Funeral

A Porto Editora acaba de informar que Rosa Lobato de Faria estará em câmara ardente, a partir da manhã de quinta-feira, dia 4, na Igreja de Santa Isabel (Rua Saraiva de Carvalho, 2, Lisboa), realizando-se a missa de corpo presente às 14h00 e o funeral, no cemitério dos Olivais, a partir das 17h00.

Rosa Lobato de Faria (1932-2010)

Morreu, aos 77 anos, Rosa Lobato de Faria. Foram poucas as vezes em que nos cruzámos, mas guardo dela a imagem de uma mulher delicada e inteligente, hábil com as palavras, atenta e simpática.
Mesmo depois de eu ter escrito uma recensão negativa ao seu último romance, As Esquinas do Tempo (Porto Editora, 2008), não senti da sua parte aquele calado rancor que alguns escritores fazem questão de manifestar aos críticos. Era, para usar a expressão de Eduardo Pitta, uma verdadeira «Senhora». E é assim, julgo, que será lembrada.

As armadilhas de Cronos

As Esquinas do Tempo
Autora: Rosa Lobato de Faria
Editora: Porto Editora
N.º de páginas: 208
ISBN: 978-972-0-04181-4
Ano de publicação: 2008

Num romance inacabado de Henry James (The Sense of the Past), Ralph, um jovem historiador americano, visita em Londres uma casa que pertenceu aos seus antepassados. Nessa casa encontra o retrato a óleo de um homem que se lhe assemelha em tudo, excepto no facto de ter vivido no século anterior. O homem do quadro materializa-se e ambos trocam de época. Projectado para o início do séc. XIX, Ralph substitui o outro como se nada fosse e vive um amor impossível, sacrificado para obter o regresso ao presente.
A história do último livro de Rosa Lobato de Faria é muito semelhante à de Henry James. Também há trocas no tempo entre personagens similares (uma Margarida actual que viaja até 1908 e uma Margarida de 1908 que retrocede até ao consulado do Marquês de Pombal), também há uma casa antiga que pertenceu à família, um retrato a óleo que desencadeia a acção, amores impossíveis e inúmeras questões filosóficas sobre o fluir do tempo. O que separa as duas histórias é o abismo que vai do génio literário de James à prosa desembaraçada, mas tão fácil de ler quanto banal, da autora portuguesa.
Ao montar um enredo com vários eixos cronológicos e certa complexidade narrativa, RLF demonstra mais uma vez que sabe do ofício. O seu problema, o seu calcanhar de Aquiles, é estilístico. Há nesta escrita um tom enfático que cansa. Os lugares-comuns campeiam, o tratamento psicológico das personagens é linear (para não dizer ingénuo) e o foco descritivo estreitíssimo: ficamos a conhecer ao pormenor cada peça de vestuário, cada toalha de mesa, cada lençol bordado, mas não encontramos, por exemplo, um único vislumbre decente de uma paisagem natural. E se os muitos idílios amorosos parecem saídos dos romances de Corin Tellado (com diálogos típicos das telenovelas da TVI), as cenas de sexo, essas, são um desastre. «Fora de qualquer espaço e de qualquer tempo», os amantes entregam-se a «um amor de bichos, um amor de deuses», com beijos «escaldantes» que às vezes sabem «a mel e pimenta», gritos de alegria, abraços de náufragos que desfalecem de prazer.
Outras fragilidades são menos desculpáveis. Ao explicar ao seu amante no passado (1908) alguns milagres tecnológicos ainda por acontecer, a protagonista refere-se às aplicações da electricidade: «Há máquinas para tudo. Fazer torradas, lavar a roupa e a loiça, moer a sopa e, com um toque num interruptor, acendes as luzes que quiseres.» O amante espanta-se, mas só porque não lê os jornais. É que o interruptor eléctrico foi inventado em 1884, a torradeira em 1906 e a máquina de lavar roupa no preciso ano em que esta parte da acção decorre. Uma consulta de cinco minutos no Google teria poupado à autora de A Flor do Sal estes embaraçosos anacronismos.

Avaliação: 3,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

A primeira aparição de Madeleine McCann na literatura portuguesa

Se o desaparecimento da “pequena Maddie” invadiu todos os recantos do universo mediático durante o ano de 2007, era quase inevitável que os seus ecos também chegassem, de forma mais ou menos explícita, às ficções que se escreveram de então para cá. No panorama literário nacional, creio que o primeiro afloramento acontece no romance As Esquinas do Tempo (Porto Editora), de Rosa Lobato de Faria, acabadinho de chegar às livrarias.
É na página 34, quando Matilde, mãe de Margarida (que adormeceu num século e acordou noutro), tenta compreender o súbito e inexplicável desaparecimento da filha:

«– Não acredito – disse o Pedro que, com o seu espírito matemático, execrava histórias do outro mundo. – Nos fantasmas, quero eu dizer.
Dona Leontina trouxe água com açúcar, como aprendera nas novelas brasileiras, e Matilde bebeu.
Dona Eugénia, pragmática, falou:
– Poderão imaginar que fizemos algum mal à doutora Margarida Saldanha. Mas com que móbil?
Nos livros policiais de que era leitora assídua havia sempre um móbil para todos os mistérios.
– Pode ter sido raptada, como a Maddie – lembrou dona Aldora, a mais silenciosa das irmãs. – Também desapareceu da cama, sem deixar rasto.
– Ou pode ter sido abduzida por um extraterrestre – disse dona Leontina.»

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges