O melhor post do mês (e talvez do ano)

Rogério Casanova sobre David Foster Wallace e os vários tipos de inteligência (A, B1, B2, C e D).

Falso alarme

Afinal, ele ainda cá anda.

Emendas

O texto do post anterior levou muitas voltas, mas mesmo muitas, a maior parte delas depois de ter sido publicado há cerca de uma hora. A quem o tenha lido neste período, se tiver paciência para tanto, sugiro uma releitura.
Já agora, os ecos do jantar vão-se espalhando pela blogosfera. Mais relatos aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Um jantar memorável

Onde - A Licorista (um restaurante muito em conta, na R. dos Sapateiros, Lisboa).
Quando – Uma noite da semana passada (quarta? quinta? o que é que isso interessa?)
Quem - Bastantes pessoas (aquilo a que os senhores da restauração chamam um grupo: mais de dez, menos de vinte).
Porquê - Ninguém faz a minímina ideia.
Como – É aqui que as coisas se tornam interessantes, como perceberá o leitor ao acompanhar o relato que se segue, por ordem cronológica (quase minuto a minuto), à maneira dos sites de futebol e de certos exercícios de maldade bloguística.
Ora então foi assim:

20:37 – Olho à volta: só três macacos à porta da Licorista. O resto da malta encara de forma um bocadinho elástica a expressão oito e meia.

20:52 – Os convivas lá chegam a conta-gotas: enregelados, alegres, atrasadíssimos. Tão portugueses.

21:00 – Entramos em cima da meia hora da praxe, as vozes a misturarem-se, uma procissão de casacos a atafulhar os cabides.

21:08 – Pacotes miniatura de manteiga abertos, pastéis de bacalhau (bem bons) e ninguém se atreve a fazer a pergunta: «Será que ele vem mesmo?»

21:10 – Sem se conseguir conter, a Isabel Coutinho faz a única pergunta que lhe acode ao espírito desde que jantou no Bairro Alto com o Paolo Giordano: «e então, acham que ele é sobredotado?» As pessoas disfarçam, fingem olhar para o telejornal, mas eu não escapo: «se já perguntaste uma vez, o que é que te custa perguntar outra?» Desdobro o guardanapo e coloco-o no meu colo, enquanto respondo: «Isabel, Isabel, é melhor esqueceres essa história do italiano, já te disse. Olha lá, por que é que não vês quem é que anda a dizer o quê no Twitter?» Os olhos dela iluminam-se e nunca mais ouvimos a sua voz, só o leve murmúrio das pontas dos dedos, matraqueando suavemente o ecrã táctil do iPhone.

21:19 – Francisco José Viegas continua com um ar exausto. Não é fácil, estar uma hora e meia ao lado de Maria José Morgado (o Darth Vader do F. C. P., a nemésis de Pinto da Costa), ainda por cima num debate literário.

21:24 – Os Booktailors passam este minuto a conspirar, com sorrisinhos melífluos, sobre tudo o que se passa no mundo dos livros em Portugal, na Europa, no Planeta Terra, no Sistema Solar, na Via Láctea e mais além. «Sabem que é que vai comprar a Far as Hell Publishers, a mais importante editora de Alfa do Centauro e arredores?» Toda a gente suspende as conversas, alguém manda baixar o Jornal Nacional da TVI. Resposta de Paulo Ferreira: «Pois bem, vejam amanhã no nosso blogue

21:32 – Começam a chegar os primeiros pedidos: costeletas de encher o prato, bacalhau com natas. O restaurante recebeu um importante prémio gastronómico pelo seu afamado Bacalhau à Braz. Previsivelmente, não há Bacalhau à Braz. Mas há bacalhau com grão. E essa mera possibilidade, prevista num canto da lacónica ementa, foi como que o detonador da chegada dele. Do próprio. Porque toda a gente sabe que Rogério Casanova só come bacalhau com grão, ao almoço e ao jantar, durante 365 dias por ano (366 nos bissextos).

21:35 – E eis que ele aparece. O mais parecido com isto que alguma vez vi foi uma aurora boreal (mentira). Mas acho que até uma aurora boreal coraria de vergonha, se andasse pela Baixa e se cruzasse com uma coisa assim. Coisa é a melhor palavra, realmente. Já assombro, embora seja uma palavra pequenina para descrever a descarga eléctrica que encheu de luz e pavor a Licorista, parece-me capaz de se aguentar à bronca. Vou resumir então a coisa ao mais minimalista dos inventários: sapatos Manolo Blahnik (com tacões agulha de dez andares e uma cobertura de cristais Swarowski, a desenhar um R num dos pés e um S no outro); um vestido metalizado com fechos em ouro, resultado de um brainstorming entre Jean-Paul Gaultier (depois de uma tarde a contemplar os operários nos estaleiros de Saint-Nazaire), o par Dolce & Gabbana (ressacado de uma festa onde as drogas tinham nomes de cometas) e Fátima Lopes, convalescente de uma operação plástica à sua franja. Por cima disto tudo: um top em angorá, cor fúchsia; um gorro de astracã; uma écharpe em caxemira com delicados padrões fractais; e um crachá branco com letras vermelhas, que diz: «Eu sei onde mora o Thomas Pynchon. Pergunte-me como».

21:38 – Enquanto se livra dos atavios, Rogério Casanova diz para todos: «Vou só ali à casinha. Já volto.» Observador atento, julgo ter sido o único a aperceber-me de que o rímel esborratado, mesmo por baixo dos olhos, replica de forma admirável os contornos, nem sempre firmes, do vasto delta do Zambeze.

22:10 – Rogério Casanova sai do WC transfigurado [como podem constatar no fim deste post]. Algumas pessoas já vão na sobremesa, há mesmo quem peça cafés. Impávido, Rogério Casanova senta-se, consulta o menu e insiste no mantra: «Bacalhau com grão».

22:50 – A previsibilidade, no entanto, termina ali. Nos últimos 40 minutos, mas não necessariamente por esta ordem, Rogério Casanova construiu uma caravela com palitos (velame = guardanapos), dançou sapateado em cima da mesa ao estilo do Lord of the Dance (conseguindo ser talvez um nadinha mais frenético do que o próprio Michael Flatley), recitou em voz alta e de cor os 53.478 caracteres do último artigo de James Wood para a New Yorker, desenhou na toalha de papel uma quimera sportinguista assustadora (cabeça de Romagnoli, corpo de Miguel Veloso, pés de Rodrigo Tiuí), fez um minuto de silêncio em memória do esfíncter de John Updike (sem se aperceber que o resto do pessoal se estava a, enfim, marimbar para isso), alinhou uns quantos números de prestidigitação em que a única coisa que desaparecia era o fio do seu raciocínio e repetiu 163 vezes a pergunta: «Já te disse que sei desarrincar uns anagramas porreiros?».

23:08 – O massacre continua. Rogério Casanova não pára, não abranda, não larga. Já faltou mais para alguém chamar a polícia.

23:21 – Bocas caladas. Apenas o barulho do multibanco a imprimir papéis para os que pagam com cartão. O restaurante todo – até mesmo as cadeiras, as mesas, as paredes e o painel de mármore com o «flagrante delitro» de Pessoa – parece tremer. O silêncio é semelhante ao que se segue aos grandes sismos, aos maremotos, aos apocalipses. Rogério Casanova está encostado à porta de vidro, olhando melancólico lá para fora, para o mundo, para a realidade, para tudo isso que nunca fica verdadeiramente nos livros.

23:34 – Casacos, chapéus-de-chuva, rituais de pré-despedida, uma gargalhada como o pontapé que se dá nas brasas, a ver se ainda vale a pena reacender a fogueira.

23:35 – Não vale a pena.

23:37 – As luzes começam a apagar-se dentro da Licorista. Por muito subtil que seja a linguagem gestual dos empregados, o que eles estão a fazer, repetindo n vezes «Boa noite, boa noite, até à próxima», é enxotar-nos. E enxotados saímos para a rua, à espera do flash que eternize este memorável jantar.

23:49 – E agora, tchanan, tchaNAN, TCHANAN, eis a fotografia de grupo, tirada por um dos empregados de mesa (o mais paciente dos seres humanos, garanto-vos), imagem que desvenda por fim o que faltava desvendar:

Rogério Casanova é o segundo a contar da direita. Sim, esse mesmo. O da gravatinha berrante e carinha de totó. Sim, a improvável mistura do homem da Regisconta com o Pedro Miguel Ramos. É ele. O único, o verdadeiro, o maior.
Depois despedimo-nos calorosamente e fomos todos para casa.

Quem é Rogério Casanova? (A REVELAÇÃO)

Vai ser às 15h00 em ponto, neste blogue (e talvez noutros), com direito a fotografia e tudo. Estejam atentos.

Quem é Rogério Casanova? (subsídios para um mito urbano em construção)

Hoje, pelo menos no Twitter, ele é um irmão gémeo de Carlos Daniel (tinha que ser, tinha que ser). E está em forma. Como quem não quer a coisa, ofereceu ontem aos seus seguidores (no Twitter toda a gente pode sentir-se um profeta) a seguinte galinha dos ovos de ouro:

«Tive uma ideia espectacular para um jogo de computador.
Tipo jogo de estratégia, mas, em vez de um gajo fazer de treinador de futebol ou comandante de um exército, faz de poeta laureado.
Depois tem de cumprir tarefas, fazer rimas, etc. Há vários níveis. Tenho tudo planeado.
Rhymes of Doom. Não me digam que isto não vai ser um sucesso.»

Vai ser, vai. E se fosse a ti, Casanova, mandava já um mail para a EA ou para a id Software com o projecto todo bem explicadinho, não vá alguém enriquecer à tua custa.

O colectivo Casanova

Numa das cinco notas prévias à versão em papel do blogue Pastoral Portuguesa (edição Quetzal), blogue e livro atribuídos a esse avatar misterioso chamado Rogério Casanova, o autor explica-se:

«A idealização, criação e manutenção de Rogério Casanova foi um processo colectivo, dependente da dedicação de inúmeros profissionais. Todos eles – o presidente do Conselho de Administração, o director de Projectos, a secretária de redacção, as dezenas de estagiários responsáveis pela produção de conteúdos – desempenharam um papel determinante nesta empreitada. São eles os responsáveis pelo produto final, e merecem um sentido agradecimento. Os outros também. Toda a gente, no fundo.»

Não é difícil perceber que os textos em causa foram escritos até 2008. Actualmente, a situação é outra. No início de Janeiro, o colectivo Casanova desfez-se (escudado pela Crise, com maiúscula, o patrão fechou a empresa, despediu toda a gente e fugiu para um paraíso fiscal offshore) e o outrora grandioso e multitudinário Rogério, ao mesmo tempo que vê o seu nome chegar ao Olimpo das livrarias, arrasta agora o seu corpinho solitário (um downgrade com forma humana) pelas vielas dos bairros populares de Lisboa e respectivas espeluncas.

“A gramática é uma grande profissional, tem uma longa carreira, mas se calhar não está habituada a ser dominada desta maneira ao longo de um parágrafo inteiro”

Há muito tempo, mas mesmo há muito tempo, que um texto não me provocava tantas gargalhadas (daquelas aos solavancos, imparáveis, que nos inclinam o corpo para a frente e causam burburinho na sala, se a sala não estiver vazia).
Portugal até consegue sobreviver à licença sabática dos Gato Fedorento, mas não sei como é que se aguentaria sem o “Rogério Casanova”.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges