Infindável cortejo

O Carnaval dos Animais
Autor: Rui Caeiro
Editora: Letra Livre
N.º de páginas: 111
ISBN: 978-989-95114-6-0
Ano de publicação: 2008

Velho cúmplice de Vítor Silva Tavares num exercício prático de amor à literatura e desprezo pelas leis do mercado (a editora &Etc), Rui Caeiro é também um dos mais discretos e secretos poetas portugueses. Desde Sobre a nossa morte bem muito obrigado (1989), vem publicando com certa regularidade livros de tiragem reduzida e circulação quase subterrânea, objectos de artífice que se sente bem no seu cantinho, a cinzelar os seus materiais (a sua linguagem), distante de glórias fátuas e alaridos mediáticos.
Em 1997, numa plaquette intitulada 49 espinhas para um gato (edição de autor), Caeiro multiplicou os ângulos de abordagem ao mais doméstico dos felinos, visto como «um animal eminentemente aforístico». Agora, em O Carnaval dos Animais, os aforismos estendem-se à restante fauna do mundo, num infindável cortejo onde se cruza todo o tipo de bicharada: formigas, tubarões, leopardos, abutres, hienas, pirilampos, hipopótamos, catatuas, pulgas, medusas, etc. E até seres não classificados por Lineu, como as sereias.
Ao contrário do que acontece em muitos bestiários, Caeiro não cede à tentação da fábula. No lugar das lições de moral, temos ironia (veja-se o poema sobre os bois: «O que neles me atrai não é tanto a força ou a paciência / mas aquele seu jeito único de olhar, com alguma / atenção, com alguma demora, para os palácios»). Os homens, esses «destroços de meter medo», ou estão ausentes ou são pressentidos como estúpida ameaça à ordem natural das coisas.
Na verdade, o que o poeta pretende fixar, com extraordinária economia verbal (nunca em mais de três versos), são os mínimos detalhes que fazem a singularidade de cada espécie. O voo das andorinhas deixa hieróglifos no ar, as otárias fazem amor com a água, o camelo é «um ser raro, um senhor» e os vermes, nos labirintos escavados na terra, «sonham com a nossa carne». Há também muita intertextualidade, nem sempre subtil, e alguns versos a que falta o rasgo que sobra a outros (como aquele em que as águias se mostram orgulhosas «da sua cabeça de Álvaro Cunhal»).
Longe da mera contemplação, esta é uma poesia que se quer, ela mesma, animal. Isto é, capaz de atacar «o cerne da literatura e da escrita / não com os olhos ou o parco entendimento / mas com a boca, mas com os dentes». Tal como fazem os peixinhos de prata, esses devoradores de bibliotecas que Caeiro eleva, magnânimo, a objecto poético.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Mais cinco miniaturas de Rui Caeiro

TUBARÕES

Há nos mares cerca de trezentas espécies diferentes
todas devidamente armadas com os mesmos dentes
(sobre o que se passa em terra não há estatísticas)


GRIFOS

Calvos, para melhor introduzirem
a cabeça e o pescoço
nas carcaças já podres


GRILOS

Podeis já só habitar a minha memória, podeis
já ter morrido todos: por milagre o antigo
cantar perdura, intacto e incorrupto


AVES

Ao contrário dos humanos, que raramente voam, elas
deleitam-se no voo, mas ainda ao contrário dos humanos
é muito raro que o façam na direcção de uma gaiola


CORÇAS

Quando nascem já trazem no pescoço
a indicação daquele ponto exacto
onde as feras hão-de cravar os dentes

[in O Carnaval dos Animais, Letra Livre, 2008]

Cinco miniaturas de Rui Caeiro

BORBOLETAS

Como o fogo, duram o tempo que duram
Duram pouco. Ninguém espera de uma labareda
que fique para sempre


SEREIAS

Brilham ao sol a negra cabeleira, a verde
opulência das ancas e a pele fria e morna
escorregadia como os limos que há nas rochas


LINCES

Para bem escutar o rumor do mundo, ou melhor
filtrar o pouco que importa ouvir, nada como
duas imponentes orelhas em bico de flecha


PAPAGAIOS

Dizem o que eu digo e dizem tão bem
que fico sem saber quem imita quem


VERMES

Nos negros labirintos do interior da terra
também sonham, sonham com a nossa carne

[in O Carnaval dos Animais, Letra Livre, 2008]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges