Estado do Tempo

«Uma zona de baixas pressões sobre o Atlântico deslocava-se para leste, em direcção a um anticiclone situado sobre a Rússia; não denunciava ainda qualquer tendência para o evitar, e dirigia-se para norte. Os isotermos e os isóteros cumpriam as suas obrigações. A temperatura do ar mostrava uma relação normal com a temperatura média anual, com as dos meses mais frio e mais quente e com a oscilação mensal aperiódica. O nascer e o pôr do Sol e da Lua, as fases desta última, de Vénus, dos anéis de Saturno e muitos outros fenómenos significativos correspondiam às previsões dos anuários da astronomia. O vapor de água no ar tinha atingido a sua tensão máxima e a humidade relativa era fraca. Para usar uma expressão que, apesar de um tanto antiquada, serve na perfeição para dar a realidade dos factos: era um belo dia de Agosto do ano de 1913.»

Eis o célebre primeiro parágrafo meteorológico do romance O homem sem qualidades, de Robert Musil, agora finalmente disponível na tradução de João Barrento (Dom Quixote). Os dois volumes olham para mim, tentando-me, mas vão ter que esperar pelas férias.
Sobre esta obra-prima «inacabada e inacabável», nas palavras do tradutor, vale a pena ler este artigo de Isabel Lucas e o dossier que o suplemento ípsilon (sem link) preparou sobre o acontecimento editorial do ano.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges