A noção de espanto

A Era do Deslumbramento – Como a geração romântica descobriu a beleza e o temor da Ciência
Autor: Richard Holmes
Editora: Gradiva
Título original: The Age of Wonder: How the Romantic Generation Discovered the Beauty and Terror of Science
Tradução: David Gaspar
N.º de páginas: 673
ISBN: 978-989-616-663-2
Ano de publicação: 2015

O conceito de «ciência romântica» pode parecer um oxímoro, uma contradição nos termos. Se o romantismo defendia um ideal de subjectividade, de inscrição do eu no mundo, esse ideal colidiria forçosamente com a necessária objectividade científica. Uma oposição fixada por Keats numa frase célebre, ao dizer que Newton «destruiu toda a poesia do arco-íris ao reduzi-lo ao efeito da luz num prisma». É esta suposta cisão entre arte e ciência que Richard Holmes questiona em A Era do Deslumbramento, uma magistral abordagem a um período riquíssimo da história das ideias, balizado por duas importantes viagens marítimas: a circum-navegação comandada por James Cook, capitão do Endeavour (1768); e a partida de Charles Darwin para as Galápagos, a bordo do Beagle, em 1831.
Para Holmes, nestas seis décadas, o que une os artistas e os homens de ciência é a «noção de espanto». A descoberta – seja do mundo natural, seja da beleza de um verso clássico – a funcionar como experiência do sublime. Vivia-se, não o esqueçamos, uma época de transição. África era ainda um continente inexplorado; os primeiros balões erguiam-se no céu; novos conhecimentos no campo da química e da astronomia expandiam os horizontes do próprio universo; o saber abandonava os salões das elites para chegar às massas, através de palestras públicas; havia no ar o germe de radicais revoluções políticas, como a francesa.
Mais do que cartografar este período de espantosa efervescência intelectual, a estratégia do autor passou por narrar a vida e os feitos das principais figuras da chamada «segunda revolução científica», centrada no Reino Unido, mas com ramificações no resto da Europa. Holmes revela-se particularmente bem apetrechado para esta empresa porque já publicou diversas biografias de escritores românticos, como Coleridge e Percy Shelley. De resto, leccionou uma cadeira de Estudos Biográficos na Universidade de East Anglia e continua a ser o editor da colecção de biografias clássicas da Harper Perennial. A forma como retira das suas fontes (cartas, diários e publicações avulsas, elencadas nas 12 densas páginas de bibliografia) um verdadeiro manancial de informações e detalhes, urdidos numa narrativa apelativa, capaz de fascinar o mais relutante dos leitores, é a todos os títulos exemplar.
No centro do livro está a figura de Sir Joseph Banks (1743-1820). É ele o esteio, o guia, uma espécie de «Virgílio». Quando jovem, embarca como botânico no Endeavour, acompanhando Cook até ao Tahiti, numa expedição destinada a registar o trânsito de Vénus à frente do Sol, em Junho de 1769. Naquela versão terrena do «paraíso», Banks começa por recolher e classificar plantas, mas depressa alarga o seu interesse ao povo nativo, suas tradições, língua, gastronomia, ritos. Já na pele de etnólogo, foi o primeiro europeu a testemunhar esse «desporto estranho, extremo e tão característico dos mares do Sul» que é o surf. Marcado para sempre pela experiência, regressa a Londres, onde se tornará o mais duradouro dos presidentes da Royal Society e um «patrono científico universal». Imobilizado pelos ataques de gota, descobre jovens aventureiros que financia e incentiva a partir para jornadas de exploração geográfica. Eminência parda, manobrava nos bastidores e geria uma gigantesca rede de correspondentes, alimentando a «ideia da ciência como um esforço verdadeiramente partilhado e internacional».
Embora se detenha na trajectória de muitos dos protegidos de Banks (por vezes trágica, como no caso de Mungo Park, perdido na selva em busca do curso do Níger), Holmes presta uma atenção especial a dois deles: o químico Humphry Davy (1778-1829), que descobriu as propriedades do óxido nitroso e inventou uma lâmpada de segurança para mineiros; e William Herschel (1738-1822), um astrónomo amador de origem alemã que construiu sozinho os melhores telescópios da época e com eles fez notáveis descobertas (um extenso catálogo de nebulosas, o planeta Úrano, a radiação infravermelha). De todos os perfis biográficos que o livro reúne e intersecta, este é sem dúvida o mais impressionante, dando a conhecer uma figura que antecipou a visão do universo como entidade dinâmica, sempre com o apoio discreto, na sombra, da irmã Caroline, sua assistente e astrónoma de pleno direito, cujo papel na história da ciência, tantas vezes esquecido (como costuma acontecer com as mulheres), é devidamente assinalado.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges