Micro-histórias exemplares

Doutor Avalanche
Autor: Rui Manuel Amaral
Editora: Angelus Novus
N.º de páginas: 110
ISBN: 978-972-8827-74-8
Ano de publicação: 2010

Em 2008, Rui Manuel Amaral irrompeu nas letras portuguesas com algum estrondo. Caravana, o seu livro de estreia, era uma colectânea de micro-contos que sabotavam de várias formas as convenções ficcionais, quase sempre recorrendo à ironia, ao sarcasmo e ao absurdo, através de pequenos jogos narrativos cheios de paradoxos e brincadeiras meta-literárias. A escrita revelava uma precisão cirúrgica: efeito máximo com o mínimo de palavras; o rigor verbal do poeta aliado à capacidade de síntese do aforista.
Já sem o efeito de surpresa, pode dizer-se que o segundo livro do escritor portuense, Doutor Avalanche, vem ocupar precisamente o mesmo território de Caravana. Não se detectam quaisquer sinais de evolução ou ruptura, apenas uma continuidade de processos e efeitos. As histórias são igualmente boas, a linguagem não perdeu vigor nem engenho, mas fica a sensação de que RMA se limita a explorar um formato que já domina bastante bem, arriscando menos do que seria talvez exigível a quem elevou tanto as expectativas com a qualidade do primeiro livro. Dito isto, Doutor Avalanche não deixa de ser uma obra sólida, que nos oferece uma boa dezena de micro-histórias exemplares e prova a vitalidade de um género infelizmente ainda minoritário no nosso país.
No final do conto Skila Krivonóssovitch, o fabricante de olhos de vidro, o meticuloso artífice «que emprestava uma centelha da sua própria visão a cada olho que saía da sua oficina», e por isso mergulhara numa «negra e deplorável cegueira», corta as orelhas, substitui-as por réplicas em vidro e passa «a ver com os ouvidos». Estamos no campo do mais puro nonsense e o texto fecha com o seguinte parágrafo: «Sem dúvida que o leitor não esperava este desenlace, que não tem qualquer relação com a lógica mais elementar. E a própria sintaxe é um tanto discutível. Mas nem tudo no mundo tem que ter lógica ou obedecer a uma sintaxe perfeita.»
É justamente nesta negação da lógica comum que os contos de Doutor Avalanche se instalam, com as suas personagens que se evaporam («puff!, assim, sem mais»), descobrem ter o coração armadilhado, prendem Deus dentro de um tubo de ensaio, resolvem atacar os colegas de repartição à dentada, acordam dentro de uma garrafa ou vêem a sua casa invadida por uma árvore que renasce todas as manhãs, dando depois origem a um «bosque interminável». Há ainda ideias ostensivamente levadas à letra («– Raios me partam! –, rugiu Wippich. Então, num abrir e fechar de olhos, os raios partiram-no»), um sem número de prodígios anatómicos, notas de rodapé a propósito e a despropósito (outra forma de desconversar) e muitas narrativas que acabam de repente ou não acabam sequer, deixando esse trabalho inglório para o leitor: «Ora, não há nada de muito invulgar ou particularmente extraordinário no facto de alguém se encontrar em tal dia e a tal hora numa estação de caminho-de-ferro. Mas, por um momento, por um momento apenas, imagine-se a quantidade de coisas que podiam ter acontecido enquanto Dubrolubov esperava o comboio.» As minúsculas histórias de RMA são mesmo assim: instalam-se na cabeça do leitor e assumem as dimensões que este lhes quiser dar.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 96 da revista Ler]

Doutor Avalanche desce à capital

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Na net, o Doutor Avalanche mora aqui.

Duas histórias do ‘Doutor Avalanche’

A LONGA BARBICHA RUIVA

Quando Zurbin Raimondi entrou no café, uma trovoada de gargalhadas retumbou nos ares. Era sempre esse o efeito que produzia. Onde quer que chegasse, toda a gente desatava em convulsões de riso e a apontar-lhe o dedo. Por isso, não estranhou. Atravessou a sala e deixou-se cair na última cadeira, esperando pacientemente que a onda de hilaridade serenasse. Como era seu hábito, não trocou palavra com ninguém. Apenas bebeu uma cerveja, pagou e saiu, no meio da risota geral. Zurbin Raimondi não conseguia perceber o que havia nele que atraía todas as atenções e provocava nos outros um riso tão descontrolado. Até porque detestava dar nas vistas: falava muito pouco e quando se dirigia a outras pessoas, o som da sua voz até a si mesmo causava espanto. À noite, fechado no seu quarto, entregava-se às lágrimas e ao mais terrível desespero. «Não, não, não!», repetia de si para consigo, de olhos revirados e arrancando os cabelos.
Eis senão quando, à força de puxar pela cabeça, julgou ter encontrado o meio de acabar com tudo aquilo. Empunhou uma lâmina, ergueu-a acima do pescoço e cortou de uma só vez a longa barbicha ruiva que o acompanhava há largos anos. Pois bem, de queixo rapado, saiu para a rua. E meu dito, meu feito: não surpreendeu uma única gargalhada nem nada que sugerisse chacota. Em vez disso, viu caras graves, preocupadas e até coléricas, no escritório, no autocarro, no café, em todo o lado.
Nas semanas seguintes, deixou de ser motivo de riso e assunto de conversa. Já ninguém reparava nele. Zurbin Raimondi era agora tratado como qualquer pessoa mergulhada nas mesquinhas ocupações da vida. E por mais que tossisse fortemente ou batesse com a palma da mão na mesa do café, ninguém lhe prestava a mais leve atenção.
Apressou-se, pois, a deixar crescer a necromântica barbicha ruiva, a fim de que a sorte o brindasse de novo com qualquer desgraça. Mas nada aconteceu. A indiferença agarrara-o para não mais o largar.

A ÁRVORE

Não me lembro quando começou. Não sou bom a memorizar datas. Mas tenho ainda presente o espanto, o assombro, o medo, o assombro e o espanto que senti quando, uma manhã, ao acordar, dei de caras com a árvore. Uma árvore imensa plantada no meio do apartamento. Um gigante de longas raízes negras, que irrompera do fundo do soalho, durante a noite. Os ramos, tão numerosos como uma floresta, cobriam todas as divisões. As folhas farfalhavam no ar e batiam-me nos olhos.
Nesse mesmo dia, cortei-a pela base e livrei-me daquilo tudo. À noite, estendi-me na cama e adormeci muito satisfeito. Na manhã seguinte, porém, a árvore achava-se no mesmo local da véspera. E parecia ainda maior e mais frondejante. Cortei-a de novo e tudo se repetiu: de manhã lá estava o monstro verde, conspirando pacífica e vegetalmente, no meio do apartamento. No meu desespero, cheguei a queimar toda a madeira num instante. Mas bastavam alguns segundos para ela irromper do chão, ainda mais convincente e definitiva, e lançar os ramos contra os vidros.
Pouco a pouco, desisti de lutar contra os desígnios da natureza, se assim me posso exprimir. Tentava concentrar-me nas velhas tarefas domésticas, mas a minha atenção perdia-se por entre os ramos, nas folhas verdes e amarelas que ondulavam pelo tecto como borboletas caprichosas. Entretanto, um pássaro começou a cantar, depois outro e outro ainda, e pequenos animais despontaram de todos os lados, correndo e escondendo-se na erva.
Daí por diante, a casa transformou-se num bosque interminável, cheio de ruídos misteriosos, locais sombrios, segredos profundos. Por esta altura, creio que já não consigo encontrar a porta da rua. A vida nos bosques não é a melhor coisa do mundo, mas são tempos difíceis estes em que vivemos. E de um modo geral, tenho de o dizer sem falsa modéstia, estou a sair-me bem.

[in Doutor Avalanche, de Rui Manuel Amaral, Angelus Novus, 2010]

Cuidado com o Doutor Avalanche

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Cuidado, muito cuidado, que ele está quase a chegar.
Eis a capa:

E eis o booktrailer:

Coca-Cola

A água suja do imperialismo, por Rui Manuel Amaral, aqui (com revelação da fórmula secreta da coisa e tudo).

Três micro-contos de Rui Manuel Amaral

O bibliotecário

Sempre ao fim da manhã e também ao fim da tarde, o bibliotecário recolhe os livros abandonados em cima das mesas. Aproveita para afagar as lombadas, ajeitar as folhas, limpar as capas, com gestos ternos e profissionais. Depois, e usando de todo o cuidado para não lhes causar algum desgosto ou perturbação, conduz cada livro ao seu exacto lugar. Com veemente paciência, procura então colocar cada volume na posição mais cómoda, alinhando a lombada com as restantes lombadas da mesma estante. As mãos tremem-lhe de tanto zelo.
No entanto, e apesar do cuidado com que o bibliotecário se entrega à sua meticulosa tarefa, os livros dedicam-lhe uma profunda inimizade. Conspiram e manobram nas suas costas, desde o primeiro dia.
O bibliotecário ouve-os falar e dá conta de tudo. Mas tanto se lhe dá porque ama verdadeiramente os livros. Porque ama-os apaixonadamente com todas as suas forças. Os livros, porém, não se deixam comover por estas demonstrações de afecto. Escarnecem do seu irritante desejo de agradar, lançam ofensas, urdem as piores armadilhas: os livros de história disfarçam-se de livros de botânica, os de medicina escondem-se sob as capas dos de teologia, e assim por diante.
Ora, os mais acérrimos inimigos do bibliotecário são os livros de poesia. Já vi livros de poesia enterrarem os dentes, sem cerimónias, nas mãos pequenas do bibliotecário. Mais do que isso: já vi clássicos da poesia puxarem-lhe a língua, cuspirem-lhe na cara, chamarem-lhe falso Judas e lambe-cus. Felizmente, são dos menos solicitados pelos leitores. De facto, apesar dos seus esforços para atraírem as atenções, com as suas capas escandalosamente azuis ou desmesuradamente grandes, raras são as vezes em que saem do lugar. Por isso, o ódio cresce a cada dia que passa. E à noite, colados à sua imensa imobilidade, os livros de poesia sonham com a morte do bibliotecário.

Os autocarros

De algum tempo a esta parte, dir-se-ia que os autocarros me tomaram de ponta. Quando estou numa paragem, aceleram ou passam ao largo. Ando a ler o “Inferno” de Strindberg nas minhas viagens entre casa e o escritório. Já ouvi as pessoas dizerem que os autocarros são muito perspicazes. E que, tal como certos animais, são capazes de prever toda a espécie de acontecimentos funestos. Amanhã vou tentar enganá-los com um romance muito lindo de…*

* Trata-se, de facto, de um romance muito lindo no qual se conta a história de três homens que decidem fazer uma viagem de barco, durante 15 dias, através do lago Léman. Obviamente, não sou tolo ao ponto de dizer o título.

Gregor Samsa

Um dia, Gregor Samsa decidiu visitar uma cigana famosa para que esta lhe lesse a sina.
A cigana pousou os dedos sobre a palma da mão dele e, depois de um breve prefácio de “huns” e “hans”, disse:
— Caro senhor, prepare-se. Em breve, vão crescer-lhe guelras e barbatanas.
Gregor Samsa considerou as palavras da cigana muito justas e sábias. Pagou e saiu.
Mais tarde, tentou reaver o dinheiro. A cigana, porém, mandou dizer pela secretária que não falava com insectos.

[in Caravana, Angelus Novus, colecção Microcosmos, 2008]

Mais dois teasers (desta vez feitos pela editora Angelus Novus)

Um mais directo (leitura em voz off do micro-conto Possibilidade de aguaceiros):

Outro mais elíptico (a jogar com um conhecido adágio):

O livro intitula-se Caravana e é a estreia literária de Rui Manuel Amaral.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges