilusória.
A primeira representação espacial deste tipo de leitura já está presente em Cervantes, sob a forma dos papéis rasgados que apanhava na rua. É essa a situação inicial do romance, o seu pressuposto, melhor dizendo: “Lia inclusive os papéis rasgados que encontrava na rua”, diz-se no D. Quixote (I, 5).

Cervantes

Poderíamos ver ali a condição material do leitor moderno: vive num mundo de sinais; está rodeado de palavras impressas (que, no caso de Cervantes, a imprensa tinha começado a difundir pouco tempo antes); detém-se no turbilhão da cidade para apanhar papéis espalhados no chão, quer lê-los.
Só que agora, diz Joyce no Finnegans Wake — quer dizer, na outra extremidade do arco imaginário que se abre com D. Quixote — estes papéis rasgados estão perdidos numa lixeira, debicados por uma galinha que esgravata. As palavras misturam-se, sujam-se, são letras corridas, mas ainda legíveis. Já se sabe que o Finnegans é uma carta perdida numa lixeira, uma “multidão de borrões e de manchas, de gritos e convulsões e fragmentos justapostos”. Shaum, o que lê e decifra no texto de Joyce, está condenado a “esgravatar para sempre cada vez mais até derreter a moleirinha e perder a cabeça, o texto destina-se a esse leitor ideal que sofre de uma insónia ideal” (by that ideal reader suffering an ideal insomnia).
O leitor dependente, o que não consegue deixar de ler, e o leitor insone, o que está sempre acordado, são representações extremas do que significa ler um texto, personificações narrativas da complexa presença do leitor na leitura. Chamar-lhes-ia leitores puros; para eles a leitura é não só uma prática, como uma forma de vida.»

[in O Último Leitor, de Ricardo Piglia, tradução de Jorge Fallorca, Teorema, 2007]

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges