Escrever para trás

Concerto ao Vivo
Autora: Rosa Alice Branco
Editora: &Etc
N.º de páginas: 66
ISBN: 978-989-8150-36-3
Ano de publicação: 2012

Quase em simultâneo, foram publicados dois livros de poesia que gravitam em torno da ideia de amor fraternal. Na sequência 42 canções entre 2 Portas (segunda parte do volume De Amore, Assírio & Alvim), Armando Silva Carvalho cria um delicado «ofício de treva» para a irmã Genovena, canto doloroso de quem já nada sabe «soprar sobre / as palavras» e se mostra incapaz de «burilar o luto». Por seu lado, Rosa Alice Branco dedica Concerto ao Vivo (&Etc) «ao meu irmão João», cuja ausência cria nos poemas uma espécie de «futuro póstumo», nascido da certeza de que alguém saiu «antes da hora».
Embora omnipresente nestes versos, o espaço deixado vazio é uma realidade implícita, intuída através de subtis elipses («Pensei que ia ser assim. Tu a fugires / e a mãe inquieta até chegares / com o tropel de asneiras / que te seguiam como um cão. // Mas era um cão vadio / que não sabe a volta»). A morte dissolve a ordem das coisas, alisa os vincos do tempo e acende o passado («Agora somos todos pequenos»), obrigando a escrever «para trás». Surgem então as experiências comuns de quem cresce vigiado pelo rigor familiar, as cumplicidades e embirrações, memórias límpidas do riso atirado à água (voltando «sempre / em ondas circulares»), retratos fugidios de uma tristeza inclinada.
Na grande «extensão do amor» cabem outras figuras, como a avó e a mãe, sobretudo esta, retratada como alguém que se entregava completamente, apesar da rigidez e de um «ar distante», o rosto sempre «coberto por uma neblina / que me deixava perdida / como se um temporal tivesse furado / o cerco das árvores». Ao rememorar, Rosa Alice Branco refaz o mundo da infância e da adolescência em ambiente rural, com raparigas a irem buscar água à fonte e uma carnalidade que toca os corpos quando a «primavera rebenta pelas costuras», mas sabe que nenhuma imagem a conseguirá ajudar. Porque estes poemas elegíacos procuram o que não pode ser encontrado: «Agora que tirei o tempo / dos avessos, tenho tudo por dizer (…) E confesso que quando / venho à tona dou comigo a perguntar // porque não aprendeste a ficar cá».

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no n.º 116 da revista Ler]

Um coro de feridas

Gado do Senhor
Autora: Rosa Alice Branco
Editora: &Etc
N.º de páginas: 49
ISBN: 978-989-8150-31-8
Ano de publicação: 2011

Na epígrafe deste livro, Rosa Alice Branco evoca o homem como «doença mortal do animal» e os poemas começam por criar a expectativa de uma denúncia, em voz alta, das nossas malfeitorias enquanto espécie dominante. As primeiras páginas falam-nos de vacas condenadas ao «churrasco de domingo», mas ainda assim trocando «mus» como «mantras de amor sob as estrelas»; mostram-nos aves em «previsível colisão com aviões», porque a guerra (em concreto, a do Iraque) nada sabe das rotas migratórias; ou um cão da infância que fingia não ser o dono do seu dono. Mais à frente, temos ainda a visão de aviários piores do que favelas («Nas favelas sempre se / tem alcunha e muita raiva. E manha para fugir ao medo»), o solilóquio de uma galinha à espera da faca em «dia de arraial», a clarividência dos caracóis que «vêem para dentro».
Esta aproximação à «candura dos animais», indefesos diante das mãos humanas, podia quedar-se por uma espécie de militantismo ecológico (entrevisto na evocação da «Terra» como «cadáver», ainda assim belo «entre as flores do campo que resta / e o fumo dos incêndios que te cinzam»). Mas a poeta logo demonstra que o verdadeiro tema é outro. É a própria ideia de morte, é a experiência da perda total, esse afinado «coro de feridas», esse vazio súbito que nos deixa num desamparo semelhante ao dos bichos e suscita uma revolta contra as ordens estabelecidas – em particular a religiosa, com os seus «altares do sacrifício» onde é suposto sermos, por nossa vez, uma forma de «gado», também ele submisso e temeroso.
Por muito que os cemitérios se tenham transformado em «repartições públicas», a que as famílias acorrem «sem os formulários preenchidos» e gastando «toda a tristeza que pouparam», há nestes poemas uma desarmante evocação das mais antigas formas de luto: «Sigo os números que conduzem a ti. / O rosário dos ossos desfia este amor / que não cabe nas mãos. A carne é fraca, / a madeira porosa e tudo o que respiro te consome. Fecho os olhos e os teus passos tocam de novo / o chão da casa.»
Atravessado de ponta a ponta por um subtexto bíblico, Gado do Senhor é um belo livro, agreste e corajoso, feito de parábolas, música magoada e uma ironia ácida, especialmente notória nos diálogos com o divino: «Se és deus, ressuscita os anjos. Eu cá em baixo / não espero peva a não ser um pouco de pudor da tua parte. / Mas continuas a exibir o sofrimento das larvas, / da tua mãe santíssima, dos teus pregos a escorrerem / sangue, um sangue que é puro desperdício. / Se ao menos fosses dador universal.»

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 105 da revista Ler]

Cinco poemas de Rosa Alice Branco

O CÃO QUE ME TINHA

Eu tive um cão ou era ele
que me tinha e me deixava à solta
guiada sem saber que ia.
Tomava as minhas feridas,
a tristeza que eu pudesse ter
e sofria dela como eu nem sofria.
Trocava de mal trocando-lhe as voltas.
Punha a coleira ao pescoço
e levava-me a passear
como se eu fosse o dono.
E à noite dormia no chão
ou então fingia. Eu acordava
com um servo aos pés da cama,
armava-me em amo
e era ele que me tinha.
Exímio no silêncio
e no uso das armas
com que me defendia
de todos e também de mim:
a linha veloz do pêlo luzidio,
o frémito da língua,
o focinho em arco para a escuta.
Era um cão que me tinha
e uma tarde de verão
atirei-lhe um osso gostoso
antes de o deixar no canil.

***

AS VESPAS DE PALERMO

A virgem sorri-me com boca de mosaico,
os meus olhos mergulham nos arabescos do chão,
geometria do sol descendo as ruas de Palermo.
Insectos aceleram bzz bzz até nas passadeiras
e Cristo impávido na igreja em frente.
Mas Cristo não atravessa as ruas:
está um pouco acima da cruz, um pouco antes.
Os anjos abandonam a escuridão do templo.
As vespas parecem pirilampos
e bzz bzz são as asas dos anjos
conversando sobre os turistas do dia.
O bzz bzz das vespas cá em baixo é de encontros
com um copo na mão, a outra na cintura
e nos punhos das vespas, vespas, vespas
atordoando o riso, o beijo passageiro.
E já os anjos estão a postos na sua nudez redonda
enquanto as vespas dormem um sonho de alcatrão.
A ceia prepara-se. Cristo não nega o seu lugar à mesa.
Entre um bzz bzz e outro, olho-te no b barroco ou bizantino
e não aceito a tua morte, tu que atravessas acima das vespas,
vespas, vespas, acima do Etna que sobe ao céu
enquanto dentro se cozinham os infernos: a tua ceia,
os restos que deixaste para nós no microondas.

***

STREEPTEASE (CARTAGENA)

Cidades deitadas umas sobre as outras.
O peso pode ser insuportável. Comemos relva
do dia sobre as camadas que se vão despindo
lentamente, a malha urbana dos cinco apelos
para a prece, e cinco sob os cinco de outra era.
Mais abaixo escavam agora gritos lancinantes
mesmo ao centro do anfiteatro romano.
Animais carnívoros perfuram o solo
até às raízes. Tenho de respirar
um pouco nos teus olhos e acreditar que podes despir-me
da verdade soterrada há tantos séculos sob a arena.
Foi aqui que os leões nos lamberam as feridas
mas ninguém bateu palmas.
Só batiam os pés no chão em algazarra
para que os devorássemos. Mas somos
palhaços herbívoros e mesmo a erva
dói a entrar no coração.

***

SEU A SEU DONO

A pele espera nas coisas a carícia do uso
como o cão anseia pelo dono.
O bordo do copo, os dentes do garfo.
Usurpar os lábios entreabertos
com a alma útil e desinteressada.
Um gole de. Faz-se tarde.
O vinho faz esquecer a pele do copo.
Porque tocar (pensa ela)
é uma confidência nocturna.
Lá fora as flores. As sebes.
O ressumar de amantes no cálice.
Toco-te com mãos alheias:
eis toda a confidência de que sou capaz.
Um vestido de seda a abrir na minha perna:
um osso para te fazer correr:
um ganido de amor à porta do prédio.

***

SEM LIVRO DE RECLAMAÇÕES

No princípio era o verbo
e agora ninguém responde.
O marido, a amante, a família e os amigos,
todos alinhados sobre as campas.
Começam pela oração ou o correspondente laico
e logo passam às súplicas e aos subornos.
Os cemitérios são repartições públicas.
Por isso não há respostas.
Há noites mal dormidas pelas razões erradas.
Esta noite a cama tremeu três vezes. Os teus balbucios
na minha boca. A tua pele húmida. Sou o teu epitáfio?
A família e os demais continuam a acorrer aos balcões
sem os formulários preenchidos.
Os mortos já não pertencem às respostas.
Qualquer adjectivo apodrece como as flores.
Qualquer frase se decompõe sem sujeito.
Sou apenas uma tatuagem na tua campa.
No princípio era o fim.

[in Gado do Senhor, &Etc, 2011]

Três poemas de Rosa Alice Branco

STREEPTEASE (CARTAGENA)

Cidades deitadas umas sobre as outras.
O peso pode ser insuportável. Comemos relva
do dia sobre as camadas que se vão despindo
lentamente, a malha urbana dos cinco apelos
para a prece, e cinco sob os cinco de outra era.
Mais abaixo escavam agora gritos lancinantes
mesmo ao centro do anfiteatro romano.
Animais carnívoros perfuram o solo
até às raízes. Tenho de respirar
um pouco nos teus olhos e acreditar que podes despir-me
de verdade soterrada há tantos séculos sob a arena.
Foi aqui que os leões nos lamberam as feridas
mas ninguém bateu palmas.
Só batiam os pés no chão em algazarra
para que os devorássemos. Mas somos
palhaços herbívoros e mesmo a erva
dói a entrar no coração.

***

SEU A SEU DONO

A pele espera nas coisas a carícia do uso
como o cão anseia pelo dono.
O bordo do copo, os dentes do garfo.
Usurpar os lábios entreabertos
com a alma útil e desinteressada.
Um gole de. Faz-se tarde.
O vinho faz esquecer a pele do corpo.
Porque tocar (pensa ela)
é uma confidência nocturna.
Lá fora as flores. As sebes.
O ressumar de amantes no cálice.
Toco-te com mãos alheias:
eis toda a confidência de que sou capaz.
Um vestido de seda a abrir na minha perna:
um osso para te fazer correr:
um ganido de amor à porta do prédio.

***

SEM LIVRO DE RECLAMAÇÕES

No princípio era o verbo
e agora ninguém responde.
O marido, a amante, a família e os amigos,
todos alinhados sobre as campas.
Começam pela oração ou o correspondente laico
e logo passam às súplicas e aos subornos.
Os cemitérios são repartições públicas.
Por isso não há respostas.
Há noites mal dormidas pelas razões erradas.
Esta noite a cama tremeu três vezes. Os teus balbucios
na minha boca. A tua pele húmida. Sou o teu epitáfio?
A família e os demais continuam a acorrer aos balcões
sem os formulários preenchidos.
Os mortos já não pertencem às respostas.
Qualquer adjectivo apodrece como as flores.
Qualquer frase se decompõe sem sujeito.
Sou apenas uma tatuagem na tua campa.
No princípio era o fim.

[in Gado do Senhor, &Etc, 2011]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges