O horror do mar

Os Folgazões
Autor: Robert Louis Stevenson
Título original: The Merry Men
Tradução: Aníbal Fernandes
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 112
ISBN: 978-972-37-1570-5
Ano de publicação: 2011

Recém-licenciado pela Universidade de Edimburgo, Charles Darnaway chega à pequena ilha de Aros, na costa noroeste da Escócia. É lá que o seu tio Gordon – um presbiteriano «amargo», «rude», «bilioso» e perseguido pela má sorte – vive com a filha, Mary Ellen, uma bela rapariga que o primo civilizado quer resgatar de uma vida de tédio, entre carneiros e «gaivotas esvoaçantes». Na cabeça, Charles traz um plano: encontrar, no fundo de uma das baías de Aros, o casco do Espirito Santo, um galeão espanhol da Invencível Armada de Filipe II, supostamente naufragado ali mesmo, há vários séculos, com os porões a abarrotar de ouro.
Assim começa a novela Os Folgazões, de Robert Louis Stevenson. O que se segue, porém, não é uma simples história de caça ao tesouro, feita à medida dos leitores oitocentistas sequiosos de aventura. É antes um hino às forças da natureza e ao modo como o mar afecta a vida dos homens que têm a infelicidade de sucumbir ao seu poder implacável, seja enquanto vítimas dos tratos de polé a que os navios são sujeitos na armadilha dos recifes, seja enquanto espectadores longínquos, mas interessados nos despojos dos naufrágios.
Entre Charles e Gordon o conflito é inevitável, porque se o primeiro interpreta a realidade à luz da razão, o segundo está imerso nas superstições e mitos gaélicos. Quem vem de fora não atribui necessariamente uma sombra dentro de água ao corpo de um demónio furtivo, mas quem sempre viveu naquela paisagem agreste, de escarpas altíssimas e marés mortíferas, é compreensível que veja no mar a porta para o inferno, bem como na extensão oceânica – essa «criatura falsa, salina, fria, rugidora» – um antro de maldade. Mais do que respeito, Gordon sente medo, um medo absoluto que faz com que antecipe, a milhares de quilómetros do Congo, uma célebre frase de Conrad: «Oh, senhores, o horror… o horror do mar!»
Nas palavras de Stevenson, Os Folgazões é «uma sonata fantástica». E há de facto qualquer coisa que canta nesta escrita, sensorial como poucas: «À volta de toda a ilha de Aros a ressaca vergastava os recifes e a costa com uma imparável e trovejante pancada de martelo. Mais forte num lugar, mais fraca noutro, esta perseverante massa sonora lembrava uma música orquestral com variações que não punham em assinalável destaque nenhum dos seus momentos. E, a dominar ruidosamente todo este alvoroço, eu distinguia as vozes instáveis do Roost e o rugido intermitente dos Folgazões.» Os Folgazões são rebentamentos de ondas que enlouquecem os homens, enquanto aniquilam os navios que têm o azar de ficar presos na sua «dança da morte». Um espectáculo «enraivecido na leveza» e «instigado por uma monstruosa jovialidade», descrito genialmente por Stevenson no assombroso capítulo quarto, em si mesmo um exemplo perfeito do realismo «completamente irreal», próprio de quem «nunca olhou para as coisas com olhos que não fossem os da sua imaginação», que lhe atribuiu Marcel Schwob, citado pelo tradutor Aníbal Fernandes em mais um dos seus estimulantes prefácios.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 101 da revista Ler]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges