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Coca-Cola

A água suja do imperialismo, por Rui Manuel Amaral, aqui (com revelação da fórmula secreta da coisa e tudo).

Três micro-contos de Rui Manuel Amaral

O bibliotecário

Sempre ao fim da manhã e também ao fim da tarde, o bibliotecário recolhe os livros abandonados em cima das mesas. Aproveita para afagar as lombadas, ajeitar as folhas, limpar as capas, com gestos ternos e profissionais. Depois, e usando de todo o cuidado para não lhes causar algum desgosto ou perturbação, conduz cada livro ao seu exacto lugar. Com veemente paciência, procura então colocar cada volume na posição mais cómoda, alinhando a lombada com as restantes lombadas da mesma estante. As mãos tremem-lhe de tanto zelo.
No entanto, e apesar do cuidado com que o bibliotecário se entrega à sua meticulosa tarefa, os livros dedicam-lhe uma profunda inimizade. Conspiram e manobram nas suas costas, desde o primeiro dia.
O bibliotecário ouve-os falar e dá conta de tudo. Mas tanto se lhe dá porque ama verdadeiramente os livros. Porque ama-os apaixonadamente com todas as suas forças. Os livros, porém, não se deixam comover por estas demonstrações de afecto. Escarnecem do seu irritante desejo de agradar, lançam ofensas, urdem as piores armadilhas: os livros de história disfarçam-se de livros de botânica, os de medicina escondem-se sob as capas dos de teologia, e assim por diante.
Ora, os mais acérrimos inimigos do bibliotecário são os livros de poesia. Já vi livros de poesia enterrarem os dentes, sem cerimónias, nas mãos pequenas do bibliotecário. Mais do que isso: já vi clássicos da poesia puxarem-lhe a língua, cuspirem-lhe na cara, chamarem-lhe falso Judas e lambe-cus. Felizmente, são dos menos solicitados pelos leitores. De facto, apesar dos seus esforços para atraírem as atenções, com as suas capas escandalosamente azuis ou desmesuradamente grandes, raras são as vezes em que saem do lugar. Por isso, o ódio cresce a cada dia que passa. E à noite, colados à sua imensa imobilidade, os livros de poesia sonham com a morte do bibliotecário.

Os autocarros

De algum tempo a esta parte, dir-se-ia que os autocarros me tomaram de ponta. Quando estou numa paragem, aceleram ou passam ao largo. Ando a ler o “Inferno” de Strindberg nas minhas viagens entre casa e o escritório. Já ouvi as pessoas dizerem que os autocarros são muito perspicazes. E que, tal como certos animais, são capazes de prever toda a espécie de acontecimentos funestos. Amanhã vou tentar enganá-los com um romance muito lindo de…*

* Trata-se, de facto, de um romance muito lindo no qual se conta a história de três homens que decidem fazer uma viagem de barco, durante 15 dias, através do lago Léman. Obviamente, não sou tolo ao ponto de dizer o título.

Gregor Samsa

Um dia, Gregor Samsa decidiu visitar uma cigana famosa para que esta lhe lesse a sina.
A cigana pousou os dedos sobre a palma da mão dele e, depois de um breve prefácio de “huns” e “hans”, disse:
— Caro senhor, prepare-se. Em breve, vão crescer-lhe guelras e barbatanas.
Gregor Samsa considerou as palavras da cigana muito justas e sábias. Pagou e saiu.
Mais tarde, tentou reaver o dinheiro. A cigana, porém, mandou dizer pela secretária que não falava com insectos.

[in Caravana, Angelus Novus, colecção Microcosmos, 2008]

Mais dois teasers (desta vez feitos pela editora Angelus Novus)

Um mais directo (leitura em voz off do micro-conto Possibilidade de aguaceiros):

Outro mais elíptico (a jogar com um conhecido adágio):

O livro intitula-se Caravana e é a estreia literária de Rui Manuel Amaral.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges