Algumas infâncias

O Tempo das Crianças
Organizadores: Richard Zimler e Raša Sekulović
Título original: The Children’s Hours
Tradução: Helena Marujo, Lúcia Liba Mucznik e José Lima
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 189
ISBN: 978-972-20-4350-2
Ano de publicação: 2010

Organizada por Raša Sekulović e por Richard Zimler, a antologia O Tempo das Crianças nasce de uma boa ideia: juntar histórias de autores contemporâneos sobre a infância (nalguns casos, contos inéditos) e entregar os respectivos direitos à organização Save the Children. Infelizmente, o resultado final é desequilibrado, ficando aquém do que seria de esperar dos 16 ficcionistas escolhidos. Já para não falar no facto de várias narrativas incidirem muito mais sobre a adolescência das personagens do que propriamente sobre a sua primeira década de vida.
Se os nomes sonantes (Margaret Atwood, André Brink, Nadine Gordimer, Alberto Manguel, Ali Smith, Katherine Vaz, Richard Zimler) cumprem a aproximação ao tema sem particular brilho, mas também sem desiludir, o mesmo não se pode dizer do contingente lusófono. A história de Lídia Jorge, sobre uma rapariga de 15 anos (!) que trabalha numa loja de animais com excesso de mortalidade entre a bicharada, é frouxa. Ondjaki faz uma evocação insípida do primeiro dia na escola e da fuga ao giz amarelo com que a «camarada professora» enchia o quadro. Já Mia Couto assina uma narrativa tão absurda quanto pirosa (A Escama), indigna de constar na bibliografia de quem escreveu Terra Sunâmbula. Salva-se Dulce Maria Cardoso, com a descrição cuidadosamente construída de um milagre oblíquo (Os Anjos por Dentro).
Ainda assim, o livro vale por dois contos: Invierno, de Junot Díaz; e Partir o porquinho, do israelita Etgar Keret. No primeiro, o autor de A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao acompanha a difícil integração de uma família dominicana nos subúrbios hostis de Nova Iorque. É uma história quase perfeita sobre o desenraizamento dos imigrantes latinos, consumidos pela tristeza, sob a neve. Quanto à miniatura de Keret (três páginas), é o texto que melhor se aproxima da experiência de ser criança, fixando o momento em que a lógica infantil e respectiva percepção do mundo estão prestes a ser estilhaçadas pelo pragmatismo involuntariamente cruel dos adultos.

Avaliação: 5,5/10

[Texto publicado no n.º 97 da revista Ler]

Zimler no Chiado

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges