A violência dos inúteis

Cinerama Peruana
Autor: Rodrigo Magalhães
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 223
ISBN: 978-989-722-111-8
Ano de publicação: 2013

Nos últimos tempos, multiplicaram-se nas livrarias os primeiros romances de escritores portugueses, em parte devido ao efeito de alguns prémios literários – sobretudo o Prémio LeYa, que abre a porta da publicação tanto ao vencedor como aos melhores finalistas. Entre tamanha oferta, não faltam tiros de pólvora seca (a maioria) nem exemplos de verdadeiro talento. Mais raro é encontrar um romancista que já domine plenamente o seu mister, um estreante que a cada frase nos faça duvidar desse estatuto de inexperiência narrativa. Aconteceu com Benoni, de Alexandre Andrade (Editorial Notícias), em 1997. Aconteceu com Um Homem: Klaus Klump, de Gonçalo M. Tavares (Caminho), em 2003. Aconteceu poucas vezes na última década. Volta a acontecer agora com Cinerama Peruana, de Rodrigo Magalhães.
Neste livro magnético (no sentido em que o leitor experimenta em permanência uma força de atracção, densa e obscura), o que mais impressiona é o domínio absoluto do autor sobre os materiais literários. Livreiro de profissão, Rodrigo Magalhães leu decerto muitíssimo. E isso nota-se nas muitas dezenas de referências a escritores e livros ao longo do romance. Essas leituras, porém, não tolhem a arte de contar nem lhe acrescentam o peso de uma erudição artificial ou pretensiosa. Se se evoca Buzzati ou Melville, é porque o texto pede uma evocação de Buzzati ou de Melville. No fundo, o livro aglutina ideias, imagens e arquétipos que encontrámos talvez noutros lugares, mas que surgem aqui reconfigurados, sempre em fuga, sempre em movimento. Nada é fixo. Tudo flui. E o mesmo acontece com as personagens: corpos errantes, difusos, quase imateriais, com a consistência do fumo e da sombra. Uma dessas personagens, sempre a oscilar entre a «objectividade» e o «delírio», resume tudo numa espécie de lema: «Quero ser um criador de coisas secretas que, expostas ao ar, expludam.» Rodrigo Magalhães segue-lhe os passos. Expõe ao ar coisas secretas. E as explosões que assim nos oferece são magníficas.
O livro está organizado em três partes autónomas, independentes umas das outras. Na primeira acompanhamos um ensaísta falhado, Harry Heels, autor de uma obra vasta e inédita (embora sujeita a minuciosa exegese). Essa obra árida, difícil, nalguns casos quase ilegível, contrasta com a sua vida aventurosa, durante a qual foi bebé adoptado na Inglaterra da II Guerra Mundial, alfaiate, empregado de mesa num bar, pugilista e rufia do bas fond londrino nos anos 60, quando este era dominado pelos célebres irmãos Kray. Os seus crimes culminam no homicídio de um polícia nos cais de Paris, durante o festivo Maio de 68. A segunda parte é uma sucessão de vinhetas curtas sobre dois irmãos gémeos, filhos de um célebre editor, uma rapariga e um rapaz que deambulam pelo mundo e pela literatura, mais leves do que o ar. Mas a carta de alforria de RM na literatura portuguesa surge na extraordinária terceira parte. Uma história de assassinos peruanos, «pessoas inúteis ao serviço da violência», como sugere a epígrafe de Ryszard Kapuscinski. Violência brutal, «nascida do ressentimento», do despeito, de uma ordem que os ultrapassa, como se cada um destes homens – Bruno, Alvaro, Pascal, Moisés, «príncipes infernais» – trouxesse em si uma «lâmina feita de pura maldade». Complexa, a história expande-se e contrai-se em ondas que abarcam vários tempos, vários pontos de vista, uma engenhosa rede de narradores. Há mestres e discípulos, conjuras e traições, enganos e imposturas, muitos crimes, muito negrume.
Se a energia visceral desta terceira parte remete para Roberto Bolaño e a vertiginosa hipertrofia de pormenores da primeira lembra David Foster Wallace (não faltam sequer notas de rodapé às notas de rodapé, como em A Piada Infinita), Rodrigo Magalhães é tudo menos um epígono habilidoso. À semelhança das suas personagens, ele aprendeu com os melhores para depois seguir o seu caminho. Esperemos para ver, com a expectativa no zénite, até onde conseguirá chegar.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«O gesto inicial de Montaigne gerou vasta descendência, como se sabe.
De tão vasta e heteróclita prole, um dos nomes que menos se destaca é o de Harry Heels, mancuniano da safra de 1940. Filho de John Heel, diácono e bibliotecário em Levenshulme, nascido em Gorton no ano de 1916, filho de um sapateiro dessa povoação e de uma lavadeira de Longsight, e casado aos 24 anos com Rebecca Hall, daí em diante conhecida como Sra. Hall Heel.
Entregaram o seu primeiro filho à voracidade pública num dia enevoado de Novembro de 1940, mas o diácono foi tomado pelo horror ante o fruto do seu comportamento lascivo e deu para adopção aquele que viria a ser o seu único filho, atirando a responsabilidade para os braços de outros, através dos conhecimentos que lhe dispensava o sacerdócio.
Por essa falta, o seu deus acertou contas com ele.
Foi na biblioteca, a 30 de Julho de 1943. Atingiu-o na cabeça um grande vaso que um administrador achara por bem colocar na estante por trás da sua secretária. Quando estava só, John tinha a tentação de se espreguiçar, um gesto que por pudor só se permitia uma vez por dia. Impusera-se esse cilício da única espreguiçadela diária, mas o calor amolecia-lhe a fé e tornava o indolente, como ele dizia na catequese acerca dos negros, falando às crianças de Gorton, advertindo-as para o terrível pecado da preguiça, fazendo-o com verdadeira convicção, mas sem nunca lhes lembrar, apesar de tantas lições ter dado nessa paróquia, que era vítima de um pecado semelhante àquele de que dominicalmente acusava os africanos. Bocejou com vigor e começou a erguer os braços de forma tímida. Esticou-os com languidez, prolongando o bocejo. Nesse momento, as pernas traseiras do seu banco, gastas pelo muito tempo que John passava sentado, escorregaram numa zona do soalho que durante a limpeza matinal fora esfregada com maior vigor do que o habitual e que depois de almoço — quando os ditos factos se deram — permanecia ainda algo húmida. O acidente apanhou a espreguiçadela numa sorte de momento descendente. Os dedos entrelaçados do diácono tinham atingido o zénite da preguiça e preparavam-se para a descida. Assustou-se com o brusco movimento para diante do seu banco.
As suas mãos procuraram o amparo da estante, mas não encontraram senão o rebordo do naperão colocado sob o vaso, uma tentativa para salvar-se que outro efeito não teve senão fazer o vaso precipitar-se sobre a sua cabeça, o que aconteceu já depois de ter chegado ao chão, onde primeiro bateu com a nuca, fracturando de imediato o occipital e partes do parietal. No vaso crescia o que teria sido um esplêndido philodendron, que o administrador insistira em plantar ele próprio após mandar vir a semente do Brasil por posta aérea. Tinha achado a planta bela ao vê-la num catálogo, sabendo de antemão e de fonte segura que a mesma não se daria naquele clima, trazendo-a então por capricho e plantando-a, num segundo e ainda mais terrível capricho, por trás da secretária do diácono John Heel, no qual poderia depois pousar a culpa que o assolaria por a planta não ter medrado, insinuando talvez que o outro não a teria regado como era próprio, mas não se imaginando capaz de o punir com tão temível morte por tão magra ofensa, o crânio esmagado pelo pesado vaso que continha o amarelecido e raquítico philodendron e os poucos quilos de terra que o mantinham.»

[in Cinerama Peruana, de Rodrigo Magalhães, Quetzal, 2013]

Primeiros parágrafos

«O gesto inicial de Montaigne gerou vasta descendência, como se sabe.
De tão vasta e heteróclita prole, um dos nomes que menos se destaca é o de Harry Heels, mancuniano da safra de 1940. Filho de John Heel, diácono e bibliotecário em Levenshulme, nascido em Gorton no ano de 1916, filho de um sapateiro dessa povoação e de uma lavadeira de Longsight, e casado aos 24 anos com Rebecca Hall, daí em diante conhecida como Sra. Hall Heel.
Entregaram o seu primeiro filho à voracidade pública num dia enevoado de Novembro de 1940, mas o diácono foi tomado pelo horror ante o fruto do seu comportamento lascivo e deu para adopção aquele que viria a ser o seu único filho, atirando a responsabilidade para os braços de outros, através dos conhecimentos que lhe dispensava o sacerdócio.
Por essa falta, o seu deus acertou contas com ele.»

[in Cinerama Peruana, de Rodrigo Magalhães, Quetzal, 2013]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges