Alegria intermitente

cinza

Cinza
Autora: Rosa Oliveira
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 98
ISBN: 978-989-671-161-0
Ano de publicação: 2013

Nos últimos tempos, a poesia portuguesa tem sido pródiga em estreias promissoras, quase sempre de poetas na casa dos 20 ou dos 30 anos. Rosa Oliveira, cujo primeiro livro inaugura a nova colecção de poesia da Tinta da China, coordenada por Pedro Mexia, pertence a uma outra geração (nasceu em 1958), mas mostra até que ponto saber esperar pode ser uma virtude.
Os versos de Cinza vivem de uma relação tensa mas produtiva com a ideia do tempo que passa, desse presente que é charneira entre a memória do que foi e a incerteza do que virá, lugar onde uma voz se ergue, apesar de tudo, contra a ameaça do esquecimento. Os poemas são sóbrios, de prosódia segura mas sujeita a turbulências, quase sempre «longos como o sofrimento». A rede das remissões literárias é tão vasta quanto apertada: vai da verve melancólica de Ruy Belo à nitidez esquiva de Emily Dickinson, que «vivia dentro da sua biografia futura / e renunciara à vida por não suportar / o ruído do mundo».
Esta é uma escrita sempre em movimento, atenta à velocidade das coisas, às tragédias humanas (Pompeia, Waterloo), aos grandes fenómenos cósmicos e à iminência de uma barbárie que há muito nos vem tomando de assalto («estamos todos em guerra mesmo sem guerra»). Entre «paradoxos oníricos» e a visão das ruínas, há ainda espaço para alguma «alegria intermitente» e para um confessionalismo que é sempre elíptico, dolorido sem ser doloroso.
Se a poesia configura um «campo de distorção da realidade», Rosa Oliveira não se coíbe de desmontar, através dele, o caos contemporâneo. E de chicoteá-lo, uma e outra vez, com o látego das perguntas incómodas: «o que será mais cruel / a possibilidade ou a contingência?»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges