Assustar quem nos assusta

A Instalação do Medo
Autor: Rui Zink
Editora: Teodolito
N.º de páginas: 177
ISBN: 978-989-580-047
Ano de publicação: 2012

Um belo dia, batem-nos à porta funcionários ansiosos por instalar na nossa casa (isto é, na nossa vida) não um qualquer electrodoméstico milagroso, ou uma internet com a velocidade da luz, mas o medo. Essa coisa bruta e sofisticada, ancestral e moderna, esse instrumento de poder que os governos sempre gostaram de administrar – mais ainda num tempo de crises contínuas, ameaças globais e austeridade à força (aquela em que todos pagam os desvarios de uns quantos). A mais recente ficção literária de Rui Zink arrisca isto: mostrar o extraordinário e medonho espectáculo da imposição do medo como «única realidade».
A vítima é uma mulher que ouve a retórica exasperante dos intrusos, temendo que eles descubram um suposto filho escondido na casa de banho (crianças e idosos, por serem «improdutivos», são alvos a abater). Junto a ela, assistimos aos diálogos abruptos da dupla perniciosa, uma espécie de maiêutica distorcida, em que no lugar da verdade se procura desenterrar os pavores e fantasmas que existem dentro de cada um de nós. Por vezes, Zink estica demasiado a corda de uma situação tão esquemática que se torna monótona, mas o certo é que consegue criar uma distopia verosímil. Verosímil porque coincide, na crueza dos factos, com o país que somos hoje, à mercê da novilíngua neoliberal das troikas e de quem lhes cumpre o programa, bem como dos intangíveis «mercados» que exigem «sacrifícios humanos», como «deuses» que tudo arrebanham e «têm sempre razão», mesmo se nem sequer existem.
No fim, o feitiço vira-se contra o feiticeiro. Os oficiantes do medo provam do seu próprio veneno. Moral da história: talvez seja hora de abrir os olhos e resistir. Ou seja, assustar de uma vez por todas quem nos assusta.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«A mulher está nua, o que neste instante a ocupa é mais prático sem roupa – quando tocam à campainha.
A mulher fica transida. Imóvel: veado encadeado por faróis na estrada. O coração acelera. A mulher pensa. Ou tenta pensar.
Tocam novamente à campainha. A primeira coisa que ocorre à mulher é que tem de se calçar. Não de se vestir; de se calçar. É estúpido? É assim. Uma pessoa nunca sabe como reage. E é ainda nua, e descalça, que vai espreitar.
A mulher não sabe o que fazer. Será publicidade? Um vizinho? O carteiro? Pior: serão eles?
O menino. A mulher vai buscá-lo ao quarto, acorda-o, põe-lhe um dedo nos lábios. Chiu, meu querido, vais ter de ficar em silêncio. Achas que consegues? Como já fizemos das outras vezes.
A mulher sorri perante o assentimento obediente da criança e diz-lhe para se esconder na casa de banho. E, sobretudo, não fazer barulho. A mulher quase se perde num banho de ternura, mas esta não é a ocasião. Tocam novamente à campainha. Depois de assegurar que ele está escondido e que não irá fazer barulho, a mulher hesita e pega num pé-de-cabra e encosta-o à dobra da porta. Depois vai pé ante pé à cozinha, encontra uma bata e um avental, veste a bata e coloca o avental por cima, à cintura. Depois percebe que é redundante e tira o avental. A campainha toca de novo, desta vez mais insistente. A mulher vai para abrir. Lembra-se de que está descalça. A campainha toca de novo. A mulher corre a pôr uns chinelos e espreita pelo óculo.
Ainda tinha esperanças de que estivessem lá em baixo, mas não, estão já cá em cima. Alguém lhes abriu a porta do prédio. Ou terão uma chave-mestra, para abrir as portas da rua? Tudo é possível, a mulher sabe por experiência própria. Tudo é possível, nos tempos que correm. O mundo está de pernas para o ar. E não é para proceder a uma simpática cópula carnal que está de pernas para o ar. O mundo está de pernas para o ar porque está de pernas para o ar.
A campainha toca uma vez mais. Há um bater de nós dos dedos na porta. Como que a dizerem, os nós dos dedos na porta:
Abra, sabemos que está em casa, tudo o que disser pode ser usado contra si…»

[in A instalação do medo, de Rui Zink, Teodolito, 2012]

Literatura sem Fronteiras

Rui Zink vai participar, de 26 a 28 de Setembro, no Cairo, num workshop (“Uma Idade Difícil”) destinado a adolescentes árabes. Jovens do Egipto, Líbano e Palestina participarão num projecto online orientado por Zink, pela escritora líbia Fatima Sherafeddine e pela ilustradora alemã Barbara Yelin. O encontro está integrado na iniciativa ‘Literatura sem Fronteiras’.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges