Anatomia de um impasse

Outra Vida
Autor: Rodrigo Lacerda
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 168
ISBN: 978-972-564-987-9
Ano de publicação: 2012

O romance Outra Vida, do escritor brasileiro Rodrigo Lacerda, decorre inteiramente numa estação de autocarros, cenário de um drama familiar que vai ganhando densidade e violência, à medida que as personagens revelam a sua verdadeira natureza. No centro da narrativa, três figuras: um homem, uma mulher e uma menina de cinco anos. Ele é um gigante de quase dois metros, abrutalhado mas terno, funcionário público menor que se deixou corromper (mais por ingenuidade do que por cupidez), transformado em bode expiatório e de tal maneira caído em desgraça que só pensa em abandonar a grande cidade, regressando às suas origens humildes. A mulher, pelo contrário, não quer partir. Está muito presa às ambições de uma vida na metrópole, sente o pânico de um retrocesso no seu estatuto social, e por isso procura argumentos para ficar, ignorando que um desses argumentos (o amante secreto) ameaça intrometer-se no longo impasse que dura mais de duas horas e 160 páginas. Quanto à menina de cinco anos, funciona como o fulcro e o catalisador da desagregação conjugal, sobretudo a partir do instante em que desaparece no caos dos passageiros que vão e vêm, abrindo de vez uma caixa de Pandora que não voltará a ser fechada.
Rodrigo Lacerda executa, com rigor clínico, a anatomia deste impasse, revelando a pouco e pouco a parte submersa do icebergue; isto é, todas as condicionantes – biográficas, psicológicas, emocionais – de uma relação assente em desequilíbrios e expectativas frustradas. O problema é que o faz recorrendo a um narrador verborreico, algo pomposo, com tendência para teorizar sobre tudo e mais alguma coisa (de questões sociológicas ao crescimento populacional), uma voz exagerada que se sobrepõe à narrativa, tão omnipresente que chega a sufocar as vozes próprias das personagens. Junte-se a isto algumas limitações estilísticas da prosa de Lacerda, quase sempre pesadona, e temos um romance com alguns momentos poderosos (toda a relação do pai com a filha, por exemplo), mas que fica muito aquém do que podia ser.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no n.º 110 da revista Ler]

Primeiros parágrafos

«Mesmo sentado num daqueles bancos altos de lanchonete, com a barriga colada no balcão, o marido, de quase dois metros, tem as pernas semidobradas e os pés bem plantados no chão. Além do tamanho acima da média, após seis anos de casado, está mais corpulento do que sempre foi. Tem braços mais pesados, um pescoço mais grosso e seu olhar ganhou maior lentidão.
Enquanto mastiga, suas têmporas afundam, estufam, e nós saltam nos encaixes do maxilar. Está na segunda lata de refrigerante, com o fôlego natural em dois canudos. Antes de cada mordida no x-tudo que pediu, ele enfia a bisnaga vermelha por entre as camadas de pão-alface-tomate-maionese-ovo-baconbife-tomate-alface-pão, e aperta-o com vontade, sem tocar na outra bisnaga, amarela, à sua frente no balcão. Ao cravar os dentes no pão, faz o molho brotar do recheio, devolvido, amolecendo o guardanapo de papel e caindo no prato em gotas consistentes.
A esposa, embora ainda jovem, possui a beleza diferente da mulher que amadurece muito cedo. Com a bolsa junto ao corpo, o tórax espigado, firme sob o tecido da blusa, ela espera a família terminar o café da manhã. Jamais comeria ali. Pediu apenas um café bem preto, que adoçou artificialmente, numa dose arbitrária e preestabelecida. Só que nem o café está bebendo. Viu xícaras, pires e colherinhas sendo escaldados na água, brotando do vapor diante de seus olhos, mas para ela nada torna as condições sanitárias do lugar menos suspeitas. Faz então a pequena xícara branca evoluir em seus dedos compridos, só para ocupar as mãos.»

[in Outra Vida, de Rodrigo Lacerda, Quetzal, 2011]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges