Resplendor e susto

RosalinaMarshall-Ginecologia

Ginecologia – Considerações em defesa da Virgindade de Nossa Senhora
Autora: Rosalina Marshall
Editora: não (edições)
N.º de páginas: 34
ISBN: 978-989-98790-1-0
Ano de publicação: 2013

Depois de uma estreia auspiciosa (Manucure, Companhia das Ilhas), Rosalina Marshall confirma a radical originalidade da sua voz neste livrinho em que se entrega a «considerações em defesa da virgindade de Nossa Senhora». Eis um inesperado regresso aos fulgores da poesia mística, com o sujeito poético a colocar-se voluntariamente na posição do devoto – aquele que olha para cima, em «pudico assombro», diante de uma «altíssima visão».
Como é evidente, Marshall conhece Santa Teresa de Ávila e San Juan de la Cruz mas o que fica desse lastro estético em certas imagens – como a da «flecha ferindo a graça» – logo se dissolve no mais desconcertante prosaísmo («tuas lágrimas / óleo Johnson»). Sendo a aproximação à figura de Nossa Senhora feita de «resplendor» e «susto», certos versos parecem destinados a provocar o choque e até (se vivêssemos noutra década) o escândalo: «Maria, Virgem santíssima / o teu orgasmo / é espírito / e santo». Mas relevar essa explicitação do que há de sexual no êxtase religioso seria desrespeitar a natureza do poema, todo ele feito de um subtil movimento de entrega à linguagem, enquanto poderosa lente que aumenta e dá sentido à realidade: «creio em ti, beata imagem / creio em ti, exposta / espelho meu / magnífica lupa».
A Virgem nunca deixa de ser essa «beata imagem», o veículo de uma projeção total, a ponto de se poder retirar «meu coração / de dentro do teu peito» ou ver que «debaixo da tua saia / a minha perna direita / é cera resplandecente». Para lá do transe, da bênção de «purpurina», da harmonia de lantejoulas, do espectáculo feérico da imaginação simbólica, restam «sonâmbulas / todas as palavras».

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Quatro poemas de Rosalina Marshall

VELOZ FAÚLHA ATMOSFÉRICA

atrás dos comboios que passam
não fica nada
o ar que lá estava
lá fica
porta invisível
eternamente chiando

***

CALOTES SUSPENSAS

numa cama
enquanto lá fora chilreavam pássaros
coloquei os dedos na jugular
precipício
sobre um jardim
onde nunca mais
se teme a morte

***

NA SENSAÇÃO DE ESTAR POLINDO AS MINHAS UNHAS

sei que morrerei no dia do aniversário da minha morte
ainda há coisas certas na vida
o dia do aniversário da minha morte apresenta tamanha discrição

que nem dou por ele
portanto não mudarei de roupa
talvez passe o dia deitada
no displicente descanso
de não atender telefones
nem me levantarei para ir ver o correio
e se alguém se lembrar de me acender
as inconsequentes velinhas
deixarei que derretam e estraguem o bolo
no dia do aniversário da minha morte
nem me penteio

***

DAS BANCADAS

muito bem
serei a barata tonta
não quero dum-dum
ao menos matem-me
com pancadas de molière

[in Manucure, Companhia das Ilhas, 2013]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges