No túnel do tempo

Amuleto
Autor: Roberto Bolaño
Título original: Amuleto
Tradução: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 139
ISBN: 978-989-722-088-3
Ano de publicação: 2013

Publicado em 1999, Amuleto é um romance breve que funciona como uma ponte entre as duas monumentais obras-primas de Roberto Bolaño: Os Detectives Selvagens (1998) e o póstumo 2666 (2004). Os livros do escritor chileno, embora autónomos, estão imbricados uns nos outros. Têm vasos comunicantes. Partilham temas, obsessões e personagens. Compreendem-se melhor se lidos em conjunto. Nas mais de mil páginas de 2666 não se encontra uma única frase que justifique o título, mas numa cena nocturna deste Amuleto, com três personagens à deriva pela Cidade do México, a explicação surge quase como um prenúncio: no desamparo da madrugada, a Avenida Guerrero parece-se com «um cemitério de 2666, um cemitério esquecido sob uma pálpebra morta ou nascida morta, as aquosidades desapaixonadas de um olho que por querer esquecer uma coisa acabou por esquecer tudo».
Tal como fizera em Estrela Distante (versão ampliada da história do poeta-aviador Ramírez Hoffman, contada no último capítulo de A Literatura Nazi nas Américas), Bolaño recupera e desenvolve em Amuleto um dos 52 testemunhos que compõem a parte central do romance Os Detectives Selvagens. Ou seja, a história de Auxilio Lacouture, uma uruguaia que ficou fechada quase duas semanas, sem comer, numa casa de banho do quarto andar da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade Nacional Autónoma do México, em Setembro de 1968, quando o exército e a polícia anti-motim invadiram o campus, esmagando à força a contestação estudantil. Auxilio, figura alta e magra, «versão feminina do Quixote», conta como chegou à capital em data incerta e explica o seu estranho modo de vida, os trabalhos ocasionais (dactilografia, traduções), as limpezas voluntárias em casa de dois poetas espanhóis exilados e os encontros boémios em cafés com os escritores mais novos entre os novos. Ela lê o que eles escrevem, incentiva-os, discute. E talvez por isso se auto-intitule «mãe da poesia mexicana».
A felicidade desta vida simples suspende-se durante a reclusão na casa de banho, um acto de resistência com o seu quê de martírio. Encostada aos mosaicos onde o luar se reflecte, Lacouture cria mentalmente um «túnel do tempo», em que este deixa de ser linear e se estica («como a pele de uma mulher adormecida na sala de operações de um cirurgião plástico»), depois desdobra-se «como um sonho», parte-se, fragmenta-se (ou então abdica do seu continuum, que «sofre um arrepio»). Misturam-se assim acontecimentos passados e futuros, factos reais e imaginados, devaneios e profecias – todo um delírio onírico que Bolaño transforma num fascinante labirinto de memórias. Nas páginas finais, Auxilio vê, num pesadelo, os «fantasmas» de «uma geração inteira de jovens latino-americanos sacrificados», caminhando «inevitavelmente» para o abismo. Eles eram utópicos. Eles cantavam. Bolaño sabe isso, sabe muito bem, porque esteve nessa multidão. Mesmo depois de engolida pela História, lembra-nos, o seu canto «continuou no ar». E esse canto é «o nosso amuleto».

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«Esta vai ser uma história de terror. Vai ser uma história policial, uma narrativa de série negra e de terror. Mas não parecerá. Não parecerá porque sou eu que a conto. Sou eu que falo e por isso não parecerá. Mas no fundo é a história de um crime atroz.
Eu sou a amiga de todos os mexicanos. Podia até dizer: eu sou a mãe da poesia mexicana, mas o melhor é não dizê-lo. Conheço todos os poetas e todos os poetas me conhecem a mim. Por isso podia até dizê-lo. Podia dizer: sou a mãe e sopra um zéfiro danado há séculos, mas o melhor é não dizer. Podia dizer, por exemplo: conheci Arturito Belano quando ele tinha dezassete anos e era um menino tímido que escrevia peças de teatro e poesia e não sabia beber, mas seria de alguma forma uma redundância e a mim ensinaram-me (com um chicote ensinaram-me, com uma vara de ferro) que as redundâncias sobram e que o argumento por si só é suficiente.
O que eu posso dizer, sim, é o meu nome.
Chamo-me Auxilio Lacouture e sou uruguaia, de Montevideu, mas quando me dá a pancada, a pancada da saudade, digo que sou charrúa, o que acaba por ser a mesma coisa, embora não seja a mesma coisa, e que confunde os mexicanos e, por conseguinte, os latino-americanos. Mas o importante é que um dia cheguei à Cidade do México sem saber muito bem porquê, nem para quê, nem como, nem quando.»

[in Amuleto, de Roberto Bolaño, tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Quetzal, 2013]

Como é que seria 2666 transformado num gráfico?

Seria assim, embora eu não concorde lá muito com as percentagens.

Prémio Casa da América Latina para tradução de 2666

O prémio de tradução literária Casa da América Latina/BANIF 2011 foi atribuído à dupla Cristina Rodríguez/Artur Guerra, pela versão portuguesa do romance 2666, de Roberto Bolaño (editado pela Quetzal). O júri, formado por Vasco Graça Moura, Annabela Rita e Francisco Bélard, deliberou por maioria. A entrega do prémio será feita amanhã, ao meio-dia, na Casa da América Latina em Lisboa (Av. 24 de Julho, 118 B).

Vidas apócrifas

A Literatura Nazi nas Américas
Autor: Roberto Bolaño
Título original: La literatura nazi en América
Tradução: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 224
ISBN: 978-972-564-909-1
Ano de publicação: 2010

Publicado originalmente em 1996, A Literatura Nazi nas Américas é o mais borgesiano dos romances de Roberto Bolaño. Na verdade, chamar-lhe romance talvez peque por inexactidão. Estamos, isso sim, diante de uma pequena e engenhosa enciclopédia que reúne verbetes biográficos de três dezenas de escritores obscuros, com a respectiva bibliografia (mais de 200 títulos) em anexo. Tudo apócrifo. Tudo saído da imaginação livresca de Bolaño, que criou esta galeria de personagens sinistras a partir de duas das suas grandes obsessões: o mistério da literatura (nas suas histórias há sempre escritores, por vezes tentando compreender, ou encontrar, outros escritores) e o fascínio do mal, simbolizado quase sempre por avatares da mitologia nazi.
Embora o título do livro o sugira, nem todos os autores referidos são devotos do Terceiro Reich. É certo que Luz Mendiluce Thompson exibe no seu salão, «emoldurada num rico trabalho de prata lavrada», a fotografia em que surge, bebé de poucos meses, nos braços de Adolf Hitler. E Willy Schürholz, nascido numa colónia alemã fundada no Chile, logo após o fim da II Guerra Mundial, constrói os seus poemas gráficos a partir das plantas de vários campos de concentração (Auschwitz, Buchenwald, Dachau, etc.). A maior parte das outras figuras, porém, são extremistas à sua maneira. Há defensores da pureza rácica e da supremacia ariana que não exibem necessariamente a suástica, há uns quantos fascistas saudosos do tempo em que combatiam ao lado de Franco, há quem odeie judeus e homossexuais, ou quem se limite a cultivar a brutalidade física e mental à maneira dos skinheads.
Deste caldo turvo vai emergindo toda a sorte de visionários, profetas, plagiadores, aldrabões, loucos, criminosos, viúvas ricas e líderes de claques de futebol – uma fauna heteróclita, ridícula nos seus delírios de grandeza (veja-se o caso do autor brasileiro que escreve sucessivas e volumosas refutações dos filósofos franceses do Iluminismo), gente menos ameaçadora do que risível. Na maior parte dos casos, as aspirações são enormes até embaterem com estrondo no muro da realidade. E os livros que estes poetas e romancistas editam conhecem uma de duas sortes: ou passam completamente despercebidos; ou são trucidados pela crítica oficial. Resistindo à tentação da caricatura e sem abusar do sarcasmo, Bolaño mostra de forma crua a mecânica do falhanço nesta espécie de submundo, todo ele cheio de trevas e mediocridade.
Artífice cuidadoso, o escritor chileno fez deste A Literatura Nazi nas Américas um labiríntico edifício ficcional, com muitos corredores paralelos e muitas portas, algumas das quais permitem que os vários percursos de vida narrados se cruzem e sobreponham. Mas fez mais. Se olharmos com atenção, este livro é também uma espécie de mapa para o resto da sua obra. Por exemplo, na página e meia dedicada a Daniela de Montecristo, refere-se que ela «se apaixonou por um general do exército romeno, Eugenio Entrescu, que foi crucificado pelos seus próprios soldados em 1944». Esta cena, mencionada aqui de passagem, virá a ser descrita em pormenor na última parte de 2666, publicado já postumamente, oito anos mais tarde.
O carácter intratextual e expansivo desta escrita é mais nítido ainda no caso do derradeiro capítulo, sobre «o infame» Ramírez Hoffman, poeta-aviador que escrevia versos no céu. As suas ignominiosas façanhas, compactadas em vinte páginas, formaram depois o cerne do magnífico Estrela Distante (também de 1996). Cotejar a primeira versão da história com o romance – verificando a persistência, tal e qual, de muitas frases; mas também as muitas alterações, tanto nos nomes das personagens como nas circunstâncias de certas cenas – é uma verdadeira aula prática de literatura aplicada. Principal diferença: em Estrela Distante, Bolaño deixa de se assumir como narrador e atribui a composição do livro ao seu alter-ego Arturo Belano, um dos protagonistas de Os Detectives Selvagens, enquanto convoca «o fantasma cada vez mais vivo de Pierre Menard». Outra vez Borges, fechando círculos dentro de círculos.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Num aquário de tubarões metafísicos

«Amado Couto
Juiz de Fora, Brasil, 1948-Paris, 1989

Couto escreveu um livro de contos que nenhuma editora aceitou. O livro perdeu-se. Depois foi trabalhar para os Esquadrões da Morte, sequestrou, ajudou a torturar e viu como alguns era mortos, mas ele continuava a pensar na literatura e mais precisamente naquilo de que a literatura brasileira precisava. Precisava de vanguarda, de letras experimentais, dinamite, mas não como os irmãos Campos, que achava aborrecidos, dois professorezecos sem graça, nem como Osman Lins, que ele achava francamente ilegível (então porque é que publicavam Osman Lins e os seus contos não?), mas sim algo moderno, mais a atirar para o seu género, algo policial (mas brasileiro, norte-americano, não), um continuador de Rubem Fonseca, para nos entendermos. Esse escrevia bem e, embora dissessem que era um filho da puta, a ele não lhe constava isso. Um dia pensou, enquanto esperava com o carro num descampado, que não seria má ideia sequestrar e fazer qualquer coisa a Fonseca. Disse isto aos seus chefes e estes ouviram-no. Mas não levou a cabo a ideia. Meter Fonseca no coração de um verdadeiro romance enevoou e iluminou os sonhos de Couto. Os chefes tinham chefes e a dada altura da cadeia o nome de Fonseca evaporava-se, deixava de existir, mas na sua cadeia privada o nome de Fonseca cada vez era maior, mais prestigiado, mais aberto e receptivo à sua entrada, como se a palavra “Fonseca” fosse uma ferida e a palavra “Couto” uma arma. Assim que leu Fonseca, leu a ferida até esta começar a supurar, e depois adoeceu e os seus colegas levaram-no a um hospital e dizem que delirou: viu o grande romance policial-brasileiro num pavilhão de hepatologia, viu-o com pormenores, com trama, nó e desenlace e pareceu-lhe que estava no deserto do Egipto e que se aproximava como uma onda (ele era uma onda) das pirâmides em construção. Escreveu, pois, o romance e publicou-o. O romance chamava-se Nada a Dizer e era um romance policial. O herói chamava-se Paulinho e às vezes era o motorista de uns senhores, outras vezes era um detective e ainda outras um esqueleto que fumava num corredor a ouvir gritos distantes, um esqueleto que entrava em todas as casas (em todas não, só nas casas da classe média ou dos pobres abaixo do limiar de pobreza) mas que nunca se aproximava muito das pessoas. Publicou o romance na colecção “Pistola Negra”, que editava policiais norte-americanos, franceses e brasileiros, mais brasileiros ultimamente porque faltava o dinheiro para pagar royalties. E os seus colegas leram o romance e quase nenhum o percebeu. Nessa altura já não saíam juntos de carro nem sequestravam nem torturavam, embora um ou outro ainda matasse. Tenho de separar-me desta gente e ser escritor, escreveu Couto nalgum lado. Mas dava muito trabalho. Uma vez tentou ver Fonseca. Segundo Couto, olharam um para o outro. Está mesmo velho, pensou, já não é Mandrake nem nada, mas teria trocado com ele nem que fosse só uma semana. Também pensou que o olhar de Fonseca era mais duro que o seu. Eu vivo entre piranhas, escreveu, mas o Sr. Rubem Fonseca vive num aquário de tubarões metafísicos. Escreveu-lhe uma carta. Não recebeu resposta. Então, escreveu outro romance, A Última Palavra, que a Pistola Negra lhe publicou e que trazia Paulinho novamente à cena e que no fundo era como se Couto se despisse diante de Fonseca sem qualquer pudor, como se lhe dissesse aqui estou eu, sozinho, a carregar com as minhas piranhas enquanto os meus colegas percorrem as ruas centrais, de madrugada, como os homens do saco que levam os meninos, o mistério da escrita. E embora provavelmente soubesse que Fonseca nunca leria os seus romances, continuou a escrever. Em A Última Palavra apareciam mais esqueletos. Paulinho já era quase um esqueleto o dia todo. Os seus clientes eram esqueletos. As pessoas com quem Paulinho conversava, fornicava, comia (ainda que regra geral comesse sozinho), também eram esqueletos. E no terceiro romance, A Mudazinha, as principais cidades do Brasil eram como esqueletos enormes, e as povoações eram também como esqueletos pequenos, esqueletos infantis, e às vezes até as palavras se tinham metamorfoseado em ossos. E já não escreveu mais. Alguém lhe disse que os seus colegas da recolha estavam a desaparecer, ficou com medo, isto é, ficou com mais medo no corpo. Tentou desfazer os seus passos, encontrar caras conhecidas, mas tudo tinha mudado enquanto ele escrevia. Alguns desconhecidos começavam a falar dos seus romances. Um deles poderá ter sido Fonseca, mas não foi. Tive-o nas minhas mãos, anotou no seu diário antes de desaparecer como um sonho. Depois foi para Paris e lá enforcou-se num quarto do Hotel La Grèce.»

[in A Literatura Nazi nas Américas, de Roberto Bolaño, tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Quetzal, 2010]

Pré-publicação: ‘A Literatura Nazi nas Américas’ (Roberto Bolaño)

«Edelmira Thompson de Mendiluce
Buenos Aires, 1894-Buenos Aires, 1993

Aos quinze anos publicou o seu primeiro livro de poemas, Ao Papá, que conseguiu introduzi-la numa discreta posição na imensa galeria das poetisas da alta sociedade buenairense. A partir de então, foi assídua nos salões de Ximena San Diego e de Susana Lezcano Lafinur, que ditavam a lírica e o bom gosto nas duas margens do rio da Prata nos alvores do século XX. Os seus primeiros poemas, como é lógico supor, falam de sentimentos filiais, de pensamentos religiosos e de jardins. Namoriscou a ideia de se tornar freira. Aprendeu a montar a cavalo.
Em 1917, conhece o ganadeiro e industrial Sebastián Mendiluce, vinte anos mais velho do que ela. Toda a gente ficou surpreendida quando ao fim de poucos meses se casaram. Segundo os testemunhos da época, Mendiluce não apreciava a literatura em geral e a poesia em particular, faltava-lhe sensibilidade artística (embora de vez em quando fosse à ópera) e a sua conversa situava-se ao mesmo nível que a dos seus peões e operários. Era alto e enérgico, mas estava muito longe de ser bonito. A sua única qualidade reconhecida era a sua fortuna inesgotável.
As amigas de Edelmira Thompson disseram que tinha sido um casamento de conveniência, mas a verdade é que ela se casou por amor. Um amor que nem ela nem Mendiluce jamais souberam explicar e que se manteve inabalável até à morte.
O casamento que acaba com a carreira de tantas escritoras auspiciosas deu novos brios à pena de Edelmira Thompson. Abriu o seu próprio salão em Buenos Aires, que rivalizou com o da San Diego e o da Lezcano Lafinur. Protegeu jovens pintores argentinos aos quais não só comprava obras (em 1950, a sua pinacoteca de artes plásticas argentina não era a melhor, mas sim uma das maiores e extravagantes da República), como também costumava levá-los à sua fazenda de Azul para que pintassem longe da agitação mundana e com todas as necessidades cobertas. Fundou a editora Candeia Sulista onde publicou mais de cinquenta livros de poesia, muitos dos quais lhe são dedicados, a «fada boa das letras crioulas».
Em 1921, publica o seu primeiro livro em prosa, Toda a Minha Vida, autobiografia idílica, se não mesmo chã, isenta de mexericos e cheia de descrições paisagísticas e de considerações poéticas que, contrariamente ao que a autora esperava, passa totalmente despercebida pelas montras das livrarias de Buenos Aires. Decepcionada e na companhia dos seus dois filhos pequenos, de duas criadas e de mais de vinte malas, Edelmira parte para a Europa.
Visita Lourdes e as grandes catedrais. É recebida pelo Papa. Percorre em veleiro as ilhas do Egeu e chega a Creta num meio-dia de Primavera. Em 1922, publica em Paris um livrinho de poemas infantis em francês e outro em espanhol. Depois volta para a Argentina.
Mas as coisas mudaram e Edelmira já não se sente bem no seu país. Num jornal acolhem o aparecimento do seu novo livro de poesia (Horas da Europa, 1923) tachando-a de pirosa. O crítico literário mais influente da imprensa nacional, o Dr. Luis Enrique Belmar, considera-a uma «dama infantil e desocupada que faria melhor se dedicasse o seu esforço à beneficência e à educação de tantos catraios esfarrapados que correm pelos espaços sem limites da pátria». Edelmira responde com elegância convidando o Dr. Belmar e os outros críticos para o seu salão. Só aparecem quatro jornalistas mortos de fome que trabalham para páginas de acontecimentos sociais. Edelmira, desdenhada, refugia-se na fazenda de Azul para onde a seguem uns quantos incondicionais. Na paz dos campos, ouvindo as conversas da gente trabalhadora e humilde, prepara um novo livro de poesia que atirará à cara dos seus detractores. Horas Argentinas (1925), a esperada colectânea de poemas, provoca o escândalo e a controvérsia desde o próprio dia da sua publicação. Nele, Edelmira abandona a visão contemplativa e passa ao ataque. Arremete contra os críticos, contra as literatas, contra a decadência que envolve a vida cultural. Propõe um regresso às origens: os trabalhos do campo, a fronteira sul sempre aberta. Ficam para trás os requebros e os desfalecimentos amorosos. Edelmira quer uma literatura épica, epopeica, na qual não lhe trema o pulso na hora de cantar a pátria. À sua maneira, o livro é um grande êxito e num acto de humildade, com pouco tempo para saborear o mel do trabalho reconhecido, Edelmira parte outra vez para a Europa. Acompanham-na os seus filhos, as suas criadas e o filósofo de Buenos Aires Aldo Carozzone que faz as vezes de secretário particular.»

Este romance de 1996, agora traduzido para a Quetzal pela dupla Cristina Rodriguez e Artur Guerra, chega às livrarias na próxima sexta-feira, dia 22.

Três poemas de Roberto Bolaño

GODZILLA EN MÉXICO

Atiende esto, hijo mío: las bombas caían
sobre la Ciudad de México
pero nadie se daba cuenta.
El aire llevó el veneno a través
de las calles y las ventanas abiertas.
Tú acababas de comer y veías en la tele
los dibujos animados.
Yo leía en la habitación de al lado
cuando supe que íbamos a morir.
Pese al mareo y las náuseas me arrastré
hasta el comedor y te encontré en el suelo.
Nos abrazamos. Me preguntaste qué pasaba
y yo no dije que estábamos en el programa de la muerte
sino que íbamos a iniciar un viaje,
uno más, juntos, y que no tuvieras miedo.
Al marcharse, la muerte ni siquiera
Nos cerró los ojos.
?Qué somos?, me preguntaste una semana o un año después,
?hormigas, abejas, cifras equivocadas
en la gran sopa podrida del azar?
Somos seres humanos, hijo mío, casi pájaros,
héroes públicos y secretos.

***

LOS DETECTIVES

Soñé con detectives perdidos en la ciudad oscura.
Oí sus gemidos, sus náuseas, la delicadeza
De sus fugas.
Soñé com dos pintores que aún no tenían
40 años cuando Colón
Descubrió América.
(Uno clásico, intemporal, el otro
Moderno siempre,
Como la mierda.)
Soñé con una huella luminosa,
La senda de las serpientes
Recorrida una y otra vez
Por detectives
Absolutamente desesperados.
Soñé con un caso difícil,
Vi los pasillos llenos de policías,
Vi los cuestionarios que nadie resuelve,
Los archivos ignominiosos,
Y luego vi al detective
Volver al lugar del crimen
Solo y tranquilo
Como en las peores pesadillas,
Lo vi sentarse en el suelo y fumar
En un dormitorio con sangre seca
Mientras las agujas del reloj
Viajaban encogidas por la noche
Interminable.

***

LOS DETECTIVES HELADOS

Soñé con detectives helados, detectives latinoamericanos
que intentaban mantener los ojos abiertos
en medio del sueño.
Soné con crímenes horribles
y con tipos cuidadosos
que procuraban no pisar los charcos de sangre
y al mismo tiempo abarcar con una sola mirada
el escenario del crimen.
Soñé con detectives perdidos
en el espejo convexo de los Arnolfini:
nuestra época, nuestras perspectivas,
nuestros modelos del Espanto.

[in Los perros románticos, Acantilado, 2006]

Lá como cá

2666-sacola

No Brasil, o romance 2666, de Roberto Bolaño, acaba de ser lançado pela Companhia das Letras. À semelhança do que se passou em Portugal, o hype em torno da monumental narrativa é grande e também já se antevê que venha a ser escolhida, pela crítica, como «livro do ano».
A foto foi roubada ao Blog da Companhia, que está neste momento a promover um Concurso Bolañomania.

Teatro caleidoscópico

O Terceiro Reich
Autor: Roberto Bolaño
Título original: El Tercer Reich
Tradução: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 346
ISBN: 9789725648506
Ano de publicação: 2010

Estavam os leitores portugueses de Roberto Bolaño ainda às voltas com 2666, magnum opus que juntou o êxito de vendas à aclamação da crítica, quando foi anunciada a publicação pela Quetzal, quase em simultâneo com a primeira edição espanhola, de um outro livro póstumo do escritor chileno. Escrito à máquina em 1989, O Terceiro Reich é na prática o primeiro romance de Bolaño, que chegou a corrigi-lo à mão mas nunca manifestou intenções de o publicar. O risco de um flop pós-endeusamento, ainda por cima com laivos de oportunismo comercial, não podia ser maior. Ao fim de poucas páginas, porém, as dúvidas dissipam-se: este é um grande livro, uma ficção inquietante e bolañiana até aos ossos, não só no estilo como em certas obsessões temáticas (o nazismo e a II Grande Guerra, a percepção de um mal difuso que contamina tudo, a violência, o sexo, os sonhos, a loucura). Na página 219, chega mesmo a aparecer uma avioneta que desenha letras no céu, antecipando a «poesia aérea» feita aos comandos de um caça Messerschmitt pelo protagonista de Estrela Distante (1996).
Escrito em forma de diário, O Terceiro Reich é narrado por Udo Berger, campeão de wargames que aproveita umas férias na Costa Brava para escrever um artigo em que testa variantes de um complexo jogo de estratégia. Ele e a namorada encontram um outro casal de alemães e entregam-se à rotina do ócio: praia, discotecas sórdidas, bebedeiras, etc. À sua volta, personagens dúbias com nomes dúbios (o Cordeiro, o Lobo) ou figuras enigmáticas (o Queimado; Frau Else e o seu marido doente, donos do hotel Del Mar). Os dias passam e quase nada acontece, a não ser um vago desconforto («sinto algo intangível, estranho, a dar voltas em redor de mim, ameaçador»), uma sucessão de medos sem causa aparente, perigos apenas pressentidos e uma tragédia que não põe fim a essas tensões acumuladas, antes as magnifica. Desligado de uma «Europa amnésica, sem épica e sem heroísmo», Udo torna-se um «sonâmbulo», um fantasma, um homem em processo de autodestruição, para quem a realidade é menos real do que o tabuleiro onde a História e as guerras podem ter outros desfechos, «cenário onde se dão milhares de princípios e fins», maqueta da vida verdadeira, «teatro caleidoscópico» em que todos são «sombras que jogam com sombras».
Embora inferior às suas duas obras-primas (Os Detectives Selvagens e 2666), O Terceiro Reich faz todo o sentido no corpus da obra de Bolaño. Ainda bem que foi resgatado da gaveta onde o chileno, talvez inseguro quanto ao seu valor, um dia o fechou.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no número 90 da revista Ler]

Blog da Companhia

A Companhia das Letras, uma das melhores editoras brasileiras, inaugurou esta semana o seu blogue. E começa bem, muito bem, com textos sobre Roberto Bolaño de dois dos seus melhores amigos, Alan Pauls e Rodrigo Fresán. Pretexto: o lançamento em breve, no Brasil, de 2666.

«Roberto Bolaño disse certa vez: “Há livros que inspiram medo. Medo de verdade. Mais que livros, parecem bombas-relógio ou animais falsamente empalhados dispostos a pular no seu pescoço se você se descuidar”. A categoria — livros temíveis — parece pensada à medida de 2666. Como todas as grandes ficções de Bolaño — penso em Estrela distante, por exemplo —, 2666 dá medo. Dá medo e faz rir ao mesmo tempo. Lê-lo é entrar num tremor, numa convulsão física. Não é um livro que se dirige ao leitor; não pretende falar com ele nem enfeitiçá-lo. Ele quer tocá-lo, marcá-lo, atravessá-lo com o vento gelado da morte e a brisa ardente da gargalhada.»
Alan Pauls

«A obra de Roberto Bolaño — chame-se o Santo Gral de Cesárea Tinajero em Os detetives selvagens, ou de Benno von Archimboldi em 2666, ou de Wieder/Ruiz-Tagle em Estrela distante — está sempre marcada pela busca de “seres-livros”. Pessoas que não podem parar de escrever e de ler.
E me ocorre que a leitura ou a releitura de 2666 é consequência da escrita de 2666. Explico-me: a escrita noturna e lançada ao abismo de 2666 — Bolaño apostando uma corrida contra tudo, noite após noite, para alcançar a última página de seu romance antes do último amanhecer de sua vida — age sobre o leitor causando um efeito similar. Não importa a hora que seja; quando se lê ou relê 2666 a gente não demora a se entregar a uma espécie de transe entre sonâmbulo e insone. Em 2666, a prosa de Bolaño cativa mais do que em qualquer de seus outros livros porque aqui se trata de conseguir uma espécie de summa artística, plenamente harmônica e ao mesmo tempo disfuncional onde — por meio de epifanias de longa distância suspensas no espaço ou abruptas acelerações no tempo emolduradas no formato de romance aberto, de romance exterior e interior ao mesmo tempo —, o que se persegue e se alcança não é outra coisa senão uma teoria do mundo, de todo o mundo.»
Rodrigo Fresán

Os textos completos podem ser lidos aqui.

‘The Joy of Unread Books’

Kirsty Logan disserta sobre a decisão de não ler certos livros, por receio de que eles fiquem aquém das expectativas. «No book is ever quite as good as it potentially could have been», resume. Um dos seus «unread books» é 2666, de Roberto Bolaño, sobre o qual escreve o seguinte:

«2666 is an obsessive and world-shifting epic. When I read it, I will be completely absorbed by it. It will be all I think about. It will affect my daily life in ways I can’t fully understand, and when I finish it I will have come to profound revelations about the nature of existence. I will finally understand all the literary theory I wrote essays on when I was at university.»

Quando um dia se decidir a mergulhar no romance de Bolaño, Logan descobrirá que ele é tudo o que antecipou (e muito mais).

‘Prefiguration of Lalo Cura’

Na edição de dia 19, a New Yorker publica um conto de Roberto Bolaño que faz a arqueologia narrativa de uma das dezenas de personagens de 2666. Começa assim:

«It’s hard to believe, but I was born in a neighborhood called Los Empalados: The Impaled. The name glows like the moon. The name opens a way through the dream with its horn, and man follows that path. A quaking path. Invariably harsh. The path that leads into or out of Hell. That’s what it all comes down to. Getting closer to Hell or farther away. Me, for example, I’ve had people killed. I’ve given the best birthday presents. I’ve backed projects of epic proportions. I’ve opened my eyes in the dark. Once, I opened them by slow degrees in total darkness, and all I saw or imagined was that name: Los Empalados, shining like the star of destiny.»

As respostas de Bolaño

Eis um blogue precioso sobre Roberto Bolaño: Estrela Selvagem. Mantido pelos brasileiros Lucas de Sena Lima e Daniel Fernandes Vilela, o seu objectivo é «reunir as entrevistas e outros materiais referentes ao escritor chileno e traduzi-las para o leitor de língua portuguesa, a exemplo do que acontece em outros países, onde vários blogs são criados para divulgar a obra do escritor».
Eis um excerto de uma entrevista dada ao jornal colombiano El Tiempo, em 2003, poucos meses antes da sua morte:

«Em Os Detetives Selvagens se narra o mundo dos poetas jovens de duas décadas, suas penúrias e sonhos, é como uma desmistificação do intelectual, uma humanização do artista. Que pensa disto?
Quando entrego um romance ao meu editor, não volto a pensar nele.

Que escritores foram chaves de sua educação sentimental literária e quais não aconselharia a leitura?
Cervantes, Stendhal, Rimbaud, Poe. E que cada um leia o quiser e puder. Eu, ao menos esta noite, me sinto incapaz de desaconselhar qualquer coisa.

(…)

Que pensa do autobiográfico na literatura?
Tudo, de alguma maneira, é autobiográfico, o que demonstra, por acaso, a inutilidade de se escrever autobiografias.

Que significa para você a data de 11 de setembro?
Uma putaria. O início de um baile parecido com o de San Vito. A queda de Allende mais a festa nacional da Catalunha, que comemora outra derrota, mais o ataque dos suicidas às Torres Gêmeas, que vem a ser uma terceira derrota da cultura frente à religião. O 11 de setembro catalão eu não vivi na carne, e se tivesse vivido não calaria, pois isso significaria que sou um vampiro ou um imortal. O 11 chileno eu vivi e padeci, e como tinha vinte anos, também o desfrutei. Os jovens ignoram a morte. Só querem sua dose de adrenalina e sexo, e eu também. O 11 novaiorquino me pegou em Milão, com minha mulher e meus dois filhos, e quando vi a explosão, no primeiro momento, pensei nas imagens que tínhamos nos anos 80 sobre a Terceira Guerra Mundial. É claro que voltamos para o hotel de imediato.

Está escrevendo um romance extenso. Que pode dizer a respeito?
O romance tem mais de mil páginas, e, como pode imaginar, é impossível resumi-lo. Escrever algo tão longo cansa. Trabalhar cansa, como disse Pavese. E eu me canso, além disso, com uma facilidade incrível. Mas este é meu trabalho, e tenho que seguir.

Que te vem à cabeça ao escutar estes nomes?
César Vallejo: a virtude e a torção. A lírica que se autodevora.
Juan Carlos Onetti: para maiores de trinta e três anos.
Jorge Luis Borges: o centro do cânone da América Latina.
Pablo Neruda: dois livros extraordinários e nada mais.
Gabriel García Márquez: um homem encantado de ter conhecido tantos presidentes e arcebispos.
Mario Vargas Llosa: o mesmo, só que mais polido.
Guillermo Cabrera Infante: um escritor estranho.
Na verdade, de todos os escritores que me citou, só me interessam Vallejo, Onetti e Borges.»

Muito bolañianas são também as respostas ao Questionário de Proust. Eis algumas delas:

«Qual seu defeito mais deplorável?
Sou uma pessoa cheia de defeitos, e todos são deploráveis.

(…)

Se depois de morto tivesse que voltar à Terra, gostaria de voltar convertido em que coisa ou pessoa?
Um colibri, que é o menor dos pássaros e cujo peso, em algumas ocasiões, não chega a dois gramas. A mesa de um escritor suíço. Um réptil do deserto de sonora.

(…)

Qual a sua maior extravagância?
Minha grande coleção de wargames de mesa e minha pequena coleção de wargames de computador.

Em que ocasiões você mente?
Quando falo de pintura abstrata. Quando falo de poesia metafísica.

Que pessoa viva te inspira mais desprezo?
São muitos, e já sou demasiado velho para estabelecer um ranking.

Que pessoa viva admira?
Admiro as mães e avós da Praça de Maio. Pessoas como elas.

Que palavras ou frases usa mais?
“Foder” e “boceta”.

Qual sua idéia de felicidade perfeita?
Minha felicidade imperfeita: estar com meu filho e que ele esteja bem. A felicidade perfeita, sua busca, gera imobilidade ou campos de concentração.

(…)

Qual seu maior remorso?
São muitos, e se deitam, e levantam comigo, e escrevem comigo porque meus remorsos sabem escrever.

Qual a virtude mais valorizada socialmente?
O êxito, mas o êxito não é nenhuma virtude, é só um acidente.

O que te desagrada mais em sua aparência?
Aos 46 anos, se algo me desagradasse em minha imagem, seria um palerma. Tudo me desagrada, mas o assumo com resignação.

(…)

Qual sua posse mais valiosa?
Meus livros.

(…)

Onde desejaria viver?
Se tivesse muito dinheiro, na Andaluzia, sem escrever nem fazer nada, passar o dia nos bares, conversando.

Qual seu passatempo favorito?
Ver vídeos até às cinco da manhã.
(…)»

When Patti met Roberto


A cantora Patti Smith vai apresentar hoje, no encerramento do festival Palabra y Musica, em Gijón, o poema-canção que escreveu para Roberto Bolaño.

Variantes, gambitos & etc.

Confirmação de uma tese, na página 214 de O Terceiro Reich, de Roberto Bolaño (Quetzal):

«”O teu jogo é uma espécie de xadrez, um desporto, não é?” Uma coisa semelhante.»

Primeiras impressões sobre ‘O Terceiro Reich’

Ainda só li um terço do romance de Bolaño, mas para já colocá-lo-ia numa nobre linhagem: a das obras literárias sobre o xadrez. Sim, o xadrez.

O livro mais roubado de 2009

Não sem uma ponta de orgulho, Francisco José Viegas anunciou, durante o lançamento-festa de O Terceiro Reich, no Music Box, que o livro mais roubado nas livrarias portuguesas em 2009 foi o monumental 2666, de Roberto Bolaño. Os larápios bibliófilos estão duplamente de parabéns: não só escolheram o melhor livro do ano para a generalidade da crítica, como também um dos mais volumosos e difíceis de roubar. Sair da FNAC ou da Bertrand com um calhamaço de mais de mil páginas debaixo da camisola não revela apenas bom gosto literário; revela também alguma coragem, ou muito descaramento.
Ironia das ironias, o próprio Bolaño era um exímio praticante do roubo de livros. Ele e as suas personagens (cf. Os Detectives Selvagens).

Pré-publicação: ‘O Terceiro Reich’ (Roberto Bolaño)

«Tomámos o pequeno-almoço no Bar La Sirena. Ingeborg comeu um english breakfast que consistia numa chávena de chá com leite, um prato com um ovo estrelado, duas fatias de bacon, uma dose de feijão-verde e um tomate grelhado, tudo por 350 pesetas, bastante mais barato do que no hotel. Na parede, por detrás do balcão, há uma sereia de madeira com o cabelo ruivo e a pele dourada. No tecto ainda estão penduradas umas velhas redes de pescar. Quanto ao resto, é tudo diferente. O empregado de mesa e a mulher que atende ao balcão são jovens. Há dez anos trabalhavam aqui um velho e uma velha, morenos e enrugados, que costumavam conversar com os meus pais. Não me atrevi a perguntar por eles. Para quê? Os de agora falam catalão.
Encontrámos Charly e Hanna no sítio combinado, perto das “gaivotas”. Estavam a dormir. Depois de estendermos as nossas esteiras junto deles, acordámo-los. Hanna abriu logo os olhos, mas Charly grunhiu qualquer coisa ininteligível e continuou a dormir. Hanna explicou que ele tinha passado muito mal a noite. Quando Charly bebia, segundo Hanna, não conhecia limites e abusava da sua resistência física e da sua saúde. Contou-nos que às oito da manhã, quase sem ter dormido, saiu para fazer windsurf. Com efeito, a prancha estava ali, ao pé das costas de Charly. Depois Hanna comparou o seu creme bronzeador com o de Ingeborg e ao fim de um bocado, ambas estendidas de costas para o Sol, mudaram a conversa para um tipo de Oberhausen, um administrativo que, segundo parecia, tinha intenções sérias relativamente a Hanna, embora esta só “o apreciasse como amigo”. Desinteressei-me do que diziam e dediquei os minutos seguintes a observar as “gaivotas”, que tanta inquietação me haviam causado na noite anterior.
Não eram muitas as que se encontravam na praia; na sua maioria já estavam alugadas e deslizavam lentas e vacilantes por um mar calmo e de um azul intenso. É claro que nas “gaivotas” que ainda não tinham sido alugadas não se notava nada de inquietante; velhas, de um modelo superado até pelas “gaivotas” de outros postos, o sol parecia reverberar sobre as suas superfícies gretadas onde a tinta se descascava inexoravelmente. Uma corda, presa por uns quantos paus enterrados na areia, separava os banhistas da zona reservada às “gaivotas”; a corda erguia-se apenas a uns trinta centímetros do chão e nalguns sítios os paus tinham-se inclinado e estavam prestes a tombar de vez. À beira-mar distingui o encarregado: ajudava um grupo de clientes a fazer-se ao mar, atento a que a “gaivota” não batesse na cabeça de algumas das inúmeras crianças que chapinhavam em volta; os clientes, seriam uns seis, todos em cima da “gaivota”, com sacos de plástico onde possivelmente levavam sandes e latas de cerveja, faziam gestos de despedida para a praia ou batiam palmas de regozijo. Depois de a “gaivota” ter atravessado a zona das crianças, o encarregado saiu da água e começou a avançar na nossa direcção.
– Coitadinho – ouvi Hanna dizer.
Perguntei a quem é que se referia; Ingeborg e Hanna fizeram sinal para observar disfarçadamente. O encarregado era moreno, tinha o cabelo comprido e uma aparência musculosa, mas o mais notável da sua pessoa, acima de tudo, eram as queimaduras – quero dizer, queimaduras de fogo, não de sol – que lhe cobriam a maior parte da cara, do pescoço e do peito, e que eram visíveis sem rebuço, escuras e rugosas, como carne grelhada ou chapas de um avião sinistrado.
Por instantes, devo admitir, senti-me como que hipnotizado, até que me apercebi de que ele também olhava para nós e que no seu gesto abundava a indiferença, uma espécie de frieza que imediatamente achei repulsiva.
A partir de então evitei olhar para ele.
Hanna disse que se suicidaria se ficasse assim, desfigurada pelo fogo. Hanna é uma rapariga bonita, tem os olhos azuis e o cabelo castanho-claro e os seus seios – nem Hanna nem Ingeborg usam a parte superior do biquíni – são grandes e bem-feitos, mas sem muito esforço imaginei-a queimada, a dar gritos e a andar de trás para a frente no seu quarto do hotel. (Porquê, precisamente, no quarto do hotel?)
– Talvez seja uma marca de nascença – disse Ingeborg.
– É possível, vêem-se coisas muito estranhas – concordou Hanna. – Charly conheceu em Itália uma mulher que nasceu sem mãos.
– A sério?
– Juro-te. Pergunta-lhe. Foram para a cama os dois.
Hanna e Ingeborg riram-se. Às vezes não compreendo como é que Ingeborg consegue achar graça a afirmações dessas.
– Talvez a mãe tenha tomado algum produto químico quando estava grávida.
Não soube se Ingeborg falava da mulher sem mãos ou do encarregado das “gaivotas”. De qualquer modo tentei corrigir o seu erro. Ninguém nasce assim, com a pele tão martirizada. Ora bem, não havia dúvida de que as queimaduras não eram recentes. Provavelmente datavam de há uns cinco anos, julgando mais até pela atitude do pobre tipo (eu não olhava para ele) acostumado a despertar a curiosidade e o interesse próprio dos monstros e dos mutilados, os olhares de repulsa involuntária, a piedade pela grande desgraça. Perder um braço ou uma perna é perder uma parte de si mesmo, mas sofrer tais queimaduras é transformar-se, converter-se noutro.
Quando Charly, por fim, acordou, Hanna disse que achava o encarregado atraente. Musculoso! Charly riu-se e fomos todos para a água.»

[Início do terceiro capítulo do romance póstumo de Bolaño (Quetzal), nas livrarias a partir de sexta-feira]

‘O Terceiro Reich’ (booktrailer)

Está a chegar o novo Bolaño, segundo romance póstumo do escritor chileno editado pela Quetzal, depois de 2666. Amanhã farei aqui a pré-publicação do início do terceiro capítulo.

O basquetebolista que lê Bolaño

Pau Gasol, dos L. A. Lakers. E logo o 2666.

‘William Burns’

Um conto de Roberto Bolaño, na New Yorker desta semana.

[via Máscara&Chicote]

Vem aí outro Roberto Bolaño (também póstumo, mas mais pequeno)

A primeira tradução mundial é portuguesa e vai ser editada pela Quetzal no final de Fevereiro.

Bolaño à beira-mar

Conheço muitos leitores que têm horror da praia. O vento, a areia, as famílias que falam muito alto, o barulho irritante das raquetas, poc-poc, poc-poc, os vendedores de bolas de Berlim e línguas-da-sogra não autorizadas pela ASAE, os rapazes loiros que projectam sombras nas páginas com as suas pranchas, as criancinhas que se perderam dos pais ou querem fazer chichi, os homens barrigudos que se põem a discutir o Benfica, Record debaixo do braço, a menos de um metro de distância. Eu, por mim, não me queixo. Quem se habituou a ler nos cafés da Graça, alheio ao tilintar da loiça, às canções foleiras da RFM e aos lamentos das velhinhas a caminho (ou no regresso) do centro de saúde, aguenta tudo. Com os anos, e após a passagem por várias redacções de jornal em open space, aprendi a criar uma espécie de capacete imaginário à volta da cabeça, uma redoma que me isola do mundo e me permite ler, ou escrever, como se estivesse na cela mais silenciosa de um mosteiro.

Na praia não é diferente. Chego, escolho um lugar que me parece mais abrigado (o sopé de uma duna, por exemplo), monto a cadeira de lona comprada num bazar de Aljezur, seguro no livro de forma a poder espreitar, por cima dele, a pequena lagoa onde os meus filhos chapinham, e entrego-me ao prazer da leitura sem hora marcada, ignorando olimpicamente o que os meus vizinhos fazem ou deixam de fazer. Depois, quando acabo um capítulo e não me apetece logo começar outro, pouso o livro, levanto-me, reparo enfim numa família que devora talhadas de melancia à minha esquerda, no casal estrangeiro com bonés de pala que se imagina em Roland Garros, poc-poc, poc-poc, poc-puf, na menina que perdeu o balde de plástico, na avioneta que arrasta uma faixa com publicidade a um clube nocturno, e estico os braços, flicto as pernas, aproximo-me da água, afiro a temperatura das ondinhas, desafio os miúdos para um passeio até às rochas lá ao fundo, ou deixo-me estar, pés afundados na areia molhada, a olhar para o horizonte. Sei que os tais leitores com horror da praia farão uma careta, mas isto, para mim, se não é o paraíso, anda lá perto.
Há um outro aspecto que me leva a gostar muito das leituras na praia. Se na cidade interrompemos o romance que estávamos a ler, é geralmente porque alguém nos telefonou e precisa da nossa atenção, ou porque chegámos à paragem de metro onde alguém nos espera, ou porque a assistente do dentista nos chamou para a cadeira da tortura. O telefonema, a conversa com o amigo ou o ruído da broca ocupam então o palco da nossa consciência e o que estávamos a ler fica remetido para um difuso segundo plano, como que atrás de cortinas pesadas, até termos de novo disponibilidade para pegarmos no livro, voltarmos atrás umas quantas páginas e retomarmos o fio da história. Na praia, pelo contrário, com os pés enterrados na areia molhada e a contemplar o horizonte, continuamos imersos na narrativa e recapitulamos diálogos, relembramos detalhes, estabelecemos nexos entre as cenas e, no limite, até projectamos certas personagens em certos banhistas que avançam mar adentro, com as costas vermelhas do escaldão da véspera e água pelo joelho. Aquele ali, por exemplo, podia perfeitamente ser o Senhor Palomar (o de Italo Calvino, entenda-se; não confundir com o blogger homónimo que anda a baralhar o meio literário português com o seu misterioso anonimato). E aqueloutro, muito alto e com pinta de alemão, talvez seja o fugidio Benno von Archimboldi, o escritor que se torna a obsessão de quatro académicos, na primeira parte do romance 2666, de Roberto Bolaño. E por falar nos quatro académicos, ainda agora, ao olhar por cima do ombro, vi um grupinho a olhar para o homem alto com pinta de alemão e era capaz de jurar que o grupinho, agora a fingir que contempla um castelo de areia, é composto por Jean-Claude Pelletier, Piero Morini (em cadeira de rodas e tudo, não faço ideia de como a transportaram até ali), Manuel Espinoza e Liz Norton, que transporta na mão direita um volume cujo título, se a vista não me atraiçoa, é Bifurcaria bifurcata.
O sol vai alto, propício a miragens de calor e alucinações literárias. Regresso à toalha, onde o Sony Reader me aguarda, espalmadinho, com as mil páginas de 2666 lá dentro. Num dos cantos do ecrã de e-ink, um grão de areia. Depois do regresso a Lisboa, verifico: ainda lá está. É a testemunha melancólica das férias que chegaram ao fim.

[Texto publicado no n.º 84 da revista Ler]

Trajectória de uma leitura

2666, lido passo a passo por Paulo Alves.

Sinopse de 2666

«– Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio… Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro… Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida… compreende?… a nossa vida, a vida inteira, está ali como… como um acontecimento excessivo…»

[in Os Passos em Volta, de Herberto Helder, sexta edição, Assírio & Alvim, 1994]

Ontem à noite

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Francisco José Viegas deu as boas-vindas e fez os agradecimentos a todas as pessoas envolvidas na operação 2666

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António-Pedro Vasconcelos leu uma das histórias da «Parte dos Críticos»

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Carla Bolito leu três fragmentos da «Parte de Amalfitano»

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José Eduardo Agualusa leu um fragmento sobre a célula comunista de Brooklyn, extraído da «Parte de Fate»

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Eu falei, em traços gerais, da escrita de Bolaño e daqueles que me parecem ser os três temas centrais de 2666: a Literatura, a violência (ou o Mal) e a loucura

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Soraia Chaves leu, da «Parte dos Crimes», uma passagem que descreve, de forma particularmente gráfica, um dos homicídios cometidos em Santa Teresa

l266610
Carlos Vaz Marques escolheu um excerto da «Parte de Archimboldi», prova provada de que Bolaño foi um dos romancistas que mais desassombradamente escreveu sobre sexo

[Fotografias de Manuel Deniz Silva; excepto a última, que é de João Pereira]

Jazz

«Conduziu durante duas horas por estradas escuras com a rádio ligada, a ouvir uma emissora de Phoenix que transmitia jazz. Passou por lugares onde havia casas, restaurantes e jardins com flores brancas e carros mal estacionados, mas nos quais não se via luz nenhuma, como se os habitantes tivessem morrido nessa mesma noite e no ar ainda restasse um hálito de sangue. Distinguiu silhuetas de cerros recortadas pelo luar e silhuetas de nuvens baixas que não se moviam ou que, em determinado momento, corriam para oeste como que impelidas por um vento repentino, que levantava poeirada a que os faróis do carro, ou as sombras que os faróis produziam, emprestavam roupagens fabulosas, humanas, como se as poeiradas fossem mendigos ou fantasmas que saltavam junto ao caminho.
Perdeu-se duas vezes. Numa, esteve tentado a voltar para trás, para o restaurante ou para Tucson. Na outra, chegou a uma terra chamada Patagonia onde o rapaz que atendia na bomba de gasolina lhe indicou a maneira mais fácil de chegar a Santa Teresa. Quando saiu de Patagonia viu um cavalo. Quando os faróis do carro o iluminaram o cavalo levantou a cabeça e olhou para ele. Fate parou o carro e esperou. O cavalo era preto e ao fim de pouco tempo mexeu-se e perdeu-se na escuridão. Passou junto a uma meseta, ou pelo menos assim julgou. A meseta era enorme, totalmente plana na parte superior e de uma ponta à outra da base devia medir pelo menos cinco quilómetros. Junto à estrada apareceu um barranco. Saiu, deixou as luzes do carro acesas e urinou longamente respirando o ar fresco da noite. Depois o caminho desceu até uma espécie de vale que lhe pareceu, à primeira vista, gigantesco. Na ponta mais afastada do vale julgou discernir uma luminosidade. Mas podia ser qualquer coisa. Uma caravana de camiões a mover-se com grande lentidão, as primeiras luzes de uma localidade. Ou talvez só o seu desejo de sair daquela escuridão que de alguma maneira lhe fazia lembrar a sua infância e a sua adolescência. Pensou que houve uma altura, entre uma e outra, que chegou a sonhar com aquela paisagem, não tão escura, não tão desértica, mas certamente semelhante.
Ia num autocarro, com a mãe e uma irmã da mãe e faziam uma viagem curta, entre Nova Iorque e uma localidade próxima de Nova Iorque. Ia junto à janela e a paisagem invariavelmente era a mesma, edifícios e auto-estradas, até que de repente apareceu o campo. Nesse momento, ou talvez antes, tinha começado a entardecer e ele olhava para as árvores, um bosque pequeno, mas que aos seus olhos aumentava. E então julgou ver um homem a caminhar à beira do pequeno bosque. Com grandes passadas, como se não quisesse que a noite lhe caísse em cima. Perguntou a si mesmo quem seria aquele homem. Só soube que era um homem e não uma sombra, porque ele tinha uma camisa e mexia os braços ao caminhar. A solidão do homem era tão grande que Fate se lembrava que desejou não continuar a olhar e abraçar a sua mãe, mas em vez disso manteve os olhos abertos até o autocarro deixar o bosque para trás e aparecerem de novo os edifícios, as fábricas, os armazéns que balizavam a estrada.
A solidão do vale que atravessava agora, a sua escuridão, eram maiores. Imaginou-se a si mesmo a caminhar a bom passo pela berma. Sentiu um calafrio. Recordou então o jarrão onde jaziam as cinzas da mãe e a chávena de café da vizinha que não devolvera e que agora estaria infinitamente fria e os vídeos da mãe que já ninguém iria ver nunca mais. Pensou em parar o carro e esperar que amanhecesse. O instinto indicou-lhe que um local com um preto a dormir num carro alugado junto a uma berma não era o mais prudente no Arizona. Mudou de emissora. Uma voz em espanhol começou a contar a história de uma cantora de Gómez Palacio que havia voltado à sua cidade, no estado de Durango, só para se suicidar. Depois ouviu-se a voz de uma mulher que cantava rancheras. Durante um bocado, enquanto conduzia para o vale, esteve a ouvi-la. Depois tentou voltar a sintonizar a emissora de jazz de Phoenix e já não conseguiu encontrá-la.»

[in 2666, de Roberto Bolaño, trad. de Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Quetzal, 2009]

O homem que escreveu 2666

Quando morreu em Julho de 2003, aos 50 anos, vítima de insuficiência hepática, Roberto Bolaño ainda era um dos segredos mais bem guardados da literatura latino-americana. Conhecido apenas por um círculo de happy few, que viam nele um herdeiro legítimo de Borges e Cortázar, lidava bem com o seu relativo anonimato. Para ele, fama e literatura eram «inimigas irreconciliáveis», como escreveu em 2666 (a sua obra-prima, em que trabalhou durante os últimos cinco anos de vida), ignorando que seria precisamente esse monumental romance, um tour de force narrativo com mais de mil páginas, a escancarar-lhe as portas de uma glória póstuma que nunca desejou.
Bolaño já recebera, em vida, alguns elogios importantes (Susan Sontag viu nele «o escritor mais influente e admirado da sua geração no mundo de língua castelhana»), mas foi o surgimento de 2666 nos EUA, no final do ano passado, com uma recepção crítica apoteótica (uma «Bolañomania», como lhe chamou o El País), que o trouxe para a primeira fila do cânone da literatura contemporânea, mesmo ao lado de Philip Roth ou W. G. Sebald. Houve até quem afirmasse que o abalo provocado por Bolaño nas fundações da literatura latino-americana se assemelha, em intensidade, ao que Gabriel García Márquez provocou, há quatro décadas, com Cem Anos de Solidão. Em intensidade, sim, assemelham-se. Mas a natureza dos sismos é muito diferente. Como bem notou Enrique Vila-Matas, a escrita de Bolaño distingue-se por ter sabido romper «com a literatura latino-americana dos galos da Amazónia e das virgens que levitam».
Em vez do realismo mágico, transformado em fórmula exótica e de efeito fácil, o escritor chileno optou por um «realismo visceral», atento ao lado mais negro da realidade, ao apocalipse económico e social do continente, com as suas injustiças e um horror que por vezes ultrapassa a imaginação mais sórdida. Em 2666, por exemplo, Bolaño inspira-se nas centenas de homicídios de mulheres que ocorreram em Ciudad Juárez (cidade mexicana que serve de molde à ficcional Santa Teresa) e faz do minucioso inventário dos crimes – com os corpos atirados para lixeiras ou para baldios atrás das maquiladoras, fábricas que recebem e montam componentes para exportação, pagando salários de miséria a trabalhadores que nem sequer se podem sindicalizar – um dos mais terríveis retratos da lógica devoradora da globalização.
Não há nesta denúncia, porém, a mínima demagogia. À sua maneira, os livros de Bolaño são políticos, porque mostram o estado caótico do mundo e os seus abismos. Nunca são é panfletários. Bolaño não esconde a sua filiação esquerdista, nem a sua simpatia pelos utópicos derrotados pela História, mas recusa-se a encaixar a complexidade do mundo no espartilho da retórica ideológica. O seu único compromisso, radical e excessivo, foi com a literatura. E o modo de vida que escolheu, errático, feito de vagabundagens, de experimentações e de uma espécie de humildade fora do tempo, só faz sentido à luz desse compromisso.


Roberto Bolaño fotografado por Daniel Mordzinski

Nascido em Santiago do Chile, a 28 de Abril de 1953, filho de um camionista (que também praticava boxe) e de uma professora, Bolaño passou a infância enterrado em livros, em parte porque era fininho, disléxico e não se dava bem com as outras crianças. Aos 15 anos, mudou-se com a família para a Cidade do México, onde viveu uma adolescência turbulenta, com muito activismo político e a fundação de um movimento poético, o «infrarrealismo», que evocará mais tarde no romance Os Detectives Selvagens. Em 1973 regressa ao Chile, entusiasmado com o ímpeto revolucionário de Salvador Allende. Quando se dá o golpe de Pinochet, Bolaño é preso por suspeita de «terrorismo», passa uma semana na prisão e só não conhece pior sorte porque dois guardas prisionais, seus antigos colegas de escola, o conseguem tirar de lá. Após nova passagem pelo México, onde cimentou a sua reputação de boémio desbocado e provocador nato, emigra para a Europa em 1977, acabando por se fixar em Espanha, onde ganhava a vida com trabalhos de ocasião. Entre outras coisas, andou nas vindimas, foi vigilante nocturno num parque de campismo e recepcionista, lavou pratos, recolheu lixo. Ofícios que lhe serviram, mais tarde, como preciosa fonte de material para as suas ficções.
Em meados dos anos 80, instalou-se em Blanes, na Costa Brava (Catalunha), onde continuou a ter empregos precários e mal pagos, mas que lhe permitiam escrever à noite. O ponto de viragem neste quotidiano hippie, pobre mas absolutamente livre, dá-se com o nascimento do primeiro filho, em 1990. Consciente das suas obrigações familiares, põe a poesia (até aí o seu principal meio de expressão literária) em segundo plano e dedica-se à ficção como forma de ganhar dinheiro, nomeadamente através do envio de trabalhos para concursos literários regionais.
Embora tenha publicado, em 1984, um pequeno romance (escrito a meias com Antoní Garcia Porta), a verdadeira estreia editorial de Bolaño dá-se apenas em 1993, aos 40 anos, com A Pista de Gelo. Na última década de vida, talvez assombrado pelo declinante estado de saúde, compensa o tempo perdido ao publicar a um ritmo febril. Até 2003, quando o fígado soçobrou antes de o seu nome chegar ao topo da lista de transplantes, surgiram 11 títulos, entre os quais Estrela Distante (de 1996, recentemente reeditado pela Teorema), Os Detectives Selvagens (1998, Teorema), Amuleto (1999), Nocturno Chileno (2000, Gótica) e Putas Asesinas (2001). Esta produção acelerada deveu-se em parte à vontade de deixar uma fonte de sustento para a família (mulher e dois filhos). Também por isso, ao organizar os materiais de 2666, sugeriu ao editor, Jorge Herralde, a publicação de cada uma das suas cinco partes como um livro autónomo. Contudo, quando Ignacio Echevarría, amigo e conselheiro literário, analisou e reviu os textos de Bolaño, após a sua morte, defendeu que «o valor literário da obra» só ficaria defendido com a publicação num único volume. Os herdeiros, mais sensatos e preocupados com a literatura do que os herdeiros de escritores costumam ser, concordaram. E o certo é que os direitos de autor, que entretanto começaram a chegar de todo o mundo, os livraram de vez da perspectiva de apertos económicos que tanto angustiava Bolaño.

Mais impressionante ainda do que a extensão da obra publicada pelo escritor chileno na última década de vida, é a extensão da obra que ficou por publicar. Além dos livros póstumos que já foram dados à estampa (2666; El secreto del mal; La Universidad desconocida; Entre paréntesis e Bolaño por el mismo), há muitos outros em lista de espera, desenterrados de uma espécie de arca pessoana, onde se acumulam dezenas de cadernos com ficções inéditas e diários. Há uns meses, o La Vanguardia noticiou a descoberta, no vasto arquivo que só agora começa a ser devidamente estudado, de dois romances: Diorama e Los sinsabores del verdadero policia o Asesinos de Sonora. Entretanto, o primeiro destes frutos escondidos vai ser publicado no próximo mês de Fevereiro. Trata-se de O Terceiro Reich, que sairá simultaneamente em Espanha, pela Anagrama, e no nosso país, pela Quetzal, editora que antes disso fará chegar às livrarias, no fim da próxima semana [amanhã], a tradução portuguesa de 2666.
Francisco José Viegas, responsável pela Quetzal, tem esperança de que a Bolañomania se estenda até cá e se prolongue com outras obras que tenciona publicar em breve: A Literatura Nazi na América e A Pista de Gelo. «O sonho de qualquer editor é poder juntar as duas coisas: grande literatura, como é Bolaño, e sucesso comercial.» Determinante mesmo foi a paixão pelos livros. 2666, por exemplo, despertou-lhe um «fascínio imediato»: «Quando se começa a ler, damo-nos conta de que é qualquer coisa de novo que está ali, uma espécie de “livro sobre todos os livros”, muito à maneira de Borges, mas rompendo com aquele tom do “mágico latino-americano”. De alguma maneira, se Macondo é o lugar fundador de uma parte dessa literatura, Santa Teresa [a cidade do romance de Bolaño] é o fim de toda a inocência, é a cidade onde o fantástico passa a ser épico.»

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Dia B

O Dia Bolaño é só amanhã (26/9), mas os primeiros exemplares de 2666 começam a ser vendidos logo à noite, a partir das 23h00, na livraria Ler Devagar (Lx Factory, Alcântara), durante o mais badalado lançamento do ano.

Uma voz

«Não há amizade, disse a voz, não há amor, não há épica, não há poesia lírica que não seja um gorgolejo, ou um gorjeio de egoístas, trinado de batoteiros, borbulhão de traidores, efervescência de arrivistas, garganteio de maricas. Mas tu o que é que tens, sussurrou Amalfitano, contra os homossexuais? Nada, disse a voz. Falo em sentido figurado, explicou a voz. Estamos em Santa Teresa?, perguntou a voz. É esta cidade parte, e não pouco destacável, do estado de Sonora? Sim, respondeu Amalfitano. Então é isso, disse a voz. Uma coisa é ser arrivista, digo eu, para dar um exemplo, disse Amalfitano alisando o cabelo como que em câmara lenta, e outra muito diferente é ser maricas. Falo em sentido figurado, repetiu a voz. Falo para que tu me entendas. Falo como se eu estivesse, e tu estivesses atrás de mim, no ateliê de um pintor ho-mos-se-xu-al. Falo de um ateliê onde o caos é só uma máscara ou uma ligeira fetidez de anestesia. Falo de um ateliê com as luzes apagadas onde o nervo da vontade se desprende do resto do corpo como a língua da serpente se desprende do corpo e repta, automutilada, entre o lixo. Falo das coisas simples da vida. Tu ensinas filosofia?, perguntou a voz. Tu ensinas Wittgenstein?, perguntou a voz. E já te perguntaste se a tua mão é uma mão?, prosseguiu a voz. Já me perguntei, disse Amalfitano. Mas agora tens coisas mais importantes para te interrogares, ou estou enganado?, perguntou a voz. Não, respondeu Amalfitano. Por exemplo: por que não ires a um viveiro e comprar sementes e plantas até talvez uma pequena árvore para plantar no meio do teu jardim das traseiras?, perguntou a voz. Sim, disse Amalfitano. Pensei no meu possível e exequível jardim e nas plantas que preciso de comprar e nas ferramentas para o executar. E também pensaste na tua filha, disse a voz, e nos assassínios que se cometem diariamente nesta cidade, e nas nuvens maricas de Baudelaire (perdão), mas não pensaste seriamente se a tua mão é realmente uma mão. Não é verdade, disse Amalfitano, claro que pensei, claro que pensei. Se tivesses pensado, disse a voz, outro galo cantaria. E Amalfitano ficou em silêncio e sentiu que o silêncio era uma espécie de eugenismo. Viu as horas no relógio. Eram quatro da manhã. Ouviu alguém a ligar o motor de um carro. O carro demorava a pegar. Levantou-se e espreitou à janela. Os carros estacionados em frente da sua casa estavam vazios. Olhou para trás e a seguir pôs a mão no manípulo da porta. A voz disse: cuidado, mas disse isto como se estivesse muito longe, no fundo dum barranco onde espreitavam pedaços de pedras vulcânicas, riolites, andesites, veios de prata e veios de ouro, charcos petrificados cobertos de ovinhos minúsculos, enquanto no céu arroxeado como a pele de uma índia morta à paulada sobrevoavam águias-de-cauda-vermelha. Amalfitano saiu para o alpendre. À esquerda, a uns dez metros de casa, um carro preto acendeu os faróis e arrancou. Ao passar diante do jardim, o motorista inclinou-se e observou Amalfitano sem parar o carro. Era um tipo gordo e de cabelo muito preto, vestido com um fato barato e sem gravata. Quando desapareceu, Amalfitano voltou para casa. Mau aspecto, disse a voz, mal ele passou a porta de entrada. E depois: tens de ter cuidado, camarada, parece-me que aqui há coisas que estão no vermelho vivo.»

[in 2666, de Roberto Bolaño, trad. de Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Quetzal, 2009]

Actrizes giras que lêem clássicos

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Em 1955, Eve Arnold captou esta célebre imagem de Marilyn Monroe a ler as páginas finais do Ulisses, de James Joyce. Na próxima sexta-feira, será a vez de Soraia Chaves desafiar os preconceitos e estereótipos, ao ler uma passagem de 2666 durante o lançamento do romance de Roberto Bolaño, na Livraria Ler Devagar/Lx Factory (a partir das 23h00). Além de uma tiragem especial de 150 exemplares do livro (exemplares únicos, com papel de cores diferentes para cada caderno e uma sobrecapa), haverá «margaritas, acepipes mexicanos, shots de chili con carne, música (uma banda sonora com mariachis, corridos, polcas, boleros)» e mais uns quantos leitores a partilhar com a audiência excertos das cinco partes que compõem 2666.

Força gravítica

Entrar em 2666 é fácil. Difícil é sair.

Exercício de ocultamento

«Toda a obra menor tem um autor secreto e todo o autor secreto é, por definição, um escritor de obras-primas. Quem é que escreveu tal obra menor? Aparentemente um escritor menor. A mulher deste pobre escritor pode testemunhar isso, ela viu-o sentado à mesa, inclinado sobre as páginas em branco, a retorcer-se e a deslizar a sua caneta sobre o papel. Parece uma testemunha irrebatível. Mas o que ela viu é só a parte exterior. A carapaça da literatura. Uma aparência – disse o velho ex-escritor a Archimboldi e Archimboldi lembrou-se de Ansky. – Quem na verdade está a escrever essa obra menor é um escritor secreto que só aceita os ditados de uma obra-prima.
O nosso bom artesão escreve. Está enfronhado naquilo que vai plasmando bem ou mal no papel. A sua mulher, sem que ele o saiba, observa-o. Efectivamente, é ele quem escreve. Mas se a sua mulher tivesse uma visão de raios X aperceber-se-ia de que não assiste propriamente a um exercício de criação literária, mas sim a uma sessão de hipnotismo. No interior do homem que está sentado a escrever não há nada. Nada que seja ele, quero dizer. Quão melhor faria esse pobre homem dedicando-se à leitura. A leitura é prazer e alegria de estar vivo ou tristeza de estar vivo e sobretudo é conhecimento e perguntas. A escrita, em compensação, costuma ser vazio. Nas entranhas do homem que escreve não há nada. Nada, quero dizer, que a sua mulher, num dado momento, possa reconhecer. Escreve por ditado. O seu romance ou poemário, decentes, decentezinhos, saem não por um exercício de estilo ou vontade, como o pobre desgraçado julga, mas sim graças a um exercício de ocultamento. É necessário que haja muitos livros, muitos pinheiros encantadores, para que escondam de olhares avessos o livro que realmente importa, a maldita gruta da nossa desgraça, a flor mágica do Inverno!
Desculpe as metáforas. Às vezes excito-me e fico romântico. Mas escute. Toda a obra que não seja uma obra-prima é, como lhe dizer, uma peça de uma vasta camuflagem. Você foi soldado, calculo, e já sabe ao que me refiro. Todo o livro que não seja uma obra-prima é carne para canhão, infantaria esforçada, peça sacrificável dado que reproduz, de múltiplas maneiras, o esquema da obra-prima. Quando compreendi esta verdade deixei de escrever. A minha mente, porém, não deixou de funcionar. Pelo contrário, ao não escrever
funcionava melhor. Perguntei-me: porque é que uma obra-prima precisa de estar oculta?, que estranhas forças a arrastam para o segredo e o mistério?
Já sabia que escrever era inútil. Ou que só valia a pena se uma pessoa estiver disposta a escrever uma obra-prima. A maior parte dos escritores engana-se ou brinca. Talvez enganar-se e brincar seja a mesma coisa, as duas faces da mesma moeda. Na realidade, nunca deixamos de ser crianças, crianças monstruosas cheias de dói-dóis e de varizes e de tumores e de manchas na pele, mas crianças afinal, isto é, nunca deixamos de nos agarrar ferreamente à vida dado que somos vida. Também se poderia dizer: somos teatro, somos música. De igual maneira, pouco são os escritores que renunciam. Brincamos a julgarmo-nos imortais. Enganamo-nos no
julgamento das nossas próprias obras e no julgamento sempre impreciso das obras dos outros. Vemo-nos no Nobel, dizem os escritores, como quem diz: vemo-nos no Inferno.»

[in 2666, de Roberto Bolaño, págs. 901-902, trad. de Cristina Rodríguez e Artur Guerra, Quetzal, 2009]

Pequeno desabafo, dez segundos após a conclusão de 2666 (os primeiros nove segundos foram de silencioso êxtase)

Bolaño, Bolaño, Bolaño: meu filho da puta, meu cabrão, meu génio.

O paradoxo da página 999

Chegado aqui, começo a achar que 2666, afinal, é um romance demasiado curto.

Setembro de 1939

«Em Setembro começou a guerra. A divisão de Reiter avançou até à fronteira e atravessou-a depois de as divisões panzer e as divisões de infantaria motorizada que abriam o caminho o terem feito. Graças a marchas forçadas entraram no território polaco sem combater e sem tomar muitas precauções: os três regimentos deslocavam-se quase juntos numa atmosfera geral de romaria, como se aqueles homens avançassem para um santuário religioso e não para uma guerra, onde inevitavelmente alguns deles encontrariam a morte.
Atravessaram várias terras, sem as saquear, em perfeita ordem, mas sem qualquer tipo de altivez, sorrindo às crianças e às mulheres novas, e de vez em quando cruzavam-se com soldados de moto que voavam pela estrada, por vezes na direcção leste e outras vezes na direcção oeste, trazendo ordens para a divisão ou trazendo ordens para o estado-maior do corpo. Deixaram a artilharia para trás. Às vezes, ao passar por uma lomba, olhavam para leste, para onde eles supunham que estava a frente, e não viam nada, só uma paisagem adormecida com os últimos esplendores do Verão. Para oeste, pelo contrário, conseguiam avistar a poeira da artilharia do regimento e da divisão que se esforçava por alcançá-los.
Ao terceiro dia de viagem, o regimento de Hans desviou-se por outra estrada de terra. Pouco antes do anoitecer chegaram a um rio. Por detrás do rio erguia-se um bosque de pinheiros e álamos e atrás do bosque, disseram-lhes, havia uma aldeia onde um grupo de polacos se havia entrincheirado. Montaram as metralhadoras e os morteiros e lançaram foguetes, mas ninguém respondeu. Duas companhias de assalto atravessaram o rio depois da meia-noite. No bosque, Hans e os seus camaradas ouviram piar um mocho. Quando saíram para o outro lado descobriram, como um vulto negro incrustado ou embutido na escuridão, a aldeia. As duas companhias dividiram-se em vários pelotões e prosseguiram o seu avanço. A cinquenta metros da primeira casa, o capitão deu a ordem e todos desataram a correr em direcção à aldeia e alguns até pareceram surpreendidos quando se aperceberam de que estava vazia. No dia seguinte, o regimento prosseguiu o avanço para leste, por três caminhos diferentes, em paralelo à rota principal que o grosso da divisão seguia.»

[in 2666, de Roberto Bolaño, trad. de Cristina Rodríguez e Artur Guerra, Quetzal, 2009]

Mar interminável

Na página 642 de 2666, lê-se:

«Viver neste deserto, pensou Lalo Cura enquanto o carro conduzido por Epifanio se afastava do descampado, é como viver no mar. A fronteira entre Sonora e o Arizona é um grupo de ilhas fantasmagóricas ou encantadas. As cidades e as aldeias são barcos. O deserto é um mar interminável. Este é um bom sítio para os peixes, sobretudo para os peixes que vivem nas fossas mais profundas, não para os homens.»

O deserto é um mar interminável, sim. Como o próprio livro que o descreve.

Personagem literária do ano

Benno von Archimboldi (isto é, Hans Reiter), o imaginário grande escritor alemão do pós-guerra, em 2666.

Medos

Entre a página 439 e a 441 de 2666, durante o diálogo entre um inspector da polícia e a directora de um manicómio, Roberto Bolaño enumera trinta tipos diferentes de medo. São eles:

Sacrofobia – medo ou aversão ao sagrado, aos objectos sagrados
Gefirofobia – medo de atravessar pontes
Claustrofobia – medo dos espaços fechados
Agorafobia – medo dos espaços abertos
Necrofobia – medo dos mortos
Hematofobia – medo do sangue
Pecatofobia – medo de cometer pecados
Clinofobia – medo das camas
Tricofobia – medo do cabelo
Verbofobia – medo das palavras
Vestiofobia – medo da roupa
Iatrofobia – medo dos médicos
Ginefobia – medo da mulher
Ombrofobia – medo da chuva
Talassofobia – medo do mar
Antofobia – medo das flores
Dendrofobia – medo das árvores
Optofobia – medo de abrir os olhos
Pedifobia – medo das crianças
Balistofobia – medo das balas
Tropofobia – medo de mudar de situação ou lugar
Agirofobia – medo das ruas ou de atrevessar uma rua
Cromofobia – medo de certas cores
Nictofobia – medo da noite
Ergofobia – medo do trabalho
Decidofobia – medo de tomar decisões
Antropofobia – medo das pessoas
Astrofobia – medo dos fenómenos meteorológicos
Pantofobia – medo de tudo
Fobofobia – medo dos próprios medos

«Se você tivesse de ter um dos dois [pantofobia ou fobofobia], qual escolheria?», pergunta a directora do manicómio. O polícia opta pela fobofobia: «Entre ter medo de tudo e ter medo do meu próprio medo, escolho este último, não se esqueça que sou polícia e se eu tivesse medo de tudo não poderia trabalhar.» Ao que a directora replica: «Mas se tiver medo dos seus medos a sua vida pode transformar-se numa observação constante do medo, e se estes se activarem, o que se produz é um sistema que se alimenta a si mesmo, um enredo do qual lhe será difícil escapar».
Há ainda um outro tipo de medo, digo eu. A 2666fobia: medo de não acabar um certo livro de Roberto Bolaño.

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges