Rui Costa (1972-2012)

Quando soube da notícia, não tive tempo de escrever, não tive cabeça para escrever, não tive vontade de escrever. Eu conheci muito mal o Rui. Há três anos, nas Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, conversámos durante uma viagem de autocarro. Ele estava empenhado em candidatar-se à direcção do Pen Clube e falou muito sobre os jogos de bastidores, sobre as tricas em que é pródigo o mundo literário, sobre os egos que os escritores transportam como um estandarte, para ser exibido aos outros como os galos mostram as suas cristas.
Conversámos também sobre poesia, sobre livros adiados, versos que nunca nos chegam a satisfazer e outras misérias líricas. Quando o autocarro estacionou no cimo de um monte, com vista panorâmica e o mar lá muito ao fundo, cheio de brilhos dourados, sentámo-nos em pontas opostas do restaurante e a conversa ficou a meio (era, na verdade, uma conversa que ficaria sempre a meio, por muito que a continuássemos).
Há dez dias, ao saber que o Rui estava desaparecido desde dia 5, sem fazer levantamentos no multibanco, nem dar sinal de vida nos telemóveis, temi logo o pior. Nem por isso foi menos violenta, a notícia. Lembrei-me, por exemplo, da morte do Olímpio Ferreira, muito diferente nas circunstâncias, mas com a mesma brutalidade de ver um homem tão novo (40 anos), e com tanto para dar, arrancado assim de repente ao convívio dos que o amavam. Há um buraco que se recorta no quotidiano, sempre tão cheio de prioridades que nos afastam uns dos outros, e no momento em que nos apercebemos dessa cratera, a irreversível cratera, já nada podemos fazer.
Conheci muito mal o Rui. Ignoro as histórias que se escondem por trás da história da sua morte. Prefiro não saber mais nada. Sei que durante aquela viagem de autocarro ele me pareceu um homem decente (coisa tão rara), um poeta com mais dúvidas do que certezas, e isso basta-me. O essencial ficou dito, com raiva, com o coração todo à mostra, pelo Henrique Manuel Bento Fialho (a quem roubei a fotografia do Rui), neste post.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges