2666 (uma leitura colectiva)

Depois da febre Sebald, há uns anos, os EUA foram atingidos recentemente pela febre Bolaño. Críticos rendidos, êxito de vendas, presença nos principais tops dos melhores livros de 2008 – é o triunfo da Bolañomania.
O fenómeno espalha-se também, como é óbvio, na Internet (ou a partir dela). Agora, o autor de um blogue sobre Bolaño (e também, talvez não por acaso, de uma mailing list sobre David Foster Wallace) criou um grupo de discussão no Google sobre o escritor chileno. A partir de 12 de Janeiro, este grupo iniciará uma leitura colectiva de 2666, o magnum opus póstumo de Bolaño, ainda inédito em português.

Contra a avalanche de glamour

Ponho-me a folhear os três livros trazidos de Espanha e no de Bolaño, como são as coisas, encontro este trecho de uma conferência que convoca precisamente os autores dos outros dois:

«Qué pueden hacer Sergio Pitol, Fernando Vallejo y Ricardo Piglia contra la avalancha de glamour? Poca cosa. Literatura. Pero la literatura no vale nada si no va acompañada de algo más refulgente que el mero acto de sobrevivir. La literatura, sobre todo en Latinoamérica, y sospecho que también en España, es éxito, éxito social, claro, es decir es grandes tirajes, traducciones a más de treinta idiomas (…).

Los escritores actuales no son ya, como bien hiciera notar Pere Gimferrer, señoritos dispuestos a fulminar la respectabilidade social ni mucho menos un hatajo de inadaptados sino gente salida de la clase media y del proletariado dispuesta a escalar el Everest de la respectabilidad, deseosa de respectabilidad. Son rubios y morenos hijos del pueblo de Madrid, son gente de clase media baja que espera terminar sus días en la clase media alta. No rechazan la respectabilidad. La buscan desesperadamente. Para llegar a ella tienen que transpirar mucho. Firmar libros, sonreír, viajar a lugares desconocidos, sonreír, hacer de payaso en los programas del corazón, sonreír mucho, sobre todo no morder la mano que les da de comer, asistir a ferias de libros y contestar de buen talante las preguntas más cretinas, sonreír en las peores situaciones, poner cara de inteligentes, controlar el crecimiento demográfico, dar siempre las gracias.»

Nunca se acaba de ler

Roberto Bolaño

«Há uns dias, telefonou-me Horácio Castellanos Moya para me dizer que Bolaño estava hospitalizado, doente do fígado, grave, tu não lhe mandes os teus livros porque o camarada está muito mal, disse-me. De facto, já tinha dois exemplares empacotados e prontos para lhe enviar para a sua residência em Blanes, acompanhados de uma breve carta, escrita à mão, solicitando-lhe a sua participação neste manuscrito. Hoje de madrugada [14 de Julho de 2003], Roberto Bolaño faleceu.
Como uma espécie de pêsames literários, ou coisa parecida, transportei vários dos seus livros comigo durante todo o dia. Haverá melhor maneira de nos despedirmos de um amigo que se conheceu apenas através da sua literatura do que relê-la? Bolaño dissera que nunca se acaba de ler, ainda que os livros acabem, tal como nunca se acaba de viver, ainda que a morte seja um facto certo. Bolaño dissera que queria um enterro ao qual pudesse chegar pelos seus próprios pés ou, em alternativa, uma cerimónia viquingue: o morto, o seu filho e os seus amigos fantasmas, mais ninguém. Lá estarei eu, então, entre tantos amigos fantasmas, quando as suas cinzas forem espalhadas no mar pelo seu filho Lautaro.
Para mim, digo, ou talvez o tenha dito Bolaño numa entrevista qualquer, é difícil responder à pergunta acerca da razão pela qual escrevo um livro. Certamente porque é aquilo que sei fazer melhor. Certamente, Roberto.

[in O anjo literário, de Eduardo Halfon, trad. de Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu, Cavalo de Ferro, 2008]

Um conto de Roberto Bolaño (em inglês)

Foi publicado há três dias no site da revista New Yorker. Título: Clara. Excerto:

«One night I dreamed of an angel: I walked into a huge, empty bar and saw him sitting in a corner with his elbows on the table and a cup of milky coffee in front of him. She’s the love of your life, he said, looking up at me, and the force of his gaze, the fire in his eyes, threw me right across the room. I started shouting, Waiter, waiter, then opened my eyes and escaped from that miserable dream. Other nights I didn’t dream of anyone, but I woke up in tears. Meanwhile, Clara and I were writing to each other. Her letters were brief. Hi, how are you, it’s raining, I love you, bye. At first, those letters scared me. It’s all over, I thought. Nevertheless, after inspecting them more carefully, I reached the conclusion that her epistolary concision was motivated by a desire to avoid grammatical errors. Clara was proud. She couldn’t write well, and she didn’t want to let it show, even if it meant hurting me by seeming cold.»

A tradução é de Chris Andrews. A chamada de atenção para a pérola veio do António Gregório.

O rosto dos leitores

Resposta de Roberto Bolaño a uma pergunta de Conchita Penilla.

A viagem diagonal

detectivesselvagens.jpg

Os Detectives Selvagens
Autor: Roberto Bolaño
Título original: Los Detectives Salvajes
Tradução: Miranda das Neves
Editora: Teorema
N.º de páginas: 511
ISBN: 978-972-695-764-5
Ano de publicação: 2008

Embora seja cedo para fazer balanços, os leitores portugueses que apreciam a melhor ficção latino-americana não se podem queixar do que 2008 lhes tem oferecido. Em Maio, foram publicados quase em simultâneo, pela primeira vez por cá, dois fabulosos romances argentinos: Rayuela, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro), e Bomarzo, de Manuel Mujica Lainez (Sextante). Duas obras imensas — também no volume (mais de 600 páginas) — que tiveram de esperar 45 e 46 anos, respectivamente, até encontrarem editores com coragem para fazer delas uma aposta, sobremaneira arriscada quando se sabe que o mercado editorial está cada vez mais competitivo.
A estas duas boas notícias junta-se agora uma terceira, com a edição, pela Teorema, do magistral romance Os Detectives Selvagens (1998), de Roberto Bolaño, outro tijolo que ultrapassa as 500 páginas (mesmo em versão compactada) e que chega — do mal o menos — apenas com uma década de atraso. À semelhança de Rayuela, que teve o efeito de uma bomba incendiária na década de 60, esta ficção desmesurada também abanou os alicerces da literatura made in América Latina, mostrando que há vida para além do realismo mágico e seus epígonos (ou filhos bastardos).
Como sempre em Bolaño, é justamente a literatura que está no centro de tudo. E não apenas porque quase todas as personagens se assumem como escritores, ora unidos ora desunidos por filiações estéticas, mas porque a própria aproximação à realidade é feita através de mecanismos ostensivamente literários (fragmentação narrativa, elipses, apoteoses líricas, etc.). A escrita do autor chileno engole o mundo real, devora-o, sobrepõe o seu tempo e a sua geografia àquilo a que chamamos Tempo, àquilo a que chamamos Geografia. Escusado será dizer que a beleza deste processo de assimilação está na consciência do seu inevitável fracasso.
As duas figuras centrais do romance, Arturo Belano e Ulisses Lima, são seres mais leves do que o ar, condenados à deriva e ao desaparecimento. Poetas fundadores do “realismo visceral”, circulam pela Cidade do México exibindo mais pose do que substância. Além de sabotarem os seminários de poesia nas universidades, tanto eles como os seus seguidores baldam-se às aulas, passam os dias em espeluncas a beber café com leite e a dizer mal de Octavio Paz, roubam livros, traficam e fumam marijuana, lêem compulsivamente (até no duche), falam muito, bebem muito mescal (entre outros álcoois) e fazem muito sexo. Arturo e Ulisses, “duas sombras cheias de energia e velocidade”, são muito diferentes, mas agem no mesmo comprimento de onda: “Um deles podia começar a falar e deter-se a meio da fala, e o outro podia prosseguir a frase ou a ideia como se a tivesse iniciado ele próprio.” Um dia, no final de 1975, decidem procurar o rasto de uma poeta esquecida: Cesárea Tinajero, “estridentista” nos anos 20, perdida algures no deserto de Sonora. É o resultado trágico e melancólico dessa busca que os conduzirá, depois, a uma fuga errática que dura pelo menos duas décadas.
Ao leitor, felizmente, a história não lhe surge assim tão linear. A primeira e terceira partes correspondem a um diário que Juan García Madero, real visceralista de 17 anos, órfão, redige imediatamente antes e depois da sua rocambolesca partida para o deserto de Sonora, a bordo de um Ford Impala branco, com Arturo, Ulisses e uma prostituta acossada, mais o chulo dela no encalço. O essencial do romance, porém, está na segunda parte, composta pelos depoimentos sobre Belano e Lima dados por 52 personagens que com eles se cruzaram entre 1976 e 1996, durante a tal fuga desesperada para lugares tão longínquos como Telavive, Manágua, Viena, San Diego, Paris ou Monróvia. Mais do que virtuosismo, este complexo novelo de histórias (que tanto se complementam como se contradizem) revela a mestria narrativa de um escritor excepcional, no momento em que atingia o ápice das suas capacidades expressivas.

Avaliação: 9,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

E um dia a Obra morre

«Iñaki Echavarne, Bar Giardinetto, Rua Granada del Penedés, Barcelona, Julho de 1994. Durante um tempo a crítica acompanha a Obra, depois a crítica desvanece-se e são os Leitores quem a acompanha. A viagem pode ser longa ou curta. Depois os Leitores morrem um por um e a Obra continua sozinha, se bem que a pouco e pouco outra Crítica e outros Leitores vão acompanhando a singradura. Depois a Crítica morre outra vez, e os Leitores morrem outra vez, e sobre essa esteira de ossos a Obra continua a sua viagem rumo à solidão. Aproximar-se dela, navegar no seu rasto, é sinal inequívoco de morte certa, mas outra Crítica e outros Leitores se lhe aproximam, incansáveis e implacáveis, e o tempo e a velocidade devoram-nos. Finalmente, a Obra viaja irremediavelmente sozinha na Imensidade. E um dia a Obra morre, como morrem todas as coisas, como se extinguirão o Sol e a Terra, o Sistema Solar e a Galáxia, e a mais recôndita memória dos homens. Tudo o que começa como comédia acaba como tragédia.»

[in Os Detectives Selvagens, de Roberto Bolaño, trad. Miranda das Neves, Teorema, 2008]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges